quarta-feira, 28 de setembro de 2022
O louvor vem do povo
Por Eduardo Bomfim
Desde 2013, o Brasil vem sendo assolado por intensas ações provocadas por uma Guerra Híbrida, fomentada por interesses externos. Naquele ano, multidões foram às ruas sem qualquer vinculação com plataformas concretas, impulsionadas pelas redes sociais e a grande mídia hegemônica. Os passos seguintes foram o “não vai ter Copa do Mundo”, a derrubada da presidente Dilma, o auge da operação Lava Jato, a prisão do ex-presidente Lula, culminando com a meteórica eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República, e a “normalização” cotidiana de tempestades de ódios difusos.
É o mesmo modus operandi das “revoluções coloridas” que sacudiram os Países árabes, e outros lugares do mundo, exaustivamente denunciadas, em documentos secretos, por figuras como Edward Snowden ex-agente da CIA e Julian Assange, preso no Reino Unido e sob deportação para os Estados Unidos.
De lá para cá, os problemas nacionais, os abismos sociais profundos, os interesses do País e os caminhos para o nosso desenvolvimento, as privatizações, foram propositalmente relegados “aos quintos dos infernos” e “magicamente” substituídos por questões globalistas, cujos centros de elaboração residem nos Estados Unidos, Europa Ocidental, como no Reino Unido, Noruega e a França, por exemplo.
No plano político, adotou-se como referência central as agendas dos partidos Republicano e Democrata norte-americanos, a profunda desagregação em que se vê mergulhada a grande nação americana.
Ponderáveis setores de esquerda passaram a adotar, como “carma”, o alfa e o ômega de tudo e qualquer coisa, as chamadas agendas identitárias, e vão abraçando, a passos largos, a “internacionalização” da Amazônia brasileira.
Outros segmentos conservadores, abraçam as pautas reacionárias, retrógradas, que alcançaram proeminência com a eleição do presidente Donald Trump, incluindo o terraplanismo, o negacionismo científico, o entreguismo dos nossos patrimônios, além da paranoia anticomunista, requentada da época da Guerra Fria.
Assim é que chegamos nas eleições de 2022, onde grandes segmentos dos setores mais escolarizados e esclarecidos da sociedade encontram-se “contaminados” por essa “Guerra Híbrida”, dessa “revolução colorida” deflagrada, especialmente a partir de 2013.
Não é por acaso que todos, todos mesmo, institutos de pesquisa demonstram que as grandes maiorias sociais, que ficaram à margem da “revolução colorida” votam maciçamente em Lula, e garantem a sua vitória eleitoral no próximo 2 de outubro, se efetivamente elas tiverem a condição de irem às urnas em todo o Brasil. São os que possuem renda de até um salário mínimo, de um a dois, ou mesmo de dois a cinco salários mínimos.
Essa é a verdadeira e decisiva batalha que se aproxima: a lembrança do Povo dos dois governos do ex-presidente Lula, porque eles sabem o que sentem no estômago e na carne.
Quanto à Guerra Híbrida e as “revoluções coloridas”, elas vão continuar mesmo sob a provável vitória de Lula. Será a guerra pela sobrevivência do Brasil como nação soberana, desenvolvida e socialmente mais justa. Como afirmou Jorge Amado: O louvor vem do povo, a infâmia vem da “inteligentzia”.
quinta-feira, 26 de maio de 2022
Tim Anderson: A história fascista da OTAN
Por Tim Anderson
Nos últimos anos, a OTAN – essencialmente os Estados Unidos e a Europa Ocidental – desnudou suas raízes fascistas por meio de múltiplas intervenções em quatro continentes. Estados da OTAN apoiaram golpes fascistas na Venezuela, Honduras e Bolívia, impuseram bloqueios a dezenas de nações, fomentaram o terrorismo sectário Al-Qaeda/Daesh/Boko Haram para desestabilizar a Líbia, Iraque, Síria e Nigéria, e agora estão armando neonazistas abertos na Ucrânia .
Tudo isso parece contradizer a tão elogiada auto-imagem dos estados da OTAN: como modelos de liberalismo e valores democráticos, até mesmo dando palestras a outros países sobre o assunto. Eles afirmam ter lutado contra o fascismo e o comunismo. No entanto, foram o imperialismo e o colonialismo europeu e norte-americano que lançaram as bases para o fascismo no século XX.
Desde a Segunda Guerra Mundial – um conflito maciço que custou mais de 70 milhões de vidas – tanto Washington quanto os europeus ocidentais fizeram um grande esforço para esconder as contribuições e sacrifícios tanto da União Soviética (principalmente Rússia) quanto da China, nações que perderam mais vidas. na Segunda Guerra Mundial do que qualquer outro.
De fato, em 2019, o Parlamento Europeu culpou a URSS de Joseph Stalin e a Alemanha nazista de Adolf Hitler por serem co-responsáveis pela Segunda Guerra Mundial. Essa resolução afirmava que “a Segunda Guerra Mundial… foi iniciada como resultado imediato do notório Tratado de Não Agressão Nazi-Soviética de 23 de agosto de 1939”.
Se não inteiramente cínico, isso foi uma auto-ilusão extraordinária, e o culminar de uma longa campanha na qual os líderes socialistas Stalin e Mao Zedong foram apresentados, por décadas, como equivalentes morais do fascista da Europa Ocidental Adolf Hitler.
Esse engano se baseava em falsas alegações de que Stalin e Mao haviam instigado fomes que mataram muitos milhões de pessoas. De fato, as fomes na Ucrânia e na China foram as últimas de um longo ciclo de fome na era pré-socialista. O historiador americano Grover Furr desmascarou o mito de que a fome do “Holodomor” ucraniano foi um ato deliberado de Stalin.
Da mesma forma, a alegação de que a Segunda Guerra Mundial foi o “resultado imediato” do “pacto de não agressão” soviético-alemão é uma falsidade total. Houve vários acordos europeus semelhantes com a Alemanha nazista antes disso, e vários foram mais substanciais.
O acordo naval anglo-alemão de 1935, por exemplo, ajudou a Alemanha a reconstruir sua frota, enquanto Grã-Bretanha, França e Itália concederam a Berlim a reivindicação em nome da Tchecoslováquia, no Pacto de Munique de 1938. Além disso, houve as colaborações fascistas ativas entre Alemanha, Espanha e Itália, incluindo o Pacto de Aço ítalo-alemão.
Grande parte da colaboração fascista da Europa se uniu sob o Pacto Anticomunista criado pela Alemanha nazista e pelo Japão em 1936 para se opor aos estados comunistas. Este pacto mais tarde atraiu o apoio da Itália, Hungria, Espanha e – durante a guerra – Bulgária, Croácia, Dinamarca, Finlândia, Romênia e Eslováquia. O fascismo se espalhou pela Europa nas décadas de 1930 e 1940. Os principais acordos europeus com a Alemanha nazista estão listados na Tabela 1.
Tabela 1: Principais acordos europeus com a Alemanha nazista
1933, 20 de julho
Concordata com o Vaticano
Reconhecimento mútuo e não interferência
https://www.concordatwatch.eu/reichskonkordat-1933-full-text–k1211
1933, 25 de agosto
Acordo Haavara com sionistas judeus alemães
Acordo para transferir capital e pessoas para a Palestina
https://www.jewishvirtuallibrary.org/haavara
1934, 26 de janeiro
Pacto de Não Agressão Alemão-Polonês
Para garantir que a Polônia não assinasse uma aliança militar com a França. https://avalon.law.yale.edu/wwii/blbk01.asp
1935, 18 de junho
Acordo naval anglo-alemão
A Grã-Bretanha concorda em deixar a Alemanha expandir sua marinha para 35% do tamanho da Grã-Bretanha. https://carolynyeager.net/anglo-german-naval-agreement-june-18-1935
1936, julho
Alemanha nazista ajuda os fascistas na Espanha
Hitler envia unidades aéreas e blindadas para ajudar o general Franco. https://spartacuseducational.com/SPgermany.htm
1936
Acordo do Eixo Roma-Berlim
Aliança fascista e anticomunista entre Itália e Alemanha. https://www.globalsecurity.org/military/world/int/axis.htm
1936, outubro-novembro
pacto anticomunista
Tratado anticomunista, iniciado pela Alemanha nazista e pelo Japão em 1936 e que mais tarde atraiu 9 estados europeus: Itália, Hungria, Espanha, Bulgária, Croácia, Dinamarca, Finlândia, Romênia e Eslováquia
1938, 30 de setembro
Pacto de Munique
Grã-Bretanha, França e Itália desistem das reivindicações alemãs sobre os Sudetos (República Tcheca). https://www.britannica.com/event/Munich-Agreement
1939, 22 de maio
Pacto de Aço
Consolida o acordo ítalo-alemão de 1936.
https://ww2db.com/battle_spec.php?battle_id=228
1939, 7 de junho
Pacto de Não Agressão Alemão-Latino
Busque a paz com a Alemanha nazista.
https://www.jstor.org/stable/43211534
1939, 24 de julho
Pacto de Não Agressão entre Alemanha e Estônia
Busque a paz com a Alemanha nazista.
https://www.jstor.org/stable/43211534
1939, 23 de agosto
Pacto de Não Agressão da URSS (Molotov-Ribbentrop)
Busque a paz com a Alemanha nazista, o protocolo define as esferas de influência.
https://universalium.en-academic.com/239707/German-Soviet_Nonaggression_Pact
O que é fascismo?
O termo é usado com muita frequência, mas tem um significado real. Não podemos nos deixar prender pelas histórias particulares do século 20 sobre o fascismo: devemos identificar os elementos conceituais.
O fascismo é um regime fortemente militarizado, antidemocrático e racista-colonial que se compromete com uma oligarquia privada e capitalista. Embora o fascismo primário seja um projeto imperial, há também um fascismo subordinado em ex-colônias como Brasil e Chile, que está integrado ao poder imperial do momento. Os regimes fascistas são especialmente hostis aos estados e povos socialistas e independentes. Eles só diferem dos regimes de extrema direita ao esmagar abertamente qualquer indício de democracia social e política. As culturas e intervenções imperiais, que sempre e em todos os lugares negam a possibilidade de democracia local ou responsabilidade, são inerentemente fascistas e permanecem na raiz do fascismo contemporâneo.
O fascismo da OTAN foi construído sobre a história imperial e colonial de muitos (mas não todos) estados europeus, onde o esmagamento de comunidades e nações locais foi justificado por teorias fabricadas de raça e superioridade racial. A negação dessa história colonial-fascista levou à sugestão de que, como um documentário russo coloca, a ascensão de Hitler foi “algo atípico das democracias européias; a doutrina do Führer de raças superiores e inferiores surgiu do nada na Europa devido para uma infeliz reviravolta dos acontecimentos.”
De fato, o fascismo da Alemanha nazista tinha raízes profundas na história e na cultura colonial europeia. Como aponta o livro de Gerwin Strobl “A Ilha Germânica”, o próprio Adolf Hitler era um grande admirador da “crueldade” do Império Britânico e sonhava com tais conquistas. De sua parte, os Estados Unidos construíram mitos de “liberdade” enquanto administravam a maior economia escravista da história da humanidade. Como disse o grande líder da resistência latino-americana Simón Bolívar há dois séculos, “os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a atormentar a América com miséria em nome da liberdade”.
Além do “apaziguamento” europeu da Alemanha nazista, houve uma ativa colaboração europeia e norte-americana com os fascistas antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial.
Primeiro, o Acordo Naval Anglo-Alemão de 1935 ajudou a rearmar a Alemanha nazista, quebrando os limites do Tratado de Versalhes de 1919 sobre navios e submarinos alemães, mas pretendendo que a marinha alemã fosse uma fração da britânica. Mais tarde, várias empresas americanas, notadamente General Motors, Ford e IBM, investiram diretamente na economia, infraestrutura e forças armadas do regime nazista. Havia muitos americanos e britânicos influentes que admiravam os nazistas. À beira da Segunda Guerra Mundial, os banqueiros britânicos canalizaram ouro de terceiros (tcheco) para bancos controlados pelos nazistas.
A Ford ajudou a máquina de guerra nazista antes e durante a Segunda Guerra Mundial através de suas fábricas de veículos na Alemanha e na França ocupada de Vichy. Usava mão de obra escrava alemã dos campos de concentração nazistas, embora a empresa mais tarde reclamasse que não tinha controle sobre esses regimes trabalhistas. Enquanto a empresa Ford lutava para escapar dessas acusações, funcionários poloneses e ex-detentos nomearam a Ford como “uma das 500 empresas que tinham vínculos com Auschwitz [trabalho escravo dos campos de extermínio nazistas]”. A IBM, uma empresa do “New Deal” próxima ao governo Roosevelt, também investiu na Alemanha nazista durante a década de 1930 e os primeiros anos da guerra, ajudando a construir sistemas de informação nazistas.
Os suíços venderam milhões em armas para os nazistas, tanto antes como durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar das alegações de neutralidade, entre 1940 e 1944, “84% das exportações suíças de munição foram para países do Eixo”. No entanto, de acordo com o pesquisador Bradford Snell, “a General Motors era muito mais importante para a máquina de guerra nazista do que a Suíça… a GM era parte integrante do esforço de guerra alemão”.
O investimento e a colaboração americanos e europeus com os nazistas continuaram até a Segunda Guerra Mundial. Um aspecto disso foi o desejo de participar do que foi, entre 1940 e 1942, “um espetacular boom de investimentos, dirigido principalmente à expansão da base industrial para a guerra”. Isso, sem dúvida, encorajou a Ford e a GM a continuar colaborando com Hitler.
Depois de 1939-40, quando a Alemanha nazista invadiu grande parte da Europa Ocidental, Berlim foi apoiada por muitos estados fascistas e colaboracionistas europeus, bem como voluntários civis. Além de sua aliança com a Itália fascista, a Alemanha nazista podia contar com o apoio da Espanha fascista, apesar da suposta política de neutralidade do general Franco.
Depois, havia os estados pró-fascistas criados pelos nazistas, a França de Vichy e o regime de Quisling na Noruega. Os alemães criaram várias divisões da SS, com dezenas de milhares de voluntários pró-fascistas, na Holanda, Croácia e Albânia. A França de Vichy, sob o comando do marechal Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, promulgou uma lei racista antijudaica (Statut des Juifs) que os tornou cidadãos de segunda classe na França e, portanto, mais facilmente sujeitos às depredações nazistas. O regime fascista de Vidkun Quisling também encorajou a participação em divisões locais da SS, ajudou a deportar judeus e executou patriotas noruegueses.
O rei dinamarquês Christian X pode ter sido amigo da comunidade judaica, mas não enfrentou os nazistas. Muitas vezes é falsamente alegado que o rei Christian “vestiu a Estrela de Davi em solidariedade com os judeus dinamarqueses”. Isso é bem falso. Na realidade, o regime dinamarquês se opôs às atividades da resistência e compartilhou informações com os nazistas. Um fator nesta colaboração foi que a Dinamarca era “tecnicamente um aliado da Alemanha”. Sob pressão, eles assinaram o Pacto Anti-Comintern. Apesar dos grandes esforços para sanear essa história, em 2005 o primeiro-ministro dinamarquês Rasmussen pediu desculpas em nome da Dinamarca pela extradição de minorias e figuras de resistência para a Alemanha nazista, muitos dos quais foram enviados para a morte.
Em todos os estados bálticos houve colaboração nazista significativa: Letônia, Lituânia e Estônia tinham divisões da Waffen SS. Estes, juntamente com colaboradores nazistas ultranacionalistas na Ucrânia, desempenharam um papel fundamental nos massacres locais de comunistas, judeus e ciganos.
Entre 1941 e 1944, centenas de milhares de pessoas foram massacradas na Ucrânia, muitas delas por colaboradores nazistas ultranacionalistas locais, como Stepan Bandera. O historiador russo Lev Simkin diz: “Na prática, o Holocausto dos judeus começou na Ucrânia”, com a invasão da União Soviética em junho de 1941. Os assassinatos em massa estavam relacionados à visão paranóica de Hitler sobre judeus perigosos. Os assassinatos em massa de judeus em Kiev, Lvov, Kherson e outras partes da Ucrânia foram bem identificados. Estes são alguns dos locais de combates russos em curso com neonazistas na Ucrânia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a maior parte da população judaica ucraniana pré-guerra, que era de aproximadamente 1,5 milhão, “foi exterminada”.
Estudos acadêmicos mostraram uma “participação massiva de cidadãos bálticos no assassinato de judeus no Holocausto”. Muitas dezenas de milhares de judeus foram assassinados na Letônia, Lituânia e Estônia, em grande parte por mãos locais. Houve uma forte reação à exposição dessa história feia de colaboração fascista. Diz-se que a Lituânia, por exemplo, quer esconder sua “história feia de colaboração nazista” acusando os guerrilheiros judeus de crimes de guerra.
Em toda a Europa houve participação em larga escala no massacre fascista. Na Hungria, o líder nazista Adolf Eichmann teria “recrutado a colaboração das autoridades húngaras” para deportar mais de 400.000 judeus húngaros para campos de extermínio.
Tudo isso ressalta o fato de que a Segunda Guerra Mundial, dos lados europeu e norte-americano, não foi fundamentalmente uma luta contra o fascismo, embora esses estados estivessem lutando contra um “Eixo” fascista. A guerra foi mais uma competição entre blocos imperiais, com a coalizão liderada por Hitler determinada a colonizar o “espaço vital” (lebensraum) no leste. A luta dos patriotas na Europa Oriental e na Rússia, assim como grande parte da resistência ocidental, foi certamente antifascista. No entanto, os líderes dos estados ocidentais não eram idealistas.
Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos imediatamente procuraram aproveitar a ciência e a tecnologia nazistas em sua subsequente “guerra fria” contra o emergente bloco socialista. As potências aliadas esmagaram as forças antifascistas na Grécia e ocuparam militarmente a Alemanha Ocidental. A União Soviética, por sua vez, fez questão de dominar seus vizinhos mais próximos, que estavam mais profundamente ligados a seus inimigos fascistas: em particular os estados bálticos, a Ucrânia e a Alemanha Oriental.
Os Estados Unidos iniciaram um projeto secreto de recrutamento de cientistas nazistas para sua máquina de guerra. O uso americano do especialista em foguetes alemão Werner Von Braun é frequentemente citado em referência ao projeto espacial pacífico Apollo. No entanto, Von Braun era um oficial da SS que havia recrutado mão de obra escrava dos campos de concentração. Os militares dos EUA o queriam por sua experiência em foguetes e mísseis. Na secreta, mas agora infame “Operação Paperclip”, milhares de cientistas nazistas foram recrutados e receberam refúgio nos Estados Unidos, por seu valor na construção das forças armadas americanas. O Pentágono estava especialmente interessado no desenvolvimento dos nazistas de “todo um arsenal de agentes nervosos” e no trabalho de Hitler em “uma arma contra a peste bubônica”.
Apesar de todas as reclamações subsequentes sobre a posse de armas de destruição em massa (ADM) por outros estados, os militares dos EUA queriam ter todos os tipos de ADM. E eles estavam preparados para usá-los contra civis, como seus ataques biológicos e químicos na Coréia e no Vietnã demonstraram, e como os ataques de “demonstração” nucleares gratuitos e horríveis nas cidades civis japonesas de Hiroshima e Nagasaki demonstraram. Mestres do duplo discurso e com uma doutrina de “negação plausível”, as autoridades americanas escondem ao máximo suas próprias atrocidades.
Tornando-se a potência dominante após a Segunda Guerra Mundial, Washington, que havia usado táticas fascistas – invasões, golpes, guerras sujas – para intervir na maioria dos países das Américas, passou a empregar esses mesmos métodos em outros continentes. Assim, a terrível Guerra da Coréia levou a uma ocupação militar permanente dos EUA no sul da península, o governo democrático do Irã foi derrubado e substituído por uma ditadura em 1953 e a terrível guerra “anticomunista” dos EUA. povo do Vietnã falhou, somente depois que milhões de pessoas foram massacradas.
No século 21, Washington apoiou várias tentativas de golpe contra a Venezuela, o maior produtor de petróleo das Américas e historicamente importante para alimentar a máquina de guerra dos EUA. Em 2002, golpistas apoiados pelos EUA e pela Espanha sequestraram o presidente eleito Hugo Chávez, alegaram falsamente que ele havia renunciado, rasgou a constituição, removeu a Assembleia Nacional eleita e anunciou o chefe da Câmara de Comércio, Pedro Carmona, como presidente. Carmona durou apenas dois dias, mas várias tentativas de golpe se seguiram. Isso era fascismo puro. A Venezuela decidiu que um Estado forte, com uma grande milícia civil, era necessário para se defender contra o fascismo implacável apoiado pelos EUA.
Ao mesmo tempo, temendo a perda de seu papel dominante no mundo, Washington lançou várias guerras no Oriente Médio, em tentativas fúteis de conter a crescente influência do Irã, da Rússia pós-soviética e da China. As guerras contra a Palestina, Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Síria e Iêmen não são o assunto deste artigo. No entanto, devemos olhar para o uso dos EUA e da OTAN de exércitos de procuração maciços ao estilo da Al Qaeda e do ISIS, infundidos com a ideologia sectária saudita, em toda a região da Ásia Ocidental e na África, na forma do “Boko Haram”.
Na guerra de retaliação da Rússia em 2022 contra a Ucrânia – desencadeada por uma guerra pós-2014 contra a população de língua russa do leste da Ucrânia e por um reforço militar da OTAN, visando desestabilizar e enfraquecer a Rússia – vemos uma combinação do método fascista dos EUA e a velha mentalidade colonial europeia. Os Estados Unidos mantêm seu duplo discurso sobre “liberdade”, enquanto os europeus falam sobre as classes humanas mais baixas. Na Ucrânia, ultranacionalistas como Azov e Right Sektor se descrevem como nazistas que querem matar russos, judeus e poloneses. A OTAN e sua mídia incorporada tentam esconder essa realidade feia.
A autoridade alemã e da União Européia Florence Gaub, por exemplo, usa a retórica racista para desumanizar os russos: “Embora os russos pareçam europeus, eles não são europeus, em um sentido cultural. Eles pensam de forma diferente sobre violência ou morte”. , vida pós-moderna, um conceito de vida que cada indivíduo pode escolher. Em vez disso, a vida pode simplesmente terminar em breve com a morte.” Os críticos chamaram isso de uma inversão muito alemã do conceito nazista de “Untermenschen” ou raças inferiores.
O fascismo do século 21 surgiu em novas circunstâncias, mas carrega os elementos-chave do projeto do século 20: um regime imperial, fortemente militarizado, profundamente antidemocrático e racista-colonial inserido em uma oligarquia privada e capitalista. Gera um fascismo subordinado, tão venenoso quanto seu pai: um projeto imperial global que continua sendo o principal inimigo de todos os povos democráticos.
quinta-feira, 14 de abril de 2022
Uma ordem mundial alternativa
Por Luís Antonio Paulino, publicado no portal Bonifácio
Congresso de Viena - pintura de Jean-Baptiste Isabey (França, 1767 - 1855)
A guerra da Ucrânia tornou o mundo ainda mais inseguro, polarizado, desigual, fragmentado e com potencial de crescimento menor. Um efeito colateral do conflito poderá ser o apressamento da emergência de uma nova ordem mundial, alternativa à ordem atual centrada no poder econômico e militar dos Estados Unidos e no uso do dólar americano como moeda internacional.
As sanções econômicas à Rússia, ao que tudo indica, serão duradouras e tenderão a cortar os laços econômicos entre a Rússia e o mundo euro-atlântico. Esse movimento será complementado por uma aproximação maior entre a Rússia e a China, na medida em que empresas chinesas preencherão o vazio deixado pelo êxodo do Ocidente. A China, por seu turno, precisará diminuir a dependência dos sistemas de pagamento controlados pelos Estados Unidos e acelerar o processo de internacionalização do renminbi para dar liquidez a esses novos mercados.
O dólar americano, por seu turno, continuará ter o papel preponderante na economia mundial por muitas décadas. A parcela do dólar nas reservas dos bancos centrais perdeu 12 pontos percentuais, entre 1999 e 2021, caindo de 71%, em 1999, para 59% no ano passado, mas ainda assim é expressiva. No período de 1999-2019, o dólar foi responsável por 96% do faturamento do comércio internacional nas Américas, 74% na região da Ásia-Pacífico, e 79% no resto do mundo.
Fonte: https://www.federalreserve.gov/econres/notes/feds-notes/the- international-role-of-the-u-s-dollar-20211006.htm
Tudo isso aponta para a consolidação de dois sistemas internacionais de pagamentos paralelos: um centrado no dólar com as transações sendo realizadas pelos sistemas, CHIPS, um clube privado de instituições financeiras com 43 membros, e o SWIFT (Sociedade Cooperativa de Telecomunicações Financeiras Internacionais), que atualmente reúne 11 mil bancos, ambos com seus centros de dados nos Estados Unidos, respectivamente na Virgínia e em Nova York; outro centrado no renminbi – o CIPS – sistema que liquida transações internacionais em yuans e pode potencialmente administrar seu próprio sistema de mensagens, embora hoje utilize o SWIFT como seu canal de comunicação.
O CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) foi criado em outubro de 2015 para fornecer um sistema internacional de pagamento internacional e compensação de yuans conectando os mercados de compensação onshore e offshore e bancos participantes. Com base no centro financeiro de Xangai, o CIPS é supervisionado pelo Banco do Povo, o banco central da China. O China National Clearing Centre, afiliado ao Banco do Povo é o maior acionista, com 15,7% das ações. A National Association of Financial Market Institutional Investors, a Shanghai Gold Exchange, China Banknote Printing and Minting Corporation and China Union Pay têm, cada uma, 7,85%. Bancos estrangeiros também têm ações no CIPS: o HSBC Holdings tem 3,92% das ações, o Standard Chartered, 2,36% e o Bank of East Asia, 1,18% das ações. Em janeiro de 2022, o sistema tinha 1280 usuários localizados em 103 países, incluindo 75 bancos diretamente participantes (SCMP, 28/02/2022).
Embora a participação da moeda chinesa, o yuan, no portfólio de reservas internacionais no mundo seja, ainda, relativamente pequena – no quarto trimestre de 2021 chegou a US$ 336,1 bilhões, equivalente a 2,79% das reservas internacionais – a tendência é que adquira um papel mais relevante nos próximos anos. Nos próximos 10 a 20 anos, possibilidade maior é que o dólar, o euro e o yuan formem o top 3 das moedas internacionais. Razões para isso não faltam. O número de países que têm a China como o principal parceiro comercial já é maior do que os que têm os Estados Unidos como primeiro parceiro. Antes de 2000, os EUA estavam no comando do comércio global, já que mais de 80% dos países negociavam com os EUA mais do que com a China. Em 2018, esse número caiu drasticamente para apenas 30%, já que a China rapidamente assumiu a primeira posição em 128 dos 190 países. Ao fazer acordos de troca de moedas com muitos desses parceiros, a China vai impulsionar a internacionalização do yuan e, ao mesmo tempo, reduzir a necessidade do uso do dólar em suas operações de comércio internacional.
Outro fator a ser considerado é a Iniciativa Cinturão e Rota. Desde o início do projeto, em 2013, a China já ofereceu mais de US$ 1 trilhão em financiamentos em obras de infraestrutura para dezenas de países que aderiram ao projeto. Além dos fluxos de capital para o financiamento das obras pelos bancos chineses, a construção de novas rodovias e portos no exterior também visa à criação de novos mercados e rotas comerciais para produtos chineses na Ásia e outras partes do mundo, assim como para a importação de alimentos e outras commodities minerais e agrícolas demandadas pela economia chinesa. Parte desse comércio será feito diretamente em yuans por meio de acordos de troca de moedas dispensando a intermediação do dólar.
Além do CIPS, a Rússia desenvolveu, em 2019, seu próprio sistema, denominado SPFS (Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras). Mas só capta cerca de 20% das transações nacionais e permite operações com antigos países da ex-União Soviética. Somente um banco chinês, o Bank of China, integrou-se ao SPFS (Valor, 02/03/2022).
Os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) também iniciaram discussões sobre a criação de um sistema unificado de pagamento do grupo. Os países do Brics respondem por 18% do comércio global e 25% dos investimentos diretos estrangeiros, nomeadamente a China. Com a eclosão da guerra na Ucrânia, as discussões foram temporariamente paralisadas por receio de que tal iniciativa fosse interpretada como uma maneira de ajudar a Rússia, o que poderia prejudicar as empresas participantes do bloco, mas certamente será retomada em algum momento no futuro próximo.
Entre as sanções impostas pelos Estados Unidos à Rússia, com o apoio de seus aliados da Otan, o congelamento de US$ 403 bilhões dos seus US$ 630 bilhões de reservas cambiais aplicadas em ativos estrangeiros foi a mais drástica. Isso fez acender o sinal de alerta não só para a China, que possuía, em janeiro, US$ 3,22 trilhões em reservas, sendo 1/3 em Títulos do Tesouro dos Estados Unidos, mas para todos os países que mantém suas reservas em dólares.
De repente, uma série de países, classificados como autocracias pelos Estados Unidos, que detêm cerca de metade dos US$ 20 trilhões de reservas cambiais hoje existentes no mundo, deram-se conta que, de um dia para o outro, podem ficar sem acesso a boa parte de seus recursos, caso os Estados Unidos resolvam puni-los por qualquer razão e contem para isso com o apoio de seus aliados europeus, como ocorreu agora no caso da Rússia.
Pode-se alegar que o caso da Rússia foi uma situação extrema e que dificilmente os Estados Unidos teriam o apoio dos países europeus para impor sanções de tal amplitude sobre outros países, nomeadamente a China. Mas mesmo agindo isoladamente os Estados Unidos têm um enorme poder de fogo por ser o emissor da principal moeda internacional, o dólar americano. Da mesma forma a exclusão parcial dos bancos russos do sistema SWIFT fez, não só a China, mas outros países se darem conta de que poderão de um dia para o outro ficar sem acesso a esse importante sistema de transferência de pagamentos, inviabilizando suas operações de comércio e investimento internacionais.
Passado esse momento crítico da guerra na Ucrânia, que ninguém sabe quando e como irá acabar, certamente muitas iniciativas que já estavam em curso no período anterior à guerra, com o objetivo de criar acordos e instituições internacionais desvinculadas do dólar americano e das instituições controladas pelos Estados Unidos, ganharão novo impulso. Da mesma forma que a pandemia da Covid-19 levou muitos países a reavaliarem sua extrema dependência das cadeias globais de suprimento centradas na China, a guerra na Ucrânia levará a China e outros países não alinhados aos Estados Unidos a repensarem sua extrema dependência em relação ao sistema financeiro internacional centrado nos Estados Unidos e no dólar americano.
Não é de hoje que os Estados Unidos vêm usando sua moeda como arma de guerra. Exemplo disso foi a prisão, no Canadá, da diretora financeira da empresa chinesa de telecomunicações Huawei, sob a acusação de uma subsidiária da empresa, a Skycom, com sede em Hong Kong, ter feito negócios com o Irã utilizando o sistema de compensação baseado nos Estados Unidos. Conforme informa o blog da Bloomberg, “na batalha judicial canadense para impedir a extradição para os Estados Unidos da diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, a empresa chinesa questionou a decisão do HSBC de processar US$ 100 milhões em transações da Skycom em Nova York. A Huawei argumentou que, como o HSBC sabia de seus vínculos com a Skycom, uma parceira com sede em Hong Kong, que vendia equipamentos no Irã, deveria ter encaminhado os fundos por um sistema de compensação de dólares offshore menor na região administrativa especial chinesa – evitando, assim colocar o dinheiro em solo americano”.
Iniciativas de cooperação internacional fora do guarda-chuva norte-americano, como o BRICS, a ASEAN a Organização de Xangai ganhará novo impulso assim como as organizações de financiamento ligadas a elas como o Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como Banco dos BRICS, e o Banco Asiático para Investimento e Infraestrutura (AIIB). Iniciativas de cooperação internacional criadas pela China, como a Iniciativa Cintura e Rota, também conhecida como Nova Rota da Sede, e a recentíssima proposta chinesa denominada Iniciativa Global para o Desenvolvimento (Global Development Initiative) tenderão a atrair um número crescente de países. Ao mesmo tempo, fóruns comandados pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, como o G20, tenderão a se esvaziar. Difícil imaginar Joe Biden e Wladimir Putin saindo na mesma foto e se apertando as mãos. É difícil, no momento, em plena evolução do conflito na Ucrânia, saber quais serão todos os desdobramentos geopolíticos e econômicos da guerra, mas é quase impossível o mundo voltar a ser o mesmo de antes.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
A “internacional financeira”
Por Eduardo Bomfim
No atual milênio, a concentração e centralização do capital financeiro especulativo atingiu tal dimensão e gigantismo, que este passou a controlar não apenas os fluxos globais das riquezas, mas, estendeu-se aos diversos segmentos vitais às identidades dos povos do mundo, investindo, em especial nas novas gerações, incentivando, maciçamente, no que Hobsbawm “profetizou” no final do século XX, como o “presente contínuo” em relação a essas novas gerações do futuro.
Ou seja, comunidades globais de pessoas, sem referências com o passado e sem perspectivas para com o futuro. Ao tempo em que essa nova etapa da globalização predadora e especulativa procurou preencher a grande lacuna de ausências de causas, projetos e ideias com relação ao indivíduo e ao coletivo social, com uma nova agenda dispersiva, fragmentária, com aquilo que se pode chamar de “políticas do próprio umbigo”, conhecidas como agendas identitárias.
Inaugurou-se assim, a nova “guerra cultural” entre uma nova “esquerda” e uma nova “direita” que se engalfinham em uma batalha de uma “nova ideologia” dissociada das grandes questões que afligem as grandes maiorias sociais ausentes desses debates, restritos ao mundo acadêmico, que passeiam nas comunidades acadêmicas, extratos da classe média e no mundo artístico, provocando um evidente distanciamento desses segmentos da realidade das nações.
Quem dita e financia esse pugilato ideológico é exatamente o capital financeiro especulativo, que impõe uma “contrarrevolução” de cima para baixo, cujo porta voz vem sendo a grande mídia hegemônica global, com as suas pautas interagindo com as redes sociais, também controladas por um ínfimo número de biliardários acima do controle de todos.
A luta do presente e futuro é e continuará sendo contra a brutal dominação desse capital financeiro, que reina olimpicamente no planeta, a grande mídia global a ele associada, e o monopólio de meia dúzia de poderosos que dominam o mundo das redes sociais.
O mundo em que vivemos, de ódios extremamente polarizado, irracional, e crescente, a falta de informações razoavelmente isentas na grande mídia, o tiroteio incessante nas redes sociais, provocam um total desconhecimento dos fenômenos nacionais e globais, resultam em sociedades confusas, angustiadas, depressivas, incapazes de formar uma ideia em comum do contexto de suas vidas e da sociedade. É o que nós presenciamos também no Brasil do terraplanismo, anti-ciência, e teses medievais, versus determinados setores progressistas desorientados.
A causa central desse imbróglio tem sido a “Internacional Financeira”, a grande mídia hegemônica global, e o mundo esquizofrênico das redes sociais, que nós frequentamos e que nos manipulam sistematicamente. Será uma longa batalha pela lucidez dos indivíduos e das sociedades.
terça-feira, 24 de agosto de 2021
O construtor do Brasil moderno
Por Eduardo Bomfim
Hoje, 24 de agosto, são passados 67 anos do suicídio de Getúlio Vargas, construtor do Brasil moderno.
Getúlio Vargas criou a Petrobrás, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce, a Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Criou a Consolidação das Leis do Trabalho, com a implantação, dentre outros direitos trabalhistas, do salário mínimo e férias remuneradas. No seu governo foi implantado o voto feminino. Criou vários importantes ministérios, dentre eles o Ministério da Educação e Cultura.
Ao se suicidar, deixou sua Carta Testamento para o povo brasileiro:
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)
sábado, 3 de julho de 2021
O coveiro do presidente
Por Eduardo Bomfim
O assassinato do jovem presidente Kennedy provocou uma onda de consternação emocional no mundo, e nos Estados Unidos - a política é um jogo fundamental, mas pesado, em qualquer lugar do planeta.
O seu cortejo funerário teve a presença de centenas de políticos e estadistas de vários Países. Multidões se aglomeraram na rua, para ver passar o caixão do presidente, em uma carroça puxada por dois magníficos cavalos com uma guarda de honra de militares em trajes de gala.
Aglomerados em um local reservado, estavam mais de cinco mil jornalistas e fotógrafos para cobrir o evento.
Jimmy Breslin, um dos mais prestigiados jornalistas dos EUA, talentoso, polêmico e original, disse: tem alguns milhares de repórteres aglomerados no mesmo lugar, isso não vai dar para mim, todos vão escrever a mesma coisa sob o mesmo ângulo.
Breslin resolveu fazer algo original, como sempre fazia, resolveu rastrear o coveiro designado para abrir a cova de Kennedy.
Descobriu como fora o seu dia. Que acordou, como sempre, às 6h30, comeu ovos com bacon, com a sua esposa, pegou o ônibus rumo ao cemitério de Arlington onde iria exercer a sua profissão de toda a sua vida.
Clifton Pollard, humilde trabalhador negro, naquele domingo, já sabia que iria cavar a cova de Kennedy, recebendo 3 dólares por hora de serviço. Sem hora extra.
Vestiu o seu macacão cinza e tomou o seu destino, o cemitério. Ele não viu o cortejo e tinha gente demais no enterro, não conseguiu chegar perto do túmulo que cavara horas antes. Não tem problema, depois eu dou uma passada lá para ver como ficou.
Perguntado por Breslin sobre o túmulo de Kennedy que cavou, Pollard respondeu: foi uma honra.
A coluna diária de Jimmy Breslin era a mais lida dos Estados Unidos. Ele deu vida a um homem negro, pobre, anônimo, perdido na multidão dos ignorados e esquecidos. O título dessa matéria de Breslin: “Foi uma honra”. Considerada como uma das obras primas do jornalismo norte-americano.
quarta-feira, 26 de maio de 2021
Importância e atualidade de Ortega y Gasset
Artigo de Francisco Afonso Pereira Torres, publicado no portal Bonifácio
Em tempos de pós-verdades, resgatar as ideias e o pensamento de Ortega y Gasset impõe-se como imperativo. Nos dias de hoje, como nos dias que antecederam o surgimento do fascismo e do totalitarismo na Europa, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O fascismo e o totalitarismo europeu utilizaram-se amplamente dos novos meios de comunicação em massa de sua época (sobretudo o rádio) para difundir as suas ideias e pós-verdades. Hitler e Mussolini provavelmente não teriam chegado ao poder não fosse a potência e o alcance inédito que o rádio e as transmissões por radiodifusão haviam atingido, durante aquela época. Nos dias de hoje, são as novas mídias da internet (WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube, etc.) os principais canais difusores de ideologias e pós-verdades. Compreender o impacto dessa nova e inexorável realidade em nossas vidas, em nossa democracia e nas sociedades em que vivemos constitui tarefa primordial dos tempos atuais. Em 1929, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreveu em seu livro “Rebelião das Massas”, com exatidão ímpar, o impacto que os novos meios de comunicação viriam a ter em nossas sociedades. Alertou-nos para seus efeitos deletérios. Ortega y Gasset previu o cataclismo que se abalaria sobre a Europa e sobre o mundo. Suas palavras e, sobretudo, seu alerta são mais atuais hoje do que nunca.
O filósofo espanhol Ortega y Gasset antecipou o risco da manipulação das massas.
Em 1936, dezenas de milhares de cartazes apareceram, em praticamente todas as cidades alemãs. Em seu texto, publicado sobre uma foto de um gigantesco aparelho de rádio no meio de uma multidão, lia-se: “Ganz Deutschland hört den Führer” (“Toda a Alemanha escuta o Líder”). O cartaz anunciava uma invenção que iria transformar a Europa, o WhatsApp de outrora. O chamado “Rádio do Povo”, ou “Volksempfänger”, era um aparelho de rádio, desenvolvido pelo engenheiro Otto Griessing, a pedido de Joseph Goebbels, o ministro de Propaganda do regime nazista. Apresentado ao público alemão pela primeira vez em 1933, durante a 10º Grande Feira Internacional do Rádio de Berlin (“10º Große Deutsche Funkausstellung”), o novo equipamento permitia, a um custo extremamente acessível, de 35 marcos (o equivalente a um quarto do salário mínimo da época), pagos em suaves prestações, a recepção de estações de rádio selecionadas, todas alemãs. O objetivo estratégico da produção e distribuição em massa do “Rádio do Povo” era evidente: permitir ao regime nazista controlar, com punhos de ferro, a máquina mais poderosa, e mortal, de comunicação em massas já criada até então.
Estima-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 80 milhões de pessoas escutassem diariamente transmissões de rádios nazistas, por meio de equipamentos do tipo “Rádio do Povo”.
Para efeitos de comparação, a população total da Alemanha atualmente é de 83 milhões de pessoas.
As “lives” do nazismo, realizadas em tom dramático pelo ”Führer”, chegavam às salas de praticamente todos os cidadãos, além de serem escutadas, ao vivo, em alto-falantes instalados, de modo estratégico, em ruas, estações de trem e de metro, rodoviárias, terminais portuários, escolas, hospitais, ginásios, e demais prédios públicos. Joseph Goebbels considerava, não sem razão, o sucesso do programa industrial de fabricação e distribuição de aparelhos de rádio essencial para seu infame programa de “propaganda”.
Durante o julgamento dos crimes nazistas, nos famosos Processos de Guerra de Nuremberg, Albert Speer, o então ministro de Armas e arquiteto do Reich, declarou, com sinceridade espantadora: “a ditadura de Hitler diferia em um aspecto fundamental de todas as suas precursoras na história. Foi a primeira ditadura durante o período moderno de desenvolvimento tecnológico, uma ditadura que se utilizou plenamente de todos os meios de dominação em seu país. Por intermédio de aparelhos tecnológicos, como o rádio e os alto-falantes, 80 milhões de pessoas foram privadas de qualquer pensamento independente. Era, assim, possível subjugá-las aos desígnios de um só homem (Hitler).”
Hitler construiu o nazismo manipulando as frustrações do povo alemão.
Como todo visionário e grande intelectual, Ortega y Gasset havia previsto o que poderia ocorrer e acabou ocorrendo. Para ele, não existem verdades eternas nem absolutas. O que há, sempre, são perspectivas, visões sobre a realidade. Segundo Ortega y Gasset, a vida humana e suas circunstâncias inexoráveis são a fonte do conhecimento e da verdade. ”Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”, afirmava. O perspectivismo do pensador espanhol nos leva à conclusão de que a verdade é produto de uma soma de perspectivas. Produto, portanto, de uma subjetividade. Há a verdade científica, a verdade acadêmica, a verdade da mídia, a verdade do sertanejo, a verdade de João, a verdade de Maria, a verdade do libertador, a verdade do revolucionário. E há a verdade do fascista, a verdade do opressor, a verdade do tirano, a verdade do déspota. Ou seja: as ideologias, sejam elas libertárias ou opressoras, criam suas próprias verdades. É o que chamamos de guerras de narrativas.
Para Ortega y Gasset a tarefa primordial é compor uma narrativa que corresponda aos anseios moralmente mais nobres da humanidade, uma narrativa que nos liberte ao invés de uma narrativa que nos destrua. O filósofo espanhol havia presenciado os horrores da primeira guerra mundial, a barbárie que se abatera sobre a Europa. E presenciaria também, estupefato, o surgimento do fascismo, que levaria a Europa novamente à destruição completa.
Sendo a verdade um produto humano, derivado da inexorabilidade de nossas circunstâncias, como teria sido possível que as massas da Europa, milhões e milhões de “cidadãos de bem”, tivessem permitido e viabilizado a ascensão do fascismo e toda a destruição que representava, questionava Ortega y Gasset. Se a humanidade tem a prerrogativa de escolher entre a vida e a morte, entre a liberdade e a destruição, entre o amor e o ódio, como teria sido possível que a morte, a destruição e o ódio tivessem prevalecido?
O nazismo fez do rádio o grande instrumento de manipulação e propaganda de sua era.
A resposta visionária de Ortega y Gasset: foi o “Rádio do Povo”, foi o WhatsApp da época, foram os novos meios de comunicação em massa. Os fascistas souberam utilizar esses novos meios para criar sua narrativa, para difundir suas pós-verdades. Os humanistas, os libertários, por outro lado, não souberam se utilizar de todo o seu potencial, com o mesmo sucesso. Permaneceram presos ao passado, escrevendo livros e panfletos que ninguém mais lia, em tempos do rádio e das comunicações em massa, muito mais atraentes e dinâmicas. Desse modo, a narrativa fascista tornou-se preponderante em alguns importantes países como a Alemanha, a Itália, e a Espanha. Conquistou, nesses países, os corações e as mentes de grande parte dos cidadãos, o “homem-massa”, aquela multidão de idiotas-úteis que levaram o fascismo ao poder, por omissão ou por conveniência.
A lição de Ortega y Gasset parece clara: não basta que alguém considere suas ideias superiores. É necessário convencer as pessoas sobre tal superioridade. É imperativo vencer a guerra de narrativas, conquistar as mentes e os corações do “homem-massa”. Somente dessa maneira uma ideia pode triunfar. Somente desse modo os ideais de liberdade, justiça social, soberania, tolerância e democracia podem prevalecer. Caso contrário, prevalecerão os ideais de submissão, privilégios, exclusão social, intolerância e ditadura. Como, de fato, prevaleceram, na Europa que Ortega y Gasset viu desmoronar, pela segunda vez.
No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 devem servir como lição e como alerta. As “fake news”, os disparos em massa de mensagens em grupos de WhatsApp e páginas de facebook (pagos por quem?), as narrativas de ódio, os discursos negacionistas, as teorias conspiratórias, o fanatismo religioso, as doutrinas autoritárias acabaram tendo alcance muito maior que outros discursos, de teor humanista, moderado, secular, democrático, libertário. Em 2018, o ódio venceu a esperança. O ódio logrou propagar-se, com muito mais vigor, pelas searas ainda pouco compreendidas dos novos meios de comunicação em massa do século XXI.
Para que a esperança possa triunfar novamente sobre o ódio, será necessário aprender a lição de Ortega y Gasset. Não basta ter uma verdade moralmente superior. Faz-se imperativo ganhar a guerra de narrativas e convencer o “homem-massa” da superioridade moral da visão humanista e democrática. Pois os novos meios de comunicação em massa de hoje vieram para ficar, como o rádio, na década de 1930. Hoje, como outrora, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.
O fascismo acabou sendo derrotado. Em parte pelo enorme sucesso de um outro meio de comunicação em massa que viria a se revelar ainda mais poderoso que o rádio: o cinema. Assim como o nazismo havia criado a “Rádio do Povo”, Hollywood foi além: criou o cinema para as massas, as megaproduções cinematográficas, glamorosas e atraentes, que combatiam o nazismo e o totalitarismo fascista.
Distribuindo fake news pelo WhatsApp, os manipuladores contemporâneos constroem suas pós-verdades.
Ortega y Gasset nos ensinou que a verdade é, sempre, produto de perspectivas, de visões sobre a realidade, das nossas circunstâncias. Nos ensinou, ademais, que o “homem-massa”, em sua soberba simplória e totalitária, é suscetível a qualquer discurso, inclusive o discurso de ódio, o discurso fascista. Cabe aos humanistas, aos democratas e aos patriotas de hoje aprender a lição eterna do grande mestre espanhol: a guerra pela democracia, a guerra pela justiça social, a guerra pela tolerância e pela soberania nacional somente será ganha se ganharmos também a guerra das narrativas, utilizando, para tal finalidade, todo o potencial dos novos meios de comunicação em massa. Hoje, mais do que nunca, o alerta de Ortega y Gasset é essencial: “El pasado no nos dirá lo que debemos hacer, pero sí lo que deberíamos evitar”.
Em tempos de pós-verdades, resgatar as ideias e o pensamento de Ortega y Gasset impõe-se como imperativo. Nos dias de hoje, como nos dias que antecederam o surgimento do fascismo e do totalitarismo na Europa, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O fascismo e o totalitarismo europeu utilizaram-se amplamente dos novos meios de comunicação em massa de sua época (sobretudo o rádio) para difundir as suas ideias e pós-verdades. Hitler e Mussolini provavelmente não teriam chegado ao poder não fosse a potência e o alcance inédito que o rádio e as transmissões por radiodifusão haviam atingido, durante aquela época. Nos dias de hoje, são as novas mídias da internet (WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube, etc.) os principais canais difusores de ideologias e pós-verdades. Compreender o impacto dessa nova e inexorável realidade em nossas vidas, em nossa democracia e nas sociedades em que vivemos constitui tarefa primordial dos tempos atuais. Em 1929, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreveu em seu livro “Rebelião das Massas”, com exatidão ímpar, o impacto que os novos meios de comunicação viriam a ter em nossas sociedades. Alertou-nos para seus efeitos deletérios. Ortega y Gasset previu o cataclismo que se abalaria sobre a Europa e sobre o mundo. Suas palavras e, sobretudo, seu alerta são mais atuais hoje do que nunca.
O filósofo espanhol Ortega y Gasset antecipou o risco da manipulação das massas.
Em 1936, dezenas de milhares de cartazes apareceram, em praticamente todas as cidades alemãs. Em seu texto, publicado sobre uma foto de um gigantesco aparelho de rádio no meio de uma multidão, lia-se: “Ganz Deutschland hört den Führer” (“Toda a Alemanha escuta o Líder”). O cartaz anunciava uma invenção que iria transformar a Europa, o WhatsApp de outrora. O chamado “Rádio do Povo”, ou “Volksempfänger”, era um aparelho de rádio, desenvolvido pelo engenheiro Otto Griessing, a pedido de Joseph Goebbels, o ministro de Propaganda do regime nazista. Apresentado ao público alemão pela primeira vez em 1933, durante a 10º Grande Feira Internacional do Rádio de Berlin (“10º Große Deutsche Funkausstellung”), o novo equipamento permitia, a um custo extremamente acessível, de 35 marcos (o equivalente a um quarto do salário mínimo da época), pagos em suaves prestações, a recepção de estações de rádio selecionadas, todas alemãs. O objetivo estratégico da produção e distribuição em massa do “Rádio do Povo” era evidente: permitir ao regime nazista controlar, com punhos de ferro, a máquina mais poderosa, e mortal, de comunicação em massas já criada até então.
Estima-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 80 milhões de pessoas escutassem diariamente transmissões de rádios nazistas, por meio de equipamentos do tipo “Rádio do Povo”.
Para efeitos de comparação, a população total da Alemanha atualmente é de 83 milhões de pessoas.
As “lives” do nazismo, realizadas em tom dramático pelo ”Führer”, chegavam às salas de praticamente todos os cidadãos, além de serem escutadas, ao vivo, em alto-falantes instalados, de modo estratégico, em ruas, estações de trem e de metro, rodoviárias, terminais portuários, escolas, hospitais, ginásios, e demais prédios públicos. Joseph Goebbels considerava, não sem razão, o sucesso do programa industrial de fabricação e distribuição de aparelhos de rádio essencial para seu infame programa de “propaganda”.
Durante o julgamento dos crimes nazistas, nos famosos Processos de Guerra de Nuremberg, Albert Speer, o então ministro de Armas e arquiteto do Reich, declarou, com sinceridade espantadora: “a ditadura de Hitler diferia em um aspecto fundamental de todas as suas precursoras na história. Foi a primeira ditadura durante o período moderno de desenvolvimento tecnológico, uma ditadura que se utilizou plenamente de todos os meios de dominação em seu país. Por intermédio de aparelhos tecnológicos, como o rádio e os alto-falantes, 80 milhões de pessoas foram privadas de qualquer pensamento independente. Era, assim, possível subjugá-las aos desígnios de um só homem (Hitler).”
Hitler construiu o nazismo manipulando as frustrações do povo alemão.
Como todo visionário e grande intelectual, Ortega y Gasset havia previsto o que poderia ocorrer e acabou ocorrendo. Para ele, não existem verdades eternas nem absolutas. O que há, sempre, são perspectivas, visões sobre a realidade. Segundo Ortega y Gasset, a vida humana e suas circunstâncias inexoráveis são a fonte do conhecimento e da verdade. ”Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”, afirmava. O perspectivismo do pensador espanhol nos leva à conclusão de que a verdade é produto de uma soma de perspectivas. Produto, portanto, de uma subjetividade. Há a verdade científica, a verdade acadêmica, a verdade da mídia, a verdade do sertanejo, a verdade de João, a verdade de Maria, a verdade do libertador, a verdade do revolucionário. E há a verdade do fascista, a verdade do opressor, a verdade do tirano, a verdade do déspota. Ou seja: as ideologias, sejam elas libertárias ou opressoras, criam suas próprias verdades. É o que chamamos de guerras de narrativas.
Para Ortega y Gasset a tarefa primordial é compor uma narrativa que corresponda aos anseios moralmente mais nobres da humanidade, uma narrativa que nos liberte ao invés de uma narrativa que nos destrua. O filósofo espanhol havia presenciado os horrores da primeira guerra mundial, a barbárie que se abatera sobre a Europa. E presenciaria também, estupefato, o surgimento do fascismo, que levaria a Europa novamente à destruição completa.
Sendo a verdade um produto humano, derivado da inexorabilidade de nossas circunstâncias, como teria sido possível que as massas da Europa, milhões e milhões de “cidadãos de bem”, tivessem permitido e viabilizado a ascensão do fascismo e toda a destruição que representava, questionava Ortega y Gasset. Se a humanidade tem a prerrogativa de escolher entre a vida e a morte, entre a liberdade e a destruição, entre o amor e o ódio, como teria sido possível que a morte, a destruição e o ódio tivessem prevalecido?
O nazismo fez do rádio o grande instrumento de manipulação e propaganda de sua era.
A resposta visionária de Ortega y Gasset: foi o “Rádio do Povo”, foi o WhatsApp da época, foram os novos meios de comunicação em massa. Os fascistas souberam utilizar esses novos meios para criar sua narrativa, para difundir suas pós-verdades. Os humanistas, os libertários, por outro lado, não souberam se utilizar de todo o seu potencial, com o mesmo sucesso. Permaneceram presos ao passado, escrevendo livros e panfletos que ninguém mais lia, em tempos do rádio e das comunicações em massa, muito mais atraentes e dinâmicas. Desse modo, a narrativa fascista tornou-se preponderante em alguns importantes países como a Alemanha, a Itália, e a Espanha. Conquistou, nesses países, os corações e as mentes de grande parte dos cidadãos, o “homem-massa”, aquela multidão de idiotas-úteis que levaram o fascismo ao poder, por omissão ou por conveniência.
A lição de Ortega y Gasset parece clara: não basta que alguém considere suas ideias superiores. É necessário convencer as pessoas sobre tal superioridade. É imperativo vencer a guerra de narrativas, conquistar as mentes e os corações do “homem-massa”. Somente dessa maneira uma ideia pode triunfar. Somente desse modo os ideais de liberdade, justiça social, soberania, tolerância e democracia podem prevalecer. Caso contrário, prevalecerão os ideais de submissão, privilégios, exclusão social, intolerância e ditadura. Como, de fato, prevaleceram, na Europa que Ortega y Gasset viu desmoronar, pela segunda vez.
No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 devem servir como lição e como alerta. As “fake news”, os disparos em massa de mensagens em grupos de WhatsApp e páginas de facebook (pagos por quem?), as narrativas de ódio, os discursos negacionistas, as teorias conspiratórias, o fanatismo religioso, as doutrinas autoritárias acabaram tendo alcance muito maior que outros discursos, de teor humanista, moderado, secular, democrático, libertário. Em 2018, o ódio venceu a esperança. O ódio logrou propagar-se, com muito mais vigor, pelas searas ainda pouco compreendidas dos novos meios de comunicação em massa do século XXI.
Para que a esperança possa triunfar novamente sobre o ódio, será necessário aprender a lição de Ortega y Gasset. Não basta ter uma verdade moralmente superior. Faz-se imperativo ganhar a guerra de narrativas e convencer o “homem-massa” da superioridade moral da visão humanista e democrática. Pois os novos meios de comunicação em massa de hoje vieram para ficar, como o rádio, na década de 1930. Hoje, como outrora, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.
O fascismo acabou sendo derrotado. Em parte pelo enorme sucesso de um outro meio de comunicação em massa que viria a se revelar ainda mais poderoso que o rádio: o cinema. Assim como o nazismo havia criado a “Rádio do Povo”, Hollywood foi além: criou o cinema para as massas, as megaproduções cinematográficas, glamorosas e atraentes, que combatiam o nazismo e o totalitarismo fascista.
Distribuindo fake news pelo WhatsApp, os manipuladores contemporâneos constroem suas pós-verdades.
Ortega y Gasset nos ensinou que a verdade é, sempre, produto de perspectivas, de visões sobre a realidade, das nossas circunstâncias. Nos ensinou, ademais, que o “homem-massa”, em sua soberba simplória e totalitária, é suscetível a qualquer discurso, inclusive o discurso de ódio, o discurso fascista. Cabe aos humanistas, aos democratas e aos patriotas de hoje aprender a lição eterna do grande mestre espanhol: a guerra pela democracia, a guerra pela justiça social, a guerra pela tolerância e pela soberania nacional somente será ganha se ganharmos também a guerra das narrativas, utilizando, para tal finalidade, todo o potencial dos novos meios de comunicação em massa. Hoje, mais do que nunca, o alerta de Ortega y Gasset é essencial: “El pasado no nos dirá lo que debemos hacer, pero sí lo que deberíamos evitar”.
domingo, 21 de fevereiro de 2021
A crise da pandemia, da democracia, e o capital rentista
Eduardo Bomfim
Por acaso, ou nem tanto, a pandemia global do corona vírus aconteceu no auge das desregulamentações dos parques produtivos das nações, através do conceito da divisão excessiva da produção internacional dos bens industriais em todas as áreas, incluindo também a dos fármacos.
Durante décadas, agravado imensamente no segundo milênio, os Países foram sucateando as suas capacidades industriais próprias e aumentando a sua dependência produtiva, através da escala da divisão internacional dos bens fabricados em diversas partes do mundo.
Essa divisão global da produção, em todos os níveis, gerou a inevitável dependência, a perda de autonomia, da grande maioria dos Países do mundo.
Os mais pobres, continuaram bem mais pobres, exportando matéria prima, apesar da falsa sensação de inseridos nesse mundo interconectado pela revolução digital, com seus celulares de última geração, da internet.
Mas, a grande perda de oferta de trabalho deu-se exatamente nos Países mais “ricos”.
Neles, veio crescendo, há um bom tempo, entre os diversos tipos de assalariados industriais, o sentimento de revolta associado ao desemprego estrutural, agravado, agora, enormemente com as consequências da pandemia sanitária mundial.
A queda vertiginosa da economia industrial, com os efeitos do corona vírus, tem sido um novo pretexto para o falso argumento de uma nova reestruturação dos parques produtivos em escala mundial. Perdem as nações, mas especialmente os trabalhadores, que vão conviver com uma nova onda de desemprego em escala colossal.
E os Países vão se defrontar com uma etapa de dependência produtiva superior à anterior.
A perda relativa da “importância” das democracias
Com essa desregulamentação global das cadeias produtivas, surgiu outro fenômeno igualmente grave, através da hegemonia absoluta do grande capital financeiro internacional, especialmente o rentismo especulativo, que cresce na medida em que os Países afundam, inclusive na pandemia sanitária global. Nesse cenário, o gigantismo do capital financeiro assomou o protagonismo dos rumos na política entre as nações.
De tal sorte que propagam a ineficiência, ou inutilidade, das coisas da vida política e institucional, uma falsa premissa. Assim quem se candidata a um cargo eletivo, em todas as instâncias, com raras exceções, na verdade, faz um concurso de cartas marcadas para um emprego de grandes privilégios e altas remunerações, gestor de má influência nas coisas do Estado.
A grande mídia hegemônica mundial ajudou a propagar semelhante visão errática, nociva e, aliás, extremamente perigosa, e na verdade contra a democracia. Ela serve ao discurso da financeirização global. Um poder tão gigantesco que alguns chamam de “Governança Mundial” do capital financeiro.
A pandemia expôs as fraturas expostas desse sistema
No inicio da pandemia do corona vírus, faltaram respiradores, seringas e outros produtos fundamentais para minimizar a demanda de doentes para os hospitais. Atualmente, faltam vacinas para atender a população mundial, enquanto alguns poucos compraram imunizantes que dão para vacinar quatro vezes as suas populações, alerta o presidente da OMS.
De outro lado, na ausência de projetos coletivos que digam respeito ao presente e futuro econômico e social das sociedades, incluindo os direitos individuais, introduziram-se as agendas que visam unicamente a fratura das sociedades, por mais que algumas delas sejam auto justificáveis, como a luta contra o racismo, direito das minorias, a luta pelos direitos das mulheres, a ambiental etc.
Mas como diz o ditado popular: é no detalhe que mora o Diabo. Porque semelhantes agendas transformaram-se no alfa e o ômega de todas as questões essenciais de boa parte da humanidade. Ao tempo que insuflaram a polarização de forças reacionárias extremamente contrárias a essa agenda de gênero, raça etc., constituindo assim a “pauta das pautas” no cotidiano das sociedades.
Enquanto isso, as nações estão vivendo a maior tragédia dos últimos cem anos com a pandemia sanitária, agravada por uma crise crônica e estrutural na economia, do desemprego, quase um Amargedon social.
Com a desindustrialização programada dos Países, que já vem há décadas, agravada pela crise sanitária global, e o fim de um falso presente contínuo do consumo, como um ideal, uma profusão de teses unicamente individualistas, sem correlação com a solidariedade coletiva, eclodiu uma crise de insatisfação generalizada nas sociedades, de caráter desorientador, psicológico, mental, e acima de tudo a sensação de um futuro sombrio, sem luzes à vista.
Essa é a explicação do surgimento do fenômeno Trump, Bolsonaro, e outros em menor evidência. A quebradeira geral do setor de serviços, que mais sofreu com a pandemia, pôs abaixo a máxima de que o mundo entrara na era dos serviços em substituição aos processos industriais, que iria realocar a massa salarial expulsa pela desindustrialização.
Os países que não aceitaram destruir as suas cadeias produtivas, estão à frente na economia e nessa pandemia, exportando produtos essenciais e insumos para vacinas, não importa a forma de governo: China, Rússia, a Índia, na área da biotecnologia etc.
O caos e a regressão científica e tecnológica, industrial, é de tal monta que ressurgiram teses da Idade Média, como o terraplanismo, as campanhas contra as vacinas que salvaram centenas de milhões de pessoas e livraram a humanidade de pandemias terríveis.
O Brasil é um exemplo dramático de tantos desatinos, erros, polarizações dissociadas das questões centrais da nossa realidade etc. Se fossemos fazer uma analogia literária do governo Bolsonaro, poderíamos lembrar o nosso grande Machado de Assis em seu formidável conto: O alienista. A sua responsabilidade para com o desastre atual no Brasil é trágica. Enquanto o senhor Paulo Guedes insiste em uma política econômica que afunda a humanidade, e que imobiliza, destrói, a economia da nação.
No entanto, a desorientação política, de rumos e projetos para o Brasil, é generalizada e acolhe quase todos os quadrantes ideológicos no País, inclusive em setores da chamada “nova esquerda”. A batalha de “ideias” é travada em “bolhas” de redes sociais, mediada pela grande mídia hegemônica, associada ao capital financeiro, e à sua Governança Mundial, como afirmam muitos.
O sistema montado pelo capital financeiro global é absolutamente insustentável, e o rentismo financeiro predador pode ser comparável às sete pragas do Egito, como narra a Bíblia.
Estamos em um período, portanto, em que o neoliberalismo financeiro se encontra completamente esgotado como sistema. O certo é que vamos no caminho de uma transição ao multilateralismo econômico, financeiro, social, político e soberano, reconstruindo cadeias produtivas econômicas destroçadas, inclusive no Brasil. Mas será um período de tempestades geopolíticas, sociais, nacionais, e viragens políticas imprevisíveis.
O Brasil, em algum momento, precisa encontrar o seu próprio rumo nessa época turbulenta. Para isso, o País detém um dos maiores ativos territoriais, populacionais, ambientais, de imensas riquezas em geral, como poucas nações do planeta. Falta-nos o rumo, o projeto, a causa. E lideranças, hoje, escassas.
domingo, 20 de dezembro de 2020
O relatório Guterres
Eduardo Bomfim
O secretário-geral das Nações Unidas (ONU) António Guterres, apresentou um relatório alertando que o mundo pós pandemia do corona vírus vai estar sob a maior recessão econômica desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Com as inevitáveis consequências, nos planos das economias, sociais, financeiros e políticos dos Países. A pandemia sanitária global se revelou, na verdade, como um reagente químico e biológico, de uma realidade financeira que já se apresentava extremamente grave desde a crise econômica de 2008.
Uma crise sanitária global que, se não poderia ser evitada, ao menos tinha condições de ser minimizada em suas consequências, na saúde e na economia.
Mas a financeirização dos fluxos de capitais a nível mundial, não tem, ou a ela não interessa, vocação para o planejamento sobre os constantes e intensos movimentos de pessoas que existem hoje no planeta, relativos aos perigos de uma pandemia viral já prevista e anunciada. Não é da sua natureza prevenir semelhantes acontecimentos.
Quanto à capacidade de remediação de tragédias, que hoje vivemos, a globalização financeira já está buscando extrair ao máximo os lucros, tanto que os bancos estão obtendo lucros estratosféricos em plena pandemia, especialmente os especuladores financeiros, apesar da debacle da economia internacional.
Recente relatório sobre a economia europeia, feito pelos órgãos de Bruxelas, apontam que em meados dos anos oitenta, a Europa respondia por quase 25% da riqueza produzida no mundo. Hoje, essa riqueza produzida equivale a 12% do total global. Boa parte das economias das nações do velho continente vive de uma grande fatia do turismo.
A indústria, o setor de serviços, especialmente, se espatifaram nessa crise sanitária mundial. O setor aéreo desmoronou quase que completamente. A sua recuperação vai se dar através da concentração ainda maior de empresas e do desemprego massivo. Ou seja, mais do pior veneno possível.
Muitas empresas, de médio e pequeno porte, que mais empregam pessoas, jamais reabrirão as suas portas, em todo o mundo.
A guerra fria, que perdurou, praticamente, durante grande parte do século XX, foi substituída pelo multilateralismo geopolítico e econômico global. Novos atores entraram em cena, e outros lutam para se incorporar a esse novo cenário.
Mas a grande verdade é que sairemos dessa tragédia sanitária com uma concentração das riquezas ainda mais acentuada e uma taxa de desemprego global, praticamente, insuportável. Além da precarização da força de trabalho em escala gigantesca. E as disparidades regionais bem mais agravadas.
Esse não é um saldo da pandemia do corona vírus, mas o que a pandemia sanitária fez agravar, como um reagente químico, na política da governança hegemônica global, do capital financeiro especulativo.
De tal maneira tem sido a concentração, a centralização do capital especulativo em escala mundial, que ele passou a ditar as orientações políticas e ideológicas que circulam em larga escala, especialmente no chamado mundo ocidental.
A mídia ocidental de grande abrangência, transformou-se, como seria inevitável, em propulsora das ideologias difundidas por esse mesmo oligopólio dos megaespeculadores das finanças mundiais, que são, na verdade, um clube privado de reduzido número de sócios internacionais, onde se destacam figuras conhecidas como George Soros, por exemplo.
Como seria de esperar, nesse contexto de supremacia política do governo das finanças global, não se apresentam, às sociedades, as alternativas para as atuais disparidades que não param de crescer, ainda mais com a pandemia sanitária, já que ela se apresenta como uma grande oportunidade de se operar uma maior concentração do capital especulativo.
A Europa, por exemplo, vive uma situação inusitada. Com o declínio gradual, mas persistente, na produção das suas riquezas, como vimos acima, os governos e as cidades mais importantes do velho continente, resolveram investir em grandes infraestruturas para acolher e incentivar o turismo mundial.
Além disso, em virtude do crescente declínio demográfico, onde se destaca uma população geriátrica e uma taxa de natalidade cada vez mais reduzida, os Países europeus passaram a investir em uma força de trabalho imigrante, especialmente no setor de serviços e na agricultura, em menor grau na indústria, escassa.
Agora, as cidades turísticas europeias convivem com duas espécies de movimentos que se confrontam em pichações nas ruas: um que se diz à direita, em campanha aberta contra os imigrantes, e o outro, que se diz à esquerda, contra a presença massiva de turistas, porque afirmam que poluem o meio ambiente, na defesa de cidades sustentáveis.
Ora, com as populações cada vez mais envelhecidas, onde proliferam asilos de idosos, sem a renovação demográfica, porque escasseiam os nascimentos, e o declínio industrial, conforme os próprios relatórios dos órgãos oficiais europeus, o velho continente encontra-se em um paradoxo de narrativas políticas, culturais e ideológicas, sem solução.
Nesse caldo de cultura, não prosperam alternativas econômicas e sociais racionais, mas a xenofobia política, a intolerância e o sectarismo, facilitando o surgimento de organizações políticas extremadas que se digladiam e vão polarizando as sociedades rumo ao impasse em algum momento no futuro. Já assistimos a esse filme antes, na época que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.
Nos Estados Unidos, assistimos às recentes eleições presidenciais onde se confrontaram adeptos das teorias das conspirações, terraplanistas, inimigos da ciência, supremacistas brancos, combatentes contra o racismo, a intolerância sexual, ambientalistas, saudosistas do “passado glorioso” etc. etc.
Não prosperou nenhuma discussão relevante sobre como os EUA poderiam recompor a sua imensa capacidade industrial, sustar a crescente chaga social, a retomada da industrialização sob novas bases, com a atual multipolaridade geopolítica e econômica mundial.
É como se o grande País do Norte se negasse a enfrentar a nova realidade. Prevaleceu, assim, uma batalha de “narrativas culturais” distante das soluções fundamentais para o seu destino e o seu povo.
No Brasil, não tem sido diferente. As últimas eleições presidenciais resultaram em uma guerra “cultural” onde se confrontaram forças muito semelhantes às dos Estados Unidos, vencendo o presidente Bolsonaro.
Postado em uma linha cultural do medo contra as mudanças comportamentais, de gênero, misturando a negação contra a ciência, como a vacina, uma guerra ideológica do século passado, requentada, e que já não mais existe, além de um alinhamento aos EUA, e ao presidente Trump, como se os Estados Unidos fossem os Guardiões do Templo do mundo ocidental. Com a eleição de Biden, o governo federal se isolou do próprio Estados Unidos. Somos hoje uma nação sem boas relações geopolíticas e comerciais. É o isolacionismo como diplomacia de Estado.
Tudo isso resultou em um seguidismo unilateral à grande nação do norte, um descaso aos interesses brasileiros, um confronto frente os nossos principais parceiros comerciais. Um nonsense absoluto. A diplomacia brasileira, respeitada em todo o mundo, desde a época do Império, regrediu a patamares jamais existentes em época alguma.
O que não existe mesmo é uma discussão sobre um projeto de nação, sobre a retomada do crescimento econômico com bases em nossas imensas possibilidades e riquezas, na galvanização da sociedade com vistas à solução dos nossos desafios, investimentos pesados na infraestrutura, educação, ciência e tecnologia, superação das nossas trágicas desigualdades sociais. Já diz o ditado popular: em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.
O Brasil vai sair dessa atual pandemia com indicadores econômicos e sociais bem mais trágicos, com uma desorientação institucional imensa, isolado na diplomacia internacional, sem rumos e à deriva. É o relatório Gutierres à brasileira.
O que temos aqui é uma mistura de neoliberalismo extremado, um falso nacionalismo, associado a um liberalismo autoritário. Uma sociedade desconfiada, inquieta, desarmoniosa, indecisa. E acima de tudo, com um clima social imprevisível, em um futuro imediato, frente à tragédia do desemprego em massa, que ora já vivemos.
Enfim, como afirmou o cientista político e historiador camaronês Achille Mbembe: outro longo e mortal jogo começou. O principal choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações. Será entre a democracia e o neoliberalismo da especulação financeira. Entre o governo das finanças e o governo do povo. Entre o humanismo e o niilismo. E seria importante acrescentar: entre a soberania dos povos e das nações, contra a nova forma de expansionismo neocolonial, sob a égide do capital especulativo financeiro global.
sábado, 21 de novembro de 2020
Patrice Lumumba: 59 anos da morte de um dos maiores líderes pela independência nacional na África
Não há imperialismo bom e imperialismo mau, há o imperialismo.
Não há especulador financeiro bonzinho e especulador financeiro mau, há o rentismo predador.
Admirado e homenageado em todo o mundo pelos que lutam pela liberdade e soberania de seus povos e de sua pátria, o congolês Patrice Lumumba preso, torturado e assassinado há quase 60 anos, em 17 de janeiro de 1961, aos 35 anos, foi uma das principais lideranças pela libertação de suas nações do colonialismo na África e um dos primeiros chefes de estado pós-independência. Herói ao lado de Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel.
Desde muito jovem participou ativamente das lutas anti-colonialistas de sua terra, o Congo Belga. Depois de haver sido eleito presidente do Sindicato Independente dos Trabalhadores Congoleses, em 1958 fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), o maior partido nacionalista congolês e o único constituído em bases não tribais.
Em dezembro do mesmo ano, ao se pronunciar na primeira Conferência dos Povos Africanos, em Accra, capital da recém-independente Gana, como membro da delegação do MNC, destacou-se pela clareza com que defendeu as ideias pan-africanas de unidade contra o colonizador, juntando-se a outros líderes africanos que se destacavam na torrente com que o conjunto dos movimentos nacionais avançava para romper o jugo a que os países europeus haviam submetido o continente africano. Ao lado de Lumumba, Kwame Nkruma, da recém-liberta Gana, Tom Mboia, líder do Kenia; Sekou Touré, da Guiné; Julius Nyerere, da Tanzania.
Logo após seu retorno ao Congo, acelerou-se a luta pela independência, conquistada dois anos depois. Desde os primeiros passos em seu combate, o dirigente congolês visualizou a questão fundamental para a garantia da libertação nacional do colonialismo: a unidade da nação em formação, acima das disputas tribais. A concepção clara da dignidade nacional, da necessidade de cimentá-la acima das divisões étnicas e tribais, lhe valeu o ódio dos colonialistas e da casta dominante do imperialismo americano, que desejava substituí-lo.
A expressão que adquiriu com rapidez, o estímulo com que conduziu os demais na luta pela independência fez com que, nas negociações em Bruxelas, a delegação congolesa exigisse a sua presença. Lumumba se encontrava preso – acusado de incitar “a desobediência civil” durante as manifestações de massa pela independência em outubro de 1959 - e os belgas tiveram que tirá-lo da cadeia diretamente para o avião de onde ele iria dirigir o processo de libertação na sua fase final: as negociações em Bruxelas até a assinatura dos protocolos que especificavam a data para a entrega do poder a um governo congolês, que viria a ter Lumumba no comando, no posto de primeiro-ministro.
O seu discurso no dia da independência, 30 de junho de 1960, permanecerá nos anais da diplomacia mundial como uma peça oratória magnífica, em que o jovem dirigente africano, na presença do rei Balduíno, da Bélgica, e de outros dignitários estrangeiros, denunciou abertamente os crimes hediondos do colonialismo belga sobre o povo congolês e traçou as perspectivas do futuro Congo, liberto da dominação estrangeira.
Como primeiro-ministro foi um líder de grande estatura. Em seu discurso na abertura da Conferência Pan-africana realizada na capital de seu país, Leopoldville, em 25 de agosto de 1960, Lumumba defendeu a unidade e solidariedade dos países africanos em sua luta pela independência e sua consolidação como nações soberanas.
Em setembro desse mesmo ano Lumumba foi afastado pelo presidente Kasavubu, apoiado pelos Estados Unidos e por militares golpistas comandados por um certo coronel Mobutu. Em novembro é preso e, a 17 de janeiro de 1961, depois de meses de detenção ilegal, é barbaramente torturado e assassinado.
O próprio Senado dos Estados Unidos, que investigou as atividades dos serviços de “inteligência” norte-americanos, descobriu que a CIA organizou em agosto de 1960 - o Congo era independente há apenas dois meses! - uma conspiração com o “objetivo urgente e prioritário” de assassinar o primeiro-ministro congolês. Para Allen Dulles, o então diretor dos serviços secretos norte-americanos, Patrice Lumumba era “um perigo grave” a ser eliminado.
O afastamento de Lumumba da chefia do governo, sua prisão e seu assassinato foram o resultado conjugado dos interesses do colonialismo belga - que, apesar da independência do Congo, pretendia continuar a explorar a seu bel-prazer as riquezas do país - e da intervenção do imperialismo norte-americano, através da CIA - o jovem primeiro-ministro era considerado por Washington um “esquerdista”, simpatizante da União Soviética -, coniventes com setores da burguesia congolesa que não hesitaram em trair o seu povo e aliar-se à dominação estrangeira.
Já preso, poucos dias antes de seu assassinato, Lumumba escreveu uma carta de despedida à sua mulher Pauline, em que reafirma a sua confiança no futuro. São belas e comoventes, mas cheias de esperança, essas breves palavras, publicadas mais tarde pela revista “Jeune Afrique”:
“(…) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objetivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.
Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim, minha companheira, eu sei que o meu país, que sofre tanto, saberá defender a sua independência e a sua liberdade.
Viva o Congo! Viva a África!”.
Para os revolucionários do século XXI na África e em todo o mundo, que hoje continuam a lutar em condições diferenciadas contra a dominação imperialista e a exploração capitalista, Patrice Lumumba continua bem presente com o seu exemplo de patriota e combatente pela liberdade. E são de uma enorme atualidade as ideias que defendeu generosamente e pelas quais deu a vida - a urgência da independência nacional e da genuína soberania para todos os países, a unidade africana, a luta intransigente contra o colonialismo e o neocolonialismo, o combate pela emancipação social dos povos.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
Rumos e Estadismo
O compositor Gilberto Gil lembrou a frase de dona Canô, mãe de Caetano Veloso, falecida aos 105 anos: quem não morre, envelhece. De fato, não é, como parece, uma dedução simples, mas cheia de lições em tão longa existência.
Numa das polêmicas crônicas que Nelson Rodrigues escreveu à época do “poder jovem” na década de 60 - e o que vinha da rebeldia comportamental juvenil tinha-se como verdade absoluta – “meu conselho aos jovens é, envelheçam por favor”.
O Politicamente Correto, vindo dos laboratórios das finanças globais, arvora-se em sucedâneo das ideias surgidas na França dos anos 60.
A questão não é a ousadia da juventude essencial às grandes transformações, mas quem ainda não possui a experiência acumulada para discernir os caminhos viáveis das armadilhas inevitáveis.
Com o passar dos anos é possível enxergar, mais ou menos, uma coisa e outra, evitar equívocos repetidos ao longo dos tempos.
Existem povos, pela herança adquirida em milhares de anos, que possuem cultura acumulada, capacidade de julgamento aos desafios que a História lhes impõe. Onde é possível juntar a rebeldia dos jovens com a experiência adquirida em milênios.
É o caso do Vietnã, e seu líder histórico Ho Chi Minh, que derrotou três potências, França, Japão e Estados Unidos em apenas um século, conquistando a independência às custas de sacrifícios inenarráveis.
Quando em 2003 tive a oportunidade de conversar com o embaixador do Vietnã, líder guerrilheiro à época da libertação, falei que a minha geração tinha muita admiração pela nação vietnamita.
Ao que ele respondeu: nós é que admiramos os brasileiros que ao longo desses mesmos anos não precisaram travar tantas guerras brutais para libertar a sua pátria, ao custo de milhões de mortos. Não soube o que responder frente à desconcertante sabedoria.
O premiado escritor angolano José Eduardo Agualusa falou em entrevista que a crise no Brasil lembra Angola na guerra civil, logo depois da libertação colonial, quando a sociedade ficou totalmente dividida.
Mas Angola conquistou a independência em 1974 em plena Guerra Fria, já o Brasil em 1822. Um País industrializado com mais de 215 milhões de habitantes, uma sociedade bem mais complexa.
No Brasil de hoje, da pandemia do corona vírus e de Jair Bolsonaro, e em várias outras latitudes políticas e ideológicas, o que existe é desorientação generalizada, onde reinam os ditames do capital financeiro, tanto nos planos ideológico como econômico.
Aqui, estamos mesmo é sob uma Guerra Híbrida cujo objetivo é a fratura do nosso tecido social. E o que faz falta são rumos, visão de estadista e um projeto de nação soberana, economicamente desenvolvida e socialmente mais justa.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Vai passar
Nós vivemos uma época ancorada em um pântano onde o que mais viceja é o sectarismo mais infantil, a intolerância mais irreconciliável, o ódio mais descontrolado.
A pós-verdade dispensa o contínuo Histórico, despreza a cultura, erudita ou popular, e o tal do “novo”, tão apregoado pelos aproveitadores de sempre, transformou-se em relativismo absoluto.
Cada semana surge uma nova interpretação de tudo e qualquer coisa, logo substituída por outras novas interpretações, e assim sucessivamente. De tal maneira que, como disse o escritor, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”.
Os pensadores atuais são atores e atrizes da grande mídia, personagens do show business, e os filósofos atuais encontram-se quase que diariamente em programas de TV a cabo a deitar “teses” que são mais de autoajuda que propriamente tentativas de interpretações sobre as contradições profundas do mundo contemporâneo.
No vácuo, proposital, da incontornável vida política, que vive sob contínua chibatada dos seus inimigos, cuja fixação é mesmo o seu assassinato, artistas e cantores transformaram-se em líderes e teóricos dos rumos a serem seguidos por extratos médios.
Sem referências do passado, ausência de reflexões razoavelmente bem sustentadas sobre o presente, vive-se um presente contínuo, como em uma roda gigante dos parques de diversão, subindo e descendo sobre o mesmo eixo, passando sempre pelo caminho inicial.
O ativismo político é substituído, quase sempre, pela histeria política, especialmente nas redes sociais, que faz uma ponte com as notícias da grande mídia hegemônica, e se retroalimentam continuamente.
Ser cristão ou ateu, deixou de se caracterizar como uma opção de fé teológica, ou reflexão sobre a condição humana e sua finitude, transformou-se em uma cruzada radical, coletiva, de uns contra os outros. Cada um carregando a sua fé, ou ausência dela, como se fossem medalhas no peito, conquistadas em batalhas sangrentas contra inimigos mortais.
Pensa-se em tudo, menos nos rumos do Brasil, seus dramas, imensas possibilidades, e superações urgentes.
A pandemia do corona vírus mais parece uma catarse de um mundo em crise, onde as soluções de saúde, médicas, contra o vírus, transformaram-se em uma batalha ideológica, como se houvesse vacinas ou antivirais de esquerda, centro ou direita. O que existe são remédios, eficazes ou não.
Como sabem, não sou, nunca fui, nem serei bolsonarista, mas o problema do Brasil é maior que os descaminhos do governo federal, em quase todos os níveis de governabilidade.
Trata-se da doença “espiritual” de vocação autoritária em quase todos os extratos ideológicos, inclusive em parte da sociedade mais esclarecida, enquanto as grandes maiorias sociais, alheias a tudo isso, perambulam pelas ruas na busca da dura sobrevivência, em meio a uma crise sanitária, econômica, social, carregando, ainda por cima, os males estruturais, históricos do Brasil.
Apesar disso, contornam-se as buscas das soluções concretas, através de uma tempestade de falsos ideologismos, incessantes, discute-se uma realidade paralela. Ou como me escreveu o amigo jornalista Ênio Lins: a pós-verdade é pseudoverdade, talvez sem exceções.
No mesmo rumo, lembro a frase do velho amigo Plínio Lins: a boa mídia, a boa imprensa, é o único respiradouro, ao lado da arte, como forma eficaz de juntar inteligência e beleza. Lutemos por elas portanto.
As soluções para as crises, pequenas ou grandes, como a atual, sempre surgiram através da via política, na concertações de consensos, de amplas unidades.
Até nas guerras, porque como afirmou o grande teórico dessa matéria extrema: a guerra é a continuação da política, por outras vias.
Nesse caldeirão sectário que estamos vivendo, creio fundamental a primazia da vida democrática para a solução dos trágicos problemas nacionais. E nessa vida democrática, as eleições, como a que estamos exercendo na excepcionalidade dessa pandemia sanitária.
Porque sem democracia e eleições quem vai decidir os nossos destinos são os caudilhos, os ditadores, ou os loucos predestinados pela fixação do poder.
O que me lembra dos tristes déspotas latino-americanos, que narrou Gabriel Garcia Márquez, como o paraguaio que cismou de combater uma epidemia de sarampo que assolava o País irmão, cobrindo os postes de rua com papel celofane vermelho.
Ou o caudilho de El Salvador, que após uma sangrenta batalha pelo poder, da qual saiu vitorioso, promoveu uma magnífica e babilônica festa de três dias e três noites, para enterrar a sua própria perna, perdida em combate.
A pandemia do corona vírus vai passar, como tantas outras que viveu a humanidade, assim também esses tempos desorientados, como outros que já se foram.
E a democracia, as eleições, são bem melhores que a insanidade dos ditadores. Portanto, vamos pelejar por elas, para o nosso próprio bem e do País. E quem puder, mantenha o isolamento social, até a vacina, porque o bicho é brabo.
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