sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A morte do multiculturalismo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Santana Oxente:


                                             David Cameron, primeiro-ministro britânico

Na década de setenta passada surgia na Inglaterra e nos Estados Unidos o neoliberalismo. Algum tempo depois, em 1989, Francis Fukuyama, norte-americano, até então um obscuro professor de História e Filosofia, publica um artigo em uma revista de circulação restrita intitulado “O fim da História” e posteriormente, em 1992, o livro “O fim da História e o último homem”.

Estava lançada uma das bases da maior ofensiva conservadora em escala planetária depois da segunda guerra mundial. Na verdade, Fukuyama era uma das figuras chaves do governo do presidente dos EUA Ronald Reagan.

Mas faltava algo que associado às teses neoliberais na economia e às ideias do “fim da História” completasse o arcabouço de uma doutrina de caráter estratégico que permitisse a construção de uma hegemonia em dimensão planetária.

Assim é que toma corpo definitivo, nos EUA e Inglaterra, um conjunto de políticas institucionais amplamente conhecidas como o multiculturalismo.

Tal foi o investimento midiático e a aceitação acrítica dessas ideias que elas se espalharam pelo planeta como algo incontestável, consagradas pelo termo imperativo do “politicamente correto”.

De acordo com muitos jornalistas, intelectuais, artistas de expressão nacional etc, o “politicamente correto” é uma expressão utilizada para se exercer um novo tipo de censura, a “censura envergonhada”.

Todos esses fenômenos possuem origem na nova ordem mundial, em um mundo desenhado na hegemonia unipolar dos EUA.

O que se instalou foi uma época regressiva, ou contra-revolucionária, pobre de espírito, mesquinha, intolerante, de fragmentação social.

Portanto o que estamos vivendo é uma crise de civilização, associada a uma crise sistêmica da atual ordem econômica mundial, com a resistência dos povos a essa hegemonia, como ocorre atualmente no Egito e mundo árabe.

Esse multiculturalismo global transformou falsos conceitos em política de Estado. Assim foi no Brasil, nos últimos dezesseis anos, em duas gestões presidenciais distintas, com consequências perniciosas ao pensamento avançado no País.

Na semana passada o premiê inglês Cameron e a chanceler alemã Merkel em entrevista coletiva disseram que o multiculturalismo perdeu a sua utilidade e decretaram a sua falência. A criatura já não é mais útil aos seus criadores. Essa morte anunciada, sinal dos tempos, provocará um terremoto cultural no mundo. Ainda bem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Relatório confirma aumento de homicídios em Alagoas: em 2010 foram 2.226 casos

Matéria publicada na edição de hoje da Gazeta de Alagoas, assinada por seu chefe de reportagem, Lelo Macena, afirma que a taxa de homicídios de 2010 em Alagoas é a maior já registrada por um Estado brasileiro, segundo o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do estudo Mapa da Violência – Anatomia dos Homicídios no Brasil.

Para se ter uma ideia da evolução, em 1999 foram registrados no Estado 552 homicídios. Passados onze anos, o número de assassinatos teve um aumento de 303%, chegando ao recorde de 2.226 mortes violentas em 2010.

O pesquisador, que tem como base os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde, disse à Gazeta de Alagoas que pesquisou dados das décadas de 1980 e 1990 e não encontrou, em nível de Estado, taxa superior à registrada em Alagoas em 2010, que foi de 71,3 homicídios para cada 100 mil habitantes (em 2004 Alagoas havia apresentado uma taxa de 35,1 homicídios para cada 100 mil habitantes).

A informação teve repercussão nacional por meio de reportagem do jornalista Carlos Madeiro, publicada ontem do site UOL notícias.

Comissão Política Estadual do PCdoB-AL aprova Resolução Política

Em reunião realizada na quinta-feira, 03/02, a Comissão Política Estadual do PCdoB-AL aprovou Resolução Política em que é feita uma análise dos problemas e desafios a serem enfrentados pelo Partido no Estado e são traçadas a linha e orientações para a reconstrução do PCdoB em Alagoas e para seu projeto político para 2012.

O documento parte de uma análise do quadro político no Estado, a partir das últimas eleições, passando pelo projeto eleitoral do PCdoB que deverá começar a ser esboçado já em março, até à renovação em curso, através da comissão político-organizativa, tendo em vista o crescimento diferenciado do Partido, com filiados de posições efetivamente democráticas e progressistas, preocupados com as condições da população, dos trabalhadores, da juventude, mulheres, minorias etc. - novos ou antigos filiados que somem na luta por uma Alagoas e um Brasil mais avançados.

O objetivo do PCdoB-AL em 2012 será aumentar o número de vereadores sob a legenda e se possível de prefeitos, com uma nova referência de aumentar qualificadamente o nível político e ideológico de compromissos com o povo e a sociedade e com as causas democráticas e progressistas, para com o Estado de Alagoas e do Brasil.

A Resolução Política reafirma ainda a postura de independência em relação à atual gestão Cícero Almeida na prefeitura de Maceió, após sua participação ativa do campo adversário vitorioso nas últimas eleições, em quase todos os âmbitos da batalha.

Veja mais em: http://www.vermelho.org.br/al/noticia.php?id_noticia=146986&id_secao=46

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Maestro Fon-fon, o alagoano que encantou o Brasil e a Europa

Regente, arranjador, instrumentista e compositor, Otaviano de Assis Romeiro nasceu no dia 31 de janeiro de 1908, em Santa Luzia do Norte. Iniciou sua vida musical ainda criança, numa banda de pífanos.

Em 1935 criou sua própria orquestra, para atuar no Cassino Assyrio, no Rio de Janeiro. Foi o primeiro maestro no Brasil a utilizar naipes de saxofones e metais, dando à sua orquestra uma sonoridade especial. Em 1942 acompanhou com sua orquestra, na Odeon, Ataulfo Alves e sua Academia, na gravação do clássico samba “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago.

A partir daí dirigiu e acompanhou grandes nomes da música popular brasileira, como Carmem Miranda, Francisco Alves, Dircinha Batista, Moreira da Silva, Almirante, Emilinha Borba, Dalva de Olveira, Herivelton Martins, Orlando Silva, e Aracy de Almeida.

Em 1947, recebeu convite do Club Champs Elisées e foi com sua orquestra para Paris, permanecendo na Europa por quatro anos, apresentando-se com enorme sucesso em vários países.

Veja mais no: http://www.maestrofonfon.blogspot.com/

Veja ainda no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: http://www.dicionariompb.com.br/fon-fon

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Um caos abaixo do céu


Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Santana Oxente:

Os extraordinários acontecimentos que estão sacudindo o mundo árabe obrigam todas as nações a voltarem suas atenções para os países da região. E não sem razão, porque duas questões fundamentais estão em jogo em consequência das explosões populares, em especial no Egito.

Da Tunísia ao Egito, passando pelo Iêmen à Jordânia, os povos tomaram as ruas e determinados, lutam pela liberdade e protestam contra ditaduras e os seus ditadores.

A velocidade dos acontecimentos surpreendeu a todos os observadores com exceção dos especialistas na área, que já vinham acompanhando, em sintonia fina, o desenrolar das agudas contradições entre os povos e os regimes que fervilhavam no caldeirão até à explosão a olhos vistos.

Esse protesto que se estende por vários países do mundo árabe já é denominado como a “Revolução de Jasmim”. Uma das primeiras causas dessa insubordinação popular nós já a conhecemos e a vivenciamos em nossa pele, em menor grau.

Foi o sentimento de indignação, humilhação, dos brasileiros, e a consequente revolta contra um governo autoritário, mas sem dúvida em menor intensidade do que os egípcios, porque por lá o regime tirânico já perdura por trinta anos.

Assim, na luta social dos egípcios contra uma ditadura sufocante de três décadas, ressurge como emblemática a frase de Mao Tse Tung que certa vez, analisando uma situação análoga, sentenciou: “Existe um grande caos abaixo do céu. A situação é excelente”.

E ela é evidente, porque essa será a única maneira de se provocar uma ruptura no Egito em transição para uma nova era das mais amplas liberdades políticas. Nunca é demais ressaltar a grave situação social por que passam os povos árabes que envolvem a fome, o desemprego, o abandono da juventude, saúde pública etc.

O Brasil e os países da América do Sul já foram considerados pelo mundo, quase que oficialmente, como o “quintal dos Estados Unidos”. Já não são mais.

A “Revolução de Jasmim”, dos povos árabes, para ser completamente vitoriosa deve associar às lutas pelas liberdades democráticas o combate renhido pelo resgate das suas soberanias, sequestradas há muito tempo pelos interesses geopolíticos, comerciais e petrolíferos, imperiais.

Proclamando com orgulho que seus Estados já não são protetorados dos EUA e assim construindo os seus destinos com autodeterminação e soberania plena.

Casos de dengue aumentam 907% em 2010 em Alagoas


O número de casos de dengue em Alagoas aumentou 907% em 2010, em relação ao ano anterior. Foram 55.272 casos, o maior número de casos já registrados na história do Estado, que continua enfrentando aumento no número de notificações neste início de 2011. Além da epidemia de 2010, nas três primeiras semanas de janeiro foram notificados 369 casos contra 247 em 2010, inclusive com 3 mortes.

O número de casos graves da doença e de mortes também cresceu em 2010. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, foram registradas 24 mortes no ano passado e 644 casos graves confirmados. Segundo a SESAU, o aumento de casos de dengue com febre hemorrágica e complicações se deve a três novos tipos de vírus da doença circulando no Estado.

Todos os municípios alagoanos tiveram infestação pelo mosquito Aedes aegypti em 2010, estando 69 dos 102 municípios em situação epidêmica (registraram índice superior a 300 casos para cada 100 mil habitantes) e 25 estão em situação de alerta (registraram entre 100 e 300 casos para cada 100 mil moradores).

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Comissão Política Nacional do PCdoB realiza importante reunião

A Comissão Política Nacional do PCdoB reunida na última sexta-feira, 28/01, em São Paulo, fez importante discussão a respeito do atual quadro político, após a posse da presidente Dilma Roussef e as primeiras medidas de seu governo, sobre o projeto político-organizativo do PCdoB, com ênfase na expressão de sua linha política e programática, e sobre o indispensável debate e luta pelos avanços na construção de uma nação democrática, soberana e socialmente avançada.

Um dos pontos principais debatidos na reunião foi a necessidade de fortalecimento do Partido. Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, disse que o PCdoB deve sustentar sua identidade, demarcando claramente as suas fronteiras políticas e ideológicas. A ênfase das discussões foi no reforço do caráter diferenciado do PCdoB, da identidade do partido e sua perspectiva transformadora.

Renato Rabelo destacou as mais urgentes reformas para o Brasil avançar e dar um salto em seu desenvolvimento econômico e progresso social: reforma do sistema financeiro para reverter a lógica rentista e favorecer a lógica produtiva; reforma tributária progressiva; reforma urbana; reforma agrária, fortalecendo os pequenos e médios empreendimentos e a agricultura familiar; reforma política e democratização dos meios de comunicação. A Comissão Política Nacional mostrou-se convicta de que dependem muito da luta do povo brasileiro, de suas organizações e dos partidos de esquerda.

Veja mais em: http://renatorabelobr.blogspot.com/2011/02/pcdob-se-opoe-ajuste-fiscal-e-propoe.html

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Armagedom iminente

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Santana Oxente:


Vou me convencendo cada vez mais da alta capacidade científica e analítica de determinados âncoras da TV a cabo a que eventualmente assisto premido pela necessidade da informação, mesmo que desconfie da possibilidade de vir a ser desinformado, de má fé, e em alta resolução tecnológica.

E eis que essa mídia de última geração aparece com uma apresentadora de variedades, destacada para ser agradável e convincente, e só consegue ser chata e porta-voz do “politicamente correto”, com uma nova opinião sobre as causas das tragédias na região serrana do Rio de Janeiro.

Ao explicar aos telespectadores os fatídicos acontecimentos ocorridos naquela região atingida por chuvas intensas e prolongadas que provocaram enchentes e desmoronamentos com dezenas de milhares de desabrigados e centenas de mortes, desconfio, infelizmente, que até mais, a citada âncora vespertina aborda o “aquecimento global”.

De acordo com ela o horrível tsunami acontecido há algum tempo atrás na Indonésia, a catástrofe em Nova Friburgo e outras cidades possuem a mesma origem, o aquecimento global.

Assim ficamos sabendo que uma região abalada por terremotos nas profundezas oceânicas provocando ondas terríveis que chegam ao litoral nada tem a ver com atritos, divergentes ou convergentes, de placas tectônicas que remontam à formação da Terra, como explica a Geologia.

A âncora “politicamente correta” afirma “que não há propriamente um aumento das chuvas, ou de ondas gigantescas, mas é que elas estão se concentrando e desabando sobre uma única região, por causa do aquecimento global”. Com isso ela “exime” de todas as responsabilidades governamentais os problemas estruturais de infra-estrutura, habitação etc.

Esta é uma época contrária ao pensamento universal. Seja ele associado aos filósofos gregos, aos iluministas, aos enciclopedistas franceses, à dialética contemporânea, hegeliana ou marxista, quando na filosofia ou ciência o que orienta é a busca do todo para se compreender as partes. Atualmente o que vem sendo dominante é um olhar temático, fatiado, de mundo, primordialmente no campo das ideias, agendado através de um bilionário centro internacional de difusão hegemônico.

A fragmentação das ideias e da sociedade, ilhada em corporações, amesquinha o pensamento humano, as grandes causas humanas, científicas, nacionais ou sociais. Por isso é que ressurgem, protegidas por uma falsa ciência, notícias recorrentes de um Armagedom quase que iminente.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Patrice Lumumba: 50 anos da morte de um dos maiores líderes pela independência nacional na África


Admirado e homenageado em todo o mundo pelos que lutam pela liberdade e soberania de seus povos e de sua pátria, o congolês Patrice Lumumba preso, torturado e assassinado há cinquenta anos, em 17 de janeiro de 1961, aos 35 anos, foi uma das principais lideranças pela libertação de suas nações do colonialismo na África e um dos primeiros chefes de estado pós-independência. Herói ao lado de Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel.

Desde muito jovem participou ativamente das lutas anti-colonialistas de sua terra, o Congo Belga. Depois de haver sido eleito presidente do Sindicato Independente dos Trabalhadores Congoleses, em 1958 fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), o maior partido nacionalista congolês e o único constituído em bases não tribais.

Em dezembro do mesmo ano, ao se pronunciar na primeira Conferência dos Povos Africanos, em Accra, capital da recém-independente Gana, como membro da delegação do MNC, destacou-se pela clareza com que defendeu as idéias pan-africanas de unidade contra o colonizador, juntando-se a outros líderes africanos que se destacavam na torrente com que o conjunto dos movimentos nacionais avançava para romper o jugo a que os países europeus haviam submetido o continente africano. Ao lado de Lumumba, Kwame Nkruma, da recém-liberta Gana, Tom Mboia, líder do Kenia; Sekou Touré, da Guiné; Julius Nyerere, da Tanzania.

Logo após seu retorno ao Congo, acelerou-se a luta pela independência, conquistada dois anos depois. Desde os primeiros passos em seu combate, o dirigente congolês visualizou a questão fundamental para a garantia da libertação nacional do colonialismo: a unidade da nação em formação, acima das disputas tribais. A concepção clara da dignidade nacional, da necessidade de cimentá-la acima das divisões étnicas e tribais, lhe valeu o ódio dos colonialistas e da casta dominante do imperialismo americano, que desejava substituí-lo.

A expressão que adquiriu com rapidez, o estímulo com que conduziu os demais na luta pela independência fez com que, nas negociações em Bruxelas, a delegação congolesa exigisse a sua presença. Lumumba se encontrava preso – acusado de incitar “a desobediência civil” durante as manifestações de massa pela independência em outubro de 1959 - e os belgas tiveram que tirá-lo da cadeia diretamente para o avião de onde ele iria dirigir o processo de libertação na sua fase final: as negociações em Bruxelas até a assinatura dos protocolos que especificavam a data para a entrega do poder a um governo congolês, que viria a ter Lumumba no comando, no posto de primeiro-ministro.

O seu discurso no dia da independência, 30 de junho de 1960, permanecerá nos anais da diplomacia mundial como uma peça oratória magnífica, em que o jovem dirigente africano, na presença do rei Balduíno, da Bélgica, e de outros dignitários estrangeiros, denunciou abertamente os crimes hediondos do colonialismo belga sobre o povo congolês e traçou as perspectivas do futuro Congo, liberto da dominação estrangeira.

Como primeiro-ministro foi um líder de grande estatura. Em seu discurso na abertura da Conferência Pan-africana realizada na capital de seu país, Leopoldville, em 25 de agosto de 1960, Lumumba defendeu a unidade e solidariedade dos países africanos em sua luta pela independência e sua consolidação como nações soberanas.

Em setembro desse mesmo ano Lumumba foi afastado pelo presidente Kasavubu, apoiado pelos Estados Unidos e por militares golpistas comandados por um certo coronel Mobutu. Em novembro é preso e, a 17 de janeiro de 1961, depois de meses de detenção ilegal, é barbaramente torturado e assassinado.

O próprio Senado dos Estados Unidos, que investigou as atividades dos serviços de “inteligência” norte-americanos, descobriu que a CIA organizou em agosto de 1960 - o Congo era independente há apenas dois meses! - uma conspiração com o “objetivo urgente e prioritário” de assassinar o primeiro-ministro congolês. Para Allen Dulles, o então diretor dos serviços secretos norte-americanos, Patrice Lumumba era “um perigo grave” a ser eliminado.

O afastamento de Lumumba da chefia do governo, sua prisão e seu assassinato foram o resultado conjugado dos interesses do colonialismo belga - que, apesar da independência do Congo, pretendia continuar a explorar a seu bel-prazer as riquezas do país - e da intervenção do imperialismo norte-americano, através da CIA - o jovem primeiro-ministro era considerado por Washington um “esquerdista”, simpatizante da União Soviética -, coniventes com setores da burguesia congolesa que não hesitaram em trair o seu povo e aliar-se à dominação estrangeira.

Já preso, poucos dias antes de seu assassinato, Lumumba escreveu uma carta de despedida à sua mulher Pauline, em que reafirma a sua confiança no futuro. São belas e comoventes, mas cheias de esperança, essas breves palavras, publicadas mais tarde pela revista “Jeune Afrique”:

“(…) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objetivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.

Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.

Não chores por mim, minha companheira, eu sei que o meu país, que sofre tanto, saberá defender a sua independência e a sua liberdade.

Viva o Congo! Viva a África!”.

Para os revolucionários do século XXI na África e em todo o mundo, que hoje continuam a lutar em condições diferenciadas contra a dominação imperialista e a exploração capitalista, Patrice Lumumba continua bem presente com o seu exemplo de patriota e combatente pela liberdade. E são de uma enorme atualidade as ideias que defendeu generosamente e pelas quais deu a vida - a urgência da independência nacional e da genuína soberania para todos os países, a unidade africana, a luta intransigente contra o colonialismo e o neocolonialismo, o combate pela emancipação social dos povos.

sábado, 22 de janeiro de 2011

José Martí, 120 anos de “Nuestra América”

                                                 Homenagem a Martí no Parque Central de Havana

José Martí, escritor, poeta e herói da independência cubana, publicou em janeiro de 1891, no jornal mexicano El Partido Liberal, seu texto “Nossa América” em que fala da identidade latino-americana e propõe a união dos povos do continente como caminho contra a opressão e dominação colonial e imperialista.

Grande intelectual que considerava de fundamental importância a batalha de idéias, e que inspira até hoje sucessivas gerações do povo cubano e latino-americano, morreu em combate pela independência de Cuba. Seu pensamento transcendeu as fronteiras da Ilha para adquirir caráter universal.

Martí em “Nossa América” defendia o conhecimento profundo da realidade dos países que se constituíam com a independência. Afirmava: “Governante, num povo novo, quer dizer criador”.

“... No jornal, na cátedra, na academia, deve-se levar adiante o estudo dos fatores reais do país. Basta conhecê-los, sem vendas nem disfarces; pois aquele que, por vontade ou esquecimento, deixa de lado uma parte da verdade, tomba, afinal, vítima da verdade que lhe faltou. E cresce na negligência e derruba aquele que se levanta sem ela”.

“A história da América, dos incas para cá, deve ser ensinada minuciosamente, mesmo que não se ensine a dos arcontes da Grécia. A nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa. Nos é mais necessária. Os políticos nacionais substituirão os políticos exóticos. Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo; mas o tronco terá que ser o de nossas repúblicas. E cale-se o pedante vencido; pois não há pátria na qual o homem possa ter mais orgulho do que em nossas doloridas repúblicas americanas”.

Para ler o texto completo de José Martí, veja em: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=145855

Jornalista, poeta, escritor, tradutor, escreveu sobre política, literatura, arte, educação, numa vasta obra. Aliou seu espírito revolucionário à sua pena. Fundador da literatura hispano-americana e do modernismo na América Latina, deixou 507 poemas, além de novelas e dramas que influenciaram gerações de escritores. A canção “Guantanamera”, talvez a mais popular música latino-americana, do compositor cubano Joseíto Fernandez, tem como letra versos dos “Poemas Singelos” de José Martí.

Em viagem a Cuba em março de 2010, tivemos a oportunidade de visitar o mausoléu de José Martí, no cemitério Santa Ifigenia em Santiago de Cuba. Homenageado com troca de guarda de honra a cada meia hora, seu túmulo recebe inúmeras visitas, tanto de turistas, como de viajantes e cubanos, a quem é feita uma explanação a seu respeito, ao pé de sua escultura, com destaque para seus versos “Não me deixem morrer no escuro como um traidor. Sou bom e como bom, morrerei de cara ao sol”, razão das homenagens ali serem feitas a ele desde o raiar até o por do sol.

                   Tumba de Marti rodeada pelos brasões das nações latino-americanas, dentre os quais o do Brasil.

Sobre Martí, leia, de Sidnei Shineider, o ensaio “José Martí: singelo vigor de aço”, em http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=145898

Alguns de seu poemas em: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=145909

As tragédias e as reformas

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no SantanaOxente:


A tragédia que se abateu sobre a região serrana do Estado do Rio de Janeiro, culminando com a morte de mais de 700 pessoas, é mais um dos capítulos de uma longa e muitas vezes fatídica novela que vem se arrastando há décadas, principalmente, mas não só, nas capitais e grandes cidades do País.

Deixando ao largo, temporariamente, as discussões sobre as relações entre causa e efeito desses acontecimentos dramáticos e as teorias sobre o aquecimento global, melhor é abordar questões mais concretas sobre os problemas sociais e da habitação no Brasil.

Em recente artigo escrito em 31 de dezembro, intitulado “O fenômeno e os imensos desafios” falei sobre o óbvio, ou seja, o que não requer conhecimento especializado ou profundidade acadêmica, mas a elementar observação da realidade nacional.

Nesse texto sobre o novo governo da presidenta Dilma dizia que ela herdava um estágio de crescimento econômico acentuado com a incorporação de dezenas de milhões de brasileiros no mercado formal de trabalho e políticas públicas que provocavam a inclusão de milhões de brasileiros retirando-os das faixas de miséria absoluta ou relativa.

Que os seus desafios seriam imensos no combate às desigualdades sociais, às desigualdades regionais, à brutal concentração da renda que persiste, na educação, saúde, infra-estrutura etc.

A catástrofe no Rio de Janeiro, e outros Estados em menores proporções, a neurose recorrente dos paulistanos com enchentes e alagamentos, possuem raízes bem mais concretas que a cruzada ideológica internacional contra o propalado aquecimento global.

A origem desses episódios, inclusive as devastações das cidades interioranas em Alagoas e Pernambuco no ano passado, encontra-se exatamente nos problemas estruturais jamais enfrentados e resolvidos.

A ocupação dos morros, margens de rios etc, pela população mais pobre, não é uma predileção pelo perigo, mas a necessidade imperiosa de se estar perto do mercado de trabalho. O Brasil cresceu muito nesses anos, mas ainda é muito, mas muito desigual mesmo. Precisa de urgentes reformas urbanas e rurais.

O crescimento econômico impõe mais ainda a execução de um avançado projeto social de linhas definidas e operantes. Os êxitos da era Lula não devem reproduzir, também nas esquerdas, uma visão unilateral e ufanista de gestão incontestável, acabada. Ou se pode perder o senso da realidade.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Ricardo Cabus inicia 2011 com Bukowski Blues


Nosso amigo Ricardo Cabus e o Instituto Lumeeiro realizaram no último dia 11 de janeiro, no BomBar, na Jatiúca, um evento que antecede seu primeiro Papel no Varal de 2011, que está programado para o dia 25/01, no mesmo local.

Foi o Bukowski Blues, uma leitura de poemas de Charles Bukowski por Ricardo Cabus, regada com uma seleção de clássicos do blues interpretados por Atiba Taylor e Ricardo Lopes, com a participação especial do músico norueguês Rolf-Eric Nistrom.

Nossos parabéns ao amigo Cabus pelo sucesso do Bukowski Blues, com a presença de mais de 300 pessoas, numa grande noite de música e poesia.