quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Soberania limitada

Meu novo artigo semanal:


Já se disse que o passado é realidade do ser humano. E que negá-lo é absurdo e ilusório, porque ele é o natural do homem ou da mulher que sempre volta a galope, já que ele não se deu ao trabalho de existir para ser negado, mas para ser integrado na História dos indivíduos e da humanidade.

O jornalista norte-americano Edward Bernays é considerado o inventor da propaganda moderna, lá pelos idos da década de 20 do século passado. Sua principal formulação é exatamente a ideia da Engenharia do Consenso, que consiste em articular consensos para efeito de controlar a opinião pública para os objetivos que se deseja, sem que as pessoas saibam que estão sendo dirigidas.

Para ele esse seria o verdadeiro poder governante na sociedade, e o chamou de Governo Invisível. Com certeza esse não é o verdadeiro poder das sociedades mas, seguramente, o tal poder invisível existe a serviço dos processos hegemônicos, a exemplo da atual globalização do capital financeiro em escala planetária, do seu monopólio ideológico e propagandístico.

A correia de transmissão para o exercício dessa poderosa força de persuasão e controle social, em escala mundial, é sem dúvida a grande mídia monopolista que já não mais atua como veículo de informação, mesmo que parcial, ou de classes.

Ela tem sido a força política hegemônica na grande maioria das nações. Não necessariamente um centro de poder legal, mas o que determina os rumos, destrói os pactos políticos, sociais, gestados nas sociedades. Impõe assim a ditadura do pensamento único de acordo com os interesses do Mercado financeiro, que formatou uma espécie de governança mundial a seu serviço.

Assim como há um esforço de desconstrução das referências Históricas na tentativa de promover uma espécie de “presente contínuo”, sem passado ou futuro, em meio às novas gerações que surgiram sob a égide do Mercado financeiro global.

Um dos objetivos do “Mercado” é impor aos povos a ideia da soberania limitada. A abdicação da soberania efetiva das nações, autodeterminação, território e riquezas.

A grave crise em que o País mergulhou tem como uma das suas principais vertentes a geopolítica da soberania limitada. Que precisa ser enfrentada através de uma ampla frente política, em defesa de um projeto de desenvolvimento econômico soberano, de justiça social.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A “primavera” brasileira

Meu novo artigo semanal:


Em seu livro A Desordem Mundial o cientista político, historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira traz reflexões sobre a realidade nacional e o contexto geopolítico mundial.

Lembrando Rui Barbosa na Assembleia internacional de Haia em 1907, Bandeira alerta que a soberania é a grande muralha da pátria. Mais adiante cita Eduardo Prado: não se toma a sério a lei das nações senão entre as potências cujas forças se equilibram.

Tal lição, diz ele, devia pautar a Defesa do Brasil sobretudo quando os Estados Unidos ampliavam e instalavam bases militares na Colômbia, penetrando na Amazônia, e a IV Frota norte-americana navegava no Atlântico Sul à margem das enormes jazidas de petróleo do pré-sal, em águas profundas, entre a costa do Espírito Santo e Santa Catarina. Essas descobertas inseriram definitivamente o País no mapa geopolítico das jazidas mundiais do petróleo.

Assim os violentos conflitos globais que vemos diariamente através da grande mídia tem duas razões primordiais: movimentos estratégicos geomilitares e a disputa energética pelo domínio dessas jazidas de petróleo.

O atual golpe no País, que tem em sua gênese tais motivações, começou com as manifestações de 2013, no modelo desenhado por Gene Sharp divulgado pela CIA, financiadas pelas fundações de George Soros, USAID e National Endowment for Democracy.

Com a crise institucional, agravada nesta semana, insuflada pela grande mídia, o Mercado Financeiro, os interesses geopolíticos globais e nativos agindo na criminalização da vida política, o governo Temer, equilibrando-se sobre labaredas que já o alcançam, revela que é mera conexão de gestão perfilada in totum com a política do capital financeiro mundial.

Constituiu-se igualmente uma fragmentação na sociedade onde todos são contra qualquer um, e qualquer um contra todos, o ódio difuso viralizado, a desinformação geral, a autoestima do brasileiro rebaixada. Nada disso é espontâneo. Trata-se de modelo aplicado em vários Países, como a “Primavera Árabe” etc.

O Brasil, que já sobreviveu a tempestades mais dramáticas, com certeza sairá dessa mais revigorado, com o espírito democrático do seu povo fortalecido, a soberania resguardada, um projeto de desenvolvimento estratégico com suas próprias características, potencialidades de nação continental e solidária.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A desordem mundial

Entrevista à Carta Maior do historiador e cientista político Moniz Bandeira, publicada no blog de Luciano Siqueira:


Geopolítica e Brasil

Falsa democracia é produto de exportação americano

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Moniz Bandeira fala sobre a geopolítica internacional e suas influências na política interna brasileira.

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Há cerca de duas semanas chegou às livrarias o novo livro do professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, A Desordem Mundial (Ed. Civilização Brasileira/ 642 páginas), historiador e cientista social e segundo o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães “o mais importante especialista brasileiro e latino-americano em política internacional.” Este trabalho fecha a sua trilogia constituída de Formação do Império Americano e A Segunda Guerra Fria, frutos de exaustiva pesquisa e formidável e incontestável documentação onde o professor aposentado da Universidade de Brasília e universidades da Alemanha, Suécia, Portugal e Argentina aprofunda o “fio condutor que atravessa a sua obra de ponta a ponta: o antiimperialismo ocidental e, em particular, americano,” como a ela se refere o pesquisador Michael Löwy na apresentação do trabalho.

Em A Desordem Mundial, livro de referência onde é narrada a saga dramática da geopolítica atual – e da humanidade -, é aprofundada a descrição dos métodos da exportação de fake democracie pelos Estados Unidos (democracia militar governada pelo poder aninhado em Wall Street, como registra o historiador); o seu objetivo de total dominação num mundo unipolar com as guerras por procuração (as proxy wars); o ressurgimento notável da Rússia como potência militar e diplomática, e os processos de desestabilização de governos mais vulneráveis ou que contrariam frontalmente seus interesses econômicos (o regime change) como é analisado, na Ucrânia e na Síria.

Algumas observações de Moniz Bandeira tais como “a corrupção é inerente à república presidencialista inspirada no modelo americano” ou "quem fala de teoria de conspiração é ignorante” estão na entrevista que ele concedeu a Carta Maior por email, do escritório de sua residência, em Heidelberg, na Alemanha, onde vive há 20 anos com a mulher, Margot, e o filho, Egas.

Nela, ele faz observações também sobre o golpe no Brasil, programado de fora do país: ”Ele ainda está se consumando.”

Carta Maior – Em quanto tempo escreveu A desordem mundial que fecha uma trilogia com Formação do Império Americano e A Segunda Guerra Fria?

Há muitas décadas, desde os meus 20 anos, acompanho e estudo os Estados Unidos, sua formação, política internacional e relações com o Brasil e demais países da América Latina, tais como os da Bacia do Prata, Chile, Cuba etc. Formação do Império Americano, essencialmente uma trilogia com A Segunda Guerra Fria e A Desordem Mundial, comecei a escrever em 2008, quando os embaixadores Jerônimo Moscardo, presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, e Carlos Henrique Cardim, diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) me convidaram para escrever um ensaio sobre a geopolítica e a dimensão estratégica dos Estados Unidos a fim de apresentá-lo na III Conferência Nacional de Política Externa e Política Internacional, no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 2008. Depois de 2010, com a evolução dos acontecimentos internacionais, econômicos e políticos, conversei com meu querido editor, Sérgio Machado, proprietário da Record/Civilização, e com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, meu particular amigo, e ambos me estimularam a desenvolver o ensaio e transformá-lo em uma obra com o título A Segunda Guerra Fria. A história é movimento, é um contínuo devenir, a cada instante, como as nuvens no céu, ela toma formato diverso e a partir daí me vi na contingência de escrever outro livro, A Desordem Mundial, lançado agora.

CM – Entre os 24 capítulos de A Desordem Mundial dez deles são dedicados ao golpe na Ucrânia. Terá sido este o primeiro grande evento geopolítico recente a ser identificado, do ponto de vista histórico, como marco de uma ruptura que sinaliza um perigoso mundo do futuro?

A Ucrânia e a Síria são dois teatros de guerra em que os Estados Unidos estão atolados e, virtualmente, derrotados. Apesar do aguçamento das tensões, um cenário que muitos analistas consideram talvez mais grave do que a crise dos mísseis instalado em Cuba em 1962, não creio que elas esquentem ao ponto de levar os Estados Unidos e a Rússia a um confronto armado direto. Não creio que os falcões de Washington se arrisquem a tanto. Seria a destruição mútua de ambas as potências. A guerra fria, no entanto, deve prosseguir de uma forma ou de outra porque constitui uma necessidade econômica dos Estados Unidos. Os lucros e as comissões que a indústria bélica e sua cadeia produtiva proporcionam, os empregos e a receita de que vários Estados do sun-belt(Califórnia e outros) dependem, bem como os orçamentos do Pentágono, da CIA e demais órgãos de segurança, todos necessitam da criação de ameaças tais como a Rússia etc.

CM - Embora imperialistas por um lado, e colonizados, por outro, digam que o ''avesso'' da falsa realidade que o senhor apresenta, é “teoria de conspiração'', começa o acesso massivo a fatos reais - como o célebre ''Fuck EU'' da embaixadora americana Victoria Nuland, que vazou, dois anos atrás, no início do golpe na Ucrânia, quando ela falava ao telefone. Acha que Snowden e Assange, Greenwald, Jeremy Scahill e outros jornalistas independentes como Robert Fisk estão abrindo caminho para contrapor os fatos à propaganda das agências?

Como historiador e cientista político, a fim de reconstituir os acontecimentos, sempre tratei de ouvir a todos, cruzar e confrontar todas as informações de modo a confirmar e ajustar os fatos ao que foi e é plausível, e assim acrescentar e/ou corrigir algumas informações e, outras, aprofundá-las. Decerto temos que conhecer a história em todas as múltiplas dimensões nas quais ela se desenvolve e evolui, e aprender os seus ensinamentos. Falar simplesmente em ‘’teoria da conspiração’’ é manifestação de desconhecimento e ignorância. Nada ocorre, nem um acidente de automóvel, sem causas; seja por falha mecânica, descuido do motorista ou outras. E assim é na história. Quem pode dizer, diante de tantos documentos revelados sobre a Operação Brother Sam, que o golpe contra o governo do presidente João Goulart não foi articulado a partir dos Estados Unidos (CIA, DIA etc.), embora uma parte do exército brasileiro o executasse? Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, em 1964, quando me deu uma entrevista em Washington, alguns anos depois, disse-me, com o maior cinismo, que “nenhum americano participou do golpe contra Goulart”. Eu respondi, prontamente: “Claro, não estavam à frente. Com o senhor, os americanos estavam por trás, manejando os cordéis”. A diretriz dos Estados Unidos sempre foi produzir acontecimentos de tal modo que pudessem negar sua responsabilidade: “plausible deniability”.

CM - Com a ameaça cada vez mais agressiva dos EUA de romperem a aliança com a Rússia na guerra da Síria haverá certamente o perigo de uma guerra "total" no Oriente, como advertiu a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russa há pouco? Ou se trata de mais uma bravata neste complexo jogo de xadrez?

Como já disse, não creio (embora tudo seja possível) que as duas grandes potências – Rússia e Estados Unidos – cheguem a um confronto armado direto. Os Estados Unidos estão chafurdados na Ucrânia e na Síria. Mas não me parece viável que o presidente Obama, os falcões do Pentágono e da CIA, Hillary Clinton et caterva arrisquem uma guerra nuclear para dominar esses dois países e manter a hegemonia dos Estados Unidos. Sabem perfeitamente que, ao fim do conflito, nada dominarão. A Rússia, ainda que devastada, tem igualmente condições de tornar os Estados Unidos a pó de urânio.

CM – Na sua visão, caminhamos na direção de um mundo ainda mais inseguro e caótico?

Não sou pessimista a esse ponto. A evolução recente dos acontecimentos internacionais indica que os Estados Unidos, conquanto ainda possam prevalecer durante várias décadas, durante o século XXI, não conseguirão manter um mundo unipolar. A Rússia interveio na guerra da Ossetia contra a Geórgia, em 2008, e Washington nada pôde fazer senão protestos e ameaças que não podiam nem puderam concretizar. A Rússia, ao intervir na Síria e impedir a derrubada do regime de Bashar al-Assad, mudou o curso da guerra e mais uma vez se impôs como ator global, mostrando que os Estados Unidos não podem impor unilateralmente sua vontade, seus caprichos. A China, por outro lado, fundou o Banco Asiático de Investimento e Infra - estrutura e outras entidades financeiras, confrontando o Banco Mundial, o FMI e o predomínio do dólar como principal moeda de reserva mundial. E os interesses econômicos e geopolíticos da Rússia e da China confluem, convergem e obstaculizam a hegemonia dos Estados Unidos, criando as condições para um mundo multipolar. Como escreveu o grande poeta francês Louis Aragon “Qui vivra verra”.

CM - O Brasil, pela sua posição estratégica, reservas de óleo e dimensão continental, é um key country como a Turquia?

Não se pode afirmar que a tentativa de golpe contra o governo da Turquia foi organizada pelo governo do presidente Obama. Havia condições internas para um levante militar devido a graves contradições políticas e religiosas. Grande parte da população da Turquia, inclusive das Forças Armadas, não aceita uma espécie de califado, um regime islâmico conforme se supõe e se acusa o presidente Recep Tayyip Erdogan de pretender restaurar. De qualquer forma, a história deu uma volta. A Turquia, membro da OTAN, pendeu para uma aliança com Moscou com o qual havia entrado em grave atrito, ao derrubar, dentro da fronteira da Síria, o avião-bombardeiro Suchoi Su-24. Mas o Brasil não é um país chave, um pivot country, por causa do petróleo pré-sal. O Brasil, depois dos Estados Unidos, é a maior massa demográfica, a maior massa geográfica com fronteira com todos os países da América do Sul, exceto Chile e Equador, a maior massa econômica do hemisfério. Não sem razão o presidente Richard Nixon declarou, durante a visita do general Emílio Garrastazu Médici a Washington, que “para onde for o Brasil irá toda a América Latina”. O grande jurista brasileiro Rui Barbosa, ao defender o princípio da igualdade entre os Estados, na Assembléia de Haia, em 1907, combateu firmemente o projeto dos Estados Unidos para a criação de uma Corte Permanente de Arbitragem, que privilegiava as grandes potências em detrimento dos países mais fracos. E ao defender a igualdade dos Estados soberanos, proclamou que “la souveraineté est la grande muraille de la patrie’’. Citei-o no discurso que pronunciei, ao receber em 2009, o título de Dr. h.c. da UFBA, em Salvador. Conforme o próprio Rui Barbosa, observou, reproduzindo Eduardo Prado, não se toma a sério a lei das nações, senão entre as potências cujas forças se equilibram. Esta lição devia pautar a estratégia de segurança e defesa do Brasil, sobretudo quando os Estados Unidos ampliavam e instalavam outras bases militares na Colômbia, penetrando a Amazônia, e a IV Frota navegava no Atlântico Sul, à margem das enormes jazidas de petróleo descobertas nas camadas pré-sal, em águas profundas, entre a costa do Espírito Santo e Santa Catarina. Tais descobertas, ao longo da costa, inseriram o Brasil no mapa geopolítico do petróleo, eu disse na época, acrescentando que as ameaças existiam conquanto pudessem parecer remotas. E adverti que o perigo representado por uma grande potência, tecnologicamente superior, mas com enormes carências, sobretudo de energia, pode ser muito maior quando ela está perdendo a preeminência, e quer mantê-la, do que quando expande o seu império.

CM – Quais as providências que o Brasil deveria ter tomado?

O Brasil devia estar preparado para enfrentar, no mar e em terra, os imensos desafios que se configuram, no século XXI, a “era dos gigantes”, como o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães a denominou, na qual os grandes espaços econômicos e geopolíticos serão os principais atores da política internacional. Si vis pacem, para bellum. Ou seja: Se queres a paz, prepara-te para a guerra.

CM - No livro, o senhor diz que a mídia corporativa "nem sempre é confiável". Quando ela é confiável?

Os jornais, rádios e televisões são confiáveis quando noticiam fatos que podemos comprovar e não informações plantadas por agentes dos serviços de inteligência. Daí é necessário – como faço – verificar todas as fontes, cruzá-las e analisar a sua plausibilidade. Quando jovem, eu trabalhei na imprensa; e como cientista político fui professor de comunicação política na PUC/RJ. Conheço relativamente bem – dado que estudo o tema há muitas décadas - como ocorre o processo de infiltração dos jornais e agências de notícias pela CIA e outros serviços de inteligência, e promovem as psy-ops, a guerra da desinformação e contra-informação, agora também desenvolvida através das mídias sociais.

CM – Sua observação: a "democracia imposta pela força nunca seria democracia, mas uma fake democracie,”se referindo à suposta democracia americana tendo em vista o domínio do capital financeiro e das grandes corporações industriais. Hoje, no Brasil, temos uma falsa democracia com o mesmo objetivo (alcançado). Trata-se do novo modelo exportado pelos EUA?

Sim, esse é o modelo de democracia que os Estados Unidos tratam de exportar, juntamente com o livre mercado, liberdade cambial e comércio multilateral, condições necessárias para o predomínio do grande capital financeiro, mais e mais internacionalizado. Mas os Estados Unidos são um país muito contraditório, devido às suas origens revolucionárias. Segundo as palavras de Karl Marx, “die größerenKapitaleschlagendaher die kleineren” (os grandes capitais esmagam os pequenos), uma vez que a concorrência se acirra em relação direta com o número e em relação inversa à grandeza dos capitais, que rivaliza e termina sempre com a derrota dos pequenos capitalistas cujas empresas ou afundam, quebram ou passam para as mãos dos vencedores, gerando o monopólio. É o bellum omnium contra omnes, de Thomas Hobbes - a lei da selva, o darwinismo econômico, social e político. O mercado, no qual os capitalistas fazem a conversão monetária do excedente econômico, sempre foi o campo de batalha onde somente os mais aptos, os mais fortes, podem sobreviver.

CM- A partir do golpe parlamentar/jurídico/midiático no Brasil, nós vivemos o processo de passar de um regime democrático para outro, oligárquico e sob a ‘’ditadura do capital financeiro’’, segundo o professor Bresser Pereira. O que o senhor diz a respeito?

Em cada país o processo de mutazione dello stato é diferente. O golpe, desfechado via Congresso-judiciário-mídia ainda não se completou. A situação ainda é muito instável e volúvel. Além de fatores internos muito depende como a política internacional vai evoluir com a eleição nos Estados Unidos. De um modo ou de outro, a corrupção é inerente à república presidencialista, inspirada no modelo americano; o governo instituído com a derrubada da presidente Dilma Rousseff está essencialmente apodrecido e a perspectiva econômica, caso sejam implementadas as medidas neoliberais que pretende implantar, é de profunda recessão. Os capitais estrangeiros jamais afluíriam para um país onde não podem obter lucros.

CM - No passado, sempre se tentou baixar medidas ultra recessivas aqui.

O marechal Humberto Castelo Branco, ao assumir o governo após o golpe de 1964, pretendeu também empreender iniciativas neoliberais almejando inclusive a privatização das empresas do Estado, mas teve de recuar e fazer massivos investimentos públicos a fim de recuperar a economia da recessão em que lançara o Brasil. Daí a ascensão ao governo do general Artur da Costa e Silva com uma política de desenvolvimento. A predominância dos interesses do capital financeiro, de um modo ou de outro, nunca deixou de existir, no Brasil.

CM - Mas em décadas recentes esta situação tendeu a mudar.

Sob o presidente Lula, o Brasil deu uma inflexão em sua política exterior no sentido de maior estreitamento das relações com a China e a Rússia e conquista dos mercados da América do Sul e África. Além do mais, reativou a indústria bélica com a construção do submarino atômico e outros convencionais, em conexão com a França, a compra dos helicópteros da Rússia e dos jatos da Suécia, países que aceitaram transferir a tecnologia, o que os Estados Unidos não fazem. Esses e outros fatores, como a exploração do petróleo pré-sal sob o controle da Petrobrás, dentro de um contexto em que os Estados Unidos deflagraram outra guerra fria contra a Rússia, concorrem para que interesses estrangeiros aliados a expressivo setor empresariado brasileiro promovessem, sorrateiramente, um golpe, conjugando a mídia, o judiciário e o Congresso, no estilo das “revoluções coloridas”.

CM – Seguindo a receita do manual de autoria do americano Gene Sharp?

Sim; conforme recomendado pelo professor Gene Sharp. Para ele, a luta não violenta é mais complexa e travada por vários meios, como a guerra psicológica, social, econômica e política, aplicados pela população e pelas instituições da sociedade. Esse processo ocorreu, de uma forma ou de outra, nos países da antiga União Soviética, como a Ucrânia. Nos países do Oriente Médio, não teve maior êxito, dado que a chamada “primavera árabe” resultou em guerras, terror, caos e catástrofes humanitárias. Esse, o panorama internacional que tratei de explicar em A Segunda Guerra Fria, publicado também em alemão (Der ZweiteWeltKrieg) pela editora Springer e, brevemente, em inglês, assim como em A desordem Mundial.

CM- E o suporte do governo americano e das ONGs conexas – de Soros, por exemplo -, proporcionados ao Instituto Millenium, ao grupo MBL etc. no golpe daqui?

Sim, o ataque ao Brasil não veio de fora. Partiu de dentro do seu próprio ventre. Repetiu-se o que o grande presidente Getúlio Vargas denunciou em 1954: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho”. Daí o golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff. A campanha começou com as demonstrações de protesto, em 2013, na modalidade desenhada pelo professor Gene Sharp, no seu manual Da Ditadura à Democracia traduzido para 24 idiomas e distribuído pela CIA e pelas ONGs financiadas ocultamente pelas fundações de George Soros, USAID e National Endowment for Democracy, dos Estados Unidos.

CM -"A mudança de poder no Brasil não podia ser realizada sem uma intervenção externa", disse há pouco, o senador Konstantin Kosachev, presidente do Conselho Internacional da Federação Russa. Para ele, uma das causas do regime change no Brasil foi a política soberana e independente que o país vinha desenvolvendo nos últimos anos e a disputa por recursos energéticos. Palavras ignoradas por Washington e pela velha mídia daqui.

Essa declaração, Washington ignorou. O governo instituído no Brasil, também. A mídia, idem. Porém, ninguém duvida que sem dinheiro de fora e de dentro - de parte do empresariado nacional - escorrendo, sub-repticiamente, por debaixo do pano e da mesa, para contas nos paraísos fiscais, o golpe via parlamentar, impulsionado pela mídia e pelo judiciário, não se efetivaria, não obstante as condições e circunstâncias geradas dentro da república presidencialista, cuja essência, no Brasil como nos demais países da América Latina, bem como nos Estados Unidos, é a corrupção.

CM - Na sua visão, o século XXI será (ou já é) o século chinês?

É possível. Mas não será unipolar. Os Estados Unidos ainda serão por muitas décadas o principal ator. E a Rússia, como Phœnix, ressurgiu dos escombros da União Soviética e demonstrou que continua uma superpotência e pode deter e conter a ditadura global, isto é, a ditadura do capital financeiro que os Estados Unidos intentam implantar com o rótulo de exportação da democracia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Horizontes

Meu novo artigo semanal:


Um conhecido homem-show da mídia monopolista é transformado, via televisão a cabo, numa espécie de porta-voz dos rumos do pensamento intelectual brasileiro, na literatura, artes, na análise Histórica do País.

O seu papel não é o da investigação cultural sobre o contínuo Histórico nacional, mas o contrário, a sua desconstrução absoluta.

Não é novidade. A linha adotada há algumas décadas, através de uma agenda global, de temas pseudocientíficos, vem sendo aplicada seja no Brasil, na gélida Dinamarca, ou na pachorrenta Suíça dos relógios de precisão, pioneira dos paraísos fiscais, as contas secretas dos bancos suíços.

O Mercado rentista atingiu dimensão de hegemonia absoluta. Tornou-se imperioso para ele contrapor às identidades dos povos, às suas culturas, formação, um conjunto de ideias conhecidas como a ditadura global do pensamento único.

Não foi o proletariado de todo mundo que se uniu, como advogava Marx em sua visão de superação da exploração brutal do capitalismo sobre as sociedades e os indivíduos, mas o seu oposto, o capital que assumiu uma forma superior, demoníaca, violenta, mais destruidora.

A atual revolução tecnológica, a serviço do Mercado global, monitorada pelo império do Norte, e a seu dispor, não tem levado as sociedades ao raciocínio crítico, ao contrário, as conduz a uma espécie de Idade Média digital, onde avultam tempestades difusas de ódio pandêmico.

Mas o legado filosófico, econômico, cultural e humanista de Marx continua, dialeticamente, atual, porque a globalização, a Nova Ordem Mundial, vem conduzindo os povos à catástrofe, ao pântano.

Em pleno século XXI o mundo jamais presenciou tantas guerras de rapina, atrocidades, milhões de refugiados, afogados nos mares que banham a Europa. Uma acumulação de riquezas em ínfimas mãos sem precedentes, miséria galopante, as liberdades conspurcadas.

A perda dos direitos dos assalariados, um retrocesso mundial, inclusive no Brasil, vejam a PEC 241, as nações sob graves ameaças, como é o nosso caso com o petróleo, a Amazônia, e muitas outras riquezas num País continental.

Por isso a centralidade da questão nacional, a defesa do Brasil, do Estado nação, de um projeto estratégico de desenvolvimento soberano que unifique amplas maiorias do povo brasileiro, impõe-se como uma necessidade objetiva, incontornável.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Paraíso rentista

Meu novo artigo semanal:


Alguém já disse, não me lembro do autor, que a direita, a direita mesmo convicta e xenófoba, é e sempre foi minoritária no Brasil. Que só cresce quando uma conjunção de fatores lhe é extremamente favorável aos movimentos conspiratórios que é uma característica dela em nossa História política republicana.

É só ver o exemplo de Carlos Lacerda, um dos maiores articuladores de golpes do País. Procurou derrubar Getúlio Vargas diuturnamente, assim como Juscelino, João Goulart, Brizola etc.

Lacerda tinha um eleitorado cativo, seguidores fiéis, quase fanáticos, mas restrito, nunca conseguiu sequer lançar-se candidato à presidência da República. Terminou sua carreira política cassado junto com, ironia do destino, aqueles que ajudou a perseguir implacavelmente.

Já se disse também que aquele que não procura conhecer os fatos históricos está condenado a repeti-los, principalmente hoje em que a apologia da ideia do “presente contínuo”, propagado através da hegemonia do discurso ideológico da Nova Ordem mundial, passou a ser uma “verdade” conceitual imposta às novas gerações.

O tremendo retrocesso que atinge multilateralmente o Brasil vem sendo conduzido através de algumas forças que podemos afirmar como vanguardas do atraso, ou melhor, vanguardas do Mercado financeiro global, que procura avançar contra o País como um furacão de categoria máxima.

A ofensiva do Mercado financeiro não é recente, vem de décadas. Sempre buscou constituir uma espécie de ditadura do pensamento único seja na política, na cultura, em um arcabouço ideológico maciço.

Para que pudesse atingir tamanha força tem sido decisivo o papel da mídia monopolista nativa, absolutamente associada ao capital financeiro, porta voz dos seus interesses econômicos e políticos.

A ofensiva especulativa assoma na PEC 241 da paralisia nos investimentos públicos. Como disse André Araújo: o que interessa ao Brasil é o investimento produtivo para gerar novos empregos, oportunidades, negócios e não aquele puramente financeiro onde o investidor toma dólar a 1% ao ano em Nova York e aplica aqui a juros reais de 7% ao ano em títulos da dívida pública.

O ajuste fiscal vai produzir mais recessão, menos renda, e o paraíso do rentismo especulativo no País. O rumo do Brasil é outro. É o do desenvolvimento soberano, da justiça social.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Projeto de nação

Meu novo artigo semanal:


Desde o tempo do império há no Brasil, em meio a um caleidoscópio de correntes políticas, duas visões antagônicas sobre como se conduzir a um rumo de superação dos atrasos da sociedade brasileira: uma delas baseia-se no Estado como instrumento e indutor de um projeto de desenvolvimento do País, para reverter nossas distâncias junto à comunidade das nações mais ricas.

A outra visão lastreia-se exatamente no seu oposto: o Estado seria o adversário que sufoca a sociedade civil, o promotor da corrupção nativa, mentor do autoritarismo, que impede o pleno crescimento dos setores do empresariado, da indústria, comércio ou agricultura etc.

Nessa segunda linha de pensamento encontram-se hoje os representantes da fina flor do novo liberalismo brasileiro que rejeitam vigorosamente qualquer projeto de desenvolvimento do País, negam o protagonismo da política como motor da participação dos trabalhadores, e da sociedade em geral, nos rumos da nação.

Para esses a própria sociedade civil é um conceito excludente das grandes maiorias sociais, que a reduz a extratos “designados” das elites, das corporações profissionais, sempre associadas à grande mídia hegemônica que já não informa, mesmo a informação parcial, promove um discurso retrógrado, reacionário, antinacional.

Essa grande mídia, associada à Nova Ordem mundial, advoga abertamente a subordinação do Brasil ao status quo das suas atuais vicissitudes estruturais na economia, no estancamento, ou mesmo regressão do processo de uma industrialização competitiva a nível internacional, do investimento pesado em infraestrutura etc.

Assim como a privatização de setores estratégicos essenciais ao alavancamento do desenvolvimento, perda de conquistas trabalhistas históricas arduamente adquiridas ao longo dos tempos. Para tanto priorizam criminalizar gravemente a própria atividade política em si, restringindo-a ao mínimo possível para mantê-la sob estrito controle.

O Brasil que emergiu recentemente das urnas, já no primeiro turno, expõe todo esse objetivo danoso. Mas aponta igualmente para a necessidade de amplos setores da sociedade promoverem na atividade política uma nova espécie de Estadismo que reúna as grandes maiorias em torno de um caminho de desenvolvimento estratégico, soberano, das conquistas sociais, um projeto de nação.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A política do caos

Meu novo artigo semanal:


O que vemos no Brasil atual é o aprofundamento das políticas de mundialização do capital financeiro sobre os Estados soberanos, contra as históricas conquistas trabalhistas adquiridas através de muita luta, suor, sangue mesmo, desde o final da 2a Grande Guerra Mundial.

Trata-se de um processo demolidor das sociedades erigidas nesses últimos 71 anos, com todas as suas virtudes, e seus inumeráveis defeitos, em vários aspectos: político, cultural, ideológico, econômico etc.

A globalização financeira e parasitária vem se dando em etapas, não de maneira planejada mas via sofreguidão acumulativa do capital fora do processo produtivo, para que não fique pedra sobre pedra da sociedade contemporânea.

Na medida em que as manifestações de resistências sociais, dos povos e nações, são postas na defensiva através de uma hegemonia política totalitária, onde joga papel preponderante a grande mídia globalizada associada ao rentismo, aí a Nova Ordem mundial avança como uma retroescavadeira destruindo o tecido das sociedades.

Sob o falso discurso de uma era sem fronteiras, do cidadão global, de uma única sociedade mundial, destrói-se não só a identidade cultural, antropológica das sociedades, mas a condição das nações serem protagonistas dos seus próprios destinos, submetendo-as a um total desnorteamento.

Em recente artigo os economistas Luís Gonzaga Belluzzo e Galípolo indicam que pela primeira vez a renda dos 1% dos mais abastados do planeta equivale à de 99% da população. Esse é o destino da sociedade a que a globalização da Nova Ordem mundial conduz.

Dizem os economistas: “pretendem a rejeição ao outro, a reputação das causas do mal aos que não são iguais, incitam o ódio de classe, gênero, raça, religião pelos quatro cantos do globo... onde se manejam, através da política e da mídia, a técnica das oposições binárias que se esparramam nas modernas interações das redes sociais, tentam sustar a articulação do movimento de grupos sociais heterogêneos em uma grande coalizão progressista (e patriótica), onde decisões sejam permeadas por instâncias democráticas”.

É uma estratégia do retorno ao poder das forças neoliberais ortodoxas pela via totalitária do pensamento único, a criminalização da política. Cabe-nos a luta em defesa do progresso social e da nação sob graves ameaças.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Encruzilhada

Meu novo artigo semanal:


O viciado processo de impedimento, e a deposição da presidente Dilma Rousseff, incorporam-se na conturbada História da tradição política republicana brasileira, incluindo o período posterior à promulgação da Constituição de 1988.

Após a debacle da União Soviética e a hegemonia unipolar dos Estados Unidos assistimos a uma destruição das conquistas sociais sem precedentes na História contemporânea, uma infinidade de guerras de rapina até os dias atuais e uma brutal tragédia humanitária.

Junto à onipresença imperial norte-americana alavancou-se o domínio global do Mercado financeiro em todas as esferas: política, cultural, ideológica e econômica.

Com tal hegemonia ascendeu uma espécie de Governança mundial apoiada em instituições internacionais que, ou foram capturadas com vistas aos objetivos hegemônicos dos EUA, da globalização financeira, ou foram criadas para tal fim.

Uma das metas da Nova Ordem neoliberal factualmente inaugurada pela ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, o presidente americano Ronald Reagan, um obscuro astro de filmes B de Hollywood, foi a afirmação estratégica anglo-americana, a consolidação da “santa aliança” do capital rentista com os novos centuriões do século XXI.

Incluindo a alienação financeira dos Estados soberanos como questão central aos atuais “donos” do mundo, com enormes resistências sociais dos segmentos agrupados na defesa da soberania dos povos, das nações. Em resumo, é o que está em curso no Brasil.

Mas o surgimento dos BRICS, da China como nova potência econômica, financeira global, da Rússia como protagonista militar, econômica, de recursos naturais decisivos como o petróleo, o gás que abastece a Europa, passa a exigir outra ordem global multilateral, uma tendência irreversível.

Não é possível entender a dramática conjuntura nacional sem ligar os fios que a prendem ao cenário mundial do domínio do capital financeiro, dos interesses geopolíticos dos EUA. Daí o papel da grande mídia que impõe a agenda política do País.

Por isso o Brasil necessita de um projeto de desenvolvimento estratégico, da união de largas correntes da sociedade em torno de outro rumo político, democrático e soberano. Que reafirme a sua integridade e protagonismo, a condição de ser uma nação solidária num cenário global profundamente tormentoso.

Luciano Siqueira: Prevalece a multiplicidade de alianças

Do blog do Luciano Siqueira, seu texto publicado no Vermelho e no blog de Jamildo:

Caleidoscópio partidário



O jornal O Globo publicou um infográfico em que exibe a imensa multiplicidade de alianças partidárias celebradas para o pleito do próximo dia 2.

Embora dois partidos – o PCdoB e o PT – acumulem maior número de alianças entre si, todos os demais integram coligações das quais participam praticamente todas as agremiações legalmente constituídas.

O PCdoB, vacinado contra a rigidez tática e o sectarismo, atento à natureza eminentemente local do pleito, exerce o máximo de amplitude e de flexibilidade, preservando, entretanto, em cada coligação de que participa, sua identidade, suas convicções teóricas e suas opiniões políticas sobre a questão nacional, respeitando as dos aliados.

A convergência se dá em torno de programas para as cidades.

É o óleo na água, como costumam dizer os comunistas: juntos, mas não diluídos entre si, cada um no seu quadrado, plenamente identificáveis.

Mesmo o PT, que anunciou diretiva nacional proibitiva de alianças com partidos cujos parlamentares votaram a favor do impeachment, em inúmeras situações se fez flexível. Caso do Recife e Olinda, onde faz aliança prioritária com o PRB, que votou fechado pelo afastamento da presidenta Dilma; de Salgueiro, onde apóia chapa composta pelo PMDB e pelo DEM e Caruaru, onde apoia o candidato do PSB e assim por diante.

Nada de errado. Diretrizes esquemáticas e rígidas não casam com a realidade. A imensa diversificação política e cultural que marca a sociedade brasileira, que impacta a fisionomia da quase totalidade dos partidos, tem seu ápice nas eleições municipais.

Poderia ser diferente? Certamente sim – desde que uma reforma política de sentido essencialmente democratizante, e não restritivo, viesse a adotar o sistema de listas preordenadas pelos partidos para a disputa das casas legislativas. Esse dispositivo, por si mesmo, contribuiria de modo determinante para a necessária triagem via voto popular, fazendo desaparecer naturalmente legendas que não ultrapassam limites cartoriais.

De outra parte, a sempre reincidente proposta de adoção de cláusula de barreira, restritiva da presença no Parlamento de partidos eventualmente situados como minoritários, faria uma triagem impositiva, antidemocrática.

A questão vem sempre à tona no curso dos episódios eleitorais e permanece hibernada nos interregnos.

Agora que o país atravessa período marcado pela regressão política e institucional, vem sendo abordada em paralelo às campanhas eleitorais, como que preparando o ambiente para mais um golpe nos processos democráticos.

De toda sorte, tão logo se encerrem as eleições municipais, às forças do campo democrático cumpre incluir o tema na agenda da resistência.

Belluzzo e Galípolo: A economia em guerra com a sociedade

Do Vermelho, texto de Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo, publicado na Carta Capital:


O absolutismo financeiro encaminha o conflito civil global e orienta todas as suas polarizações.

A ascensão dos investimentos transfronteiriços nas décadas recentes não configura a primeira explosão significativa da globalização financeira. O estudo Financial Globalization: Retreat or reset, do McKinsey Global Institute, publicado em 2013, confirma que a Segunda Revolução Industrial coincide com uma nova era da mobilidade de capitais, que se estendeu, aproximadamente, de 1860 a 1915, quando os ativos de investimentos estrangeiros globais alcançaram 55% do porcentual do Produto Interno Bruto de uma amostra significativa de países.

A participação dos ativos estrangeiros globais sofreu uma queda acentuada no período que compreende as duas grandes guerras mundiais e a Grande Depressão, voltando a atingir seu pico histórico apenas no início dos anos 1990. Recentemente, tais ativos alcançaram 160% do PIB dos países da amostra.

Antes ou agora, a globalização jamais cumpriu as promessas de dependências harmoniosas. A fantasia de capitais abundantes transbordando das economias centrais paras as periféricas, em busca de maior remuneração pelo seu emprego (em decorrência de uma situação “inicial” de escassez), homogeneizando sociedades e taxas de juro ao redor do globo, vive apenas nas mentes herméticas de alguns economistas.

O verdadeiro sentido da globalização é o acirramento da concorrência entre empresas, trabalhadores e nações, inserida em uma estrutura financeira global monetariamente hierarquizada. A convulsão das sociedades ante a falência dos nexos econômicos é o corolário das simbioses e contradições das relações “inter-nacionais”, que elevaram exponencialmente a complexidade da gestão das políticas econômicas nacionais. Os dados sobre concentração de renda corroboram a polarização observada na população.

Conforme o Global Wealth Databook, publicado pelo Credit Suisse, a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes. A Oxfam afirma que, em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas, a metade mais afetada pela pobreza da humanidade.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico afirma que, entre 1975 e 2012, perto de 47% do crescimento total da renda antes de impostos nos Estados Unidos foi para o 1% no topo. O Fundo Monetário Internacional aponta queda de 11% na participação da população de renda média entre 1970 e 2014 nos Estados Unidos, em razão do “baixo dinamismo do mercado de trabalho”. A tendência de polarização é consistente para diferentes cortes de definição de renda média.

Não é recente a inquietação com o movimento do capitalismo impulsionado pelas contradições entre sociedades com “espaços democráticos” nacionais e mercados globais. Ainda em 1848, o velho Marx, ao observar o desenvolvimento “de um intercâmbio universal e uma universal interdependência das nações”, sentenciou: “Assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que invocou”.

Em Guerres et Capital, Éric Alliez e Maurizio Lazzarato afirmam: “O capitalismo e o liberalismo carregam as guerras dentro de si como as nuvens carregam a tempestade. Se a financeirização do fim do século XIX e início do século XX conduziu à guerra total e à Revolução Russa, à crise de 1929 e às guerras civis europeias, a financeirização contemporânea dirige à guerra civil global, ordenando todas as suas polarizações... À era da desterritorialização sem limites de Thatcher e Reagan sucedeu a reterritorialização racista, nacionalista, sexista e xenófoba de Trump, que assumiu a liderança do novo fascismo”.

Ante o nervosismo da insegurança econômica, a polarização política se eleva, fomentada pelo crescimento da massa daqueles que tiveram suas condições de trabalho e vida precarizadas na senda da arbitragem geográfica de salários, impostos e juros pela finança globalizada.

A política e a mídia tornam-se o palco de demagogos que capitalizam essas fontes de preocupação e raiva, manejando com desembaraço a técnica das oposições binárias, método que se esparrama nas modernas ações e interações entre os participantes das redes sociais.

A rejeição ao outro e a reputação das causas do mal aos que não são iguais excitam o ódio de classe, raça, religião e gênero pelos quatro cantos do globo, impossibilitando a articulação do movimento de grupos sociais heterogêneos em uma grande coalizão progressista, reduzindo a esperança de reedição de um ambiente econômico onde decisões sejam permeadas por instâncias democráticas.

O protofascismo de Trump não é um fenômeno isolado. O Brexit foi marcado pelo assassinato da deputada britânica Jo Cox. Antes do ataque, o assassino gritou: “Reino Unido primeiro”, lema da ultradireita britânica.

Ao analisar a vitória nas eleições regionais do Alternativa para a Alemanha, partido de extrema-direita, a revista Der Spiegel afirmou: “A estratégia de apresentar uma solução única e incontestável deve ser reavaliada. Caso contrário, o mundo estará encarando uma era na qual serão cada vez mais fortes aqueles que não oferecem qualquer solução, os que só oferecem rejeição e medo”.

No Brasil, as heranças e sestros da casa-grande aproveitam-se dos desconfortos da crise econômica deflagrada pelos aloprados dos mercados financeiros em contubérnio com um governo aturdido por suas próprias incoerências, para assaltar trabalhadores, aposentados e o orçamento público. A limitação dos gastos com serviços públicos cauciona o rentismo sem limites.

Destroçada pelas exigências da política antidemocrática dos tecnocratas de turno, a economia entrega seu destino às forças do empobrecimento conceitual e da apologética sem limites. O esvaziamento se faz em nome da despolitização e da “limpeza ideológica”.

Políticos e oficiais do governo valem-se de conceitos econômicos para limitar a disponibilidade de políticas que pareçam viáveis para a comunidade. O socorro aos bancos aparece tão inevitável quanto o desamparo aos idosos e trabalhadores.

Por rádio, televisão e jornal as pessoas são “informadas” de que precisam se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais e menos direitos e benefícios trabalhistas, ou encarar a destruição da economia – tudo em nome da ciência econômica.

Trabalhadores devem cumprir maiores jornadas e por mais tempo em suas vidas. Os impostos e as tarifas públicas serão maiores, mas os serviços públicos serão reduzidos. Já a transferência de recursos públicos ao rentismo, seja pela compra de ativos podres, seja pelo pagamento de juros exorbitantes, não está em discussão, essa é determinada pelo mercado, deus ex machina.

O necrosamento do tecido econômico e o esgarçamento do social empurram os acuados, pelo discurso da inevitabilidade econômica, a abraçarem a conclusão de que “o inferno são os outros”. Se os empregos foram tomados, o Estado onerado e a paz ameaçada por aqueles de nacionalidade, religião, gênero, opção sexual, raça ou ideologia diferentes, a solução passa pela sua exclusão ou eliminação.

Ao explicar a banalidade do mal, Hannah Arendt aponta que as maiores maldades do mundo podem ser perpetradas por homens comuns, sem razões malignas ou intenções demoníacas, mas seres humanos que abdicaram totalmente da característica que mais define o homem como tal, a capacidade de pensar.

Para Arendt, a manifestação do ato de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal, de fazer juízos morais. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis numa escala monumental jamais vista, como no nazismo. Sua esperança repousa no “pensar”, como poder para as pessoas evitarem catástrofes nesses raros momentos de dificuldade.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Estado crítico

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste, no Santana Oxente e no pcdobalagoas.org.br:


A cassação do deputado Eduardo Cunha, político sem escrúpulos, vingativo e frustrado não encerra uma fase terrível da vida política institucional nacional, ao contrário, inicia novo capítulo de uma tragédia, ao tipo grega, que vem levando o País a uma espiral de fatos nocivos econômicos, políticos, psicossociais.

Já as grandes maiorias que lutam diariamente vêem-se em condições adversas, quando não deploráveis, na labuta por um lugar ao sol, no sagrado direito a uma vida digna.

No Brasil, uma nação continental, de extraordinárias riquezas, mais de 200 milhões de habitantes, as desigualdades continuam gritantes, abissais, onde um ínfimo grupo de potentados vivem muito bem e cada vez melhor.

Enquanto setores de uma sub elite, abduzida por uma narrativa fantasiosa do monopólio midiático, mira-se embevecida no estilo de vida desse clube exclusivo de biliardários, e sonham, como se isso fosse possível, algum dia, ser sócio dele.

Mas não estamos em uma novela, é a vida real, áspera, implacável, em um País que é a 7a economia mundial que continua, no entanto, sob o jugo do “Mercado” financeiro com sua agenda global hegemônica, do politicamente correto, inimigo das aspirações dos povos, onde setores econômicos retrógrados, antinacionais, antissociais, orbitam em torno desse capital parasitário, feito satélites.

Com a cassação de Eduardo Cunha, a deposição do governo Dilma, através de um golpe, o “homem bomba” Cunha deve voltar-se agora contra o PSDB, PMDB etc., salvo algum acordo de bastidor tirado do chapéu mágico da atual política nacional. Dessa forma, o País tem navegado à deriva ou em uma rota esquizofrênica.

Porque sem um projeto estratégico que indique um norte efetivo aos rumos da economia, da sociedade, da política nacional, a nação transformou-se em uma comunidade fragmentada, onde prevalecem as corporações, sejam elas do “Mercado” parasitário, da grande mídia, de grupos que disputam o poder pelo poder entre si, até as mais insignificantes.

Já a linha do governo Temer é a desconstrução do Estado nacional, das históricas conquistas trabalhistas, sob os ditames do capital rentista. Ou se retoma, via política concreta, os caminhos democráticos, soberanos da nação ou esse túnel em que trafegamos levará a um desfecho dramático aos interesses do povo brasileiro.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Democracia e nação

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho, na Tribuna do Sertão, no Tribuna do Agreste, no Santana Oxente e no pcdobalagoas.org.br:


As manifestações realizadas em algumas cidades brasileiras como em São Paulo, com mais de 100 mil pessoas, contra a deposição de Dilma Rousseff, mostram que as insatisfações sociais são muito maiores que “grupos de 40 pessoas” como Temer falou à mídia.

Aliás, os carimbados Black Blocs, sumidos desde as convulsões sociais de 2013, voltaram às ruas. As provocações andam soltas a serviço de óbvio script premeditado.

Já o impedimento da ex-presidente Dilma não obedeceu às regras fixadas pela Constituição de 1988, num dos seus mais graves institutos, resultou da ação dos que foram derrotados nas urnas e à queda de popularidade de Dilma.

Que foi corroída pela mais séria crise estrutural do capitalismo desde a debacle de 1929, com a ruína da economia mundial, tragédia para centenas de milhões de trabalhadores, penúria, fome generalizadas, associada a erros políticos e econômicos na gestão da ex-presidente.

O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, em entrevista antes do impedimento, afirmou ao jornalista Luís Nassif que o Brasil ainda não possui efetiva tradição democrática. Há um viés autoritário em nosso itinerário republicano, mesmo depois da promulgação da Constituição de 1988.

Após o regime ditatorial, dos quatro presidentes eleitos dois sofreram impeachment por razões políticas, outros dois escaparam por pouco embora suas matrizes políticas e econômicas fossem distintas.

Assim como o pacto constitucional, a centralidade dos interesses da nação tem sido prejudicada com a ausência de um projeto duradouro de desenvolvimento em infraestrutura, educação, saúde, incremento das suas potencialidades industriais, científicas, tecnológicas, de Defesa, reféns, inclusive, da hegemonia no País do capital financeiro parasitário.

O Brasil vive sob grave crise econômica de origem externa e interna, alvo de ambições e ingerências geopolíticas globais, assolado por tempestades de ódios difusos propagados via mídia monopolista ligada a grupos retrógrados nativos e forâneos. Age como proprietária da nação.

Nessa nova quadra, é vital travar o combate pela legalidade democrática aviltada e, seja lá quem for, não convém arvorar-se em alter ego dos destinos políticos do País. Assim como urge a luta em defesa dos rumos estratégicos ao desenvolvimento da nação sob ameaças.