quinta-feira, 14 de abril de 2022

Uma ordem mundial alternativa


Por Luís Antonio Paulino, publicado no portal Bonifácio


Congresso de Viena - pintura de Jean-Baptiste Isabey (França, 1767 - 1855)

A guerra da Ucrânia tornou o mundo ainda mais inseguro, polarizado, desigual, fragmentado e com potencial de crescimento menor. Um efeito colateral do conflito poderá ser o apressamento da emergência de uma nova ordem mundial, alternativa à ordem atual centrada no poder econômico e militar dos Estados Unidos e no uso do dólar americano como moeda internacional.

As sanções econômicas à Rússia, ao que tudo indica, serão duradouras e tenderão a cortar os laços econômicos entre a Rússia e o mundo euro-atlântico. Esse movimento será complementado por uma aproximação maior entre a Rússia e a China, na medida em que empresas chinesas preencherão o vazio deixado pelo êxodo do Ocidente. A China, por seu turno, precisará diminuir a dependência dos sistemas de pagamento controlados pelos Estados Unidos e acelerar o processo de internacionalização do renminbi para dar liquidez a esses novos mercados.

O dólar americano, por seu turno, continuará ter o papel preponderante na economia mundial por muitas décadas. A parcela do dólar nas reservas dos bancos centrais perdeu 12 pontos percentuais, entre 1999 e 2021, caindo de 71%, em 1999, para 59% no ano passado, mas ainda assim é expressiva. No período de 1999-2019, o dólar foi responsável por 96% do faturamento do comércio internacional nas Américas, 74% na região da Ásia-Pacífico, e 79% no resto do mundo.





Fonte: https://www.federalreserve.gov/econres/notes/feds-notes/the- international-role-of-the-u-s-dollar-20211006.htm

Tudo isso aponta para a consolidação de dois sistemas internacionais de pagamentos paralelos: um centrado no dólar com as transações sendo realizadas pelos sistemas, CHIPS, um clube privado de instituições financeiras com 43 membros, e o SWIFT (Sociedade Cooperativa de Telecomunicações Financeiras Internacionais), que atualmente reúne 11 mil bancos, ambos com seus centros de dados nos Estados Unidos, respectivamente na Virgínia e em Nova York; outro centrado no renminbi – o CIPS – sistema que liquida transações internacionais em yuans e pode potencialmente administrar seu próprio sistema de mensagens, embora hoje utilize o SWIFT como seu canal de comunicação.

O CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) foi criado em outubro de 2015 para fornecer um sistema internacional de pagamento internacional e compensação de yuans conectando os mercados de compensação onshore e offshore e bancos participantes. Com base no centro financeiro de Xangai, o CIPS é supervisionado pelo Banco do Povo, o banco central da China. O China National Clearing Centre, afiliado ao Banco do Povo é o maior acionista, com 15,7% das ações. A National Association of Financial Market Institutional Investors, a Shanghai Gold Exchange, China Banknote Printing and Minting Corporation and China Union Pay têm, cada uma, 7,85%. Bancos estrangeiros também têm ações no CIPS: o HSBC Holdings tem 3,92% das ações, o Standard Chartered, 2,36% e o Bank of East Asia, 1,18% das ações. Em janeiro de 2022, o sistema tinha 1280 usuários localizados em 103 países, incluindo 75 bancos diretamente participantes (SCMP, 28/02/2022).

Embora a participação da moeda chinesa, o yuan, no portfólio de reservas internacionais no mundo seja, ainda, relativamente pequena – no quarto trimestre de 2021 chegou a US$ 336,1 bilhões, equivalente a 2,79% das reservas internacionais – a tendência é que adquira um papel mais relevante nos próximos anos. Nos próximos 10 a 20 anos, possibilidade maior é que o dólar, o euro e o yuan formem o top 3 das moedas internacionais. Razões para isso não faltam. O número de países que têm a China como o principal parceiro comercial já é maior do que os que têm os Estados Unidos como primeiro parceiro. Antes de 2000, os EUA estavam no comando do comércio global, já que mais de 80% dos países negociavam com os EUA mais do que com a China. Em 2018, esse número caiu drasticamente para apenas 30%, já que a China rapidamente assumiu a primeira posição em 128 dos 190 países. Ao fazer acordos de troca de moedas com muitos desses parceiros, a China vai impulsionar a internacionalização do yuan e, ao mesmo tempo, reduzir a necessidade do uso do dólar em suas operações de comércio internacional.

Outro fator a ser considerado é a Iniciativa Cinturão e Rota. Desde o início do projeto, em 2013, a China já ofereceu mais de US$ 1 trilhão em financiamentos em obras de infraestrutura para dezenas de países que aderiram ao projeto. Além dos fluxos de capital para o financiamento das obras pelos bancos chineses, a construção de novas rodovias e portos no exterior também visa à criação de novos mercados e rotas comerciais para produtos chineses na Ásia e outras partes do mundo, assim como para a importação de alimentos e outras commodities minerais e agrícolas demandadas pela economia chinesa. Parte desse comércio será feito diretamente em yuans por meio de acordos de troca de moedas dispensando a intermediação do dólar.

Além do CIPS, a Rússia desenvolveu, em 2019, seu próprio sistema, denominado SPFS (Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras). Mas só capta cerca de 20% das transações nacionais e permite operações com antigos países da ex-União Soviética. Somente um banco chinês, o Bank of China, integrou-se ao SPFS (Valor, 02/03/2022).

Os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) também iniciaram discussões sobre a criação de um sistema unificado de pagamento do grupo. Os países do Brics respondem por 18% do comércio global e 25% dos investimentos diretos estrangeiros, nomeadamente a China. Com a eclosão da guerra na Ucrânia, as discussões foram temporariamente paralisadas por receio de que tal iniciativa fosse interpretada como uma maneira de ajudar a Rússia, o que poderia prejudicar as empresas participantes do bloco, mas certamente será retomada em algum momento no futuro próximo.

Entre as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia, com o apoio de seus aliados da Otan, o congelamento de US$ 403 bilhões dos seus US$ 630 bilhões de reservas cambiais aplicadas em ativos estrangeiros foi a mais drástica. Isso fez acender o sinal de alerta não só para a China, que possuía, em janeiro, US$ 3,22 trilhões em reservas, sendo 1/3 em Títulos do Tesouro dos Estados Unidos, mas para todos os países que mantém suas reservas em dólares.

De repente, uma série de países, classificados como autocracias pelos Estados Unidos, que detêm cerca de metade dos US$ 20 trilhões de reservas cambiais hoje existentes no mundo, deram-se conta que, de um dia para o outro, podem ficar sem acesso a boa parte de seus recursos, caso os Estados Unidos resolvam puni-los por qualquer razão e contem para isso com o apoio de seus aliados europeus, como ocorreu agora no caso da Rússia.

Pode-se alegar que o caso da Rússia foi uma situação extrema e que dificilmente os Estados Unidos teriam o apoio dos países europeus para impor sanções de tal amplitude sobre outros países, nomeadamente a China. Mas mesmo agindo isoladamente os Estados Unidos têm um enorme poder de fogo por ser o emissor da principal moeda internacional, o dólar americano. Da mesma forma a exclusão parcial dos bancos russos do sistema SWIFT fez, não só a China, mas outros países se darem conta de que poderão de um dia para o outro ficar sem acesso a esse importante sistema de transferência de pagamentos, inviabilizando suas operações de comércio e investimento internacionais.

Passado esse momento crítico da guerra na Ucrânia, que ninguém sabe quando e como irá acabar, certamente muitas iniciativas que já estavam em curso no período anterior à guerra, com o objetivo de criar acordos e instituições internacionais desvinculadas do dólar americano e das instituições controladas pelos Estados Unidos, ganharão novo impulso. Da mesma forma que a pandemia da Covid-19 levou muitos países a reavaliarem sua extrema dependência das cadeias globais de suprimento centradas na China, a guerra na Ucrânia levará a China e outros países não alinhados aos Estados Unidos a repensarem sua extrema dependência em relação ao sistema financeiro internacional centrado nos Estados Unidos e no dólar americano.

Não é de hoje que os Estados Unidos vêm usando sua moeda como arma de guerra. Exemplo disso foi a prisão, no Canadá, da diretora financeira da empresa chinesa de telecomunicações Huawei, sob a acusação de uma subsidiária da empresa, a Skycom, com sede em Hong Kong, ter feito negócios com o Irã utilizando o sistema de compensação baseado nos Estados Unidos. Conforme informa o blog da Bloomberg, “na batalha judicial canadense para impedir a extradição para os Estados Unidos da diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, a empresa chinesa questionou a decisão do HSBC de processar US$ 100 milhões em transações da Skycom em Nova York. A Huawei argumentou que, como o HSBC sabia de seus vínculos com a Skycom, uma parceira com sede em Hong Kong, que vendia equipamentos no Irã, deveria ter encaminhado os fundos por um sistema de compensação de dólares offshore menor na região administrativa especial chinesa – evitando, assim colocar o dinheiro em solo americano”.

Iniciativas de cooperação internacional fora do guarda-chuva norte-americano, como o BRICS, a ASEAN a Organização de Xangai ganhará novo impulso assim como as organizações de financiamento ligadas a elas como o Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como Banco dos BRICS, e o Banco Asiático para Investimento e Infraestrutura (AIIB). Iniciativas de cooperação internacional criadas pela China, como a Iniciativa Cintura e Rota, também conhecida como Nova Rota da Sede, e a recentíssima proposta chinesa denominada Iniciativa Global para o Desenvolvimento (Global Development Initiative) tenderão a atrair um número crescente de países. Ao mesmo tempo, fóruns comandados pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, como o G20, tenderão a se esvaziar. Difícil imaginar Joe Biden e Wladimir Putin saindo na mesma foto e se apertando as mãos. É difícil, no momento, em plena evolução do conflito na Ucrânia, saber quais serão todos os desdobramentos geopolíticos e econômicos da guerra, mas é quase impossível o mundo voltar a ser o mesmo de antes.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A “internacional financeira”


Por Eduardo Bomfim


No atual milênio, a concentração e centralização do capital financeiro especulativo atingiu tal dimensão e gigantismo, que este passou a controlar não apenas os fluxos globais das riquezas, mas, estendeu-se aos diversos segmentos vitais às identidades dos povos do mundo, investindo, em especial nas novas gerações, incentivando, maciçamente, no que Hobsbawm “profetizou” no final do século XX, como o “presente contínuo” em relação a essas novas gerações do futuro.

Ou seja, comunidades globais de pessoas, sem referências com o passado e sem perspectivas para com o futuro. Ao tempo em que essa nova etapa da globalização predadora e especulativa procurou preencher a grande lacuna de ausências de causas, projetos e ideias com relação ao indivíduo e ao coletivo social, com uma nova agenda dispersiva, fragmentária, com aquilo que se pode chamar de “políticas do próprio umbigo”, conhecidas como agendas identitárias.

Inaugurou-se assim, a nova “guerra cultural” entre uma nova “esquerda” e uma nova “direita” que se engalfinham em uma batalha de uma “nova ideologia” dissociada das grandes questões que afligem as grandes maiorias sociais ausentes desses debates, restritos ao mundo acadêmico, que passeiam nas comunidades acadêmicas, extratos da classe média e no mundo artístico, provocando um evidente distanciamento desses segmentos da realidade das nações.

Quem dita e financia esse pugilato ideológico é exatamente o capital financeiro especulativo, que impõe uma “contrarrevolução” de cima para baixo, cujo porta voz vem sendo a grande mídia hegemônica global, com as suas pautas interagindo com as redes sociais, também controladas por um ínfimo número de biliardários acima do controle de todos.

A luta do presente e futuro é e continuará sendo contra a brutal dominação desse capital financeiro, que reina olimpicamente no planeta, a grande mídia global a ele associada, e o monopólio de meia dúzia de poderosos que dominam o mundo das redes sociais.

O mundo em que vivemos, de ódios extremamente polarizado, irracional, e crescente, a falta de informações razoavelmente isentas na grande mídia, o tiroteio incessante nas redes sociais, provocam um total desconhecimento dos fenômenos nacionais e globais, resultam em sociedades confusas, angustiadas, depressivas, incapazes de formar uma ideia em comum do contexto de suas vidas e da sociedade. É o que nós presenciamos também no Brasil do terraplanismo, anti-ciência, e teses medievais, versus determinados setores progressistas desorientados.

A causa central desse imbróglio tem sido a “Internacional Financeira”, a grande mídia hegemônica global, e o mundo esquizofrênico das redes sociais, que nós frequentamos e que nos manipulam sistematicamente. Será uma longa batalha pela lucidez dos indivíduos e das sociedades.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

O construtor do Brasil moderno


Por Eduardo Bomfim



Hoje, 24 de agosto, são passados 67 anos do suicídio de Getúlio Vargas, construtor do Brasil moderno.

Getúlio Vargas criou a Petrobrás, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Criou a Consolidação das Leis do Trabalho, com a implantação, dentre outros direitos trabalhistas, do salário mínimo e férias remuneradas. No seu governo foi implantado o voto feminino. Criou vários importantes ministérios, dentre eles o Ministério da Educação e Cultura.

Ao se suicidar, deixou sua Carta Testamento para o povo brasileiro:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)

sábado, 3 de julho de 2021

O coveiro do presidente


Por Eduardo Bomfim


O assassinato do jovem presidente Kennedy provocou uma onda de consternação emocional no mundo, e nos Estados Unidos - a política é um jogo fundamental, mas pesado, em qualquer lugar do planeta.

O seu cortejo funerário teve a presença de centenas de políticos e estadistas de vários Países. Multidões se aglomeraram na rua, para ver passar o caixão do presidente, em uma carroça puxada por dois magníficos cavalos com uma guarda de honra de militares em trajes de gala.

Aglomerados em um local reservado, estavam mais de cinco mil jornalistas e fotógrafos para cobrir o evento.

Jimmy Breslin, um dos mais prestigiados jornalistas dos EUA, talentoso, polêmico e original, disse: tem alguns milhares de repórteres aglomerados no mesmo lugar, isso não vai dar para mim, todos vão escrever a mesma coisa sob o mesmo ângulo.

Breslin resolveu fazer algo original, como sempre fazia, resolveu rastrear o coveiro designado para abrir a cova de Kennedy.

Descobriu como fora o seu dia. Que acordou, como sempre, às 6h30, comeu ovos com bacon, com a sua esposa, pegou o ônibus rumo ao cemitério de Arlington onde iria exercer a sua profissão de toda a sua vida.

Clifton Pollard, humilde trabalhador negro, naquele domingo, já sabia que iria cavar a cova de Kennedy, recebendo 3 dólares por hora de serviço. Sem hora extra.

Vestiu o seu macacão cinza e tomou o seu destino, o cemitério. Ele não viu o cortejo e tinha gente demais no enterro, não conseguiu chegar perto do túmulo que cavara horas antes. Não tem problema, depois eu dou uma passada lá para ver como ficou.

Perguntado por Breslin sobre o túmulo de Kennedy que cavou, Pollard respondeu: foi uma honra.

A coluna diária de Jimmy Breslin era a mais lida dos Estados Unidos. Ele deu vida a um homem negro, pobre, anônimo, perdido na multidão dos ignorados e esquecidos. O título dessa matéria de Breslin: “Foi uma honra”. Considerada como uma das obras primas do jornalismo norte-americano.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Importância e atualidade de Ortega y Gasset

Artigo de Francisco Afonso Pereira Torres, publicado no portal Bonifácio



Em tempos de pós-verdades, resgatar as ideias e o pensamento de Ortega y Gasset impõe-se como imperativo. Nos dias de hoje, como nos dias que antecederam o surgimento do fascismo e do totalitarismo na Europa, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O fascismo e o totalitarismo europeu utilizaram-se amplamente dos novos meios de comunicação em massa de sua época (sobretudo o rádio) para difundir as suas ideias e pós-verdades. Hitler e Mussolini provavelmente não teriam chegado ao poder não fosse a potência e o alcance inédito que o rádio e as transmissões por radiodifusão haviam atingido, durante aquela época. Nos dias de hoje, são as novas mídias da internet (WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube, etc.) os principais canais difusores de ideologias e pós-verdades. Compreender o impacto dessa nova e inexorável realidade em nossas vidas, em nossa democracia e nas sociedades em que vivemos constitui tarefa primordial dos tempos atuais. Em 1929, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreveu em seu livro “Rebelião das Massas”, com exatidão ímpar, o impacto que os novos meios de comunicação viriam a ter em nossas sociedades. Alertou-nos para seus efeitos deletérios. Ortega y Gasset previu o cataclismo que se abalaria sobre a Europa e sobre o mundo. Suas palavras e, sobretudo, seu alerta são mais atuais hoje do que nunca.


O filósofo espanhol Ortega y Gasset antecipou o risco da manipulação das massas.

Em 1936, dezenas de milhares de cartazes apareceram, em praticamente todas as cidades alemãs. Em seu texto, publicado sobre uma foto de um gigantesco aparelho de rádio no meio de uma multidão, lia-se: “Ganz Deutschland hört den Führer” (“Toda a Alemanha escuta o Líder”). O cartaz anunciava uma invenção que iria transformar a Europa, o WhatsApp de outrora. O chamado “Rádio do Povo”, ou “Volksempfänger”, era um aparelho de rádio, desenvolvido pelo engenheiro Otto Griessing, a pedido de Joseph Goebbels, o ministro de Propaganda do regime nazista. Apresentado ao público alemão pela primeira vez em 1933, durante a 10º Grande Feira Internacional do Rádio de Berlin (“10º Große Deutsche Funkausstellung”), o novo equipamento permitia, a um custo extremamente acessível, de 35 marcos (o equivalente a um quarto do salário mínimo da época), pagos em suaves prestações, a recepção de estações de rádio selecionadas, todas alemãs. O objetivo estratégico da produção e distribuição em massa do “Rádio do Povo” era evidente: permitir ao regime nazista controlar, com punhos de ferro, a máquina mais poderosa, e mortal, de comunicação em massas já criada até então.

Estima-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 80 milhões de pessoas escutassem diariamente transmissões de rádios nazistas, por meio de equipamentos do tipo “Rádio do Povo”.

Para efeitos de comparação, a população total da Alemanha atualmente é de 83 milhões de pessoas.

As “lives” do nazismo, realizadas em tom dramático pelo ”Führer”, chegavam às salas de praticamente todos os cidadãos, além de serem escutadas, ao vivo, em alto-falantes instalados, de modo estratégico, em ruas, estações de trem e de metro, rodoviárias, terminais portuários, escolas, hospitais, ginásios, e demais prédios públicos. Joseph Goebbels considerava, não sem razão, o sucesso do programa industrial de fabricação e distribuição de aparelhos de rádio essencial para seu infame programa de “propaganda”.

Durante o julgamento dos crimes nazistas, nos famosos Processos de Guerra de Nuremberg, Albert Speer, o então ministro de Armas e arquiteto do Reich, declarou, com sinceridade espantadora: “a ditadura de Hitler diferia em um aspecto fundamental de todas as suas precursoras na história. Foi a primeira ditadura durante o período moderno de desenvolvimento tecnológico, uma ditadura que se utilizou plenamente de todos os meios de dominação em seu país. Por intermédio de aparelhos tecnológicos, como o rádio e os alto-falantes, 80 milhões de pessoas foram privadas de qualquer pensamento independente. Era, assim, possível subjugá-las aos desígnios de um só homem (Hitler).”


Hitler construiu o nazismo manipulando as frustrações do povo alemão.

Como todo visionário e grande intelectual, Ortega y Gasset havia previsto o que poderia ocorrer e acabou ocorrendo. Para ele, não existem verdades eternas nem absolutas. O que há, sempre, são perspectivas, visões sobre a realidade. Segundo Ortega y Gasset, a vida humana e suas circunstâncias inexoráveis são a fonte do conhecimento e da verdade. ”Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”, afirmava. O perspectivismo do pensador espanhol nos leva à conclusão de que a verdade é produto de uma soma de perspectivas. Produto, portanto, de uma subjetividade. Há a verdade científica, a verdade acadêmica, a verdade da mídia, a verdade do sertanejo, a verdade de João, a verdade de Maria, a verdade do libertador, a verdade do revolucionário. E há a verdade do fascista, a verdade do opressor, a verdade do tirano, a verdade do déspota. Ou seja: as ideologias, sejam elas libertárias ou opressoras, criam suas próprias verdades. É o que chamamos de guerras de narrativas.

Para Ortega y Gasset a tarefa primordial é compor uma narrativa que corresponda aos anseios moralmente mais nobres da humanidade, uma narrativa que nos liberte ao invés de uma narrativa que nos destrua. O filósofo espanhol havia presenciado os horrores da primeira guerra mundial, a barbárie que se abatera sobre a Europa. E presenciaria também, estupefato, o surgimento do fascismo, que levaria a Europa novamente à destruição completa.

Sendo a verdade um produto humano, derivado da inexorabilidade de nossas circunstâncias, como teria sido possível que as massas da Europa, milhões e milhões de “cidadãos de bem”, tivessem permitido e viabilizado a ascensão do fascismo e toda a destruição que representava, questionava Ortega y Gasset. Se a humanidade tem a prerrogativa de escolher entre a vida e a morte, entre a liberdade e a destruição, entre o amor e o ódio, como teria sido possível que a morte, a destruição e o ódio tivessem prevalecido?


O nazismo fez do rádio o grande instrumento de manipulação e propaganda de sua era.

A resposta visionária de Ortega y Gasset: foi o “Rádio do Povo”, foi o WhatsApp da época, foram os novos meios de comunicação em massa. Os fascistas souberam utilizar esses novos meios para criar sua narrativa, para difundir suas pós-verdades. Os humanistas, os libertários, por outro lado, não souberam se utilizar de todo o seu potencial, com o mesmo sucesso. Permaneceram presos ao passado, escrevendo livros e panfletos que ninguém mais lia, em tempos do rádio e das comunicações em massa, muito mais atraentes e dinâmicas. Desse modo, a narrativa fascista tornou-se preponderante em alguns importantes países como a Alemanha, a Itália, e a Espanha. Conquistou, nesses países, os corações e as mentes de grande parte dos cidadãos, o “homem-massa”, aquela multidão de idiotas-úteis que levaram o fascismo ao poder, por omissão ou por conveniência.

A lição de Ortega y Gasset parece clara: não basta que alguém considere suas ideias superiores. É necessário convencer as pessoas sobre tal superioridade. É imperativo vencer a guerra de narrativas, conquistar as mentes e os corações do “homem-massa”. Somente dessa maneira uma ideia pode triunfar. Somente desse modo os ideais de liberdade, justiça social, soberania, tolerância e democracia podem prevalecer. Caso contrário, prevalecerão os ideais de submissão, privilégios, exclusão social, intolerância e ditadura. Como, de fato, prevaleceram, na Europa que Ortega y Gasset viu desmoronar, pela segunda vez.

No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 devem servir como lição e como alerta. As “fake news”, os disparos em massa de mensagens em grupos de WhatsApp e páginas de facebook (pagos por quem?), as narrativas de ódio, os discursos negacionistas, as teorias conspiratórias, o fanatismo religioso, as doutrinas autoritárias acabaram tendo alcance muito maior que outros discursos, de teor humanista, moderado, secular, democrático, libertário. Em 2018, o ódio venceu a esperança. O ódio logrou propagar-se, com muito mais vigor, pelas searas ainda pouco compreendidas dos novos meios de comunicação em massa do século XXI.

Para que a esperança possa triunfar novamente sobre o ódio, será necessário aprender a lição de Ortega y Gasset. Não basta ter uma verdade moralmente superior. Faz-se imperativo ganhar a guerra de narrativas e convencer o “homem-massa” da superioridade moral da visão humanista e democrática. Pois os novos meios de comunicação em massa de hoje vieram para ficar, como o rádio, na década de 1930. Hoje, como outrora, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

O fascismo acabou sendo derrotado. Em parte pelo enorme sucesso de um outro meio de comunicação em massa que viria a se revelar ainda mais poderoso que o rádio: o cinema. Assim como o nazismo havia criado a “Rádio do Povo”, Hollywood foi além: criou o cinema para as massas, as megaproduções cinematográficas, glamorosas e atraentes, que combatiam o nazismo e o totalitarismo fascista.


Distribuindo fake news pelo WhatsApp, os manipuladores contemporâneos constroem suas pós-verdades.

Ortega y Gasset nos ensinou que a verdade é, sempre, produto de perspectivas, de visões sobre a realidade, das nossas circunstâncias. Nos ensinou, ademais, que o “homem-massa”, em sua soberba simplória e totalitária, é suscetível a qualquer discurso, inclusive o discurso de ódio, o discurso fascista. Cabe aos humanistas, aos democratas e aos patriotas de hoje aprender a lição eterna do grande mestre espanhol: a guerra pela democracia, a guerra pela justiça social, a guerra pela tolerância e pela soberania nacional somente será ganha se ganharmos também a guerra das narrativas, utilizando, para tal finalidade, todo o potencial dos novos meios de comunicação em massa. Hoje, mais do que nunca, o alerta de Ortega y Gasset é essencial: “El pasado no nos dirá lo que debemos hacer, pero sí lo que deberíamos evitar”.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A crise da pandemia, da democracia, e o capital rentista




Eduardo Bomfim

Por acaso, ou nem tanto, a pandemia global do corona vírus aconteceu no auge das desregulamentações dos parques produtivos das nações, através do conceito da divisão excessiva da produção internacional dos bens industriais em todas as áreas, incluindo também a dos fármacos.

Durante décadas, agravado imensamente no segundo milênio, os Países foram sucateando as suas capacidades industriais próprias e aumentando a sua dependência produtiva, através da escala da divisão internacional dos bens fabricados em diversas partes do mundo.

Essa divisão global da produção, em todos os níveis, gerou a inevitável dependência, a perda de autonomia, da grande maioria dos Países do mundo.

Os mais pobres, continuaram bem mais pobres, exportando matéria prima, apesar da falsa sensação de inseridos nesse mundo interconectado pela revolução digital, com seus celulares de última geração, da internet.

Mas, a grande perda de oferta de trabalho deu-se exatamente nos Países mais “ricos”.

Neles, veio crescendo, há um bom tempo, entre os diversos tipos de assalariados industriais, o sentimento de revolta associado ao desemprego estrutural, agravado, agora, enormemente com as consequências da pandemia sanitária mundial.

A queda vertiginosa da economia industrial, com os efeitos do corona vírus, tem sido um novo pretexto para o falso argumento de uma nova reestruturação dos parques produtivos em escala mundial. Perdem as nações, mas especialmente os trabalhadores, que vão conviver com uma nova onda de desemprego em escala colossal.

E os Países vão se defrontar com uma etapa de dependência produtiva superior à anterior.

A perda relativa da “importância” das democracias

Com essa desregulamentação global das cadeias produtivas, surgiu outro fenômeno igualmente grave, através da hegemonia absoluta do grande capital financeiro internacional, especialmente o rentismo especulativo, que cresce na medida em que os Países afundam, inclusive na pandemia sanitária global. Nesse cenário, o gigantismo do capital financeiro assomou o protagonismo dos rumos na política entre as nações.

De tal sorte que propagam a ineficiência, ou inutilidade, das coisas da vida política e institucional, uma falsa premissa. Assim quem se candidata a um cargo eletivo, em todas as instâncias, com raras exceções, na verdade, faz um concurso de cartas marcadas para um emprego de grandes privilégios e altas remunerações, gestor de má influência nas coisas do Estado.

A grande mídia hegemônica mundial ajudou a propagar semelhante visão errática, nociva e, aliás, extremamente perigosa, e na verdade contra a democracia. Ela serve ao discurso da financeirização global. Um poder tão gigantesco que alguns chamam de “Governança Mundial” do capital financeiro.

A pandemia expôs as fraturas expostas desse sistema

No inicio da pandemia do corona vírus, faltaram respiradores, seringas e outros produtos fundamentais para minimizar a demanda de doentes para os hospitais. Atualmente, faltam vacinas para atender a população mundial, enquanto alguns poucos compraram imunizantes que dão para vacinar quatro vezes as suas populações, alerta o presidente da OMS.

De outro lado, na ausência de projetos coletivos que digam respeito ao presente e futuro econômico e social das sociedades, incluindo os direitos individuais, introduziram-se as agendas que visam unicamente a fratura das sociedades, por mais que algumas delas sejam auto justificáveis, como a luta contra o racismo, direito das minorias, a luta pelos direitos das mulheres, a ambiental etc.

Mas como diz o ditado popular: é no detalhe que mora o Diabo. Porque semelhantes agendas transformaram-se no alfa e o ômega de todas as questões essenciais de boa parte da humanidade. Ao tempo que insuflaram a polarização de forças reacionárias extremamente contrárias a essa agenda de gênero, raça etc., constituindo assim a “pauta das pautas” no cotidiano das sociedades.

Enquanto isso, as nações estão vivendo a maior tragédia dos últimos cem anos com a pandemia sanitária, agravada por uma crise crônica e estrutural na economia, do desemprego, quase um Amargedon social.

Com a desindustrialização programada dos Países, que já vem há décadas, agravada pela crise sanitária global, e o fim de um falso presente contínuo do consumo, como um ideal, uma profusão de teses unicamente individualistas, sem correlação com a solidariedade coletiva, eclodiu uma crise de insatisfação generalizada nas sociedades, de caráter desorientador, psicológico, mental, e acima de tudo a sensação de um futuro sombrio, sem luzes à vista.

Essa é a explicação do surgimento do fenômeno Trump, Bolsonaro, e outros em menor evidência. A quebradeira geral do setor de serviços, que mais sofreu com a pandemia, pôs abaixo a máxima de que o mundo entrara na era dos serviços em substituição aos processos industriais, que iria realocar a massa salarial expulsa pela desindustrialização.

Os países que não aceitaram destruir as suas cadeias produtivas, estão à frente na economia e nessa pandemia, exportando produtos essenciais e insumos para vacinas, não importa a forma de governo: China, Rússia, a Índia, na área da biotecnologia etc.

O caos e a regressão científica e tecnológica, industrial, é de tal monta que ressurgiram teses da Idade Média, como o terraplanismo, as campanhas contra as vacinas que salvaram centenas de milhões de pessoas e livraram a humanidade de pandemias terríveis.

O Brasil é um exemplo dramático de tantos desatinos, erros, polarizações dissociadas das questões centrais da nossa realidade etc. Se fossemos fazer uma analogia literária do governo Bolsonaro, poderíamos lembrar o nosso grande Machado de Assis em seu formidável conto: O alienista. A sua responsabilidade para com o desastre atual no Brasil é trágica. Enquanto o senhor Paulo Guedes insiste em uma política econômica que afunda a humanidade, e que imobiliza, destrói, a economia da nação.

No entanto, a desorientação política, de rumos e projetos para o Brasil, é generalizada e acolhe quase todos os quadrantes ideológicos no País, inclusive em setores da chamada “nova esquerda”. A batalha de “ideias” é travada em “bolhas” de redes sociais, mediada pela grande mídia hegemônica, associada ao capital financeiro, e à sua Governança Mundial, como afirmam muitos.

O sistema montado pelo capital financeiro global é absolutamente insustentável, e o rentismo financeiro predador pode ser comparável às sete pragas do Egito, como narra a Bíblia.

Estamos em um período, portanto, em que o neoliberalismo financeiro se encontra completamente esgotado como sistema. O certo é que vamos no caminho de uma transição ao multilateralismo econômico, financeiro, social, político e soberano, reconstruindo cadeias produtivas econômicas destroçadas, inclusive no Brasil. Mas será um período de tempestades geopolíticas, sociais, nacionais, e viragens políticas imprevisíveis.

O Brasil, em algum momento, precisa encontrar o seu próprio rumo nessa época turbulenta. Para isso, o País detém um dos maiores ativos territoriais, populacionais, ambientais, de imensas riquezas em geral, como poucas nações do planeta. Falta-nos o rumo, o projeto, a causa. E lideranças, hoje, escassas.

domingo, 20 de dezembro de 2020

O relatório Guterres



Eduardo Bomfim

O secretário-geral das Nações Unidas (ONU) António Guterres, apresentou um relatório alertando que o mundo pós pandemia do corona vírus vai estar sob a maior recessão econômica desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Com as inevitáveis consequências, nos planos das economias, sociais, financeiros e políticos dos Países. A pandemia sanitária global se revelou, na verdade, como um reagente químico e biológico, de uma realidade financeira que já se apresentava extremamente grave desde a crise econômica de 2008.

Uma crise sanitária global que, se não poderia ser evitada, ao menos tinha condições de ser minimizada em suas consequências, na saúde e na economia.

Mas a financeirização dos fluxos de capitais a nível mundial, não tem, ou a ela não interessa, vocação para o planejamento sobre os constantes e intensos movimentos de pessoas que existem hoje no planeta, relativos aos perigos de uma pandemia viral já prevista e anunciada. Não é da sua natureza prevenir semelhantes acontecimentos.

Quanto à capacidade de remediação de tragédias, que hoje vivemos, a globalização financeira já está buscando extrair ao máximo os lucros, tanto que os bancos estão obtendo lucros estratosféricos em plena pandemia, especialmente os especuladores financeiros, apesar da debacle da economia internacional.

Recente relatório sobre a economia europeia, feito pelos órgãos de Bruxelas, apontam que em meados dos anos oitenta, a Europa respondia por quase 25% da riqueza produzida no mundo. Hoje, essa riqueza produzida equivale a 12% do total global. Boa parte das economias das nações do velho continente vive de uma grande fatia do turismo.

A indústria, o setor de serviços, especialmente, se espatifaram nessa crise sanitária mundial. O setor aéreo desmoronou quase que completamente. A sua recuperação vai se dar através da concentração ainda maior de empresas e do desemprego massivo. Ou seja, mais do pior veneno possível.

Muitas empresas, de médio e pequeno porte, que mais empregam pessoas, jamais reabrirão as suas portas, em todo o mundo.

A guerra fria, que perdurou, praticamente, durante grande parte do século XX, foi substituída pelo multilateralismo geopolítico e econômico global. Novos atores entraram em cena, e outros lutam para se incorporar a esse novo cenário.

Mas a grande verdade é que sairemos dessa tragédia sanitária com uma concentração das riquezas ainda mais acentuada e uma taxa de desemprego global, praticamente, insuportável. Além da precarização da força de trabalho em escala gigantesca. E as disparidades regionais bem mais agravadas.

Esse não é um saldo da pandemia do corona vírus, mas o que a pandemia sanitária fez agravar, como um reagente químico, na política da governança hegemônica global, do capital financeiro especulativo.

De tal maneira tem sido a concentração, a centralização do capital especulativo em escala mundial, que ele passou a ditar as orientações políticas e ideológicas que circulam em larga escala, especialmente no chamado mundo ocidental.

A mídia ocidental de grande abrangência, transformou-se, como seria inevitável, em propulsora das ideologias difundidas por esse mesmo oligopólio dos megaespeculadores das finanças mundiais, que são, na verdade, um clube privado de reduzido número de sócios internacionais, onde se destacam figuras conhecidas como George Soros, por exemplo.

Como seria de esperar, nesse contexto de supremacia política do governo das finanças global, não se apresentam, às sociedades, as alternativas para as atuais disparidades que não param de crescer, ainda mais com a pandemia sanitária, já que ela se apresenta como uma grande oportunidade de se operar uma maior concentração do capital especulativo.

A Europa, por exemplo, vive uma situação inusitada. Com o declínio gradual, mas persistente, na produção das suas riquezas, como vimos acima, os governos e as cidades mais importantes do velho continente, resolveram investir em grandes infraestruturas para acolher e incentivar o turismo mundial.

Além disso, em virtude do crescente declínio demográfico, onde se destaca uma população geriátrica e uma taxa de natalidade cada vez mais reduzida, os Países europeus passaram a investir em uma força de trabalho imigrante, especialmente no setor de serviços e na agricultura, em menor grau na indústria, escassa.

Agora, as cidades turísticas europeias convivem com duas espécies de movimentos que se confrontam em pichações nas ruas: um que se diz à direita, em campanha aberta contra os imigrantes, e o outro, que se diz à esquerda, contra a presença massiva de turistas, porque afirmam que poluem o meio ambiente, na defesa de cidades sustentáveis.

Ora, com as populações cada vez mais envelhecidas, onde proliferam asilos de idosos, sem a renovação demográfica, porque escasseiam os nascimentos, e o declínio industrial, conforme os próprios relatórios dos órgãos oficiais europeus, o velho continente encontra-se em um paradoxo de narrativas políticas, culturais e ideológicas, sem solução.

Nesse caldo de cultura, não prosperam alternativas econômicas e sociais racionais, mas a xenofobia política, a intolerância e o sectarismo, facilitando o surgimento de organizações políticas extremadas que se digladiam e vão polarizando as sociedades rumo ao impasse em algum momento no futuro. Já assistimos a esse filme antes, na época que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos, assistimos às recentes eleições presidenciais onde se confrontaram adeptos das teorias das conspirações, terraplanistas, inimigos da ciência, supremacistas brancos, combatentes contra o racismo, a intolerância sexual, ambientalistas, saudosistas do “passado glorioso” etc. etc.

Não prosperou nenhuma discussão relevante sobre como os EUA poderiam recompor a sua imensa capacidade industrial, sustar a crescente chaga social, a retomada da industrialização sob novas bases, com a atual multipolaridade geopolítica e econômica mundial.

É como se o grande País do Norte se negasse a enfrentar a nova realidade. Prevaleceu, assim, uma batalha de “narrativas culturais” distante das soluções fundamentais para o seu destino e o seu povo.

No Brasil, não tem sido diferente. As últimas eleições presidenciais resultaram em uma guerra “cultural” onde se confrontaram forças muito semelhantes às dos Estados Unidos, vencendo o presidente Bolsonaro.

Postado em uma linha cultural do medo contra as mudanças comportamentais, de gênero, misturando a negação contra a ciência, como a vacina, uma guerra ideológica do século passado, requentada, e que já não mais existe, além de um alinhamento aos EUA, e ao presidente Trump, como se os Estados Unidos fossem os Guardiões do Templo do mundo ocidental. Com a eleição de Biden, o governo federal se isolou do próprio Estados Unidos. Somos hoje uma nação sem boas relações geopolíticas e comerciais. É o isolacionismo como diplomacia de Estado.

Tudo isso resultou em um seguidismo unilateral à grande nação do norte, um descaso aos interesses brasileiros, um confronto frente os nossos principais parceiros comerciais. Um nonsense absoluto. A diplomacia brasileira, respeitada em todo o mundo, desde a época do Império, regrediu a patamares jamais existentes em época alguma.

O que não existe mesmo é uma discussão sobre um projeto de nação, sobre a retomada do crescimento econômico com bases em nossas imensas possibilidades e riquezas, na galvanização da sociedade com vistas à solução dos nossos desafios, investimentos pesados na infraestrutura, educação, ciência e tecnologia, superação das nossas trágicas desigualdades sociais. Já diz o ditado popular: em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.

O Brasil vai sair dessa atual pandemia com indicadores econômicos e sociais bem mais trágicos, com uma desorientação institucional imensa, isolado na diplomacia internacional, sem rumos e à deriva. É o relatório Gutierres à brasileira.

O que temos aqui é uma mistura de neoliberalismo extremado, um falso nacionalismo, associado a um liberalismo autoritário. Uma sociedade desconfiada, inquieta, desarmoniosa, indecisa. E acima de tudo, com um clima social imprevisível, em um futuro imediato, frente à tragédia do desemprego em massa, que ora já vivemos.

Enfim, como afirmou o cientista político e historiador camaronês Achille Mbembe: outro longo e mortal jogo começou. O principal choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações. Será entre a democracia e o neoliberalismo da especulação financeira. Entre o governo das finanças e o governo do povo. Entre o humanismo e o niilismo. E seria importante acrescentar: entre a soberania dos povos e das nações, contra a nova forma de expansionismo neocolonial, sob a égide do capital especulativo financeiro global.

sábado, 21 de novembro de 2020

Patrice Lumumba: 59 anos da morte de um dos maiores líderes pela independência nacional na África


Não há imperialismo bom e imperialismo mau, há o imperialismo.

Não há especulador financeiro bonzinho e especulador financeiro mau, há o rentismo predador.



Admirado e homenageado em todo o mundo pelos que lutam pela liberdade e soberania de seus povos e de sua pátria, o congolês Patrice Lumumba preso, torturado e assassinado há quase 60 anos, em 17 de janeiro de 1961, aos 35 anos, foi uma das principais lideranças pela libertação de suas nações do colonialismo na África e um dos primeiros chefes de estado pós-independência. Herói ao lado de Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel.

Desde muito jovem participou ativamente das lutas anti-colonialistas de sua terra, o Congo Belga. Depois de haver sido eleito presidente do Sindicato Independente dos Trabalhadores Congoleses, em 1958 fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), o maior partido nacionalista congolês e o único constituído em bases não tribais.

Em dezembro do mesmo ano, ao se pronunciar na primeira Conferência dos Povos Africanos, em Accra, capital da recém-independente Gana, como membro da delegação do MNC, destacou-se pela clareza com que defendeu as ideias pan-africanas de unidade contra o colonizador, juntando-se a outros líderes africanos que se destacavam na torrente com que o conjunto dos movimentos nacionais avançava para romper o jugo a que os países europeus haviam submetido o continente africano. Ao lado de Lumumba, Kwame Nkruma, da recém-liberta Gana, Tom Mboia, líder do Kenia; Sekou Touré, da Guiné; Julius Nyerere, da Tanzania.

Logo após seu retorno ao Congo, acelerou-se a luta pela independência, conquistada dois anos depois. Desde os primeiros passos em seu combate, o dirigente congolês visualizou a questão fundamental para a garantia da libertação nacional do colonialismo: a unidade da nação em formação, acima das disputas tribais. A concepção clara da dignidade nacional, da necessidade de cimentá-la acima das divisões étnicas e tribais, lhe valeu o ódio dos colonialistas e da casta dominante do imperialismo americano, que desejava substituí-lo.

A expressão que adquiriu com rapidez, o estímulo com que conduziu os demais na luta pela independência fez com que, nas negociações em Bruxelas, a delegação congolesa exigisse a sua presença. Lumumba se encontrava preso – acusado de incitar “a desobediência civil” durante as manifestações de massa pela independência em outubro de 1959 - e os belgas tiveram que tirá-lo da cadeia diretamente para o avião de onde ele iria dirigir o processo de libertação na sua fase final: as negociações em Bruxelas até a assinatura dos protocolos que especificavam a data para a entrega do poder a um governo congolês, que viria a ter Lumumba no comando, no posto de primeiro-ministro.

O seu discurso no dia da independência, 30 de junho de 1960, permanecerá nos anais da diplomacia mundial como uma peça oratória magnífica, em que o jovem dirigente africano, na presença do rei Balduíno, da Bélgica, e de outros dignitários estrangeiros, denunciou abertamente os crimes hediondos do colonialismo belga sobre o povo congolês e traçou as perspectivas do futuro Congo, liberto da dominação estrangeira.

Como primeiro-ministro foi um líder de grande estatura. Em seu discurso na abertura da Conferência Pan-africana realizada na capital de seu país, Leopoldville, em 25 de agosto de 1960, Lumumba defendeu a unidade e solidariedade dos países africanos em sua luta pela independência e sua consolidação como nações soberanas.

Em setembro desse mesmo ano Lumumba foi afastado pelo presidente Kasavubu, apoiado pelos Estados Unidos e por militares golpistas comandados por um certo coronel Mobutu. Em novembro é preso e, a 17 de janeiro de 1961, depois de meses de detenção ilegal, é barbaramente torturado e assassinado.

O próprio Senado dos Estados Unidos, que investigou as atividades dos serviços de “inteligência” norte-americanos, descobriu que a CIA organizou em agosto de 1960 - o Congo era independente há apenas dois meses! - uma conspiração com o “objetivo urgente e prioritário” de assassinar o primeiro-ministro congolês. Para Allen Dulles, o então diretor dos serviços secretos norte-americanos, Patrice Lumumba era “um perigo grave” a ser eliminado.

O afastamento de Lumumba da chefia do governo, sua prisão e seu assassinato foram o resultado conjugado dos interesses do colonialismo belga - que, apesar da independência do Congo, pretendia continuar a explorar a seu bel-prazer as riquezas do país - e da intervenção do imperialismo norte-americano, através da CIA - o jovem primeiro-ministro era considerado por Washington um “esquerdista”, simpatizante da União Soviética -, coniventes com setores da burguesia congolesa que não hesitaram em trair o seu povo e aliar-se à dominação estrangeira.

Já preso, poucos dias antes de seu assassinato, Lumumba escreveu uma carta de despedida à sua mulher Pauline, em que reafirma a sua confiança no futuro. São belas e comoventes, mas cheias de esperança, essas breves palavras, publicadas mais tarde pela revista “Jeune Afrique”:

“(…) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objetivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.

Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.

Não chores por mim, minha companheira, eu sei que o meu país, que sofre tanto, saberá defender a sua independência e a sua liberdade.

Viva o Congo! Viva a África!”.

Para os revolucionários do século XXI na África e em todo o mundo, que hoje continuam a lutar em condições diferenciadas contra a dominação imperialista e a exploração capitalista, Patrice Lumumba continua bem presente com o seu exemplo de patriota e combatente pela liberdade. E são de uma enorme atualidade as ideias que defendeu generosamente e pelas quais deu a vida - a urgência da independência nacional e da genuína soberania para todos os países, a unidade africana, a luta intransigente contra o colonialismo e o neocolonialismo, o combate pela emancipação social dos povos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Rumos e Estadismo



O compositor Gilberto Gil lembrou a frase de dona Canô, mãe de Caetano Veloso, falecida aos 105 anos: quem não morre, envelhece. De fato, não é, como parece, uma dedução simples, mas cheia de lições em tão longa existência.

Numa das polêmicas crônicas que Nelson Rodrigues escreveu à época do “poder jovem” na década de 60 - e o que vinha da rebeldia comportamental juvenil tinha-se como verdade absoluta – “meu conselho aos jovens é, envelheçam por favor”.

O Politicamente Correto, vindo dos laboratórios das finanças globais, arvora-se em sucedâneo das ideias surgidas na França dos anos 60.

A questão não é a ousadia da juventude essencial às grandes transformações, mas quem ainda não possui a experiência acumulada para discernir os caminhos viáveis das armadilhas inevitáveis.

Com o passar dos anos é possível enxergar, mais ou menos, uma coisa e outra, evitar equívocos repetidos ao longo dos tempos.

Existem povos, pela herança adquirida em milhares de anos, que possuem cultura acumulada, capacidade de julgamento aos desafios que a História lhes impõe. Onde é possível juntar a rebeldia dos jovens com a experiência adquirida em milênios.

É o caso do Vietnã, e seu líder histórico Ho Chi Minh, que derrotou três potências, França, Japão e Estados Unidos em apenas um século, conquistando a independência às custas de sacrifícios inenarráveis.

Quando em 2003 tive a oportunidade de conversar com o embaixador do Vietnã, líder guerrilheiro à época da libertação, falei que a minha geração tinha muita admiração pela nação vietnamita.

Ao que ele respondeu: nós é que admiramos os brasileiros que ao longo desses mesmos anos não precisaram travar tantas guerras brutais para libertar a sua pátria, ao custo de milhões de mortos. Não soube o que responder frente à desconcertante sabedoria.

O premiado escritor angolano José Eduardo Agualusa falou em entrevista que a crise no Brasil lembra Angola na guerra civil, logo depois da libertação colonial, quando a sociedade ficou totalmente dividida.

Mas Angola conquistou a independência em 1974 em plena Guerra Fria, já o Brasil em 1822. Um País industrializado com mais de 215 milhões de habitantes, uma sociedade bem mais complexa.

No Brasil de hoje, da pandemia do corona vírus e de Jair Bolsonaro, e em várias outras latitudes políticas e ideológicas, o que existe é desorientação generalizada, onde reinam os ditames do capital financeiro, tanto nos planos ideológico como econômico.

Aqui, estamos mesmo é sob uma Guerra Híbrida cujo objetivo é a fratura do nosso tecido social. E o que faz falta são rumos, visão de estadista e um projeto de nação soberana, economicamente desenvolvida e socialmente mais justa.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Vai passar



Nós vivemos uma época ancorada em um pântano onde o que mais viceja é o sectarismo mais infantil, a intolerância mais irreconciliável, o ódio mais descontrolado.

A pós-verdade dispensa o contínuo Histórico, despreza a cultura, erudita ou popular, e o tal do “novo”, tão apregoado pelos aproveitadores de sempre, transformou-se em relativismo absoluto.

Cada semana surge uma nova interpretação de tudo e qualquer coisa, logo substituída por outras novas interpretações, e assim sucessivamente. De tal maneira que, como disse o escritor, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

Os pensadores atuais são atores e atrizes da grande mídia, personagens do show business, e os filósofos atuais encontram-se quase que diariamente em programas de TV a cabo a deitar “teses” que são mais de autoajuda que propriamente tentativas de interpretações sobre as contradições profundas do mundo contemporâneo.

No vácuo, proposital, da incontornável vida política, que vive sob contínua chibatada dos seus inimigos, cuja fixação é mesmo o seu assassinato, artistas e cantores transformaram-se em líderes e teóricos dos rumos a serem seguidos por extratos médios.

Sem referências do passado, ausência de reflexões razoavelmente bem sustentadas sobre o presente, vive-se um presente contínuo, como em uma roda gigante dos parques de diversão, subindo e descendo sobre o mesmo eixo, passando sempre pelo caminho inicial.

O ativismo político é substituído, quase sempre, pela histeria política, especialmente nas redes sociais, que faz uma ponte com as notícias da grande mídia hegemônica, e se retroalimentam continuamente.

Ser cristão ou ateu, deixou de se caracterizar como uma opção de fé teológica, ou reflexão sobre a condição humana e sua finitude, transformou-se em uma cruzada radical, coletiva, de uns contra os outros. Cada um carregando a sua fé, ou ausência dela, como se fossem medalhas no peito, conquistadas em batalhas sangrentas contra inimigos mortais.

Pensa-se em tudo, menos nos rumos do Brasil, seus dramas, imensas possibilidades, e superações urgentes.

A pandemia do corona vírus mais parece uma catarse de um mundo em crise, onde as soluções de saúde, médicas, contra o vírus, transformaram-se em uma batalha ideológica, como se houvesse vacinas ou antivirais de esquerda, centro ou direita. O que existe são remédios, eficazes ou não.

Como sabem, não sou, nunca fui, nem serei bolsonarista, mas o problema do Brasil é maior que os descaminhos do governo federal, em quase todos os níveis de governabilidade.

Trata-se da doença “espiritual” de vocação autoritária em quase todos os extratos ideológicos, inclusive em parte da sociedade mais esclarecida, enquanto as grandes maiorias sociais, alheias a tudo isso, perambulam pelas ruas na busca da dura sobrevivência, em meio a uma crise sanitária, econômica, social, carregando, ainda por cima, os males estruturais, históricos do Brasil.

Apesar disso, contornam-se as buscas das soluções concretas, através de uma tempestade de falsos ideologismos, incessantes, discute-se uma realidade paralela. Ou como me escreveu o amigo jornalista Ênio Lins: a pós-verdade é pseudoverdade, talvez sem exceções.

No mesmo rumo, lembro a frase do velho amigo Plínio Lins: a boa mídia, a boa imprensa, é o único respiradouro, ao lado da arte, como forma eficaz de juntar inteligência e beleza. Lutemos por elas portanto.

As soluções para as crises, pequenas ou grandes, como a atual, sempre surgiram através da via política, na concertações de consensos, de amplas unidades.

Até nas guerras, porque como afirmou o grande teórico dessa matéria extrema: a guerra é a continuação da política, por outras vias.

Nesse caldeirão sectário que estamos vivendo, creio fundamental a primazia da vida democrática para a solução dos trágicos problemas nacionais. E nessa vida democrática, as eleições, como a que estamos exercendo na excepcionalidade dessa pandemia sanitária.

Porque sem democracia e eleições quem vai decidir os nossos destinos são os caudilhos, os ditadores, ou os loucos predestinados pela fixação do poder.

O que me lembra dos tristes déspotas latino-americanos, que narrou Gabriel Garcia Márquez, como o paraguaio que cismou de combater uma epidemia de sarampo que assolava o País irmão, cobrindo os postes de rua com papel celofane vermelho.

Ou o caudilho de El Salvador, que após uma sangrenta batalha pelo poder, da qual saiu vitorioso, promoveu uma magnífica e babilônica festa de três dias e três noites, para enterrar a sua própria perna, perdida em combate.

A pandemia do corona vírus vai passar, como tantas outras que viveu a humanidade, assim também esses tempos desorientados, como outros que já se foram.

E a democracia, as eleições, são bem melhores que a insanidade dos ditadores. Portanto, vamos pelejar por elas, para o nosso próprio bem e do País. E quem puder, mantenha o isolamento social, até a vacina, porque o bicho é brabo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O Brasil, algoritmos e fanatismos




Por Eduardo Bomfim

Que ninguém se iluda, pensar o Brasil é tarefa exclusiva dos brasileiros, seja nas questões da indústria, da agricultura, da saúde, educação etc., e acima de tudo em relação aos interesses nacionais.

Vivemos uma época especial em todo mundo, onde prevalecem mecanismos sofisticados de interferências desestabilizadoras nas sociedades, da parte do capital financeiro, megaempresas globais, além das grandes potências internacionais, na medida em que a revolução digital, a internet, alcançou o protagonismo irreversível que todos conhecemos.

Mas as facilidades advindas das novas formas de comunicação entre as pessoas, no consumo, provocaram novas maneiras de interferências na vida política das sociedades. E são esses os fenômenos que estamos vivenciando.

A competição industrial, agrícola, comercial, e geopolítica, se intensificou de forma exponencial, e nenhuma megaempresa global, ou potência internacional, está presente no mundo de hoje para esclarecer as coisas, mas para fazer valer os seus interesses, ou para confundir, se assim for necessário, desestabilizar as sociedades.

A racionalidade tornou-se um produto raro, ou em falta, nas atuais relações humanas. Muitas vezes tem prevalecido o delírio, quase esquizofrênico, na interpretação dos fatos, principalmente quando se trata das questões políticas.

Os algoritmos, no mundo digital, têm feito, com a rapidez, quase, instantânea, o trabalho que interessa ao grande capital financeiro, à luta política, às grandes potências, ou na competição dos produtos no mercado, seja ele qual for.

Se você adquire um aplicativo para ouvir música, por exemplo, esses algoritmos vão lhe direcionar para as músicas que consideram afins com o seu gosto inicial, e daí vão lhe conduzir para uma “bolha” digital que consideram o seu gosto. O que vai exigir muita consciência crítica e lucidez para que você não se torne um consumidor passivo de músicas.

As redes sociais, através dos mesmos mecanismos dos algoritmos, também vão lhe conduzir ao mesmo processo de identificação de opiniões idênticas às suas, promovendo as “bolhas” de ativismo social, reduzindo o horizonte de reflexão e discernimento dos indivíduos.


Assim como facilita a promoção das ações de publicação de notícias falsas, as tais das fake news, alimentando uma cadeia de desinformação sobre a verdade dos fatos, que são instrumentalizadas por grupos políticos, interesses geopolíticos estratégicos, ou mesmo na competição de produtos à venda no mercado.

A grande mídia global tem combatido as fake news, mas ela promove também, à sua maneira, as notícias que considera relevantes ou não. Em sua grande parte, ela se encontra a serviço dos interesses do capital financeiro, e promove as suas agendas cultural, política e ideológica, hoje hegemônicas.

E dita, conduz, as pessoas, para a luta que “deve” ser relevante. E em praticamente vinte quatro horas, em todo o mundo ocidental, grupos de “ativistas” sociais digitais, como as recentes manifestações para destruir estátuas e monumentos Históricos relevantes, saem às ruas movidos por uma fúria emocional.

Sem nenhuma reflexão crítica, mais profunda, sobre o significado das suas ações, com base em uma espécie de um difuso, falso, Internacionalismo militante. Dias depois, essa “causa” arrefece e logo é substituída por outra, igualmente carregada do mesmo conteúdo emocional, quando não sectário.

Na atual luta dos cientistas, na área de saúde, contra o corona vírus, existem algumas vacinas, em pesquisa, em estágio avançado.

Um desses surtos emocionais, ideológicos, foi promovido nas redes sociais, contra a possível vacina chinesa, em convênio com o Instituto Butantã no Brasil, sob a alegação de que essa possível vacina, estaria “infectada” com um nano chip que iria controlar as pessoas, vigiá-las, e aliciá-las ao comunismo internacional. Um delírio, impensável em outras épocas, se não fossem os algoritmos, manipulados por um extremismo sectário.

A atual realidade política brasileira está carregada por frenética Guerra Híbrida, cujo objetivo central tem sido a fratura do tecido social da sociedade nacional, entre grupos com agendas identitárias.

Uns procurando negar o contínuo histórico nacional, as grandes figuras que, em cada época determinada, ergueram o espírito do País, através das ideias e das realizações, que formam a nossa civilização única, mestiça e tropical, como descreveu o grande antropólogo Darcy Ribeiro.

Outros, em um campanha irracional, fundamentalista, inimiga do progresso, pretendem levar o País aos tempos medievais passados.

A continuada polarização dessa “ordem” de coisas não serve aos interesses nacionais, porque é falsa, sem perspectiva estratégica, e conduz a nação à imobilidade, ao atraso, e fratura o nosso tecido social.

Já essa atual guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, eles estão jogando o jogo deles, nós devemos estar é com os nossos interesses. Não podemos estar alinhados em disputas ideológicas de ocasião. Devemos ficar com o que serve ao Brasil e ao povo brasileiro. Promover uma diplomacia ampla, pacífica e de cooperação internacional em todos os níveis.


Quanto à campanha de cerco que atinge a Amazônia, sob o justo pretexto de evitar e combater as queimadas, ela possui, na verdade, o objetivo estratégico da internacionalização de um ativo ambiental, mineral, biológico, geopolítico, inigualável no planeta.

Tudo isso promovido por ONGs suspeitas e potências estrangeiras. É hora de levantar, com serenidade, altivez, uma campanha em defesa da Amazônia, que é nossa, assegurada com muita luta por aqueles que nos deixaram esse extraordinário legado ambiental e patrimônio territorial.

Quando promovem uma campanha contra a agricultura brasileira, isso nada tem a ver com as, falsas, justificativas sobre agrotóxicos e outras coisas mais. Mas é devido ao protagonismo internacional da nossa produção de grãos, carnes etc., que disputa com alta qualidade, tecnologias e cumprimento de todas as normas sanitárias exigidas pelos acordos mundiais. Aliás, é a agricultura que vem salvando o País nessas ultimas décadas.

A luta de ideias nestes tempos de hoje é vital, no empenho por um programa nacional de desenvolvimento estratégico, pela reestruturação do parque industrial nacional, recompor a nossa cadeia produtiva. Pelo investimento maciço em educação em todos os níveis, ciência e tecnologia, infraestrutura, na promoção de políticas públicas com investimentos sociais.

Se o Brasil atingir essas metas, estaremos alcançando o patamar de uma nação verdadeiramente progressista, rumo ao pleno desenvolvimento econômico, combinado com a alta qualidade de vida do povo brasileiro. Território continental, riquezas naturais, matérias primas, uma população de mais de 200 milhões de habitantes, com engenhosidade, vontade de crescer, nós temos. Falta-nos o projeto, a vontade, e a união do povo em torno dos novos desafios.

Em tempos de algoritmos digitais, fanatismos ideológicos, tempestades de ódios difusos, como disse o poeta: falta-nos cumprir o Brasil. E essa obra não cai do céu, ou por geração espontânea. Precisa ser edificada, construída. Talentos, não nos faltam. É fundamental a iniciativa.

terça-feira, 28 de julho de 2020

A soberania limitada e a Guerra Híbrida




De Eduardo Bomfim

A globalização financeira prossegue na sua determinação de, na prática, impor aos povos e às nações a soberania limitada, em uma escala crescente que marcha, especialmente entre as cadeias mais frágeis de vários Países, para uma forma de colonialismo do novo milênio.

Esse processo caminhou por vias sinuosas, desde a instituição do padrão dólar-ouro na conferência de Breton Woods, em 1944, demarcando a hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Em 1971 os Estados Unidos tomaram a decisão de acabar com a paridade dólar-ouro, ficando o dólar como moeda hegemônica global, respaldado pelo tesouro norte-americano. Essa decisão foi ratificada pelo FMI em 1973.

Na década de 80 as políticas neoliberais assumiram o protagonismo de uma doutrina econômica hegemônica mundial, sob os governos de Margaret Thatcher, a dama de ferro, na Inglaterra, e do presidente Ronald Reagan nos Estados Unidos.

Todo esse processo levou à desregulamentação dos fluxos financeiros domésticos, vinculados à produção de riquezas. Estava inaugurado o caminho para o extraordinário processo de acumulação financeira especulativa global, através do rentismo predador, que, de crise em crise, segue até os dias atuais.

Nesse mesmo período a hegemonia unipolar econômica, financeira, militar dos Estados Unidos, conquistada após a extinção da União Soviética, foi perdendo a liderança desse processo.

Ao tempo em que todas as formas de controle administrativo, das taxas de juros, do crédito e dos movimentos do capital financeiro foram progressivamente abolidas.

A desregulamentação do capital foi, dessa forma, um dos elementos motores da globalização financeira. Estavam abertas as condições para uma espécie de governança mundial do capital financeiro especulativo.

Uma governança informal, invisível, mas que nem por isso deixa de ser efetiva e de caráter multilateral.

Cifras astronômicas de trilhões de dólares circulam, sem regulação alguma, pelo mundo em poder de megaespeculadores internacionais, desligadas da produção de riquezas. Esse é o mundo em que vivemos hoje.

Como é óbvio, as instituições internacionais “oficiais”, criadas no pós Segunda Guerra mundial, para fins de construção de consensos e administração de conflitos regionais, passaram a seguir o rastro do dinheiro em mãos dos especuladores globais, e as suas diretivas.

De tal forma que tratados internacionais, úteis ao processo hegemônico da livre financeirização dos fluxos de capitais, foram sendo oficializados por essas instituições mundiais e transferidos, como normas, aos Países.

A hegemonia do capital especulativo predador chegou igualmente à grande mídia, transformando-a em sua porta voz oficiosa.

Tratava-se, a partir daí, de constituir uma espécie de ideologia hegemônica, que satisfizesse aos interesses da globalização financeira e substituísse as culturas nacionais, sua raízes, características próprias etc.

Formatou-se, entre outras coisas, uma espécie de anarquismo invertido, visto que não serve aos propósitos com que sonhava o teórico anarquista Bakunin, mas ao anarquismo desregulamentador do capital financeiro.

Assim como surge uma espécie de neotrotskismo internacionalista, mas, ao contrário do que sonhava Leon Trotsky, não um trotskismo das classes trabalhadoras, mas um trotskismo internacionalista sob a égide do capital financeiro.

Com a soberania cada vez mais limitada pelas orientações e tratados do capital financeiro, no plano econômico, administrativo, comportamental, os governantes foram perdendo os seus protagonismos de efetivos dirigentes nacionais. Transformaram-se, em grande parte, em gerentes e administradores das orientações e diretivas vindas do capital financeiro.


A pandemia da crise e a crise da pandemia

O teórico nipo-americano Francis Fukuyama quando previu, falsamente, o Fim da História em seu famoso livro publicado no fim do século XX, não se referia necessariamente à liderança unipolar dos Estados Unidos, mas à celebração da hegemonia superior do capital financeiro como forma de governança mundial.

No entanto, tamanha acumulação desenfreada do capital parasitário e especulativo, desligado da produção dos povos e nações, começou a provocar uma sucessiva desestabilização da Nova Ordem mundial e atingiu o ápice na crise financeira em 2007 e 2008, que iniciou nos Estados Unidos e rapidamente se espalhou pelo mundo.

A catástrofe financeira, que abalou as economias nacionais, não teve como solução o reordenamento da economia global mas o aprofundamento das estratégias do próprio capital financeiro especulativo.

Essa crise acarretou uma debacle das economias nacionais, além de novas diretivas para a desregulamentação dos fluxos financeiros especulativos, a queda do crescimento das economias nacionais, o empobrecimento das sociedades em, praticamente, quase todo o mundo.

O planejamento econômico foi cada vez mais substituído pela anarquia sem freios que rege a globalização do capital especulativo. O cuidado com as atividades básicas de investimentos em educação, saúde pública, ciência e tecnologia em escala global, cedeu cada vez mais à privatização, e a extrema precarização dessas funções essenciais para os povos.

Pode-se afirmar que antes de estourar a pandemia sanitária que hoje vivenciamos, tivemos a pandemia da extrema desregulamentação dos fluxos financeiros, com as suas dramáticas consequências, com a queda do crescimento econômico dos países, de forma sistemática e contínua, o desemprego e a catastrófica crise social que jamais parou de crescer.

Em resumo, a crise financeira, e suas consequências, antecedeu à crise sanitária do corona vírus 19. E será necessário calcular quanto dessa primeira crise possui relação, de causa e efeito, com a pandemia sanitária que vivemos de forma trágica em todo o mundo.

Em algum momento no futuro próximo deve haver algum balanço sobre a insuficiência das medidas da OMS em relação a essa pandemia. Seja para a ela se antecipar, seja para sugerir medidas rápidas e eficazes para minimizar os seus efeitos. E aqui não se encaixam teorias da conspiração, tão em voga nos dias atuais.

Mas a verdade é que os organismos internacionais institucionais se encontram defasados quanto aos seus propósitos intrínsecos. Na maioria das vezes eles adotam medidas, sugestões paliativas e secundárias, ou de marketing, para fins de justificar as suas existências.

A atual crise sanitária global, entre outras coisas, serviu para mostrar a pouca eficiência desses organismos, assim como a guerra do Iraque, entre outros conflitos regionais, demonstrou a pouca eficácia da ONU como autoridade real em administrar conflitos regionais ou globais de grande porte.

A atual pandemia sanitária não foi a responsável pela catástrofe econômica e social que vivemos, mas levou ao seu aprofundamento em nível brutal, como um catalizador, ou reagente químico.

Assim a crise financeira, econômica e social atingiu uma escala formidável. É inacreditável a tendência que se vende, aos incautos, que a pós pandemia vai possibilitar uma sociedade mundial mais harmoniosa, mais limpa e mais solidária, quando na verdade já estamos em uma crise econômica, social e humanitária, sem precedentes na História contemporânea. Na História, muitas vezes, os mitos são mais importantes que a realidade.

Dois meses após o reconhecimento da pandemia sanitária, as discussões nas mídias e redes sociais, desconectaram-se das questões concretas de como enfrentar melhor o corona vírus e passaram ao campo político. Não se abordam as propostas econômicas, sociais, para enfrentar uma realidade dramática de desemprego massivo e a consequente, trágica, crise social.

Assim, como nas ultimas décadas, cria-se uma falsa perspectiva sobre a verdade dos fatos, elabora-se, mais uma vez, uma realidade paralela e fantasiosa sobre o mundo em que vivemos. E, convenhamos, é necessário muito investimento e capital, além de mídia, para se imporem concepções tão dissociadas da vida concreta dos povos.

Não é à toa que vários segmentos intelectuais e acadêmicos vivem, há um bom tempo, em uma torre de marfim de agendas identitárias, descolados das grandes maiorias sociais e das necessidades concretas dos seus Países.

É um fenômeno, a dissociação de setores esclarecidos das sociedades das necessidades objetivas das grandes maiorias do planeta. E ao mesmo tempo é como se uma parcela de classe média, estivesse vivendo em uma sociedade dividida em castas.


Mas na verdade trata-se do “investimento” da globalização financeira em uma elite que encampe as suas agendas culturais e comportamentais. Uma estratégia de cooptação dos de “cima”, e o abandono à própria sorte dos novos deserdados da terra, a grande maioria das populações das nações. O objetivo é constituir uma vanguarda intelectual, de ativistas nas redes sociais, incorporada às perspectivas, doutrinas e agendas do capital financeiro, na tentativa de enfraquecer as possibilidades dos Estados nacionais quanto à formação de uma massa crítica e pensante, relativa aos programas e projetos de desenvolvimento nacionais.

Assim como os identitaristas fundamentalistas religiosos, reacionários, movidos por uma orientação econômica neoliberal ultraortodoxa, representada no Brasil pelos bolsonaristas hoje no poder central do País. Uma verdadeira Guerra Híbrida em curso.

Assim, a centralidade da questão nacional passa a ser a inimiga principal do capital financeiro, da Nova ordem mundial, e o protagonismo do Estado nação, o adversário a ser aniquilado.

Da soberania limitada ao novo neocolonialismo financeiro, a ausência de uma perspectiva Histórica no “presente contínuo”, a divisão internacional das cadeias produtivas, a substituição do protagonismo político das grandes maiorias pelas agendas das corporações.

Mas, quando alguém, como Francis Fukuyama, decreta o fim da História, essa afirmação encontra-se carregada de um fundamentalismo doutrinário, quase fanático. Porque deseja que a sua visão econômica e filosófica seja hegemonicamente imposta aos demais e às sociedades. Tal enunciado não prospera, como de fato aconteceu.

Em 1938 Hitler anunciou o seu império, o Reich de mil anos, um mundo sem fronteiras. E deu no que deu, a terrível carnificina da Segunda Guerra mundial. Hoje temos, de novo, um mundo em que a racionalidade política é um bem escasso. No caso de um propalado mundo sem fronteiras, há que se perguntar quem será o seu gerente, ou os administradores desse consórcio que fará as tratativas de um mundo sem fronteiras.

Vivemos atualmente um momento semelhante ao período de entre guerras, anterior à Segunda Guerra mundial, onde a polarização fanática tem sido a regra e a busca por consensos uma exceção. Nesse estado de espírito atual, tem prosperado o fundamentalismo, e o fanatismo, a evidente ausência de perspectivas históricas.

A busca por consensos, a procura por amplitudes, soa quase como um sonoro palavrão. A globalização financeira já provocou catástrofes econômicas e agora mostra que a tal da internacionalização das cadeias produtivas se mostrou trágica e a pandemia evidenciou a fragilidade das nações, onde não existiam, na maiorias dos Países, nem a produção de máscaras sanitárias ou de ventiladores. A grande maioria das nações tiveram que importar da China.

Qualquer nação que minimamente preze a própria soberania, e pense no seu futuro, precisa se preparar para constituir um novo ciclo para a reconstituição completa da sua cadeia produtiva, inclusive industrial, é o caso do Brasil, ou vai amargar um novo estágio de recolonização financeira, bem mais radical que a atual soberania limitada que vivenciamos.


No Brasil, sob o argumento de irresponsabilidades cometidas, efetivas e reais, a grande ameaça que vivemos é a ofensiva pela internacionalização da Amazônia, um território superior ao da Europa ocidental, com imensas riquezas minerais, aquíferas, biossegurança, potencial de reservas genéticas a ser pesquisado, patrimônio ambiental único no planeta, além de um estratégico ativo geopolítico inigualável no planeta.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja, ao alertar para o fato de que com a crescente guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, o País deve se preparar para navegar em águas oceânicas muito turbulentas.

E que uma diplomacia sectária, ideológica, unilateral, alinhada aos Estados Unidos, como a atual, no governo Bolsonaro, nos é extremamente prejudicial.

Devemos propugnar por uma política externa ampla, sempre pautada pelas soluções de conflitos, e acima de tudo com base nos nossos interesses nacionais geopolíticos, comerciais e econômicos.

Enfim, devemos persistir com firmeza por uma política que construa a união das grandes maiorias sociais do povo brasileiro. A polarização extremada, intolerante, irreconciliável que divide a nação não nos convém.

Cabe-nos propugnar pela constituição de uma projeto nacional de desenvolvimento estratégico, reconstruir as nossas plantas científicas e tecnológicas, investir massivamente em educação em todos os níveis, recuperar sob novas bases a nossa cadeia industrial, fortalecer a nossa agricultura.

Porque o mundo atual, e pós pandemia sanitária, não será harmonioso, limpo, ou de solidariedade global. Mas turbulento. Devemos nos preparar, com as nossas tradições pacíficas, e persistência, para navegar em uma realidade geopolítica tempestuosa e cheia de incertezas.