sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pressões e constrangimentos

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado norte-americano.

O escritor francês Honoré de Balzac em meio a sua produção literária de valor universal tal como a Comédia Humana, resolveu catalogar desde 1830 as Máximas e Pensamentos de seu conterrâneo Napoleão Bonaparte e não é à toa que se disse que Balzac está para a literatura assim como Napoleão está para a História.

Assim o gênio de Napoleão ficou sistematizado através de minuciosa pesquisa de outro gênio, deixando-nos um legado sobre filosofia, arte, política, doutrina militar e geopolítica onde entre várias considerações há aquela em que ele afirma que uma nação se recupera de todos os reveses quando ela mantém a sua superfície.

Não foi com outra razão que a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados promoveu em 2002 um seminário, com a presidência do deputado Aldo Rebelo, sobre Política de Defesa para o Brasil no século XXI reunindo estudiosos da matéria.

Na justificativa do seminário, dizia Aldo Rebelo, a sociedade brasileira retomou a preocupação com temas que muitos julgavam definitivamente sepultados nos escombros do Muro de Berlim: Estado, soberania, independência nacional, forças armadas etc.

O assunto não só se revelou atual como o cenário mundial mostra-se em processo de agravamento onde a “doutrina da intervenção em assuntos internos das nações” tornou-se um espetáculo grotesco transmitido pela mídia hegemônica como própria aos fundamentos da nova ordem global.

Acrescente-se à frase de Napoleão a superfície continental do Brasil e temos à vista os desafios de Defesa Nacional do povo brasileiro detentor em última instância da soberania do País numa época em que se multiplicam as pilhagens aos recursos naturais de nações indefesas em vários continentes.

Mesmo que não se dê crédito às inúmeras provas documentadas sobre as históricas ambições imperiais relativas ao Brasil, que se considere a frase do então vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, em 1989: Ao contrário do que os brasileiros pensam a Amazônia não é deles mas de todos nós.
 
Afinal, estão pondo em prática o conselho do estrategista mor dos Estados Unidos, Henry Kissinger, quando afirmou: Os Países industrializados não poderão viver da maneira como existiram até hoje se não tiverem à sua disposição os recursos não renováveis do planeta. Terão que montar um sistema de pressões e constrangimentos garantidores da consecução de seus intentos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

No Mali ou em Caetité

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


Extração de urânio: mina em Caetité, na Bahia

Um dos principais objetivos do complexo midiático hegemônico global é a desinformação da opinião pública internacional, além da promoção de uma agenda social ideológica diversionista em relação às questões cruciais na ordem do dia que dizem respeito aos interesses dos indivíduos e nações do mundo.

O papel determinante desse polvo de mil tentáculos com ramificações na grande maioria dos Países é fazer prevalecer condições à expansão do lucro do capital financeiro em escala planetária, em processo de centralização e concentração apesar da crise econômica ou mesmo utilizando-se dela.

Segundo informações divulgadas pela revista Resenha Estratégica, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Anders Fogh Rasmussen, disse que a Aliança Atlântica passa a ter “uma missão global, onde os Aliados considerem que os seus interesses estejam sendo prejudicados”.

O que deve ser traduzido como “Guerra sem Fronteiras por Recursos” onde a diplomacia vincula-se à intervenção militar aberta.

Assim os membros europeus da OTAN devem ampliar os gastos militares já que os Estados Unidos aumentaram a sua cota financeira com a Aliança de 63% para 72% nesses doze anos mesmo com a crise econômica que os atinge e à Europa.

Ao tempo em que crescem as notícias, através da grande mídia sob a batuta anglo-americana, de uma nova fase da “guerra ao terror e ao islamismo radical” na África que poderá “levar anos ou décadas”.

Mas o que está em jogo são os imensos recursos naturais do continente, sob ocupação militar da OTAN e do AFRICOM norte-americano, destacadamente o norte da região rico em jazidas de urânio, combustível para a energia atômica em franca expansão no primeiro mundo.

Já as reservas brasileiras de urânio somam hoje 309.307 toneladas, a sétima do mundo, devendo crescer ainda mais com o potencial da Província Uranífera de Lagoa Real em Caetité, Bahia.

Nessa guerra suja por recursos estratégicos o Brasil com a maior concentração de biodiversidade do planeta, a Amazônia, incontáveis recursos naturais extremamente cobiçados, tem sido alvo de intensas ações diversionistas  através da mídia hegemônica externa-interna.
 
O objetivo central tem sido a tentativa de fragmentação da unidade social, das organizações populares, a fragilização do sentimento nacional, fundamentais à luta indeclinável pela integridade territorial e soberania do País.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Civilização do desalento

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


Existem dois tipos de indivíduos que vivem sob as condições da nova ordem global neoliberal hegemônica desde a década de noventa passada e assim seguindo nesses primeiros treze anos do novo milênio.

Aqueles que por razões econômicas, ideológicas, políticas, sentem-se contemplados e as grandes maiorias do planeta atordoadas pelos múltiplos fenômenos que atingem com violência os seus cotidianos.

São fenômenos resultantes das políticas impostas às nações através da oficiosa governança global, a nova etapa de acumulação do capital financeiro mundial, produzindo um tipo de civilização regressiva à época do fascismo derrotado ao fim da Segunda Guerra Mundial.  

Assim, é importante procurarmos entender essa contemporaneidade, combinado ao permanente combate contra as políticas neoliberais, às denúncias das incursões armadas do complexo imperial contra os povos, especialmente o anglo-americano, acobertadas pela mídia hegemônica ligada a esses interesses.

Ou então não será possível compreender a sensação geral de “sofrimento e dor associados ao desalento” que atinge as sociedades que anseiam atônitas por algum outro tipo de civilização, onde milhões procuram socorro espiritual em  dezenas de instituições religiosas eletrônicas.

São agressivos os mecanismos de controle social através da revolução eletrônica-cibernética, a criminalização das difusas manifestações de inconformismo das massas, as restrições das garantias individuais, tidas como “inevitáveis ao crescimento populacional”, na verdade resultantes de uma crise sistêmica, gerando o “vazio das subjetividades sociais”.

A concessão de existir em troca do pleno direito de viver, frase de Chico Buarque, tornou-se, de novo, sentença viva. Proliferam leis, regras de todos os tipos, estéticas, comportamentais, e os indivíduos vivem na iminência da penalização, que vão num crescendo porque esse tipo de civilização é manancial inesgotável de males.

Cidadãos forçados a padrões de consumo inatingíveis, desapropriados de valores humanistas, instados à lei da selva, hipocondrias, fobias, narcisismos, sob uma ordem desigual onde os responsabilizados não são os seus mentores.

Os fundamentos da globalização neoliberal permeiam tanto os regimes conservadores quanto governos socialmente mais democráticos como no Brasil. Um dos grandes desafios da atualidade será encontrar os caminhos para suplantá-los.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A solução final de Taro Aso

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


Dias atrás o ministro das finanças do Japão, Taro Aso, setenta e dois anos, foi protagonista de uma declaração que resume, simboliza, o pensamento neoliberal da nova ordem mundial, o processo civilizatório hegemônico imposto ao mundo através da consigna: ao mercado, ao capital e ao lucro tudo, sem nenhum pudor ou limites.

Para o chefe de uma das três maiores economias do planeta, considerada padrão de qualidade de vida no primeiro mundo, "os idosos devem se apressar e morrer porque estão dando prejuízo às finanças nacionais".

A expectativa de vida no Japão é a segunda mais alta do mundo, 86 anos para as mulheres e 79 para os homens. Mas para o dito ministro, que inicia a própria trajetória de longevidade, esse avanço conquistado desde a segunda metade do século XX é absurdo.

Porém o seu raciocínio não é original, permeia o espírito atual de toda economia global de mercado, exerce intensa pressão em qualquer lugar do planeta, inclusive no Brasil. Inusitadas são as palavras contundentes vindas de uma autoridade desse País oriental que até pouco tempo atrás era conhecido pelo culto à sapiência dos anciãos como uma tradição.

Na verdade o ministro revelou o ponto de vista dominante da nova ordem global: as sociedades devem servir ao processo de acumulação, concentração da riqueza, jamais o seu contrário, a riqueza produzida coletivamente deve ser revertida para o usufruto, melhorias das condições de vida das populações.

As grandes empresas transnacionais de previdência privada, que auferem lucros fabulosos, devem estar exultantes com a sentença de Taro Aso, uma peça destacada, entre muitas, dos sinais desses tempos e civilização impostos por essa ordem global totalitária.

E nunca será demais lembrarmos que durante a ascensão do nazismo os povos levantaram-se politicamente, e em armas, inclusive contra a tese de Hitler da "Solução Final", cuja essência era a "eliminação dos deficientes físicos, excepcionais, homossexuais, idosos e doentes terminais, raças impuras, judeus, ciganos, além de comunistas" etc.

Assim o que o Sr. Taro propôs foi uma espécie de economia da solução final pós-moderna: apressem-se a morrer todos os idosos para o bem das finanças e pronto. Sob o fastio, a indiferença da grande mídia hegemônica mundial como se ele tivesse aconselhado aos japoneses que plantassem mais rosas ou camélias nos jardins das suas residências.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Para além da economia

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


A vida tem demonstrado que sem crescimento econômico não existe produção da riqueza nacional, inclusive nos Países emergentes, prevalecendo um desenvolvimento insuficiente.

Os caminhos para a superação dessa etapa não são fáceis porque há no interior das nações segmentos que se opõem ao avanço. São grupos minoritários que auferem lucros fabulosos com o estágio incompleto de autonomia e independência das nações.

Esses são os conglomerados financeiros-industriais, vários fazem parte de estruturas globais monopolistas, exercem o controle dos negócios internacionais, dos rumos das finanças mundiais.

À soberania de uma nação exige-se muita determinação, um plano estratégico de crescimento econômico onde os interesses das maiorias prevaleçam sobre as estruturas arcaicas que obstaculizam a superação da situação vigente.

É luta difícil envolvendo aliados heterogêneos, adversários fortes, e o manejo da arte, ciência política, é testado porque no campo retrógado existe ainda o complexo ideológico-midiático hegemônico externo-interno, produzindo versões relativas aos próprios interesses, sobre fatos, política, economia etc.

Mas com o dogma mundial neoliberal adveio o fenômeno de uma civilização regressiva anterior à Segunda Guerra Mundial, à derrota do fascismo, emergindo um tipo de sociedade centrada no mercado, totalitária, com novos métodos de subjugação coletiva, individual.

As ideias caras à humanidade, invertidas, passaram ao controle do capital global, invadem-se nações em nome da democracia, promove-se a extinção das garantias individuais substituídas pela segurança, a concessão de existir em troca do direito de viver, com brindes de políticas compensatórias.

Exacerbam-se perigos, reais ou fictícios, como se fossem "naturais" ao desenvolvimento humano e não resultantes do retrocesso civilizatório.

Propagam a cultura da incerteza, riscos de epidemias, medos difusos, produzindo o fenômeno de cidadãos atomizados, muitos temerosos do convívio coletivo, execram os avanços científicos, o progresso das sociedades.

Assim é decisiva a formação de um campo social majoritário empenhado num projeto nacional transformador crítico à ordem global totalitária, que permeia também o Brasil, consciente dos adversários, eleitorais ou não, mas essencialmente lutando pela alternativa de uma outra civilização, com a face brasileira, renovada, solidária, libertária.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Continente esquartejado

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


Enquanto a nova ordem mundial continua impondo sua agenda diversionista nos planos geopolítico, econômico, social, através de formidável aparato ideológico-midiático, as questões centrais que atingem gravemente as nações, os povos, são encobertas da opinião pública.

O consórcio de comunicação anglo-americano que mantém a hegemonia internacional e determina os assuntos que os cidadãos assistem através da televisão, ou outros meios de comunicação como os grandes websites da internet, tem sido peça chave à campanha de desinformação relativa aos verdadeiros interesses imperiais no mundo.

As notícias se alternam mas sempre há uma mesma pauta social, nomeada por seus ideólogos como multiculturalismo, que possui em sua gênese motivos auto-justificáveis mas que sempre são apresentados como se fossem o alfa e o ômega dos problemas determinantes da humanidade.

Assim é que existem atualmente no continente africano milhares de organizações não governamentais, ONGs, de inspiração multiculturalista com ativistas do primeiro mundo, alguns movidos por sinceros ideais, cujas sedes estão nos Estados Unidos, Inglaterra, financiadas por conglomerados financeiros.

Mas a opinião pública, em sua maioria, desconhece que hoje a África é um continente esquartejado, como afirma Sílvia Palacios, onde tropas da OTAN e do Africom, comando militar norte-americano para a região, estão construindo bases de ocupação em Países estratégicos fato que assume maior relevância jornalística com a atual intervenção armada francesa no Mali.

As alegações para os deslocamentos militares variam mas o motivo real são as imensas riquezas como petróleo, cobalto etc. além dos "extensos agronegócios que reeditam as plantations coloniais do século dezenove".

Enquanto ativistas das ONGs cuidam das ações ditas humanitárias, ambientais etc., auxiliados pelo marketing de astros globais do cinema, a coerção militar apossa-se da África sob o pretexto de impedir conflitos étnicos, religiosos, políticos.

Tropas estrangeiras estão presentes ou atuam na Nigéria, Mali, República Democrática do Congo onde tentam forjar duas nações, Quênia, Gabão, Etiópia, Somália, Sudão, dividido em dois Países, Chade, Benin, Malawi, Zâmbia, Camarões, Burkina Faso, Mauritânia, República Centro Africana. Já se somam milhares de mortos, milhões de refugiados, nações saqueadas, além da soberania de um continente adiada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mercadores do medo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


O jornalista canadense Dan Gardner, escreveu uma série de textos transformados em livro cujo tema central é a indústria do pânico divulgada em escala mundial por interesses de lucro das grandes corporações globais ou em função de políticas que interessam ao exercício de poder internacional concentrado.

A leitura desses escritos ajuda a revelar que a batalha de ideias é a força motriz para o exercício da hegemonia nos tempos atuais, com o recurso militar da governança global, por via de instituições internacionais, onde o horizonte do cidadão é rebaixado à condição de consumidor passivo.

Se de um lado o mundo real encontra-se carregado de perigos, sobressaltos, consequência de um tipo de civilização desprovida de padrões de civilidade substituídos pelo estímulo à disputa sem limites entre os indivíduos, organizações empresariais, ele é retroalimentado ad infinitum à lei da selva onde são exacerbadas todas as ameaças, possíveis ou imaginárias, a que as pessoas estão expostas através da cultura do medo.

Dan Gardner cita o exemplo, entre muitos, de um editorial do Times de Londres que afirma: o número de ingleses mortos por estrangeiros residentes na Grã Bretanha aumentou em um terço em oito anos.

Mas não esclarece que a possibilidade estatística de um inglês vir a ser assassinado em seu País por um imigrante seria de 0,00015%, um óbvio preconceito contra a força de trabalho internacionalizada pela nova ordem mundial na Inglaterra em crise econômica estrutural.

Essa promoção do pânico assumiu dimensão global dificultando a reflexão sobre as graves questões que envolvem os Países, os indivíduos, incapacitando-os de diagnosticá-las para transformá-las substancialmente.

Já o cineasta norte-americano Oliver Stone em recente entrevista declarou que a população dos EUA vive sob um Estado orwelliano, controlada pelo medo, vigiada, alienada, embrutecida, incapaz de entender a própria realidade.

Tanto a violência concreta quanto a cultura do horror disseminaram-se, inclusive ao Brasil, onde são impostos aos cidadãos através da grande mídia hegemônica subjetivos padrões ideológicos totalitários.

Assim a empreitada pelo desenvolvimento econômico, soberania do País, não se dissocia da luta por uma sociedade renovada, democrática, libertária, onde o potencial humano possa objetivamente realizar-se impulsionando a nossa capacidade produtiva e civilizatória.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O melhor produto do Brasil

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:



O período das festas de fim de ano sempre se caracteriza pela renovação das esperanças e, nos tempos atuais, há uma exuberância de consumo, alegria, espetáculos, até porque é típico de nós seres humanos a confraternização seja para celebrar a alegria, afastar as dores ou esquecer as tristezas.

No entanto, após a ressaca dos dias festivos que antecederam ao novo ano de 2013 a humanidade depara-se com a realidade de uma terrível crise econômica consequência das políticas neoliberais da nova ordem mundial que vem associada a um processo regressivo de civilização imposto pelo capital financeiro global.

Essa tem sido também uma época em que se promove uma escalada de guerras regionais de alta intensidade em várias partes do mundo através da loucura das grandes potências mundiais capitaneadas pelo consórcio anglo-americano em busca de riquezas e espaços geopolíticos militares. Não vivemos, portanto, o melhor dos nossos momentos mas um tempo de incertezas.

Além do mais nos encontramos sob a gerência executiva de uma governança mundial, quase oficial, uma hegemonia ideológica da grande mídia internacional sob a qual os povos são submetidos a um bombardeio de imediatismo, negativismo, desinformação, uma sistemática, indisfarçada política de insegurança para além da realidade já cheia de sobressaltos e perigos.

Na verdade os indivíduos se encontram sob fogo cruzado, de um lado ameaças reais vindas de um mundo turbinado ao extremo, furtado de qualquer horizonte que não seja o das prateleiras cheias das maravilhas da revolução tecnológica, do estímulo insano à competição entre grupos, corporações, pessoas, na busca do sucesso a qualquer preço, nem que seja por quinze minutos de uma glória efêmera, discutível.

E por outro lado os cidadãos encontram-se expostos à estratégia do pânico expressa nos alertas contra catástrofes, crimes, doenças, contaminação alimentar, química, dietas, estética do corpo, obesidade, terrorismo, enfim, a promoção ideológica da ansiedade patológica que leva à paralisia do pensamento crítico onde o perigo é o ser humano ao seu lado.

Já o nosso povo, ele não se encontra imune a essa crise dos tempos atuais mas sua civilização tropical e formação antropológica resistem, e procura celebrar a vida, dando razão ao cientista social potiguar Luís da Câmara Cascudo quando disse que o melhor produto do Brasil é mesmo o brasileiro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Alternativa ao totalitarismo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:

 
 
Após a debacle da União Soviética e do chamado campo socialista europeu a humanidade viu surgir um outro tipo de civilização que apesar de herdar elementos capitalistas fundamentais da etapa anterior caracteriza-se por modificações substanciais nas relações econômicas, geopolíticas, sociológicas e ideológicas.

Mesmo com a presença de um significativo campo distinto ao sistema estabelecido, especialmente a China e outros Países de projetos socialistas, além dos Países emergentes, os BRICS, novo polo global alternativo à hegemonia das nações capitalistas centrais, ainda é determinante a nova ordem mundial consolidada definitivamente em escala planetária no início dos anos noventa do século passado.

Uma dominação brutal, avassaladora, atingindo todos os continentes, destruindo sistematicamente conquistas arduamente alcançadas durante os últimos sessenta e sete anos desde o final da Segunda Guerra Mundial, especialmente nos Países de capitalismo avançado em virtude das lutas dos trabalhadores e demais camadas assalariadas mas também como estratégia à crescente influência das ideias sociais provenientes do campo socialista que em seu apogeu contabilizava dois terços da humanidade.

Nessas circunstâncias havia uma intensa polarização ideológica, permanente luta política, consideráveis espaços para movimentos de longo curso, como dos não alinhados, lutas de libertação contra o neocolonialismo, por caminhos nacionais soberanos, independentes.

Nesse período foi intensa a vida intelectual em todos os aspectos, filosófico, artístico, científico, e havia no ar uma convicção no progresso como condição essencial ao futuro da humanidade.

Com a hegemonia da nova ordem mundial neoliberal, após o final da guerra fria que custou aos EUA parte fundamental da sua atual dívida pública interna, impôs-se a destruição do espírito libertário dessa época, em seu lugar emergiu um tipo de civilização baseada na deificação do mercado global, do indivíduo sob tutela, na liberdade sub judice direcionada ao consumo.

Essa ordem mundial totalitária que escraviza a força de trabalho internacionalizada está conduzindo a humanidade a uma crise econômica, multilateral, inigualável e que apesar de ainda dominante encontra-se exaurida com claros sinais de contestação das nações, dos trabalhadores, em luta por uma alternativa de civilização renovada, emancipadora, democrática.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dor indescritível

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


O assassinato de vinte crianças e seis adultos em uma escola primária dos Estados Unidos, revela uma tendência patológica crescente na sociedade norte-americana que se expressa na sequência de episódios idênticos ocorridos nos últimos anos com um grande número de vítimas fatais.

Demonstra igualmente os sinais mais que evidentes da exaustão, infelizmente não em estágio final, de um tipo de civilização regressiva, militarizada, totalitária, erigida pela nova ordem mundial da qual a nação americana, como o grande e único império da era contemporânea, tem sido tutora e guardiã armada.

O capital financeiro global, o complexo industrial militar norte-americano, associados à megaestrutura midiática mundial  de informação, propaganda, são os que determinam os desejos das pessoas, os sonhos de consumo, a cultura, a ideologia dominante na maior parte do planeta nos últimos anos.

Na mesma linha a indústria cinematográfica dos Estados Unidos deu a sua horrível parcela de contribuição para que se assentasse em escala planetária a visão alienante, distorcida, paranoica, bélica, desse mesmo tipo de civilização regressiva.

A violência na sociedade norte-americana tem as suas próprias especificidades mais profundas que o fenômeno da delinquência desenfreada. É produto da visão de que cada norte-americano é um guerreiro super-homem, invencível, armado até os dentes, confrontando a humanidade, associada a um puritanismo repressor.

Assim, ao que parece a realidade superou a ficção transformando Laranja Mecânica, livro de Anthony Burgess sobre a patologia da violência e maldade insanas adaptado para o cinema por Stanley Kubrick, numa espécie de versão edulcorada dos fenômenos reais da sociedade americana.

Essa mesma grande mídia mundial hegemônica procura agora, diante da recorrência quase endêmica dos brutais assassinatos como os ocorridos na escola primária de uma pequena cidade dos EUA, produzir a sua opinião centrada na constatação de que existem nas mãos de civis 300 milhões de armas de fogo vendidas em milhares de lojas espalhadas no País.
 
Esse é um lado tenebroso do diagnóstico embora a verdade seja mais trágica, o povo norte-americano está pagando alto preço em sofrimento e dor indescritíveis pela cultura que lhes foi imposta para forjar o "destino manifesto" de indivíduos superiores imbatíveis, acima do bem e do mal, da sua própria vida e a do próximo.
 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Objetos não identificados

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


A nova ordem mundial continua ditando em múltiplos aspectos a agenda a ser seguida pelas nações e os povos sempre tendo como centro ideológico, midiático, a complexa, poderosa rede de difusão, propaganda anglo-americana.

Uma das suas faces é a agenda social global que por denominação não reflete projetos nacionais, conjunturais, programáticos partidários mas a sua própria escala mundial determinada originariamente.

Não é de se estranhar assim, a relativização na interpretação dos fenômenos Históricos de abrangência global ou regional correspondente à permanente desconstrução ideológica dos acontecimentos econômicos, sociais e políticos.

Daí é que vem o alerta do falecido historiador Eric Hobsbawm para o qual as novas gerações que herdaram um mundo unipolar da nova ordem mundial estariam submetidas a uma espécie de presente contínuo em que o passado, mesmo o passado recente, não representa valor algum.

Assim é que se observa, através da chamada terceira revolução tecnológica na comunicação, uma gama de informações fragmentárias, desconexas, uma cultura de mosaico em que tudo é ao mesmo tempo significativo e nada é importante, segundos após aparecer num "site" da Internet ou nas redes sociais.

Igualando na mesma escala de grandeza a desestabilização de continentes pela subversão armada através da grande potência imperial, os pródigos litígios ambientais na Amazônia brasileira, a gravidez da princesa bretã, a difusão das imagens de uma onça adotando um gato órfão em um zoológico europeu ou o vídeo de um hipotético objeto voador não identificado, UFO, filmado nos gélidos Países nórdicos.

Mas como em política inexistem objetos voadores não identificados, o tsunami institucional que estamos assistindo diariamente através da grande mídia nacional hegemônica, por exemplo, pode ser traduzido como luta pelo poder, independente dos seus desdobramentos ou consequências.

O que estamos presenciando é algo maior que a ante sala de uma sucessão ordinária, estão em curso sinais inequívocos de uma séria crise política que avança a cada dia que passa, urdida com riqueza de detalhes como se fosse uma novela, capítulo a capítulo, cujo objetivo central é a vacância presidencial.

Não se tem claro qual a tática do governo mas ou ele reage, defende-se dos intensos ataques, dentro da legalidade constitucional, ou a médio prazo, corre grave risco de se espatifar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Niemeyer

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas, no Tribuna do Agreste e no Santana Oxente:


A morte de Oscar Niemeyer na noite desta quarta-feira de Dezembro gerou imediatamente um dilúvio de notícias no País e ganhou as páginas digitais dos principais órgãos de comunicação do planeta. Pode-se dizer com absoluta tranquilidade e segurança que o Brasil ficou sem a presença física de uma figura singular, um arquiteto de talento excepcional mas em compensação a eternidade ganhou um gênio universal.

Além dessa genialidade que deixou sua marca em Brasília, no Rio de Janeiro, em Pampulha, no Memorial da América Latina em São Paulo e tantos mais mundo afora, Niemeyer foi um comunista íntegro, firme nas suas convicções emancipadoras denunciando as injustiças no Brasil e as incoerências de uma civilização regressiva, totalitária, gerada pela nova ordem mundial.

Em 2003 tive o privilégio de conhecê-lo quando secretário de cultura do Estado de Alagoas na tentativa de convencê-lo a desenhar um memorial em homenagem à Graciliano Ramos e para minha surpresa ele não só concordou com a ideia como disse que o faria sem cobrar um tostão do governo alagoano. Infelizmente a ideia nunca foi posta em prática.

Mas a conversa com o arquiteto que imaginava levaria alguns minutos em virtude da sua agenda cheia estendeu-se para nossa alegria por quase três horas em seu escritório de amplas e sinuosas janelas com vista para a Avenida Atlântica, Copacabana, numa manhã carioca.

Quando cheguei ao escritório, acompanhado pelos irmãos Vitor e Vinícius Palmeira, Niemeyer dava uma espécie de palestra informal para um bando de jovens arquitetos alemães, depois soube que aquilo fazia parte de uma romaria  internacional de estudantes, profissionais da Arquitetura ao escritório de Copacabana.

Ficamos ali esperando o fim da palestra intermediada por um tradutor quando Niemeyer denunciou como fascista o presidente Bush em meio a observações sobre linhas e traços para espanto e risos nervosos dos alemães.

Grande parte do tempo que passamos com Niemeyer o assunto girou sobre o que achávamos da política, da vida, sobre o partido etc. Sobre ele mesmo, coisa nenhuma, nada.
 
Por fim tiramos umas fotografias com uma máquina que na rua percebemos quebrada, corremos ao escritório, explicamos o constrangimento e depois de uma gostosa gargalhada, com ótimo humor, ele posou para novas fotos, uma das quais, ampliada, guardo com emoção em casa pendurada na parede do meu gabinete, para sempre.