sexta-feira, 27 de abril de 2012

Europa na encruzilhada

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas e no Tribuna do Agreste:


Todos nós sabemos que a política é um permanente jogo de movimentos. O que diferencia um partido situacionista de outro com objetivo transformador é a perspectiva. Um, atua tendo em vista o permanente movimento, o outro, peleja observando sempre o horizonte mais largo estabelecido em seu programa estratégico.

As atuais eleições na França são uma dessas batalhas em que se está decidindo algo mais que uma mera rotina institucional porque acontece em meio a uma crise econômica estrutural do capitalismo onde a busca por novos rumos para a Europa vem se defrontando com uma forte resistência de natureza conservadora.

Esse confronto se desenvolve por toda a União Europeia, mas atinge a sua dramaticidade em Países que são polos econômicos capitalistas mais desenvolvidos mesmo que a luta social esteja atingindo estágios radicais em elos mais débeis como são os casos de Portugal, Grécia, Espanha etc.

É fato inquestionável que os trabalhadores e demais segmentos sociais que compõem a Comunidade Europeia estão demonstrando sinais de que não estão mais suportando o peso da crise que estão jogando sobre as suas costas, um fardo resultante do intenso processo de concentração e centralização do capital financeiro internacional.

Mas os partidos no poder que sustentam as políticas neoliberais ortodoxas na Europa estão exaurindo as suas forças em consequência dos resultados econômicos e sociais negativos que atingem as mais variadas camadas assalariadas levando as nações a uma grave recessão.

Caso persistam as atuais orientações econômicas e institucionais as elites políticas francesas estarão investindo em um tremendo incêndio social e é óbvio que vai se esgotando, mesmo para o sistema, o papel de lideranças como Sarkozy.

Por outro lado a sociedade ainda não vislumbrou uma alternativa real e concreta aos atuais grupos dominantes mesmo com o soerguimento de uma esquerda mais aguerrida.

Já o Partido Socialista pelos seus antecedentes e o candidato Hollande representam infelizmente uma alternativa centrista, previsível e requentada possibilitando com isso alguma chance ao atual e medíocre presidente francês.

De qualquer maneira crescerá o voto útil contra Sarkozy no segundo turno das eleições e haverá um grande aumento da insubordinação social ao projeto neoliberal que vem sendo aplicado na França, com desdobramentos políticos para o resto do continente.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O fim de um ciclo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas e no Tribuna do Agreste:


As recorrentes crises estruturais do capitalismo muito especialmente os grandes ciclos inaugurados em 1929 demonstram sobejamente o caráter maligno desse sistema mas também indicam, paradoxalmente, a sua força ao sobreviver aos seus terremotos intestinos e às tentativas de se superar a sua natureza brutal.

Na sua capacidade mutante de reinventar-se após cada tormenta ele gera novas formas econômicas mantendo a sua essência de acumulação de riquezas através da exploração da força de trabalho assalariada.

Nos tempos atuais assistimos a manifestações dramáticas de mais uma dessas crises, mas em um estágio extremamente sofisticado e complexo do sistema que superou patamares de concentração e centralização do monopólio da riqueza em dimensão global.

O fenômeno da governança global é uma das principais armas de poder da atual etapa hegemônica do capital financeiro internacional porque representa um modelo superior de controle político com características autoritárias e ao mesmo tempo sutis.

Com a capacidade de exercer o governo global através de métodos violentos utilizando-se de todos os instrumentos possíveis, inclusive invasões armadas sob a batuta imperial norte-americana, desconstruído meticulosamente o princípio da autodeterminação das nações.

Para a consecução dos seus interesses apropriou-se dos organismos mundiais criados no pós-guerra que tinham como objetivo uma ordem jurídica internacional depois da onda nazifascista de 1939 a 1945.

Essa hegemonia no interior desses organismos forjou regras, tratados, legislações, acordos econômicos, uniformizando o Direito, a economia, os valores, comportamentos, cultura, em escala planetária, fabricando artificialmente consensos, destruindo identidades regionais, garantias individuais fundamentais, restringindo, apequenando os governos nacionais.

Fortaleceu essa ditadura ideológica através do complexo midiático internacional ditando pontos de vista uniformes sobre os acontecimentos políticos, sociais e até, pasme-se, sobre fenômenos naturais.

Mas a atual tragédia do capitalismo desnudou o modelo de gestão planetária, suas consequências criminosas, reintroduzindo com vigor as lutas populares de sentido universal, a atualidade da questão nacional como aspecto central da emancipação social. E traduz especialmente o fim de um ciclo Histórico através de uma crise de civilização sem precedentes.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Inferno e brilho de uma cultura

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas e no Tribuna do Agreste:


Durante os anos sessenta e setenta eclodiram dois fenômenos mundiais de contestação ao sistema estabelecido, as revoltas populares, especialmente a estudantil, e o chamado movimento hippie.

Os primeiros lutavam por modificações estruturais no ensino, contra os regimes sociais existentes, os resquícios do colonialismo clássico ainda remanescentes, as ditaduras militares que brotavam como praga nos Países do terceiro mundo.

Os adeptos do movimento hippie batiam-se por mudanças pacíficas no interior desse sistema defendendo uma espécie de cultura alternativa principalmente em relação à sociedade de consumo, às manifestações de autoritarismo, à censura, aos costumes, etc.

Nessa época muitas nações oprimidas pelo colonialismo ou o imperialismo lograram significativas vitórias especialmente nos continentes africano e asiático. Tudo isso influenciou profundamente a sociedade americana, especialmente a guerra contra o Vietnã.

Diz o veterano jornalista norte-americano Mikal Gilmore da revista Rolling Stones que a força dessas ideias adquiriu tal magnitude nos EUA que nas décadas seguintes os vários governos tiveram entre os seus objetivos estratégicos internos o aniquilamento das organizações, a cooptação ou esmagamento político das lideranças, artistas e destacados intelectuais americanos, uma reedição do macartismo que vigorou por lá nos anos cinquenta.

Talvez essa denúncia de Mikal Gilmore também sirva para nos explicar a pobreza da atual geração de intelectuais e artistas dos Estados Unidos, com as óbvias exceções, a incrível ascensão da cultura do escapismo e da paranoia generalizada.

Hoje há uma aguda crise internacional do capitalismo na Europa e nos EUA, o neoliberalismo fracassou enquanto doutrina, cresce a tendência de uma outra ordem mundial com a emergência dos BRICS e surgem, ainda incipientes, os movimentos populares de resistência em várias cidades americanas.

No entanto o complexo militar-ideológico-midiático, o capital financeiro global e o reacionarismo imperial intervencionista detêm a hegemonia tanto interna quanto em escala mundial.

Mas como a História segue o seu curso é possível que o berço de uma das grandes culturas contemporâneas recupere o vigor, brilhantismo e talento que sempre possuiu salvo quando as suas elites a arrastaram para o inferno moral e a depressão intelectual.

sábado, 7 de abril de 2012

Hegemonia, crime e alienação

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas e na Tribuna do Agreste:

O quarto encontro de cúpula das cinco grandes nações emergentes, os BRICS, realizado em Nova Delhi na Índia, representa muito mais que uma dessas reuniões quase burocráticas com que de vez em quando o mundo diplomático agracia a opinião pública brasileira e internacional.

Não é sem razão também que as grandes maiorias que compõem essa mesma opinião pública internacional e nacional observam com fastio ou indiferença o episódio.

Porque o grande complexo midiático hegemônico internacional associado e parte integrante do capital financeiro global, responsável e beneficiário da grande crise capitalista global iniciada em 2008, não está nem aí para a informação justa e imparcial, muito pelo contrário, o que ele realiza é a desinformação sobre os fatos, suas causas e consequências.

O papel do monopólio planetário da informação é absurdamente doloso aos Países e aos povos. Cientistas sociais de várias nações, inclusive entre as mais ricas, afirmam que a época das ditaduras das baionetas, prisões, torturas, censura à imprensa, aos jornalistas, estupro ao estado de direito, são coisas do passado, jurássicas.

Dizem eles que estamos sob uma governança global, um sistema autoritário bem mais eficiente, muito embora às vezes as coisas fujam do controle, como o que está ocorrendo com as rebeliões sociais na Europa conflagrada pela crise financeira geral.

Exatamente quando há mudanças geopolíticas globais em curso e grandes veredas para se constituir uma outra ordem mundial, possibilidades de a humanidade abrir espaços a uma nova alternativa de justiça social, superando a atual economia da fome, da miséria, da cultura da violência, do individualismo exacerbado, o assassinato do conceito da fraternidade humana, cujos responsáveis deveriam constar como réus em um novo tribunal de Nuremberg.

Sob a bandeira dos diretos humanos elogia-se uma nova corrida militar colonialista promovida através de um descomunal banho de sangue pela grande potência do planeta.

Ao mesmo tempo em que somos informados que em Londres um pinguim toma conta de um gato e da casa na ausência do proprietário, um parlamentar apologista da moralidade é amigo e beneficiário de um notório bandido e um casal torna-se vitorioso em um reality show depois de pisar no pescoço dos demais competidores. Essa criminosa cultura da alienação geral seria cômica se não fosse trágica.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Os BRICS e uma ordem mundial diferente

Publicado na Resenha Estratégica:


Qualquer análise minimamente realista do presente cenário global aponta para o esgotamento do modelo de organização dos assuntos mundiais consolidado em torno da hegemonia econômico-financeira e político-militar do eixo Washington-Nova York-Londres e seus apêndices europeus e israelenses. Definitivamente, as aspirações e necessidades do mundo crescentemente complexo, interdependente e interligado do século XXI se mostram incompatíveis com a subordinação das economias nacionais a um sistema financeiro essencialmente privatizado, desregulamentado e convertido num fim em si próprio, além da submissão da agenda das relações internacionais às diretrizes emanadas daqueles centros de poder, com frequência, impostas direta ou indiretamente pelo poder militar. Uma consequência dessas transformações em curso é a emergência dos BRICS, como um vetor com enorme potencial de contribuição para a construção de uma ordem mundial diferente, como se viu na quarta cúpula do grupo, em Nova Délhi, na semana passada.

De fato, o mundo atravessa um momento de inflexão histórica, análogo ao apresentado ao final da II Guerra Mundial, quando as perspectivas para a reconstrução mundial do pós-guerra haviam sido claramente explicitadas pelo presidente estadunidense Franklin D. Roosevelt, sintetizadas em seu célebre conceito das "quatro liberdades" fundamentais, que deveriam ser desfrutadas pelos povos de todo o mundo: de expressão, de culto, das vicissitudes da penúria e do medo. Tal orientação esteve no cerne da sua aliança estratégica com o premier britânico Winston Churchill, a quem reiterou em várias ocasiões que os EUA não entrariam em um novo conflito para preservar os impérios coloniais europeus. Desafortunadamente, a sua morte prematura, em abril de 1945, abriu caminho para os descaminhos da Guerra Fria, a qual, a despeito dos enormes benefícios proporcionados pela relativa estabilidade da ordem econômica estabelecida em Bretton Woods, assistiu, também, à consolidação do sistema financeiro e do complexo industrial-militar como centros de poder político, em especial, a partir da década de 1970, processo que conduziu ao presente impasse civilizatório.

O surgimento dos BRICS, como um bloco relativamente articulado em torno de certas questões estratégicas, é uma importante novidade nesse quadro de deterioração do sistema mundial, no qual um fator de grande relevância é uma percepção cada vez mais disseminada sobre o crescente déficit de justiça socioeconômica ensejado pelo status quo, que está na raiz da grande maioria das convulsões que têm abalado o planeta. Evidentemente, esta perspectiva se contrapõe à intenção do Establishment dominante de preservar os seus "privilégios percebidos" e, apesar do caráter não-confrontacional do grupo, a sua mera existência representa uma ameaça àqueles centros de poder, como se percebe pelas reações azedas e depreciativas divulgadas pela mídia anglo-americana.

Reações que foram oportunamente registradas pelo vice-presidente de Relações Institucionais da Embraer, Jackson Schneider, em entrevista ao jornal The Times of India (1/04/2012): "O BRICS não é uma ideia. Já é uma realidade. O equilíbrio da ordem global existente está mudando. Se o BRICS não tivesse força, por que o New York Times estaria gastando tanta tinta e tempo conosco?"

Nos dias anteriores e seguintes à cúpula de Nova Délhi, o jornal de Nova York foi um dos muitos órgãos vinculados ao Establishment anglo-americano que publicou uma vasta coleção de artigos e editoriais sobre o grupo, a grande maioria, depreciativos, embora alguns denotassem uma certa cautela quanto às suas perspectivas e potenciais. Uma apreciação típica foi a do colunista econômico do Daily Telegraph londrino, Jeremy Warner, na edição de 29 de março:

"(...) Eu tenho acompanhado essas reuniões das nações do BRICS em ação, e o que tenho a dizer é que elas não são, de modo algum, impressionantes. Há muito pouco sentido de propósito e identidade comum. Na verdade, eles fazem a União Europeia parecer um paradigma de calma e harmonia. De dia, eles falam alto sobre ações multilaterais para reorientar o campo de jogo em favor das nações mais pobres, enquanto, à noite, tramam vergonhosamente uns contra os outros, frequentemente, em conjunto com os seus supostos opressores econômicos no Ocidente. Não há virtualmente nada que os une, além do ressentimento e suspeição do monopólio ocidental, em parte, justificados, em parte, não. Eu lhes desejo boa sorte com o seu novo banco de desenvolvimento, mas quando se trata de onde será construída a próxima represa, e quem irá construí-la, é aí que sairão as faíscas".

Seguindo a linha de muitos analistas, inclusive, nos próprios BRICS, que se apegam à parte em detrimento do todo, o que Warner reflete é uma certa perplexidade e incapacidade de enxergar uma ordem global que não seja subordinada pelos interesses representados, predominantemente, na City de Londres, Wall Street e no Pentágono.

Na contracorrente, um comentarista que avaliou corretamente a situação foi o arguto Fyodor Lukyanov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e colunista da agência Novosti. Em sua coluna de 29 de março, depois de descrever as enormes diferenças entre os membros do grupo, ele foi ao cerne da questão:

"Os BRICS estão sendo reunidos e movidos para a frente, não tanto pelos requisitos dos seus países membros, mas pela situação geral no mundo. As mudanças são rápidas e imprevisíveis, e as receitas para a resolução dos assuntos internacionais oferecidas pelos líderes usuais (o Ocidente), ou não funcionam, ou produzem o efeito oposto. Há uma demanda por soluções alternativas, embora, no momento, nenhum Estado individual que esteja desempenhando um grande papel regional (e os países dos BRICS entram nesta categoria) tem a oportunidade (ou o desejo) de oferecer uma visão global abrangente".

Igualmente, Lukyanov chama a atenção para um fator que deverá ter uma grande relevância para que o bloco possa desempenhar esse papel, o retorno de Vladimir Putin à presidência da Federação Russa:

"(...) O futuro presidente russo vê o fator unificador no fato de que todos os países do BRICS, não apenas têm visões similares sobre a necessidade de uma nova ordem mundial multipolar, mas, mais importante ainda, compartilham o mesmo valor básico - a soberania nacional como elemento estrutural fundamental do sistema mundial. Este conceito é uma alternativa ao enfoque ocidental, que se baseia na premissa de que, hoje, a soberania não é mais sagrada e imutável como era no passado".

Não é casual que Putin tenha se mostrado ser o estadista mundial mais afinado com os princípios e ensinamentos de Roosevelt, cuja agenda já mencionou em várias oportunidades como um guia para a superação da presente crise global, por exemplo, no seminário "As lições do New Deal para a Rússia e o mundo de hoje", realizado em Moscou, em fevereiro de 2007, por ocasião do 125o. aniversário de nascimento do presidente estadunidense - ignorado em seu próprio país (Resenha Estratégica, 14/03/2007).

Quanto à cúpula, embora muita ênfase tenha sido dada à discussão sobre um "Banco dos BRICS", que rivalizaria com o Banco Mundial como banco de desenvolvimento, é de grande relevância que a proposta se mantenha de pé e deverá ser objeto de aprofundamento de estudos pelos países membros. Evidentemente, não se cria uma instituição do gênero da noite para o dia, principalmente, uma com o potencial impacto político e econômico que teria uma instituição de fomento com recursos pelo menos na mesma magnitude do Banco Mundial e fora do controle dos centros financeiros ocidentais. Se Brasília, Moscou, Délhi, Pequim e Pretória mantiverem o "gostinho" do protagonismo conjunto que parecem estar sentido, o banco poderá ser apenas uma de uma série de novidades positivas para um cenário global que está carente delas.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O Brasil, a China e a crise

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Almanaque Alagoas e na Tribuna do Agreste:


Passados mais de quatro anos da eclosão da nova crise global do capitalismo não há no momento algum sinal de reversão das expectativas pessimistas quanto ao futuro dos trabalhadores, povos e nações.

Os fatores de instabilidade continuam presentes e tendem a se agravar. A saúde financeira dos Estados Unidos e Europa permanece crítica com o quadro dramático se acentuando em determinados Países como a Grécia, Espanha, Itália e Portugal e vários outros Estados nacionais que fazem parte da Comunidade Europeia.

No velho continente as medidas adotadas pelas elites no poder para conter a maré arrasadora do desastre econômico foram invariavelmente de conteúdo neoliberal ortodoxo, provocando um onda brutal de desemprego, violentos cortes nos gastos sociais, acentuada perda da soberania nacional.

Não se pode entender essa certeza de impunidade do capital financeiro global se não se considerar o caráter estratégico e imperial dos Estados Unidos que ademais estão investindo em uma nova expansão militar colonialista por vários continentes.

O Brasil até o momento vai indo na contramão desse cenário sinistro porque sustou, em parte, as orientações do liberalismo neo-ortodoxo em virtude da emergência de um novo ciclo de resistência política, com grande respaldo eleitoral e popular, vitorioso com as eleições presidenciais de 2002.

Mesmo assim continuam com desenvoltura no País as atividades do capital rentista global, do complexo midiático internacional parte integrante dos mesmos centros financeiros, responsável por uma agressiva propaganda cultural, política, ideológica norte-americana.

Um dos motivos centrais que vem possibilitando ao Brasil contínuas e positivas taxas de crescimento tem sido o extraordinário crescimento da China, a sua ávida necessidade de matérias primas, como aço, commodities agrícolas, e a nossa grande capacidade exportadora desses produtos. Mas a China é a China e nós somos nós.

O Brasil precisa aproveitar essa maré econômica favorável, mas temporária, recompor o parque industrial em crise, construir novas realidades em educação, saúde, infra-estrutura, defender a sua excepcional vitalidade cultural.

E através de um vigoroso movimento nacional alicerçado na unidade dos trabalhadores, na consciência popular, apoiado na intelectualidade, numa juventude engajada, edificar um avançado projeto de nação e de civilização.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cavalo de Troia

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Almanaque Alagoas:


Uma combinação de fenômenos negativos está levando o parque industrial brasileiro a uma crise aguda enquanto outros fatores estão provocando uma anemia ideológica e cultural da identidade nacional.

Todos os estudos sérios e relevantes demonstram que a indústria nacional de transformação tem perdido acelerado espaço no mercado interno ao tempo que cresce na proporção inversa a presença dos produtos importados. Nessa batida a tendência inevitável será o sucateamento da indústria de transformação do País.

As altas taxas de juros, as maiores do planeta, e a sobrevalorização da moeda brasileira são os dois principais fatores dessa verdadeira crise que afeta profundamente a própria soberania nacional.

Enquanto os bancos especialmente aqueles de investimentos auferem lucros fabulosos a nação caminha para uma verdadeira encruzilhada e tende a perder uma oportunidade histórica de em plena crise global do capitalismo acumular condições para uma nova etapa para o seu processo de crescimento econômico, um outro tipo de desenvolvimento.

Nos últimos dezessete anos e cinco mandatos presidenciais a perda de competitividade da indústria nacional só tem se acelerado e não existe exemplo de um País que tenha conquistado papel relevante na geopolítica mundial sem a correspondência da excelência dos seus produtos no mercado interno e no comércio exterior.

A desindustrialização do parque produtivo brasileiro é um problema de fundo estratégico e só pode ser enfrentado se houver vontade política o que implica em altos investimentos em ciência, tecnologia, prioridade maciça em educação etc.

Mas é preciso que o Estado nacional assuma o controle soberano da política cambial e suste os ganhos estratosféricos do capital especulativo. Porque sem isso qualquer discurso sobre o nosso futuro enquanto um País verdadeiramente soberano será figura de retórica.

Uma retórica insuflada por uma exortação desmedida sobre o crescimento econômico sustentado pela exportação de produtos primários, especialmente agrícolas, pelas condições internacionais favoráveis no contexto da crise capitalista global, com tempo determinado para se exaurir.

Para que esse oba-oba da grande mídia hegemônica mundial, sobre um Brasil nadando a largas braçadas sob um céu de anil rumo ao Olimpo não se transforme em um cavalo de Troia, impõe-se uma nova política econômica além de um verdadeiro projeto de nação.

Quando os verdes amarelam feio

O Editorial da Gazeta de Alagoas em sua edição desta quinta-feira:

Charge de Ênio Lins publicada na mesma edição da Gazeta de Alagoas

Novos vazamentos de petróleo na perfuração do Campo do Frade, situado na Bacia de Campos, Estado do Rio, põem a Agência Nacional de Petróleo em estado de alerta. Um comitê de trabalho foi criado para analisar detalhadamente o quadro.

Os problemas no Campo do Frade começaram em novembro do ano passado e recorrentes vazamentos têm sido denunciados pelos técnicos da ANP e pela mídia.

O mais instigante da questão não está no desastre em si, mas no silêncio radical dos grupos ambientalistas. Mormente agitados, explosivos, apopléticos, quando o tema tem a ver com projetos brasileiros de grande impacto desenvolvimentista (como a construção de estaleiros), o ativismo verde amarelou quando o escuro do petróleo espalhou-se na Bacia de Campos. Por que será? Por quem não estão a dobrar esses sinos verdejantes?

Será que é por que a empresa responsável pelo desastre não é brasileira? Se a responsabilidade estivesse sobre a Petrobras, e não sobre a Chevron, não será que a veia guerrilheira das ONGs do momento estariam a impulsionar corações e mentes em mais uma luta renhida sob uma tremulante green flag.

Onde estarão as brigadas verdejantes que tanto se esgoelaram contra o Novo Código Florestal? Onde andarão as verdes falanges que combatem sem tréguas, com toda energia, a construção da hidrelétrica de Belo Monte?

Certamente trata-se de um engano. Ou do desinteresse da mídia em cobrir as manifestações contra a Chevron. Quem sabe esses protestos estejam acontecendo alhures, na sede da empresa nos EUA?

O fato é que, a cada dia, fica mais evidente a manipulação política no radicalismo ideológico da causa ambientalista. Os alvos passam a ser as iniciativas para o desenvolvimento dos países emergentes (transformam-se em vilões o agronegócio e as ciências agronômicas e se endeusa o atraso da agricultura de subsistência), enquanto os danos ambientais causados pelas potências ocidentais são relegados a um honroso segundo plano quando não ao esquecimento puro e simples.

quinta-feira, 22 de março de 2012

90 anos do PCdoB com homenagem a Luciano e Marivone

Publicado no Vermelho:


Celebrando os 90 anos do Partido Comunista do Brasil, foi realizada sessão especial na Câmara Municipal de Maceió, na última segunda-feira, 19/03, quando foi concedido o título de cidadão de Maceió para Luciano Siqueira e Maria Yvone Loureiro.

Com o plenário da Câmara lotado, com a presença de militantes, filiados e amigos do PCdoB, dos vereadores Théo Fortes (PTdoB) e Heloísa Helena(Psol), além do presidente da Casa, Galba Novaes (PRB) e do vereador pelo PCdoB, Marcelo Malta, que propôs a realização da sessão especial e da concessão dos títulos, foram comemorados os 90 anos de fundação do Partido, com a homenagem a duas expressivas personalidades que representam tão bem a vivência de luta e dedicação por toda uma vida pelas causas do PCdoB, do Brasil e pelo socialismo.

A mesa que dirigiu os trabalhos, sob a presidência de Galba Novaes, foi composta pelo presidente estadual do PCdoB, Eduardo Bomfim, pelo pró-reitor Estudantil, Pedro Nelson, representando a Universidade Federal de Alagoas, pela diretora da UNE e da UJS, Cláudia Petuba, por Sinval Costa, representando a CTB, pelo vereador Marcelo Malta, pelo vice-prefeito de Marechal Deodoro, Dr. Petrúcio, e pelos homenageados Luciano Siqueira, deputado estadual pelo PCdoB em Pernambuco, e Maria Yvone Loureiro, dirigente estadual do PCdoB em Alagoas.

Após a abertura da sessão e do discurso do vereador Marcelo Malta, que relatou o apoio e a boa acolhida à sua proposição, para aqueles que têm o respeito e o carinho da sociedade alagoana e do povo de Maceió, foi realizada a cerimônia de entrega dos títulos de cidadãos maceioenses a Luciano Siqueira e Marivone, em clima de grande alegria, com a participação de seus familiares, filhos, neto e irmã de Marivone e da esposa e filha de Luciano, que o acompanharam de Recife a Maceió para esse que foi também um encontro com amigos de longa data, companheiros todos de muitas jornadas de luta.

Maria Yvone Loureiro, a Marivone, natural de Viçosa/AL, expressou toda sua emoção ao receber a homenagem da cidade de Maceió, lembrando sua longa trajetória de luta, desde a militância na juventude, em Recife, a prisão pela ditadura, e a sua vida em Maceió, seu ingresso no PCdoB e sua participação em todos os momentos políticos, nos movimentos da luta das mulheres, sempre dedicada às causas libertárias, falando da gratificação pelo reconhecimento do sentido maior dessa luta.

Marivone afirmou que sua vida tem sido uma história marcada por muita solidariedade, citando dentre tantos alagoanos e maceioenses, a vereadora Heloísa Helena, de quem foi suplente quando de seu mandato no Senado da República.


Luciano Siqueira, natural de Natal/RN e vivendo em Recife/PE desde jovem, destacou que sua presença na Câmara de Maceió devia-se menos à homenagem que recebia, que agradecia muito, mas muito mais pela comemoração dos 90 anos do PCdoB. Afirmou que ao falar da história de sua vida e militância está sempre falando da história do PCdoB. Contou vários episódios vividos durante a clandestinidade a que foi obrigado, com Luci, sua companheira, em terras alagoanas, em Maceió e Santana do Ipanema, onde vivia como vendedor ambulante para se sustentar e contribuir com o Partido.

Luciano destacou o bom momento vivido pelo PCdoB, as propostas elaboradas pelo Partido para um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil, para a realização de reformas indispensáveis, que melhorem as condições de vida do povo brasileiro e que estabeleçam as condições para o avanço na construção do socialismo.

Eduardo Bomfim enfatizou a importância da homenagem a Luciano e Marivone, lembrando Brecht, que diz que aqueles que lutam por toda a vida, esses são os imprescindíveis. Destacou que neste momento em que o individualismo é tão difundido pela mídia hegemônica, é fundamental o exemplo desses que lutam e vivem, não por pragmatismo mas por uma causa, por generosidade e por idealismo. Afirmou que o PCdoB é um Partido que luta pelas causas do povo brasileiro, junto ao povo. Defendeu que o País busque a construção de um projeto civilizatório, não somente o crescimento econômico, num processo em que o PCdoB está ao lado de tantos outros partidos.

sábado, 17 de março de 2012

Uma justa homenagem

Celebrando os 90 anos do Partido Comunista do Brasil, serão homenageados pela Câmara Municipal de Maceió, por iniciativa do vereador Marcelo Malta, Luciano Siqueira, deputado estadual pelo PCdoB em Pernambuco, e Maria Yvone Loureiro, dirigente estadual do PCdoB em Alagoas, militantes que vêm dedicando toda a vida à luta pelas causas do PCdoB, do Brasil e pelo socialismo.


sexta-feira, 16 de março de 2012

O legado da dama de ferro

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Almanaque Alagoas:


Um recente ensaio do sociólogo italiano Franco Cassano expõe a ideologia hegemônica da atual etapa da sociedade capitalista globalizada mesmo que algumas de suas conclusões possam ser questionadas.

Segundo ele as conquistas sociais dos anos sessenta (direitos trabalhistas, consumo de massa, expansão dos direitos sociais) teriam rachado o compromisso entre o capitalismo e a democracia clássica porque revelaram um Estado "perigosamente" exposto às pressões de baixo e a máxima "um indivíduo, um voto" mostrou-se incompatível com os imperativos da rentabilidade e do lucro.

Assim, o capital global numa intensa ofensiva iniciada nos idos de 1970 implementou uma estratégia de evitar o choque frontal, esvaziando a política, redimensionado drasticamente a sua esfera e o papel do Estado nação que já não seria o de dirigir mas garantir algum grau de coesão social, de não mais cultivar projetos ambiciosos, mas apenas remendar e tampar através das políticas compensatórias.

E aí acontece uma espécie de crime perfeito: a decadência da política é atribuída aos seus protagonistas enquanto o verdadeiro poder, o capital global, goza de total liberdade de movimento, impunidade e privilégios.

Com a débâcle da União Soviética e do chamado campo socialista ao leste da Europa, essa liderança unipolar fez-se mais contundente introduzindo um novo período de expansão colonial militar sob o tacão norte-americano e inglês apesar de óbvio declínio econômico, cultural.

Possibilitando que essa contra-ofensiva neoliberal permeasse uma capilar liderança ideológica conduzida principalmente através da grande mídia hegemônica mundial onde o imaginário social assume que o essencial da vida é o sucesso total, que você pode ser o que quiser, não importa de qual maneira, mas que a coletividade é o obstáculo à sua realização individual.

A ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher, a "dama de ferro", cuja biografia filmada acabou de ganhar um Oscar, mãe das políticas neoliberais, dizia que "a sociedade não existe, existem apenas os indivíduos" em uma clara apologia à lei da selva, ao leviatã.

A emergência dos BRICS é um novo alento num mundo conduzido em galopante regressão à barbárie e ao desvario. Para tanto é decisiva a luta de ideias que galvanize os trabalhadores, povos e as nações em defesa de uma nova alternativa econômica, social, bem mais justa para a humanidade.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Instável e perigoso

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão e no Almanaque Alagoas:


Durante a década de noventa a ofensiva das idéias neoliberais no mundo foi tão avassaladora que se tinha a impressão de um massacre político, teórico e ideológico contra todos os que compunham o campo de resistência a uma hegemonia unipolar.

Na época quem era de esquerda, defensor da soberania do seu País, ou mesmo inclinado à função do Estado como responsável pelas estratégias das políticas públicas achava-se acuado diante da carga de cavalaria contra as idéias progressistas e patrióticas.

A artilharia pesada das orientações do novo liberalismo econômico global ficava por conta da mídia hegemônica mundial atuando como uma orquestra afinada com notícias, debates pretensamente científicos, promessas de uma nova era mundial sem guerras, de intercâmbios científicos, tecnológicos, comerciais e muita, mas muita paz e democracia.

Ao mesmo tempo surgiam do nada para as livrarias, universidades, e imensos espaços de propaganda, vários teóricos entre eles o até então obscuro professor de uma faculdade norte-americana, financiado pelos centros de inteligência dos EUA, Francis Fukuyama que se tornou da noite para o dia em uma celebridade com as suas teses sobre filosofia mas sobretudo na economia.

Entre as suas constatações "científicas" as mais celebradas e difundidas eram o fim da História, a vitória total das forças defensoras de um modelo baseado única e exclusivamente no livre mercado absoluto, a morte dos Estados nacionais e em consequência a extinção das fronteiras nacionais.

Com o tempo as doutrinas neoliberais, as teses de Fukuyama, foram rejeitadas pela opinião pública em decorrência de desastres econômicos em todos os Países , incontáveis privatizações criminosas de empresas estatais, massacres dos direitos trabalhistas e dezenas de guerras imperialistas em quase todos os continentes.

Hoje algumas nações emergentes vão construindo uma outra alternativa, um outro cenário geopolítico, econômico, multilateral, especialmente os BRICS.

Mas a nova ordem mundial ainda detém a iniciativa liderada pelos EUA e a Inglaterra que conduzem uma nova guerra de expansão colonialista, associados ao capital financeiro e ao complexo midiático hegemônico internacional.

E constituem uma ditadura ideológica, cultural, temática a nível global em um planeta instável, perigoso, mergulhado em profunda crise exigindo tenaz resistência dos povos e nações.