terça-feira, 13 de novembro de 2018

A Economia Política da Recessão, por André Araújo




É um caso de estudo o jornalismo econômico brasileiro que considera que a economia de um grande País começa e acaba na cotação do dólar e no índice da Bolsa, já a economia da produção, aquela que dá empregos, produz a comida, realiza o transporte e a arrecadação simplesmente não interessa, MAS NO MUNDO DA REALIDADE É A ÚNICA QUE IMPORTA.

Os comentaristas econômicos começam e acabam seus programas com as cotações do dólar e do índice da Bovespa, é nível de jardim de infância, sua ancoragem é no “mercado” financeiro.

Alan Greenspan, o “maestro” do Federal Reserve, passava horas na banheira examinando estatísticas de produção, seu gancho favorito era o número de “telhados” contratados, porque isso indicava o ritmo da indústria de construção, vital para o emprego, também interessava a produção semanal de aço e mais centenas de indicadores da economia real que serviam como termômetro do grande economista, praticante da economia como arte e não servo de planilhas e cartilhas, por isso o nome dado a ele (e título de sua biografia) de “MAESTRO”, um maestro de orquestra coordena os instrumentos pelo gesto usando sua sensibilidade, experiência, cultura, os grandes maestros nem precisam de partitura, basta-lhes o ouvido.

Os economistas de mercado brasileiros são escravos de fórmulas prontas e delas não saem.

Têm como eixo poucos indicadores, girando entre câmbio, bolsa e juros, aí acaba a economia.

Em recente programa o palestrante-economista Ricardo Amorim disse que será ótimo se o novo governo baixar as tarifas de importação porque aí os produtos importados iriam ficar mais baratos e isso faria com que baixem os índices de inflação e com isso, ora vejam, as taxas de juros vão cair e aí, disse triunfante, o investidor estrangeiro virá porque os juros baixam, o que agride a lógica, mas em sendo verdade é um roteiro para anos, enquanto isso os desempregados não têm almoço, além do que com a baixa de tarifas importa-se mais e a indústria nacional vende menos, portanto mais desemprego e menos crescimento.

Esse tipo de raciocínio é o kit básico dos “economistas de mercado” brasileiros.

O raciocínio dessa gente agride o bom senso mais elementar, o primeiro problema que um novo governo tem que enfrentar é gerar renda de imediato para a população poder comprar e reativar a economia e fazê-la crescer, os ajustes e reformas podem começar junto mas tanto um como outras só produzem resultados a longo prazo. Todos esses raciocínios toscos se constroem sob mitos, chavões, bordões e mantras que a mídia se encarrega de espalhar, nascem da mediocridade espantosa dos economistas neoliberais brasileiros e se propagam pelas redes de comunicação como se fossem verdades reveladas, coisa de sábios iniciados.

MITO DA DÍVIDA PÚBLICA

A dívida pública federal do Brasil é grande, mas não é desproporcional ao PIB, está abaixo da maioria dos países ricos e dos países emergentes, tampouco é um grave problema imediato e tampouco será resolvido sequer a médio prazo, não deve ser um eixo de toda a apolítica econômica, não está havendo nenhum problema de rolagem da dívida, porque ao contrário do que propagam os economistas de mercado, TÍTULO FEDERAL não é um investimento para a maioria dos detentores desses papeis, rende pouco, mas vale a LIQUIDEZ, é o dinheiro parado esperando outro destino, NÃO existe outra alternativa para guardar dinheiro nessa escala a não ser títulos federais de liquidez imediata e que ainda pagam juros, em muitos países, como o Japão NÃO se paga juros para guardar dinheiro dos bancos e corporações.

A dívida pública em moeda nacional de um grande País não é um problema, em último caso o Estado pode resgatá-la emitindo moeda, a dívida pública deve ser administrada e usada como instrumento de política monetária, mas torná-la um eixo determinante de política econômica é coisa de economista medíocre, é o ultimo dos problemas econômicos atuais do Brasil, um problema que está aí há muitos anos e não vai acabar nem em décadas, não há urgência alguma enquanto questão para a economia, deve ser resolvido a longo prazo, não tem precedência sobre a crise imediata do desemprego que coloca em risco toda a economia.

MITO DO AJUSTE FISCAL

Variante do mito anterior, a maioria dos grandes países tem déficit fiscal, alguns por décadas, é uma anomalia que deve ser tratada, mas o ajuste leva tempo e exige cuidado, não pode ser tratado como se fosse um incêndio a apagar, o déficit fiscal brasileiro não é novidade na nossa história econômica, O DÉFICIT NÃO É CAUSA DA RECESSÃO, é sim causa de um desequilíbrio que precisa ser tratado NÃO SÓ PELO LADO DO GASTO mas também pelo lado da arrecadação e esta depende do crescimento, que exige expansão monetária e não contração como se faz hoje, com baixo crescimento o DÉFICIT AUMENTA porque a maior parte do gasto é inflexível, é mais racional fazer o ajuste pelo lado positivo, do crescimento E NÃO DO CORTE.

O déficit fiscal, assim como a dívida pública NÃO pode ser o eixo central de uma política econômica, esse deve ser o EMPREGO e o CRESCIMENTO, objetivos que podem perfeitamente conviver com dívida pública elevada, a do Brasil não é tão elevada em relação ao PIB.

Mais ainda, tratar do déficit com ajuste fiscal rigoroso CAUSA MAIS RECESSÃO, CAI A ARRECADAÇÃO E PORTANTO GERA MAIS DÉFICIT, um círculo vicioso, enquanto o crescimento faz aumentar a arrecadação dando tempo para o corte que deve ser feito nos desperdícios enormes que existem na administração pública, corte gerado por eficiência e não linear.

O déficit fiscal de agora só existe porque o PAÍS NÃO CRESCEU, se um crescimento de 2 a 3% do PIB tivesse sido mantido desde o início do programa recessivo de Joaquim Levy, o primeiro dos economistas de mercado que deu início à recessão em 2014, NÃO HAVERIA HOJE DÉFICIT FISCAL porque a arrecadação teria crescido em 4 anos muito mais que o atual déficit de 2018.

Foi a QUEDA DA ARRECADAÇÃO causada pela recessão que gerou o déficit fiscal, não o aumento das despesas, embora essas devam ser racionalizadas, há muito desperdício na despesa pública de modo geral, em todas as esferas de poder, para cortar precisa tempo, programas racionais de eficiência, simbolismo de austeridade no topo do governo.

O MITO DA CONFIANÇA

Dizem os economistas de mercado que é preciso criar confiança para o investidor estrangeiro trazer recursos para investir no Brasil e com isso a economia crescer. É um clichê de baixa categoria, o Brasil teve mega investimento estrangeiro em PRODUÇÃO, investimento de longo prazo e não especulativo, em tempos de ALTA INFLAÇÃO E DÉFICIT FISCAL, a confiança que o investidor precisa é de EXISTIR DEMANDA para seus produtos, com isso justifica o investimento, foi em tempos de crise aguda, com alta inflação e desequilíbrio cambial e crise econômica contínua que a Volkswagen chegou a empregar 44.000 operários no Brasil, estava tudo ruim na economia brasileira MAS HAVIA MERCADO para os carros Volkswagen, o investimento foi gigantesco e HAVIA CONTROLE DE CÂMBIO para remessa de lucros, nada disso abalou Volkswagen, Mercedes, Goodyear, Pirelli, Abott, Unilever, todas com grandes filiais no Brasil porque HAVIA MERCADO, essa era a confiança e não déficit fiscal e dívida pública que nunca assustou investidor nacional ou estrangeiro, isso é papo de “economista do mercado especulativo” e não de economista da grande política econômica de País.

E, no entanto, esse mito continua sendo propagado pelos comentaristas econômicos que repetem como papagaios, “é preciso restabelecer a confiança, etc. etc. etc.,” sempre a mesma conversa fiada, tola, de gente que aprende em apostilas e não entende nada de história, de história da economia, de história do pensamento econômico, repetem como papagaios bordões propagados pelo mercado especulativo, que são suas únicas fontes de informação.

MITO DAS RESERVAS DO BANCO CENTRAL

O Brasil NÃO tem reservas cambiais em excesso em comparação com outros países emergentes. A Rússia e a Coreia do Sul têm PIBs menores do que o Brasil e têm reservas maiores que o Brasil, a Rússia tem US$460 bilhões e a Coreia do Sul US$403 bilhões, com PIBs em torno de US$1,5 trilhão cada. As reservas cambiais são o capital de giro do comércio exterior e garantia para o endividamento em moeda estrangeira, que no caso do Brasil é de US$450 bilhões, incluindo dívida pública e privada, as reservas NÃO SÃO EXCESSIVAS, 18% do PIB não é reserva em excesso sob os critérios do BIS.

As reservas cambiais são essenciais como lastro de toda a economia, não existe nenhuma lógica em dissipá-las para qualquer fim, muito menos para pagar dívida pública em moeda nacional, uma insensatez absoluta, a dívida em Reais pode ser paga em Reais sempre.

Além do que há um obstáculo técnico, as reservas são do BANCO CENTRAL e a dívida pública é da União, são dois entes juridicamente distintos, com contabilidades próprias, o Banco Central deve obedecer a certas convenções com o Banco de Liquidações Internacionais, o Banco da Basileia, que é o banco central dos bancos centrais, a União NÃO pode dispor como se dela fossem das reservas cambiais do Banco Central que tem como contrapartida o PASSIVO dos depósitos compulsórios que pertencem a todos os agentes econômicos, tem dono.

Outra consequência é que a venda de dólares das reservas para obter Reais jogará para baixo a cotação do dólar, com enormes prejuízos para o próprio Banco Central. Para obter Reais, o Banco Central não precisa vender dólares, basta emitir moeda, que é sua prerrogativa.

MITO DO INVESTIDOR ESTRANGEIRO

Um personagem inventado pela mídia como sendo o eixo do crescimento. Na realidade esse “investidor estrangeiro” NÃO é a empresa industrial ou produtora de bens e serviços, é o fundo especulativo que entra e sai da Bolsa, cujo efeito sobre o crescimento é zero.

Mesmo em se tratando do investidor na produção, sua contribuição para o crescimento em qualquer grande País é marginal. O grosso do investimento é de origem doméstica, do investidor brasileiro, sempre foi assim na história econômica do Brasil, dos EUA, da China, da Índia, do Canadá, o salvador da economia não vem de fora, ele está dentro do País.

Esse “investidor estrangeiro” louvado pela mídia e o que alimenta as corretoras e bancos de investimento, o especulador que entra-e-sai do mercado apostando em câmbio, bolsa e juros, mais ainda, boa parte deles é brasileiro operando por off shores do Caribe ou da Europa, disfarçado de estrangeiro para ter maior proteção, benefícios fiscais e esconder a origem.

MITO DO BANCO CENTRAL INDEPENDENTE

O conceito de banco central independente vem de uma raiz norte-americana que é COMPLETAMENTE DIFERENTE do que se pretende impor no Brasil. O Federal Reserve System criado em 1913 tem DOIS objetivos na Lei que o criou: estabilidade monetária e pleno emprego. Aqui só tem UM objetivo, a estabilidade monetária, o que é possível conseguir paralisando a economia, que é exatamente o que o nosso banco central faz e gosta de fazer.

Com recessão se consegue inflação baixa porque grande parte da população não tem emprego e renda e não tem como comprar, portanto aí se garante a baixa inflação, portanto nosso BC gosta do desemprego e recessão, não dizem isso claramente, mas comentaristas intelectualmente ligados ao BC dizem abertamente que o desemprego é bom para garantir a inflação na meta, falam isso com a maior tranquilidade e desfaçatez (alô Globonews).

Por outro lado o Federal Reserve é independente, inclusive do sistema financeiro, o nosso BC sempre foi aparelhado pelo sistema financeiro, o atual Presidente era diretor do Banco Itaú até ir para o BC, isso não ocorre com o Federal Reserve, onde todos os membros do Board são tradicionalmente economistas acadêmicos de alta reputação NÃO LIGADOS AO SISTEMA FINANCEIRO, por uma regra não escrita quem é do mercado financeiro não dirige o FED.

Portanto, a independência que se pretende no Brasil é a ENTREGA DO CONTROLE DO BC AO SISTEMA FINANCEIRO, não é na linha da independência do Federal Reserve.

A proposta de independência do Banco Central NÃO é a mesma do conceito internacional de independência dos bancos centrais, é viciada pela tradição brasileira de nomear diretores do Banco Central vinculados ao mercado financeiro, vêm desse sistema, ocupam cargos no BC e depois voltam para o sistema financeiro. ESSA INDEPENDENCIA NÃO SERVE e trai o conceito Internacional de independência de Banco Central porque esses dirigentes vão trabalhar exclusivamente nos interesses do mercado financeiro e não do conjunto da economia.

https://jornalggn.com.br/noticia/porque-o-mercado-escolheu-goldfajn

MITO DA INFLAÇÃO

A moeda é um instrumento não é um dogma. Os economistas monetaristas, sub-função de “economistas de mercado” tratam a moeda como adoradores de estátuas. A moeda deve ser usada para o bem estar da população em diferentes ciclos, por vez deve ser expandida para gerar emprego e renda mesmo com algum risco de inflação, outras deve ser contraída para reduzir a inflação, depende das circunstâncias, os países inteligentes fazem isso, o Banco do Japão até 2017 tinha como objetivo gerar inflação para destravar a economia, o Brasil tem uma recessão causada por falta de renda e empego, quadro onde a expansão monetária é um instrumento perfeitamente adequado e historicamente praticado para sair da recessão.

Mas há um problema: um programa desse tipo exige economistas ecléticos, de múltipla visão, como Roberto Campos, Delfim Neto, Mario Henrique Simonsen, fora do Brasil um Hjalmar Scgacgt, John Maynard Keynes, Alan Greenspan. Economistas limitados simplesmente não conseguem operar dentro das circunstâncias, são cozinheiros de um prato só.

MITO DA PRIVATIZAÇÃO

O jornal “Estado de S. Paulo”, paladino da privatização desde os anos 50, publica manchete enganosa “Brasil campeão de estatais” (3.11.18 -Pag.B1). Faz comparação do Brasil com os países da OCDE, onde estão Bélgica, Luxemburgo e Dinamarca, pequenos países incomparáveis com o Brasil em qualquer tema. O Brasil segundo a matéria, conta com 418 estatais, outro erro, subsidiárias de estatais fazem parte de um só grupo, a Eletrobrás tem mais de duas dezenas de subsidiárias, outro critério errado, companhias de águas e esgotos estão sob forma estatal por razões legais, na Europa elas são também públicas na maioria dos casos, mas não são empresas e sim entes públicos, é outra forma legal, mas também é estatal.

O Brasil deveria se comparar à Índia com mais de 600 estatais, com a Rússia, com mais de 550 e a China com 1.600 estatais e não com Suécia ou Áustria. Nos EUA cada cidade média e grande tem serviços de água e de transportes metropolitanos ESTATAIS, mas não são sob forma de empresa e sim de “Authority”, que é um ente estatal sem o nome de empresa, como a Port Authority of New York, todos os portos americanos têm essa forma, no Brasil se usa “Companhia Docas”, nos EUA se usa “Port Authority” são todas ESTATAIS, só a capa legal é diferente, nos EUA a energia hidroelétrica é estatal, assim como rodovias, aeroportos, metrôs e ônibus, é tudo ESTATAL mas não usam o nome de empresa como no Brasil.

Então, é um problema de nomenclatura e não de natureza, tem muita atividade econômica estatal no mundo desenvolvido, mas para o ESTADÃO é importante dizer que nós somos campeões de estatais para assim fazer campanha pela privatização. Nos EUA eles NÃO têm praticamente rodovias com pedágio privatizado, como empresas como a CCR e os ônibus de Nova York são estatais, assim como o aeroporto Kennedy, já aqui os ônibus são privados e o aeroporto de Guarulhos é privado, notícia manipulada para encobrir a realidade.

MITO DA ECONOMIA ABERTA, DA PRODUTIVIDADE E DA COMPETITIVIDADE

Em cidade do interior paulista de 70 mil habitantes onde convivo, cinco supermercados. O menor deles tem duas marcas de água mineral francesa, seis marcas de cervejas importadas, inclusive duas tchecas muito caras, macarrão italiano se encontra até em padarias e vendinhas de bairro, suco de tomate americano, suco de laranja da África do Sul, vinhos de todo o mundo, biscoito dinamarquês, presunto cru espanhol, bacalhau e azeite português até em feiras de cidades pequenas do interior de Minas, já no caso do mercado financeiro, não existe mais controle do Banco Central, a antiga FIRCE, para remeter milhões de dólares para fora do Pais a qualquer pretexto, o mercado de câmbio é livre, desde 2013 os bancos se autorregulam, como em Nova York e Londres, no entanto economistas neoliberais repetem em entrevistas o mantra “A economia brasileira é das mais fechadas do mundo” mas fechada onde?

Importa-se tudo, o essencial e o supérfluo, nos camelôs de rua predomina o importado, a cidade de Americana no interior de São Paulo chegou a ter 600 tecelagens, hoje é uma antiga lembrança, importa-se não só tecido como roupa pronta da China, tênis do Vietnam dominam o mercado, mas os papagaios repetem “A economia brasileira é das mais fechadas do mundo”, é um bordão para justificar o que? Nos EUA muito mais coisas são proibidas a estrangeiros, até terminais portuários, empresas de energia, indústrias de alta tecnologia, meios de comunicação, linhas aéreas. No Brasil a maior empresa de aviação tem controle estrangeiro de fato, a comercialização de grãos é um cartel multinacional, a primeira e a segunda maiores distribuidoras de energia têm controle estrangeiro, toda a transmissão de energia, depois da Eletrobrás, tem controle chinês e italiano, mas os realejos repetem “A economia brasileira é das mais fechadas do mundo”, onde é fechada?

Não é preciso nenhuma tese acadêmica para saber que as economias americana, chinesa, russa e indiana são muito mais fechadas do que a economia brasileira, na China banco estrangeiro com rede de agências nem pensar, tampouco na Índia ou na China e muito menos corporações estrangeiras controlarem escolas e seguro saúde, aqui no Brasil pode e acontece.

O mesmo conceito de bordão têm a “produtividade” e a “competitividade”, que segundo os neoliberais o Brasil não tem, mesmo assim é o maior exportador de soja, de carne de frango, o segundo de carne suína e bovina, grande exportador de calçados, de ferro e aço para construção, de auto peças, mas os periquitos repetem o mantra “o Brasil não tem competitividade porque falta produtividade”, haja bordão de almanaque.

Produtividade e competitividade são conceitos absolutamente relativos dentro de tempo e espaço, a simples definição é complexa e controversa, é um bordão ficcional.

O FASCÍNIO DAS FÓRMULAS FIXAS

As mentes pouco sofisticadas de muitos economistas tem fascínio por fórmulas fixas e simplórias, que ajudam mentes preguiçosas e mal equipadas, incultas e antiquadas.

Daí nascem as “lições de casa” do FMI, os “tripés macroeconômicos” do defunto Consenso de Washington, reducionismos primitivos da complexa realidade política, social e econômica.

Sim, porque NÃO existe economia desligada do político e do social. Economia não funciona no vácuo, numa redoma de laboratório, a economia é apenas uma parte de um vasto sistema caótico que mistura na mesma panela as tensões sociais, demográficas, regionais, culturais, é absurdo pretender reger a economia por cartilhas simplificadoras, como pretendia Milton Friedman, que ao fim da vida teve a honestidade de rever muito de suas convicções em conversa com seu amigo pessoal e inimigo intelectual Alan Greenspan.

Keynes e Schacht, os dois maiores economistas do Século XX poderiam operar em qualquer faixa de onda, na ortodoxia e na heterodoxia, a depender das circunstâncias.

Outro gigante entre os economistas da segunda metade do Século XX, Albert Hirschman, alemão de formação francesa e um dos fundadores do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton ensina “Sempre a mesma receita para doenças diferentes, que médicos são esses?”, referindo-se aos economistas ortodoxos, ver suas memórias em português com o título AUTO SUBVERSÃO, prefácio de Fernando Henrique Cardoso.

A economia das fórmulas fixas está em completa decadência intelectual em todo o mundo, menos no Brasil onde economistas que estudaram nos antigos templos neoliberais americanos continuam apegados à sua cartilha de estudantes quando a ciência de há muito evoluiu, como no caso do positivismo, o Brasil é o último refúgio das ideologias toscas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A batalha pela lucidez

Meu novo artigo:


As eleições presidenciais indicam que o País mergulhou de cabeça na chamada Guerra Híbrida, cuja ferramenta principal encontra-se na luta de ideias, através da grande mídia tradicional, especialmente em sua versão on line. Mas sobretudo pelas Redes Sociais.

A Guerra da Informação vem se distanciando cada vez mais dos fatos concretos, da realidade objetiva, como um jogo de espelhos distorcidos, e em seu lugar assume a versão que tanto pode ser real ou inteiramente falsa, as Fake News.

Tanto faz nessa Guerra Digital o compromisso com a verdade, o que importa é a arregimentação de forças na sociedade em torno de um conjunto de concepções que substituem as formulações Históricas, filosóficas, inclusive aquelas de natureza científicas, quando se trata de distorcer os conceitos comprovados pela vida, em favor de uma espécie de agenda empacotada e previamente estabelecida.

O mundo paralelo da Pós Verdade vai sendo imposto. Na prática, uma ficção que substitui a realidade objetiva.

O resultado é o surgimento de uma neurose coletiva, atingindo centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, provocando doenças psicossociais como o pânico, depressão, ansiedade e o sentimento de desrealização, que passam a ter novos sintomas além dos que a medicina já identificava.

São características neuróticas que exigem novos estudos comportamentais na psiquiatria, psicologia, psicanálise etc. Já no campo das ciências sociais as formulações passam a ter sentido distinto dos que eram usados antes.

Dessa forma, o conceito de Esquerda passa a ter novo significado e já não corresponde às formulações vistas como universais. É o caso das Políticas Indentitárias que passam a ser definidas como a “Esquerda”.

De outro lado a caracterização de “Direita” já não corresponde às fórmulas utilizadas até então.

No âmbito da Economia, o conceito de Liberal também foi reprogramado na Pós Verdade. O liberalismo econômico clássico já não mais é visto como tal.

Com o processo de centralização do capital financeiro em escalas antes inimagináveis, todas essas formulações vêm servindo aos desígnios do capital predador, sua influência e capacidade de interferência global, que passou a ser descomunal.

As pessoas convivem atualmente com definições, na maioria das vezes, com sinais falsos, trocados ou invertidos. Não é de espantar a desorientação generalizada e a confusão mental decorrentes.

Embora esses fenômenos não tenham surgido de maneira fulminante, eles foram rápidos o suficiente para gerar o caos cognitivo que vivemos no presente.

Existe uma diferença entre Fake News e a notícia na grande na mídia. No primeiro caso ela é uma invenção absolutamente mentirosa. Enquanto na grande mídia o fato é usado com o viés ideológico que interessa ao grupo jornalístico e ao campo financeiro ao qual ele é ligado. Portanto temos uma distância efetiva da realidade em ambos os casos.

E tudo isso serve a uma luta cuja origem reside na disputa entre corporações globais, que podem estar associadas ou não a interesses de grandes potências mundiais. E em muitos casos de forma combinada.

Seja como for, os objetivos de expansão, domínio do capital financeiro e das potências mundiais estão em curso e em pleno movimento contra os interesses das nações, suas riquezas materiais, financeiras, culturais, dos povos em geral.

A cultura por exemplo, vem sendo hegemonizada e expandida através de corporações gigantes de entretenimento com viés ideológico e temático que lhes são úteis.

O mega especulador financeiro George Soros entregou 32 bilhões de dólares (118 bilhões de reais) à sua principal organização, a Open Society Foundations, para ser usado na “construção da democracia nos EUA e no mundo”, além de 75 milhões de dólares (277 milhões de reais) para candidatos e comitês somente nos EUA ao longo dos anos.

Mas esses valores não incluem os muitos milhões de dólares que ele doou a ONGs sem fins lucrativos e que não são declarados.

Por outro lado, Charles e David Koch e outros doaram 2 bilhões de dólares (7,4 bilhões de reais) a grupos adversários aos interesses de George Soros também para “promover políticas públicas e candidatos”.

Já Steve Bannon, que tem relações com financistas e especuladores, assessor e uma espécie de estrategista do presidente Donald Trump, diz que o seu adversário Soros é “vilipendiado porque é eficaz” e que as recentes ameaças com bomba que ele recebeu é “o preço que se paga para entrar nessa brincadeira”.

“Brincadeira” de um clube global privê com reduzidíssimo número de sócios que mandam em grande parte do planeta, é bom que se diga. Steve Bannon representa um time de financistas que se intitula “radical de direita” em oposição a Soros, visto por esses bilionários como financiador de grupos que eles chamam de “esquerda radical”.

Essa disputa envolve hoje o mundo todo, inclusive até na pequena, ex-socialista Albânia, para se ter uma noção da expansão e áreas de influência dessa competição. Não existem espaços vazios para eles.

Esses dois personagens de linhas opostas das finanças globais, George Soros e Steve Bannon, vêm atuando intensamente no Brasil, já faz um bom tempo.

As informações aqui citadas, e outras mais, encontram-se publicadas no The New York Times em matéria assinada pelos jornalistas Kenneth P. Vogel, Scott Shane e Patrick Kingsley.

A verdade é que bilionários e mega especuladores globais estão se apropriando e reconfigurando conceitos ideológicos, competindo entre eles em escala internacional, ditando as formas dos conflitos entre movimentos sociais, vários deles antagônicos, que fervilham pelas nações do mundo. Além disso, a influência desses grupos da globalização especulativa nas Redes Sociais tem sido intensa, e com efeitos devastadores para as suas centenas de milhões de usuários.

Na complexidade desses novos tempos importa compreender os fenômenos em curso no planeta.

E acima de tudo lutar para manter a lucidez intelectual, política, a defesa de um Projeto Nacional de Desenvolvimento inserido na nova, intensa, aberta, competitiva e dinâmica economia internacional. Mas voltado para os interesses soberanos do País, de conteúdo democrático, com a justiça social.

Essa é a via que favorece a sociedade nacional e o Brasil, como protagonista no teatro geopolítico da comunidade internacional dos Estados nações.

Que aliás é o seu papel em função de sua dimensão territorial continental, liderança regional hemisférica, riquezas naturais, cultura e população. E até pela simples razão de que esse é o único caminho que nos reserva um futuro digno e promissor.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Três bandeiras

Meu novo artigo:


Uma geração de combatentes políticos, ou pelo menos parte dela, que surgiu durante a luta contra o regime civil-militar de 1964 a 1985, tinha três referências centrais: a luta pelos direitos dos trabalhadores, a intransigente batalha pelas amplas liberdades democráticas e a defesa da soberania nacional, do Brasil.

A visão de muitos desses militantes tem sido norteada, até os dias atuais, por essas três consignas como cláusulas pétreas seja como ativistas políticos, na produção intelectual, ou simples cidadãos e cidadãs.

A defesa dos direitos dos trabalhadores, valorização radical das liberdades políticas, das fundamentais garantias democráticas, e a defesa do Brasil são para essa geração, questões de princípios inegociáveis.

É bom lembrar que o período da luta contra o arbítrio coincidiu com a época da chamada Guerra Fria, onde dois grandes campos, Estados Unidos, parte dos Países ocidentais e as nações do chamado campo socialista sob a liderança da extinta URSS, disputavam a hegemonia territorial, ideológica e geopolítica no planeta.

Estados como a França, de grandes tradições e protagonismo internacional procuraram exercer a sua própria liderança mundial, sob intensa pressão dos dois gigantes globais, EUA e URSS.

Charles de Gaulle, herói da resistência francesa contra as hordas nazistas expansionistas, que na Segunda Guerra Mundial ocuparam, inclusive, a Europa e a França, disse certa vez anos após o fim do conflito mundial e como presidente francês durante a Quinta República que: só é possível entender a Guerra Fria se nos detivermos sobre os interesses específicos de Estado dos EUA e da URSS que os moviam na época.

De fato, muitos historiadores e cientistas políticos hoje afirmam, com base em farta documentação, que as explosões estudantis em Maio de 1968, sob liderança de grupos anarquistas, tinham como objetivo anular o crescente papel internacional independente da França e desmoralizar De Gaulle submetendo a França à bipolarização mundial.

O golpe de Estado de 1964 no Brasil efetivou-se por várias razões, pelos interesses e manutenção de privilégios arcaicos de grande parte das elites econômicas nativas. Mas foi exatamente a Guerra Fria o fator decisivo, com o apoio direto dos EUA, fartamente comprovado, contra o governo constitucional do presidente João Goulart.

Hoje não mais existe a bipolarização mundial com a debacle da URSS. Durante anos tivemos o período da unipolaridade global sob a liderança inconteste dos EUA.

Agora vivemos a época da multipolaridade geopolítica, econômica e militar com o protagonismo dos Estados Unidos, China, segunda economia global, da Rússia, Índia e o Brasil. Com o final da Guerra Fria, desparece também a Guerra ideológica que a movia febrilmente.

Mas surge uma nova Guerra Ideológica sob as condições do mundo reconfigurado. É a Guerra Híbrida que pode ser usada pelas grandes potências para sustar os novos protagonistas em ascensão, como é o caso do Brasil. E ela tem sido usada em nosso País de forma intensa desde, pelo menos, 2013. O objetivo central tem sido a fratura da sociedade nacional, retardar o crescimento econômico, o desenvolvimento do País, o seu papel de player diplomático e comercial, num cenário internacional multipolar em desenvolvimento acelerado.

Além do mais, com a crise econômica e financeira global de 2008, houve um brutal processo de acumulação e centralização do Capital Especulativo que não investe na produção mas no lucro rápido a curto prazo.

Quanto maior a crise econômica (e social) das nações, maior o lucro desse capital parasitário e predador. Mas o capital especulativo, que concentra para si a maior parte das finanças globais, também investe fortemente na chamada Guerra Cultural Ideológica aproveitando-se das formulações dos “novos filósofos” surgidos em Maio de 1968 em Paris, adequando suas teses ao século XXI.

A lacerante crise econômica que se abate sobre o Brasil, a crise da segurança pública com o narcotráfico transnacional que faz rota e escala no Brasil, a defenestração da vida política institucional, e outras questões, resultaram na “Tempestade Perfeita” nesta campanha presidencial.

Onde a agenda predominante não foram as soluções econômicas, sociais, de infraestrutura, saúde, educação etc., para retirar a nação da crise e apontar novos rumos ao crescimento econômico, a inclusão de milhões de desempregados no mercado de trabalho.

O que assistimos foi uma Guerra Cultural extremamente polarizada pelo ódio. E a crise pode se desdobrar com a predominância do liberalismo econômico radical.

Daí a atualidade das três grandes bandeiras que sempre unificaram o povo brasileiro: a defesa dos direitos dos trabalhadores, a defesa intransigente das liberdades democráticas e a defesa do Brasil. O que exige a reunificação da sociedade nacional, o desenvolvimento soberano do País, seu protagonismo em condições de uma geopolítica multilateral em acelerada reconfiguração.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

As grandes rupturas políticas de nossos tempos, por André Araújo




No período que vai do fim da Segunda Guerra até nossos dias, países importantes da Europa e da América Latina conheceram rupturas ou reconfigurações de sistemas políticos em tempos de paz, conceito a que atribuo mudanças extraordinárias e não simples trocas de governos.

Nem vamos tratar aqui de países da Ásia, Oriente Médio e África, onde as reconfigurações de poder foram ainda maiores em número e mais amplas em profundidade.

Vejamos de forma comparativa algumas dessas rupturas em países de nossa proximidade.

ALEMANHA - 1990

Comecemos na Alemanha, que conheceu um período de reconstrução próspera que vai da fundação da República Federal, em 1949, até a incorporação da República Democrática, a Alemanha Oriental, em 1990, uma recomposição do território mais ou menos correspondente ao Império Alemão de 1870 e ao Terceiro Reich de 1933. A incorporação da parte comunista formatou uma nova realidade geopolítica, aumentando enormemente o papel diplomático de uma Alemanha recomposta e maior potência econômica da União Europeia com dominância decorrente do tamanho de sua população, centralidade continental e peso estratégico.

Portanto, o ano de 1990 foi de ruptura de um sistema, o da República Federal do pós guerra, um Estado “junior” da OTAN sob relativa supervisão dos EUA, com imensas bases aéreas no território alemão, o chamado “regime de Bonn” deu lugar à Alemanha de Kohl e Merkel, um novo Reich com política exterior independente e assertiva, algo que não ocorria antes de 1990.

A nova Alemanha de 1990 é líder inconteste da União Europeia, um poder reconfigurado.

FRANÇA – 1958

A Quarta República nascida do pós-guerra constituiu um sistema cuja ruptura se deu em 1958, com a volta da figura legendária do General De Gaulle e a fundação da Quinta República.

Um novo regime surge na forma de uma República Imperial desenhada a bico de pena por seu primeiro titular, o Presidente De Gaulle. Seguiram grandes nomes, “Os cardeais” Pompidou, Chirac, Mitterand, de uma estatura desconhecida na Quarta República, estadistas no melhor figurino da França de Richelieu, Mazarin e Talleyrand, a França do equilíbrio europeu.

ESPANHA – 1974

A morte de Franco fez o réquiem de uma era, nasce uma nova Espanha moderna embora monárquica, volta o Rei cujo trono ficou vago em 1931 na renúncia de seu avô Alfonso XIII.

A nova Espanha se agrega às grandes democracias europeias com alternância clara de poderes representados na Presidência do Governo, começando na direita com Adolfo Suarez e Calvo Sotello e logo em seguida pelo longo período da esquerda com o PSOE de Felipe Gonzalez, depois com a volta dos conservadores de Jose Maria Aznar e Mariano Rajoy.

ITÁLIA – 1994

Em 1994 acaba a Primeira República italiana, a de 1946, criada pelo histórico Alcide De Gasperi e liderada por grandes nomes da política parlamentar, sendo o maior deles Giulio Andreotti, Primeiro Ministro nove vezes. O regime termina com a Operação Mãos Limpas, que liquida com os partidos tradicionais cuja história tinha profundas raízes e entrega o governo daí em diante a aventureiros, com formidável perda de capital político e econômico para toda a Itália, que desde então nunca mais conheceu a prosperidade dos anos de ouro do pós-guerra e de uma reconstrução virtuosa de sua base industrial, cultural e energética, a Itália do refinamento do “design” e da moda de Milão, da sofisticada engenharia de grandes obras e dos autos.

A Operação Mãos Limpas seguiu o conhecido roteiro de matar o boi para tirar o carrapato. O prejuízo da corrupção, que deveria ser extirpada por melhores controles, era infinitamente menor do que o prejuízo da demolição do sólido edifício político e econômico que vinha da fundação da República do pós guerra. E o desastre não dá mostras de terminar. A Itália hoje tem um dos piores governos possíveis de se ver em Roma desde os tempos de Calígula, um bando de novatos incultos, grosseiros, sem programas articulados, com bandeiras simplistas como única meta, tal qual combater os imigrantes, contando como vitória o afogamento de mulheres e crianças no Mediterrâneo, enquanto a economia patina e o futuro é sombrio.

INGLATERRA - 1940

A entrada de Winston Churchill no Gabinete inglês em maio de 1940 como Primeiro Ministro foi uma ruptura do pacto conservador que vinha desde o fim da Primeira Guerra. Apesar de Churchill ser também um Conservador, ele estava “fora do sistema” durante toda década de 30. Político controvertido, uma espécie de “pária” entre 1935 e 1939 quando combatia sozinho a política de apaziguamento dos desastrosos governos Baldwin e Chamberlain. Um Churchill chefe de governo era uma completa ruptura do “pacto conservador” que só aceitaria Churchill em desespero, porque ninguém mais tinha coragem de combater Hitler. Churchill tinha sangue frio, ideias prontas, vitalidade apesar dos 65 anos, era o homem da crise. Finda a guerra Churchill foi descartado de forma vexaminosa ao não ser reeleito.

AMÉRICA LATINA

MÉXICO - 1982

A ruptura de sistema na fase contemporânea se deu em 1982, com o final do governo Lopez Portillo e a inauguração do Presidente Miguel de la Madrid na nova “fase neoliberal”, que significou um rompimento com a ideologia nacionalista do PRI que vinha desde o governo de Lazaro Cardenas nos anos 30. O México moderno nasce na Revolução de 1910 e portava uma sólida bandeira nacionalista de viés de esquerda. O México fez a primeira nacionalização de petróleo, política estatizante rompida a partir de 1982 em direção ao neoliberalismo puro, uma mega ruptura de sistema que diminuiu o tamanho internacional do México. Hoje é apêndice dos EUA como economia maquiladora do NAFTA, sujeita aos humores de Washington. Mais uma vez o México reconfigura seu sistema com a eleição de um esquerdista antípoda das presidências neoliberais que começaram com Miguel de la Madrid em 1982.

VENEZUELA - 1998

A eleição do Coronel Hugo Chavez marca o rompimento do regime democrático razoavelmente sólido de partidos emblemáticos como o COPEI e a Accion Democratica, que governavam a Venezuela desde o fim da ditadura de outro coronel, Marcos Perez Gimenez, na década de 1950. A bandeira de Chavez era o combate à corrupção, emblema de tantos golpes e ditaduras no seu início. A Venezuela já tinha conhecido anteriormente a mais longa ditadura do continente, a de Juan Vicente Gomez, “El Bagre”, que durou de 1908 a 1935, personagem folclórico e cruel, conhecido como “El Tirano de los Andes”. A ruptura de 1998 ainda não terminou e fez regredir a Venezuela à idade da pedra, o regime anterior, tido como corrupto, era infinitamente melhor para o povo venezuelano do que o atual.

COLÔMBIA - 1948

A guerra civil do Partido Liberal contra os conservadores que dominavam o governo marca uma ruptura no sistema patriarcal que governava a Colômbia desde a Independência, sistema centrado na “aristocracia de Bogotá”, descendente dos nobres que vieram da Espanha para administrar o Vice Reinado de Nova Granada, conjunto do império colonial espanhol que incluía a Venezuela, a Colômbia e o Equador mais o que é o atual Panamá. A “aristocracia de Bogotá” foi o ninho da maioria dos presidentes da Colômbia desde a Independência, muitos deles parentes entre si, um grupo fechado de nobres do poder, sem similar nas Américas.

Da luta de liberais contra conservadores nasceu como desdobramento o movimento guerrilheiro das FARC, eixo determinante da política colombiana pelos seguintes 60 anos e só terminado em 2017. A guerra civil foi uma ruptura que determinou a política colombiana por mais de seis décadas, marcada centralmente pelas FARC e pelo tráfico de drogas.

PERU - 1990

A chegada ao poder do engenheiro agrônomo Alberto Fujimori indica uma ruptura do regime tradicional da política peruana, razoavelmente estável, com Presidentes democráticos entremeados por ditadores, mas todos da mesma origem social e do mesmo sistema político.

Fujimori além de ser asiático, possivelmente nascido no Japão, inaugurou um novo padrão autoritário distinto do antigo sistema, deixou um legado controverso e significou desde seu início um ruptura de regime, que é uma consequência do complexo e longo período Fujimori nos seus dez anos de poder (1990-2000) mas com reflexos até hoje, a política peruana tem entre outras referências o fujimorismo e seus contrários, um sistema ainda em ebulição.

CHILE - 1970

A eleição de Salvador Allende em 1970, um esquerdista radical fora do sistema político da tradicional política chilena, significou um rompimento de regime e de horizonte, sendo o preâmbulo da dramática ditadura Pinochet que se seguiu com violência e mudanças como contraponto ao governo Allende e que marcou desde então o regime político chileno, referendado no pinochetismo e seu contraponto à esquerda, em alternância até hoje.

ARGENTINA - 1973

A volta de Juan Domingo Peron do exílio para um novo mandato que dura apenas dois anos foi uma ruptura do sistema que aos trancos e barrancos vinha governando a Argentina desde a primeira queda de Peron em 1955. O retorno de Peron abalou todo o sistema político argentino e abriu caminho para o golpe militar de 1976, após sua morte assumiu a vice-presidente, sua então esposa Isabel Martinez que criou as condições para o golpe militar.

BRASIL - 1889, 1930, 1945, 1964, 1990

O Brasil conheceu cinco grandes rupturas de sistema desde o fim do Império. Rupturas significam basicamente mudança de regras, de padrão na política, de grupos no poder.

Estamos na iminência de uma ruptura de sistema que resultará das eleições de 2018, não sabemos ainda para que lado caminhará um novo sistema mas nada será como foi de 1988 a 2018, um novo tipo de País sairá dessas eleições que resultará em novo pacto.

As mudanças de sistema legal em 1937 com o Estado Novo e a queda deste em 1945 não significaram rupturas porque o poder continuou no mesmo grupo político.

A eleição de Collor significou uma ruptura porque manteve-se o sistema legal mas o grupo político foi completamente substituído e com uma dinâmica de ruptura, representada pelo confisco das contas bancárias. Muitos dirão que a eleição de Lula em 2002 foi também uma ruptura. Não foi. Lula aceitou o pacto de poder anterior, se enquadrou perfeitamente na moldura então representada pelos partidos no Congresso, pactuou com o mundo financeiro, foi apoiado pelos EUA no governo Bush desde seu início, o que era um selo de bom comportamento e adequação ao sistema, a capa era de esquerda mas não a essência.

A RUPTURA DOS PACTOS

Uma ruptura no sentido dessa visão é o fim de um pacto de forças e nada tem a ver com a mudança de governo se mantido o regime dentro do mesmo pacto. A ruptura se dá pela implosão do “pacto” de forças que garantem o sistema, é a demolição de um sistema para se construir outro, o sistema de poder construído em 1988 implodiu com a Lava Jato.

Tampouco a ruptura se confunde com “golpe de Estado”, que é um nível mais elevado de mudança de poder, cujo patamar mais alto ainda é a “Revolução”, a própria sociedade é reconfigurada e desmontada juntamente com o sistema político.

AS RUPTURAS DE REGIME NA HISTÓRIA

As rupturas de regime são processos que surgem a partir de pressão acumulada causada por fraturas econômicas, sociais, comportamentais, transições geracionais, conflitos de várias naturezas não resolvidos pelo mecanismo político regular. Hugh Thomas no seu magistral “A GUERRA CIVIL ESPANHOLA”, dizia que é impossível entender o conflito espanhol de 1936-1939 sem analisar as fricções na sociedade e no sistema político da Espanha desde a invasão napoleônica ocorrida mais de um século antes. Foram as tensões acumuladas desde 1808 que explodiram em 1936, causando um milhão de mortos, feridos e exilados.

Rupturas são rearranjos mais leves do que Revoluções, que têm um grau mais elevado de implosão de sistema político e social, como a Revolução mexicana de 1910, a russa de 1917, a nazista de 1933, a chinesa de 1949, a cubana de 1960.

Mas as rupturas ocorrem periodicamente em certos países, indicando que o sistema político normal não dá conta da solução de problemas que vão se acumulando em camadas e ao atingir determinado ponto explodem de forma aparentemente inexplicável para quem não analisa o passado, as raízes da ruptura podem estar décadas antes em forma encoberta.

As rupturas não dependem de mudança da moldura legal e sim da substituição traumática do grupo no poder sem a mescla da continuidade que ocorre em situações normais onde a substituição se dá no contexto de mudança regular de comando, mas não de sistema.

A essência desse novo grupo é o chamado “palanque contínuo”, a normalidade é indesejada e a movimentação agitada faz parte do enredo, a normalidade é fatal para o projeto.

Nos EUA desde a Guerra Civil duas Presidências detonaram rupturas, a de Roosevelt com o New Deal, quase uma revolução, uma Presidência com quatro mandatos, algo nunca antes visto ou depois repetido e a Presidência Trump, com características de “palanque contínuo” de impossível normalidade, é uma crise por semana, se não for espontânea o Presidente inventa uma para o show continuar, Trump é uma ruptura de comportamento e de operação regular e estável do governo numa escala inédita desde Roosevelt.

O espasmo da ruptura depois de certo tempo cansa e o País anseia pela volta à normalidade.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Cinzas do arcaísmo, por Geraldo Luís Lino




Na noite de 2 de setembro, estarrecidos, os brasileiros assistiram pela televisão ao trágico incêndio do Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional do Rio de Janeiro, o maior e mais antigo do País. Em poucas horas, o fogo incontrolável transformou em cinzas um acervo que representava dois séculos de História, a idade do museu, fundado em 1818 por D. João VI e transferido em 1892 para o palácio, que abrigou a família real brasileira até a sua expulsão, em 1889. Juntamente com o acervo, na maior parte insubstituível, viraram cinzas os trabalhos de dezenas de pesquisadores de áreas como arqueologia, antropologia, geologia, paleontologia e outras, pois o Museu também funciona como instituição de pesquisa vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), responsável por ele desde 1946.

Apagadas as chamas, restou a estupefação. Como é possível que o museu mais importante do Brasil não tivesse sequer uma brigada de incêndio? Por que os hidrantes próximos não tinham pressão suficiente para um funcionamento adequado? Por que o prédio não tinha o alvará do Corpo de Bombeiros, exigido para qualquer estabelecimento público/comercial ou unidade residencial coletiva? Como é possível que os repasses da UFRJ para a sua manutenção fossem inferiores ao orçamento de um condomínio de classe média? Por que a universidade não tomou a iniciativa de buscar parcerias privadas para a sua manutenção e melhoramento, como ocorre com os grandes museus do mundo? Por que a iniciativa privada, dispondo da Lei Rouanet, não se interessou por ele, como faz com espetáculos artísticos de todo tipo, muitos deles bastante dispendiosos? Por que a sorte de um museu que, visivelmente, claudicava há décadas, não despertava na sociedade um interesse sequer aproximado do da defesa de certas manifestações artísticas polêmicas? Como? Por que?

São muitas perguntas em busca de respostas, umas e outras simbolizando o que temos feito do Brasil em quase dois séculos de história independente e, sobretudo, o que pretendemos fazer dele no futuro imediato.

Acima de todas, paira a sufocante sensação de que o incêndio simboliza a incapacidade brasileira para construir uma Nação moderna e sintonizada com a vanguarda do processo civilizatório, ficando a sociedade resignada a ver o País como o “balcão de negócios” estabelecido pelas suas elites dirigentes durante a maior parte da sua história independente. Uma Nação que despreza o seu passado e, desprovida de um projeto coletivo para o futuro, parece condenada a purgar um presente eterno de desalento e vicissitudes, absolutamente incompatível com os seus enormes potenciais humanos e naturais e com as aspirações da grande maioria da população.

A destruição do Museu Nacional é apenas a enésima consequência de uma histórica propensão para protelar para um futuro indefinido o enfrentamento a sério dos problemas estruturais do País, além da falta generalizada de compromisso com o Bem Comum. É o que explica o fato de o risco de incêndio nas suas instalações vir sendo repetidamente denunciado e ignorado há décadas, mesmo após os incêndios no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1978), Instituto Butantã (2010), Memorial da América Latina (2013), Liceu de Artes e Ofícios (2014), Museu da Língua Portuguesa (2015), estes últimos em São Paulo (SP), além de outras instituições culturais e científicas. É o que também explica o estado deplorável de instituições semelhantes, como o igualmente simbólico Museu do Ipiranga, na capital paulista, fechado há quase cinco anos e abandonado, a apenas quatro anos do bicentenário da Independência.

Trata-se da mesma mentalidade que explica o desprezo generalizado da classe dirigente por tudo que não represente uma fonte de lucros imediatos e de curto prazo, aí incluídos os cuidados com a memória histórica e a geração de conhecimento expressada pela pesquisa científica e tecnológica. Não é por acaso que o último presidente da República a visitar o Museu Nacional tenha sido Juscelino Kubitschek, há 60 anos. Ou que nenhum ministro de Estado tenha participado da celebração do seu bicentenário, em junho último. Nem, tampouco, que o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (oportunisticamente acrescido do apêndice das Comunicações) tenha sido reduzido em quase dois terços, desde 2010.

Descaso em cima gera em desinteresse em baixo. Assim, não admira que, em 2017, cerca de 300 mil brasileiros tenham visitado o Louvre e nem 200 mil tenham ido ao Museu Nacional (público que o museu francês recebe em apenas uma semana, embora as duas instituições não sejam diretamente comparáveis).

Da mesma forma, essa inclinação para “empurrar com a barriga” a colocação em prática dos requisitos de construção de uma sociedade moderna, explica por que em 2018 menos da metade da população brasileira tem acesso a serviços básicos de saneamento, deficiência que representa de longe o maior problema ambiental do Brasil e cujos impactos negativos na saúde pública, no bem-estar geral e na economia são sobejamente conhecidos.

Ou que o País tenha sido “surpreendido” pela dependência extremada do transporte rodoviário, na recente greve dos caminhoneiros, após muitas décadas de desprezo pelos modais ferroviário e hidroviário.

Ou que prefira recorrer a casuísmos como cotas sociais e “raciais”, em vez de implementar um amplo e definitivo esforço educacional realmente capaz de transformar o País, como têm feito países que já superaram o subdesenvolvimento ou estão a caminho de fazê-lo, a exemplo da Coreia do Sul, Taiwan, China e outros.

Os exemplos são legião.

Por isso, não é casual que o Brasil, oitava economia do mundo em 2017, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), seja, ao mesmo tempo: 86º entre 191 países, em PIB per capita em Paridade de Poder de Compra (2016); 79º entre 188, em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) (2016); 5º entre 103, em desigualdade socioeconômica medida pelo Coeficiente de Gini, atrás apenas da África do Sul, Haiti, Honduras e Colômbia (2016); 112º entre 200, em disponibilidade de saneamento básico à população (2014); e que entre os 70 países participantes na edição de 2015 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), tenha sido 59º em Leitura, 63º em Ciências e 65º em Matemática.

Uma trágica ironia da História

Por uma ironia emblemática, o incêndio ocorreu na mesma data em que, há 196 anos, a princesa Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena, atuando como regente na ausência de D. Pedro, em viagem a São Paulo, convocou o Conselho de Estado para decidir a reação ao ultimato das Cortes Gerais de Lisboa, que haviam decidido devolver o Brasil à condição de uma virtual semicolônia, revertendo a maioria dos benefícios conquistados com a vinda da Corte para o Rio de Janeiro e a elevação à condição de Reino Unido com Portugal, em 1815. Ali, no mesmo palácio hoje incinerado, foi tomada a decisão da Independência, que seria chancelada por D. Pedro, cinco dias depois, à margem do riacho Ipiranga.

Evidentemente, não foi uma decisão tomada de improviso. Na verdade, ela vinha sendo amadurecida desde o início de 1822, quando D. Pedro decidiu ficar no Brasil e nomeou para o principal posto do seu ministério o paulista José Bonifácio de Andrada e Silva, uma rara combinação de cientista, administrador, guerreiro e estadista. Um dos homens mais preparados do seu tempo, que havia passado a maior parte de sua vida na Europa e, além de ter plena noção do atraso português e brasileiro em relação às nações mais avançadas da época, tinha também um ambicioso projeto para equiparar o Brasil a elas em algumas gerações, como parte de um Império luso-brasileiro ou como Nação independente, solução que prevaleceu devido à intransigência das Cortes. Juntamente com a austríaca Leopoldina, conseguiram cooptar o vacilante e indeciso príncipe regente para a causa da Independência, depois que os insanos dirigentes de Lisboa fecharam as portas a qualquer tipo de negociação.

Para José Bonifácio e seus apoiadores (inclusive, estrangeiros que aqui viviam), a Independência era a oportunidade para a implementação de um audacioso projeto nacional, que contemplava: a extinção do tráfico negreiro e a abolição da escravatura, em prazo não muito longo; uma mudança na legislação das sesmarias, para permitir a retomada pelo Estado de latifúndios não cultivados e a concessão de pequenos lotes de terras aos negros libertos e a imigrantes, dos quais se esperavam que demonstrassem aos brasileiros que era possível uma agricultura sem mão-de-obra escrava; um grande programa de instrução pública, com a instalação de “escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e freguesias, ginásios e faculdades técnicas em cada província e pelo menos uma universidade”; a criação de uma Academia de Agricultura; a civilização dos índios, em um empenho permanente de integrá-los à sociedade; a transferência da capital, “do Rio de Janeiro para o interior do País, na latitude aproximada de 15 graus Sul, em sítio sadio, ameno, fértil e banhado por algum rio navegável, dela abrindo-se estradas para as diversas províncias e portos marítimos”, dando-lhe o nome “Brasília”; a criação de um órgão governamental (Direção-Geral de Economia Pública) encarregado de supervisionar e dirigir obras de pontes, estradas, canais, minas e indústrias processadoras de minerais, agricultura, matas e bosques, fábricas e manufaturas; a instituição do voto feminino; o estabelecimento de uma confederação ou tratado de assistência mútua com os outros governos da América espanhola, contra interferências políticas externas.

Para infortúnio da nova nação, precisamente, por conta do seu enorme potencial de transformação das estruturas arcaicas da sociedade e da economia brasileiras, articuladas em torno do tráfico negreiro e do braço escravo, a forte reação das oligarquias dominantes impediu qualquer possibilidade da adoção de tal agenda, com uma rápida defenestração de José Bonifácio do governo e a pronta cooptação de D. Pedro I para o “projeto arcaico” prevalecente, gerando consequências negativas que, em muitos casos, se arrastam até os nossos dias.

Como escreveu o grande historiador José Honório Rodrigues: José Bonifácio, o primeiro Ministro de Estado brasileiro… sabia que naquela hora havia de criar, como criou, muitos inimigos. E mais ainda, porque lutava contra “a ferrugem dos tempos bárbaros”, contra os arcaicos, os retardatários e até defuntos e mortos. Daí sua expulsão violenta do comando do processo histórico e o atraso brasileiro, substituído o instante de criação pelo instante de retardamento, com o adiamento da solução dos problemas e a sua eterna ressurreição. O pensamento político e social de José Bonifácio, tão atual ainda hoje, não era o dos seus contemporâneos. Sua visão, como a de todo criador, era séria, construtiva e original.

Exclusão e exclusivismo são as palavras-chave para o entendimento do “projeto arcaico” que as oligarquias brasileiras vêm conseguindo impor até a atualidade, instrumentalizado pela captura do Estado em favor dos seus interesses e secundado por um sistema de privilégios seletivamente estendido a certos setores burocráticos e tecnocráticos, cooptando-os para a sua agenda. Um relativamente breve interregno ocorreu no meio século posterior a 1930, no qual, com altos e baixos, se impôs o projeto nacional modernizante iniciado por Getúlio Vargas, baseado na industrialização do País e no estabelecimento de um funcionalismo público funcional. Com ele, pela primeira vez na história brasileira, a atuação do Estado foi estendida à população em geral, ampliando-se para além da esfera dos interesses oligárquicos (sendo esta, ainda hoje, a motivação principal da fúria destes contra a “era Vargas”). Assim, em grande medida, a derrota do projeto de Nação de José Bonifácio, há quase dois séculos, ainda estende a sua influência aos dias de hoje.

Salta aos olhos que o Brasil vive uma disjuntiva histórica, cujo desfecho não pode mais ser adiado: conformar-se com o “projeto arcaico” hegemônico ou retomar o impulso do grande projeto nacional vislumbrado pelos patriotas de 1822, ajustado aos desafios do século XXI. Ambas as opções implicam em muitos riscos, mas a primeira é indiscutivelmente mais perigosa, implicando na ameaça imediata do acirramento das tensões internas, com riscos para a própria integridade nacional, pela qual os brasileiros tiveram que derramar sangue há quase dois séculos. Por outro lado, a segunda é bem mais difícil, pois requer a superação da inércia da acomodação ao status quo, mas é a única que poderá colocar o País na trajetória da construção de uma Nação decente, em algumas décadas.

A destruição do Museu Nacional é a metáfora acabada do arcaísmo nacional. Assim sendo, é preciso trabalhar para que das suas cinzas possa renascer uma nova Nação, na qual, na formulação de José Bonifácio, a sociedade tenha “por base primeira a justiça e por fim principal a felicidade dos homens”.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A ignorância abissal da ultradireita jornalística, por André Araújo




Dilema da ignorância, por André Araújo

WALL STREET OU VENEZUELA

Os jornalistas “partiu pra cima” da nova ultra direita apresentam o seguinte dilema, se você não aceita todos os ditames do ultra neoliberalismo, desses que querem vender o Brasil de porteira fechada ou então você quer uma economia como a da Venezuela. Não há alternativa, ou é Goldman Sachs ou é Maduro, o analfabetismo político-econômico gerou essa necrosia intelectual, a vida é binária, ou é branco ou é preto, não existe o azul, o cinza, o turquesa.

Nunca ouviram falar de Lord Keynes, um aristocrata inglês do mais refinado cérebro, ligado às artes e à literatura que não adotava o discurso do mercado e salvou a economia mundial com fórmulas que hoje seriam consideradas pelos ultra direitas como “comunistas”.

A carta que Keynes enviou ao Presidente Roosevelt, outro comunista, em 30 de Maio de 1933 pedia ao Presidente dos EUA que usasse o Estado para tirar os EUA da Depressão, que fez um quarto dos americanos ficarem desempregados. Roosevelt seguiu Keynes contra o “mercado “que queria curar a Depressão com “ajustes” como os neoliberais brasileiros de hoje querem fazer e que jamais dará certo porque o ajuste é necessário mas não é o remédio para tirar o País da recessão. Ao contrário, o ajuste aprofunda a recessão enquanto promete resultados no longo prazo, esquecendo a frase celebre de Keynes “No longo prazo todos estaremos mortos”.

Os desempregados precisam comer no curto prazo e isso só será possível com um plano de emergência para reativar a economia, o que é da lógica da realidade, mas não da lógica do mercado financeiro, que pode funcionar desligado da economia da produção e dos empregos.

A chamada “escola neoliberal” é página virada na sua própria “alma mater”, a Universidade de Chicago, os legatários de Friedman tiveram que sair de Chicago e foram para a Carnegie Mellon University em Pittsburgh, o Estado americano salvou o mercado em 2008, com isso enterrando o credo neoliberal que partia do princípio de que o “mercado se auto ajusta”.

Apesar dessa evidência seguem se apresentando no Brasil certos personagens com a etiqueta de “ultraneoliberal”, porque sequer sabem que essa escola está em um ciclo findo.

Como estudaram nas faculdades de economia há 30 anos, guardam uma cartilha mental embolorada e completamente defasada e não tem a capacidade intelectual de reciclar aquilo que aprenderam, o que é típico de cérebros apostilados limitados e medíocres.

A operação da política econômica se faz em todo lugar pela combinação de instrumentos e não com um cardápio fixo imutável, a famosa “lição de casa” do antigo FMI, até o FMI mudou muito desde os anos 90, a ponto de ser crítico do ajuste excessivo na Grécia.

Política econômica é uma arte de combinação de instrumentos sem regras fixas que variam a cada ciclo e circunstancia, é essencialmente arte e não matemática pura, aliás o estudo de ciência econômica que começou na França e na Inglaterra sempre foi tratado como da área da política, foram os americanos que introduziram formulas fixas e matemáticas no estudo da economia, fórmulas originadas de seu modelo econômico e que raramente dão certo em outros países e contextos, é preciso tratar a economia como arte e não como experimento de laboratório como alguns cérebros mofados ainda querem operar na base de “tripés”.

O MITO DA PRODUTIVIDADE

Os economistas neoliberais têm fascínio pelo conceito de “produtividade” que para eles tem valor absoluto, é algo sempre bom, quando na realidade é um conceito sempre relativo.

A produtividade na micro economia pode ser improdutiva na macro economia. Se uma empresa que emprega 20.000 operários investe pesadamente em automatização e com isso dispensa 15.000 empregados, consegue economizar 300 milhões de Reais em folha de pagamento, ótimo para a empresa. Na macro economia, esses desempregados vão gerar custos novos em seguro desemprego, saúde publica, saúde mental, perda de capital investido anteriormente na sua formação, uma parte em aumento de criminalidade a exigir mais policia, justiça e prisões, há rompimento de famílias, casamentos, velhos, filhos que não serão educados por falta de renda dos pais, esses desempregados deixarão de consumir muitos produtos e com isso provocam retração da economia, há uma gigantesca cadeia de perdas não só humanos e sociais mas também puramente econômicas provocadas pela aplicação simplista de um conceito de “produtividade” como valor mágico.

O extraordinário aumento de custos no tratamento de saúde mental no mundo foi calculado pelo professor Vikram Pattel, da Escola de Medicina da Universidade de Harvard com dados do Banco Mundial e chega a 16 trilhões de dólares entre 2010 e 2030. Esses custos em países significam enorme improdutividade do sistema econômico e geram perdas extraordinárias em outros sistemas, como os de saúde, justiça, polícia, educação, degradação urbana, sem falar em valores imateriais como sofrimento pessoal, dilapidação de capital humano na geração presente e nas gerações futuras, o desempregado de hoje é o filho sem educação de amanhã.

Portanto produtividade micro não é um bem absoluto. Quando Keynes sugeriu a Roosevelt empregar gente para tirar pedras de um lado das estradas e levar para outro lado, ele não estava promovendo produtividade, mas exatamente o seu contrario, ele propunha improdutividade micro para alcançar produtividade macro na economia e ao final no bem estar da população, em nome de um objetivo muito maior, tirar o País da Depressão.

É impressionante a ignorância política e histórica de economistas de cartilha, que sempre propõe produtividade como algo mágico, o conceito é apenas micro econômico, não é humano, se os grandes mestres da humanidade pensassem em produtividade não teríamos a civilização tal qual a conhecemos, baseada em valores muito mais altos do que simplesmente economia, em valores como arte, cultura, generosidade e ciência pura.

A eleição de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia foram faturas que as populações apresentaram aos apóstolos da produtividade tipo “é mais barato fabricar na China”, mais barato para as empresas e infinitamente mais caro para as populações.

As empresas deixadas à sua própria e exclusiva lógica, sem direção do Estado, destruirão países e sociedades, destruíram a classe média industrial americana e as pequenas cidades industriais do interior da Grã Bretanha, tudo em nome da produtividade micro contra o bem comum desta e de futuras gerações, é preciso rever os conceitos do neoliberalismo puro.

SOBRE REFORMAS, AJUSTES E EMERGÊNCIAS

As reformas tributárias, da previdência, administrativa são fundamentais, o ajuste das despesas públicas deve ser feito para cortar abusos notórios em salários sem nenhuma correspondência com a necessidade do Estado e a capacidade dos felizardos, o emprego público já tem por si só vantagens sobre os empregos privados, não tem cabimento, além disso, pagar muito mais que o mercado mesmo no salario inicial, isso é a maior causa do déficit, além da má utilização de prédios públicos, do abuso nas terceirizações, de compras mal feitas.

Mas as reformas e os ajustes no Brasil, podem perfeitamente conviver com um PLANO DE EMERGÊNCIA para relançar a economia na rota do crescimento e criar rapidamente empregos com investimentos públicos necessários na infra estrutura, um plano de dois trilhões de Reais com desembolso dividido em 40 meses, 50 bilhões de Reais por mês não causaria impacto nos preços porque há muita capacidade ociosa na indústria, o mecanismo seria por emissão de um novo tipo de título a longo prazo, indexado, com juros de média internacional, se o mercado não absorver o Banco Central compra usando o imenso volume de depósito compulsório e também de emissão de moeda, que está estagnada há 12 anos em torno de 230 bilhões de Reais, volume baixíssimo para as dimensões da economia brasileira, 3% do PIB quando nos EUA a moeda física circulante é de 7,5% do PIB.

Grande número de países fez e faz exatamente isso sob o nome de “quantitative easing”,o Banco Central compra para sua carteira títulos da dívida pública para estimular a economia, essa é função básica de um Banco Central, trabalhar para a prosperidade do Pais a que serve e não apenas operar como instrumento de garantia do capital especulativo, que é o que faz há 24 anos o Banco Central do Brasil, a serviço do mercado financeiro e não do País.

sábado, 20 de outubro de 2018

Insanidade programada

Meu novo artigo:


Seja qual for o resultado das eleições presidenciais o objetivo perseguido foi alcançado em vários aspectos. A nação em profundo desastre econômico, dezenas de milhões de desempregados, a crise social em estágio galopante, a quebra de setores industriais, empresas estatais fundamentais a um projeto soberano de desenvolvimento estratégico abatidas a pauladas ou seriamente danificadas.

A sociedade brasileira dividida em torno de uma guerra cultural entre “neoliberais multiculturalistas” versus “neoliberais antimulticulturalistas” enquanto as últimas pesquisas de opinião atestam que apenas 12% e 15% dos eleitores dos respectivos candidatos em disputa votam pensando em algum tipo de proposta como alternativa à própria realidade em que vivem.

Nem na rica, enfadada, bovina e pachorrenta Suíça do Primeiríssimo Mundo, a população dá-se a tamanho luxo e desperdício, de ignorar, nas eleições nacionais, os seus problemas centrais econômicos e sociais, para se estapear em uma Guerra Cultural propositalmente ideologizada.

Guerra Ideológica de conceitos e preconceitos que vêm sendo e serão inevitavelmente reduzidos a pó frente às necessidades do desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas em qualquer País significativo do planeta.

Principalmente quando essa Guerra Ideológica é um papel carbono das eleições norte-americanas passadas, literalmente transplantadas ao Brasil sem pagar pelo menos qualquer taxa de importação.

E de repente redescobriram o óbvio, porque já sabido e denunciado: as redes sociais são instrumentos de manipulação de todas as formas, especialmente através de interesses estratégicos internacionais geopolíticos e financeiros, já denunciava há alguns anos atrás o ex-espião da CIA Edward Snowden, citando como um dos alvos específicos o Brasil.

Quando Ciro Gomes, instado a meter-se até o pescoço nessa Guerra Cultural declarou que era candidato à presidência da República e não a “Fiscal de Costumes”, pouca gente percebeu o sentido dessa frase. Não sei nem se ele próprio percebeu a dimensão dela.

Nos anos sessenta passados, o presidente eleito Jânio Quadros resolveu iniciar a sua própria guerra cultural baixando, através de decretos, proibições como briga de galos, muito popular à época, e pasmem, o uso de biquínis nas praias do Brasil, transformando-se num profeta grotesco e felliniano da guerra atual entre multiculturalistas x antimulticulturalistas que incendeia de ódios as atuais eleições.

Com o objetivo de transformar candidatos palatáveis, marqueteiros buscam adequar candidatos multiculturalistas ferrenhos em “produtos” palatáveis ao gosto mais conservador de faixas do eleitorado, e vice-versa com os antimulticulturalistas. O efeito beira ao nonsense.

Enquanto isso o Brasil não discute os seus problemas fundamentais nas áreas de saúde, educação, a retomada fundamental do crescimento econômico sem o que nada se resolve, o narcotráfico transnacional que fez do País a sua escala global, daí a nossa gravíssima tragédia da segurança interna.

Não existe uma proposta que indique a retomada de um projeto nacional de desenvolvimento estratégico, de investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia de ponta, educação voltada aos rumos necessários, o combate às profundas desigualdades sociais etc. E se existe, ninguém percebeu ou se encontra no fundo das gavetas.

Não há clima de eleição democrática no País e nem poderia haver porque o objetivo não é democrático mas de uma Guerra Híbrida. Onde a política foi antecipadamente destruída através de corporações do Estado, que agem autonomamente à revelia dos interesses do Estado nacional, ou contra ele, e agora, essas mesmas corporações passam a ser elogiadas por todos.

A insanidade mental, quase esquizofrênica, em que o País mergulhou não é espontânea. Tem como objetivo a fratura da sociedade nacional em campos irreconciliáveis como se fosse uma guerra entre povos distintos e inimigos Históricos, seculares. E nada disso tem a ver com marxismo ou luta de classes.

Esse é o objetivo central da Guerra Híbrida em curso, contra as amplas liberdades democráticas, as nossas imensuráveis riquezas naturais, o papel geopolítico estratégico de nação continental, a quinta maior do planeta. Essa Guerra Híbrida vem sendo promovida especialmente pelo Mercado Financeiro, os megaespeculadores globais que agem em todo o mundo. E o País é um tesouro muito especial nessa pirataria internacional.

Mas o Brasil é inevitável. E vamos vencer essa batalha tremenda assim como superamos outros períodos dramáticos enquanto jovem nação. Faltam-nos lideranças, Estadistas à altura desse momento Histórico.

Mas a própria História indica que é da necessidade que surgem novas ideias e líderes à altura dos acontecimentos impostos aos povos. Até porque a Guerra Híbrida não vai se encerrar com estas eleições. Vem mais coisa por aí.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Armadilhas do rentismo

Meu novo artigo:


As eleições presidenciais no primeiro turno foram marcadas por uma Guerra Híbrida pautada pela agenda entre multiculturalistas e antimulticulturalistas. Na verdade as respostas para os nossos grandes problemas como saúde, educação, segurança, a retomada do crescimento econômico, os interesses nacionais só foram abordados lateralmente, quando muito.

Nesse sentido, é possível dizer que o Mercado financeiro, através da grande mídia hegemônica a ele associado, tem sido o grande vencedor das eleições presidenciais, até o presente momento.

Porque o que tem sido pautado, no fundo, nestas eleições presidenciais é como serão realizadas as reformas econômicas que beneficiem os agentes especuladores, os financistas que já auferem lucros estratosféricos no Brasil.

Essas reformas econômicas, que exige o Mercado financeiro, precisam ser bem mais agressivas que todas as demais já realizadas em outras épocas, sempre contrárias ao papel estratégico do Estado nacional como indutor do desenvolvimento econômico, das garantias trabalhistas, dos interesses soberanos do País etc.

Nesse sentido, o que as poderosas corporações financeiras e rentistas globais estão impondo à nação, através dos seus “Economistas de Mercado”, as grandes referências nas pautas da mídia hegemônica, é qual a maneira em que serão realizadas as chamadas “flexibilizações na ordem econômica, nos direitos sociais e no protagonismo do Estado brasileiro”.

Essas alternativas não correspondem aos interesses das grandes maiorias sociais, setores da classe média, do desenvolvimento nacional. E por isso é que elas são razoavelmente escondidas no debate das eleições, porque são altamente impopulares, seriam rechaçadas de imediato pela sociedade.

Em seu lugar, foi introduzida uma agenda política extremamente polarizada de ódios difusos fragmentando o tecido social da nação, enquanto a caravana do liberalismo econômico radical e antinacional, margeia a luta de ideologismos - o que não é igual a ideologia - que vai tocando fogo no País.

Quem aplicar as reformas econômicas exigidas pela banca especulativa será um presidente altamente impopular, além da divisão na sociedade já estabelecida desde 2013 através da chamada Guerra Híbrida.

Assim, obcecado em promover as suas “reformas” o Mercado financeiro, os especuladores do rentismo, vão medindo o pulso das eleições nesse segundo turno eleitoral.

O Mercado financeiro não se importa com a Democracia, em muitos momentos prefere o autoritarismo à vida democrática. E dividir para reinar era a máxima adotada pelo Império Romano da antiguidade.

Nesse contexto, a contabilização no mundo da política pode estar sendo medida entre ser oposição ao terremoto econômico e social que será imposto através do presidente eleito, ou governar aceitando as diretivas do mundo das finanças, quando na verdade o caminho deveria ser o do crescimento econômico soberano e democrático.

No entanto, o Mercado pode estar fazendo seus próprios cálculos: promover as suas reformas neoliberais draconianas através da ordem autoritária, sacrificando a via democrática. Como veem, essa conta não fecha nem com a sociedade, o País ou a democracia.

Chegamos a um ponto muito complexo onde a retomada do desenvolvimento econômico não se encontra presente e algumas forças políticas fazem uma espécie de dança perigosa à beira do precipício.

Uma pergunta que deve ser respondida mais cedo ou mais tarde é: como e de que maneira se chegou a essa encruzilhada?

Por isso cresce a solução do fascismo com violência e truculência para conter a sociedade pela força e assegurar os ganhos do capital financeiro. Mas, afirma André Araújo, “o fascismo não é estável, ele precisa se agitar continuamente até implodir. O prazo de validade do fascismo é curto no tempo Histórico”.

Seja como for urge ao povo brasileiro o caminho da resistência em defesa da democracia, do desenvolvimento econômico, da soberania nacional. Todas, literalmente ameaçadas neste exato momento.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Eleições e a esbórnia rentista

Meu novo artigo:


As atuais eleições presidenciais continuam reproduzindo o mesmo quadro que vive o Brasil desde, pelo menos, 2013. Uma tempestade de ódios difusos que vem sendo induzida através da Grande Mídia hegemônica, que por aqui é bem mais hegemônica que em outros lugares.

Assim como via redes sociais que, apesar de se constituir em uma revolução tecnológica, tem sido um instrumento, proposital, da promoção da desagregação da sociedade.

Nesse contexto, a campanha tem sido mais do mesmo, a intensificação de uma Guerra Cultural de ideologismos, o que não é igual a ideologia, cujo objetivo central é a fratura da sociedade nacional.

E nada tem de original, já foi, é utilizada, em várias nações do mundo com os mesmos fins e intenções.

Dois polos visceralmente antagônicos que se retroalimentam mutuamente e de maneira contínua, dão sinais que se o outro sair vencedor não vão reconhecer o resultado das urnas já no primeiro turno das eleições.

Os problemas nacionais que dizem respeito aos interesses das grandes maiorias sociais não vêm sendo tratados durante a campanha, ou são de maneira lateral, como se o País já tivesse resolvido os seus gravíssimos males que o assolam de forma perigosamente crescente.

Os números do IBGE são trágicos: 13 milhões de desempregados, 37 milhões em atividades informais, 65 milhões deixaram de procurar emprego ou de exercer qualquer atividade laboral. Com isso salta a criminalidade.

Já o setor financeiro continua batendo sistematicamente todos os recordes de lucros que espantam até mesmo os grandes centros das finanças globais, diz a revista The Economist, em plena recessão no País e no mundo.

A única saída para a crise é a retomada do crescimento econômico, movendo o motor do desenvolvimento nacional, gerando empregos, investimentos em infraestrutura, educação, saúde etc. Não há alternativas fora da retomada do desenvolvimento econômico.

Enquanto isso seis poderosos grupos do narcotráfico disputam, em paralelo, o comando do País.

Assim, o investimento em segurança pública é fundamental a uma sociedade refém do crime organizado. Não é o vulgar batedor de carteira que está apavorando o cidadão, a cidadã, mas as organizações criminosas e os seus efeitos colaterais.

O combate ao narcotráfico transnacional, que fez no Brasil o seu paraíso, é uma questão fundamental na defesa do Estado brasileiro. Mas esse problema terrível não será resolvido sem a retomada do desenvolvimento com o fim da brutal recessão. É como enxugar gelo. Não, ele vai se agravar.

Essas grandes questões nacionais não estão sendo discutidas nas eleições presidenciais. Em seu lugar existe uma batalha entre multiculturalistas e antimulticulturalistas, extremada, fanatizada. É uma guerra cultural imposta de fora, em paralelo às imperiosas necessidades do País.

A maioria dos candidatos corre docilmente em busca do apoio e da simpatia do Mercado financeiro. E a grande mídia diz todo dia que ele está ora “nervoso”, ora “mais calmo”, ora “alegre”.

Não é verdade, esse ente não existe como tal, eles são os financistas e os especuladores de curto prazo. Estão lucrando bilhões de dólares com a crise, com a recessão, e até com as pesquisas eleitorais desencontradas, enquanto a economia afunda, os serviços de saúde se deterioram, doenças antes sob controle como a febre amarela, sarampo, o aumento nos índices de mortalidade infantil mostram o tamanho do caos.

Na ânsia de fazerem-se pragmaticamente simpáticos ao Mercado financeiro os candidatos, no geral, parecem se dividir entre “neoliberais progressistas multiculturalistas” e “neoliberais antimulticulturalistas conservadores” e até alguns “neonadas”. Enquanto as propostas para a resolução dos grandes problemas nacionais são tratadas apenas lateralmente. O Mercado agradece.

Vários jornalistas independentes dos EUA alertam que esta eleição é um papel carbono das eleições entre Hillary Clinton e Donald Trump, entre a candidata do Sistema Financeiro com Políticas Identitárias, versus um Franco Atirador, mas só na aparência contra o Establishment. Eu não tenho dúvidas. Como também não tenho dúvidas que ela faz parte de uma Guerra Híbrida contra o País.

Enquanto nas redes sociais as patrulhas ideológicas entre setores médios se digladiam em cego e feroz combate, lateral aos grandes problemas nacionais, o Mercado financeiro global esfrega as mãos satisfeito. E a esbórnia dos rentistas promete se estender muito mais.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

O “mercado” defende os seus, por André Araújo



Nos países centrais do capitalismo, Estados Unidos e Reino Unido, não passa pela cabeça de um jornalista político de primeira linha procurar saber a opinião de um rapaz da bolsa sobre eleições para chefe de governo ou chefe de Estado. O “mercado” "NÃO" é um ator político.

A política se define no mundo político, não na bolsa, o espaço da política é muito mais importante e não se sustenta nos “mercados” e sim em plataformas mais altas.

A pobreza da vida política brasileira, desde o Governo Collor, fez desaparecer o time dos políticos de primeira linha e com isso subiram ao pódio atores secundários, coadjuvantes, simples figurantes, a quem ninguém no passado pedia opinião porque essa não tinha importância alguma, faltava a sabedoria, a qualidade, a legitimidade.

Hoje nos comentários políticos chama-se o “mercado” a opinar, como se fossem deuses.

Mas qual mercado? Há muitos e variados e eles não falam uma só língua. O agronegócio tem sua lógica, os caminhoneiros tem outra e contraria, qual prevalece? Quem é importador tem um tipo de interesse, quem exporta tem outro, quem fabrica quer uma política, quem distribui quer outra, o construtor de imóveis quer crédito barato, o aplicador quer juro alto.

Nos anos Vargas e JK o que hoje se chama “mercados” eram então as CLASSES PRODUTORAS.

Eram os grandes industriais e comerciantes, que se contrapunham à CLASSE TRABALHADORA.

Tratava-se de figuras de peso e consistência, capitães de indústria como se falava, experientes, sofisticados, refinados muitas vezes, suas mulheres eram as mais elegantes, gente traquejada nos negócios e na vida. Eram ouvidos com respeito, mas o mundo da política era outro e não se movia a não ser lateralmente por essas vozes e nem girava em torno delas.

Hoje a mídia econômica trata o mercado pelo que ele não é, o mercado NÃO é a plataforma onde se administram os interesses do País, nem os “investidores” que o mercado representa, o que no Brasil se considera “o mercado” são agentes dos investidores e não os próprios. Esse ente coletivo NÃO tem a compreensão e nem a dimensão de todos os interesses do País, quem vê o País como um todo, como um conjunto de interesses, valores e estratégias é o ESTADO.

Quando Trump, certo ou errado, age contra as exportações chinesas ele está visando o interesse do País como um todo e não apenas o interesse das companhias globalizadas que preferem um mercado americano aberto ao que vem de suas fábricas na China. Não é problemas dessas empresas os desempregos que os produtos chineses geram dentro dos Estados Unidos, mas é problema do Presidente, ele foi eleito por causa desse problema.

Não tem sentido se tentar no Brasil colocar “o mercado” como árbitro de eleição. É uma diminuição, um apequenamento da questão nacional, muito maior que o “mercado”, que nesse contexto é apenas a plataforma de capital volátil que circula pelo mundo e dá uma parada no Brasil. NÃO é definitivamente a estação onde desembarcam as empresas da economia produtiva que interessam ao Brasil e que aqui aportaram mesmo nos momentos de mais alta inflação MAS com crescente demanda de seus produtos no Pais. Algumas empresas como GM, Ford, Siemens, Lever, Goodyear, Abbott, Lilly, Exxon, Shell, estão no Brasil a bem mais de CEM anos, esse é o investidor que interessa ao Brasil e que não é entrevistado pelos comentaristas econômicos da mídia ignorante, esse investidor não está todo dia em eventos frequentados pela mídia, não é disponível para dar entrevistas a qualquer hora.

Então a mídia se encosta nas corretoras, gestoras e bancos de investimento como SE esses personagens fossem a economia do País. ELES NÃO SÃO, é apenas um pedaço visível e nunca o maior da economia, muito mais complexa do que a Av. Faria Lima e o Leblon.

Hoje os comentaristas econômicos alardeiam aos quatro ventos que foram a eventos onde ouviram o que pensa o mercado sobre esse ou aquele candidato, sua opinião pesa enormemente, não é apenas uma cortesia ouvi-los. Que pequenez, que pobreza, que coisa micha, minúscula, medíocre, de pé de chinelo, a política cruzando talheres com cambistas.

QUAL É O MERCADO QUE SE OUVE?

O chamado “mercado” consultado com reverência pela mídia é o MERCADO ESPECULATIVO de ações e câmbio, são os “rapazes da bolsa” cujo ÚNICO interesse é o deles, só eles.

Não estão nem aí para o País, para os desempregados, para os pobres biscateiros, para as periferias, para o futuro dos jovens sem futuro, nem para o País que legarão a seus filhos.

A “meta” (eles adoram metas) deles é ganhar os tubos no mercado aqui e dar o “bye bye Brazil”, mudando eles e suas peruas para Miami, com o dinheiro lavado aqui.

Não lhes passa pela cabeça e não tem o mínimo interesse pela indústria e empregos no Brasil, pela educação no Brasil, pelo sistema de saúde publica no Brasil, pelas carências de saneamento e infra estrutura no Brasil, nada disso interessa, o negócio deles é o “eu mesmo”.

É esse o mercado aloprado, badalado e consultado pelas Veras, Elianes, Andreias, Denises, é a opinião deles sobre os candidatos que elas querem ouvir. Pobre Brasil, um grande País que se encolheu na mão de gente pequena e insignificante, inculta, sem grandeza e sem visão.

Enquanto isso, Rússia, China e Índia crescem como potências porque o Estado deles é respeitado, a visão de Pais e de povo é central na política, a sociedade se orgulha de sua cultura, de seus costumes, de sua língua, de sua música, de seus projetos de Pais. O Brasil está ameaçado de cair na lata do lixo da História, acontecimento que será reportado pela GLOBONEWS com direito a luzes e show de tolices, enquanto o mercado especula com a desgraça do Brasil menor, trilha de passagem dos fundos especulativos globais.

O Brasil está na categoria dos grandes países continentais com projeção de poder estratégico por sua expressão territorial, demográfica, econômica, cultural e ecológica, é preciso que haja consciência de sua dimensão muito acima e além de ser apenas um simples mercado.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O Manifesto em defesa da nação

Republicamos para uma profunda reflexão o Manifesto à nação de 6 de junho de 2017 escrito pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, subscrito por milhares de personalidades e segmentos da vida pública brasileira.

A atualidade do Manifesto à nação diante do agravamento da crise política, econômica e institucional é candente.

Da sua publicação inicial aos dias atuais, a crise multilateral que se abate sobre o País agravou-se intensamente.

A união do povo brasileiro em defesa do Brasil, da democracia, da soberania nacional, da justiça social, da sua identidade cultural torna-se ainda mais premente.

O País necessita da união nacional da sociedade, na convivência dos contrários, da tolerância no convívio democrático, ou ao que tudo indica vai marchar para um clima de radicalismos polarizado em posições extremadas e irreconciliáveis, que nos conduzirá ao agravamento dos múltiplos fatores de instabilidades que hoje presenciamos. O manifesto em si mesmo dispensa outras apresentações .





MANIFESTO PELA UNIÃO NACIONAL

“Não precisa o Brasil ser dividido, é melhor união progresso e paz”
(Geraldo Amancio, poeta e repentista)


O Brasil vive grave e profunda crise, que ameaça seu futuro de Nação livre, próspera e soberana. O esforço de nossos antepassados, sem temer sacrifícios nem renúncias para construir a País é posto à prova pela atual desorientação sobre que rumos seguir para ampliar a independência e a autonomia nacionais, elevar o bem-estar material e espiritual da população e proteger o convívio democrático entre os brasileiros. As rupturas operadas na ordem institucional geraram um quadro de aguda polarização, agravado pela recessão econômica, pelos altos níveis de desemprego e subemprego, e pela violência em suas variadas formas. A sociedade brasileira encontra-se dividida, desorientada e desalentada, com sua agenda pautada por atores e interesses minoritários, e mesmo antinacionais, ambiente ideal para a proliferação de várias formas de morbidez social, entre elas a corrupção.

Somente a união de amplas forças políticas, econômicas e sociais, em torno de uma proposta de reconstrução e afirmação nacional, pode abrir caminho para a superação da crise atual. Tal proposta não pode ser apenas uma plataforma de metas econômicas e sociais, mas deve buscar sua inspiração no estado de espírito capaz de mobilizar amplamente os diversos atores da sociedade, com o objetivo comum de ver o País progredir de forma que os benefícios do desenvolvimento sejam percebidos por todos eles, levando-os a se sentirem como seus protagonistas ativos. Este projeto exige como pressuposto que a defesa e o desenvolvimento do Brasil sejam o fundamento para assegurar a efetiva expansão dos direitos sociais e da democracia.

A elaboração e implantação do projeto de construção e afirmação nacional não poderão limitar-se à classe política, mas terão que ser compartilhadas pelos mais diversos segmentos representativos da sociedade. Isto exige o afastamento de toda sorte de preconceitos motivados por ideologias e maniqueísmos, que se mostram insuficientes e limitados para permitir o entendimento da situação. Acima de tudo, é necessário abandonar a enganosa dicotomia entre Estado e Mercado, que tem servido apenas para mascarar a captura das estruturas do primeiro por coalizões de interesses particulares, substituindo-a por uma eficiente cooperação entre o poder público e a iniciativa privada, em prol do bem comum, como ocorreu e ocorre em todos os países que conseguiram enfrentar e remover os desafios no caminho do desenvolvimento duradouro e sustentável.

As gerações que nos antecederam ergueram material e espiritualmente o Brasil, em quatro grandes movimentos, a saber:

1) a formação da base física, a conformação do território, do ano zero de 1500 e da originária Terra de Santa Cruz, ao Tratado de Madrid, em 1750, que configurou de forma aproximada as atuais fronteiras nacionais e iniciou o processo de mestiçagem que caracterizou a formação social brasileira.

2) a epopeia da Independência, consolidada em 1822, representada nas figuras luminares de Tiradentes e José Bonifácio, Patriarca idealizador de um projeto de Nação que ainda guarda grande atualidade.

3) a fase da defesa e manutenção da unidade territorial, com D.Pedro I e D.Pedro II e que se encerra com a libertação dos escravos em 1888;

4) a República proclamada por Deodoro da Fonseca e consolidada por Floriano Peixoto, que tem o apogeu em Getúlio Vargas e seu ambicioso programa de industrialização e modernização do Estado, pondo em prática aspirações anteriores dos movimentos Sanitarista, Tenentista e da Nova Educação. A partir de Vargas o Brasil oscilou ao sabor das correntes varguista e anti-varguista, até os nossos dias.

Hoje, nos marcos da economia globalizada e com o País em condições mais favoráveis que no passado, temos a missão de iniciar um novo projeto nacional, o quinto movimento, em três direções e três objetivos:

1) ampliar a soberania nacional com o pleno desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e dos meios de defesa do País;

2) elevar a qualidade de vida do povo brasileiro com a redução das desigualdades sociais; proteção da infância e da maternidade, acesso à educação de qualidade, saúde e saneamento básico; combate sem tréguas ao crime organizado e valorização da segurança pública contra o banditismo em todas as suas formas;

3) fortalecer a democracia e a tolerância na convivência entre os brasileiros, com realização de uma reforma política que liberte nosso sistema político do controle de interesses corporativos e oligárquicos e assegure o predomínio dos grandes debates dos temas nacionais na esfera pública.

A crise nacional acontece em meio a um quadro global de mudança de época, marcado por:

a) agravamento das consequências socioeconômicas negativas da globalização dirigida pelas finanças especulativas internacionais;

b) alteração do eixo geoeconômico mundial para a Eurásia-Pacífico;

c) emergência de um cenário de poder multipolar, em contraposição à unipolaridade do período posterior ao fim da Guerra Fria;

d) novas revoluções científicas e tecnológicas e rápida introdução de tecnologias inovadoras (Quarta Revolução Industrial), com profundos impactos sobre as formas de produção de bens e serviços, níveis de emprego, relações de trabalho, qualificação da força de trabalho e as próprias relações sociais em geral.

Todos esses aspectos terão influência determinante para o necessário projeto nacional brasileiro, que, por sua vez, é condição decisiva para exercer influência sobre a dinâmica global. Por isso o projeto nacional brasileiro precisa contemplar a relevância continental do País, que ocupa metade da América do Sul, representa cerca de 50% da economia da região, faz fronteira com dez outros países e representa a força motriz potencial para a integração física e econômica do subcontinente. O Brasil deve assumir definitivamente o papel de liderança benigna e não hegemônica do bloco sul-americano, dando-lhe “massa crítica” para participar de forma eficaz e positiva na reconstrução da ordem mundial que está em marcha.

É fundamental que o sistema financeiro reoriente seus esforços para estimular e apoiar as atividades produtivas. Os títulos da dívida pública não podem continuar sendo o investimento mais rentável do País, como ocorreu no período de 2001-2016, muito acima de qualquer atividade produtiva. A aspiração ao desenvolvimento não pode ser bloqueada pelos interesses rentistas locais ou estrangeiros.

A reversão da desindustrialização que afeta o País é crucial. O Brasil tem regredido dramaticamente em capacidade industrial, principalmente no segmento de alta tecnologia, impactando as camadas médias da sociedade, com a perda de empregos qualificados e de melhor remuneração. A despeito da rapidez do processo, ainda temos uma das dez maiores e mais diversificadas bases industriais do mundo. Além de recuperar a capacidade produtiva, é determinante requalificar todo o setor industrial para enfrentar o desafio da Quarta Revolução Industrial, baseada em elevados índices de automação e conectividade, e intenso fluxo de inovações tecnológicas de ponta.

A retomada do desenvolvimento brasileiro exige a estruturação de cadeias produtivas de maior valor agregado baseadas em conhecimento nacional. Isto, por sua vez, requer a ampliação dos investimentos públicos e privados em todas as dimensões da educação e geração do conhecimento e de sua aplicação inovadora na economia nacional, incluindo o apoio efetivo e criterioso à capacitação e elevação da produtividade das empresas nacionais. O Estado Nacional deverá passar também por uma profunda reforma que incorpore e internalize no seu sistema de controles o princípio da incerteza que rege a descoberta científica e a dinâmica da inovação, de forma a não travar a atividade de pesquisa ou inibir a criatividade do empreendedor.

Aos alarmantes índices de deficiências educacionais da população matriculada na rede de ensino, soma-se a crescente degradação do ambiente escolar, com o aumento da violência e o abandono das noções de disciplina e hierarquia, sem as quais o esforço de aprendizagem está fadado ao fracasso. A realidade tem demonstrado que além da destinação de recursos é urgente a retomada da questão educacional como prioridade central do Estado, que deve protegê-la dos vícios do corporativismo, enaltecer o papel do professor e restaurar sua autoridade dentro da sala de aula e na sociedade.

A agricultura, a pecuária e a agroindústria constituem ativos econômicos, sociais, culturais e geopolíticos de grande importância para o Brasil. Mesmo enfrentando a forte e subsidiada concorrência dos criadores e agricultores europeus e norte-americanos, nossos, pequenos, médios e grandes produtores abastecem o mercado interno e ganham cada vez mais espaço no comércio mundial de alimentos. O status de grande produtor de grãos e proteína gera para o Brasil, além de divisas, respeito crescente num mundo cada vez mais carente de segurança alimentar. O Brasil deve valorizar social e culturalmente seus trabalhadores, criadores e produtores rurais, protegê-los com financiamento, crédito e seguro; destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação para melhorar a produtividade de todas as atividades a eles relacionadas.

As Forças Armadas são instituições fundadoras da nacionalidade e do Estado Nacional e cumprem a dupla missão de defender e construir o País. Do programa nuclear ao nosso primeiro computador, da pesquisa espacial, indústria aeronáutica e defesa cibernética, as instituições armadas têm cumprido papel de vanguarda e pioneirismo. Cumprem missão humanitária socorrendo os índios e ribeirinhos da Amazônia ou as vítimas da seca no sertão nordestino sem perder o etos de organização de combate e de defesa da Pátria.

Portanto, é preciso valorizar e reconhecer as Forças Armadas brasileiras, seus feitos e seus heróis, seus valores, patriotismo e elevado espírito de generosidade e solidariedade para com a comunidade. Tal atitude deve ter sentido educativo para as crianças e para a juventude exposta ao ambiente de corrosão dos valores da nacionalidade com que convivemos no dia a dia.

A política ambiental deve refletir um real compromisso com o desenvolvimento sustentável do País, em vez de simplesmente se enquadrar em agendas formuladas por atores e interesses externos. Entre outras prioridades, deverá enfocar as deficiências em saneamento básico, disposição de lixo, ocupação irregular de áreas de risco, e a ampliação da infraestrutura de previsão e resposta a emergências causadas por fenômenos naturais.

Da mesma forma, é preciso uma urgente redefinição da política para as populações indígenas, compatibilizando-a com o direito de toda a população a uma evolução civilizatória digna, respeitando-se as suas tradições culturais e sua contribuição decisiva para a constituição da identidade nacional. Somente assim será possível assegurar-lhes uma integração gradativa à sociedade nacional, como cidadãos plenos e aptos a dispensar, eventualmente, a tutela permanente do Estado.

Alvo de pressões e cobiça internacional, a Amazônia clama por ações efetivas de controle e afirmação da soberania sobre seu imenso território, e por políticas públicos de estímulo e apoio ao seu desenvolvimento e de proteção de suas populações indígenas e ribeirinhas e da biodiversidade.

Nossa produção artística e cultural, em sintonia com os grandes movimentos da Nação, inventou o Brasil ao longo da sua história. É importante defender e promover o rico e variado patrimônio cultural da Nação brasileira, sua língua, suas tradições e múltiplas manifestações, sua criatividade e seu potencial de desenvolvimento econômico, enfrentando as práticas concentradoras e restritivas dos grandes conglomerados internacionais da mídia e da internet.

O Brasil deve promover e exaltar a participação da mulher na construção do País e reconhecer em nossas antepassadas indígenas, africanas e europeias relevante papel na constituição da Nação e na formação da identidade do povo brasileiro.

A luta sem trégua contra o preconceito racial no Brasil se impõe pela valorização da herança e contribuição africana na formação da cultura e da identidade nacional brasileira e pela celebração da mestiçagem como traço decisivo de nosso legado civilizatório. Devemos repudiar qualquer tentativa de se introduzir no Brasil modelos importados de sociedades que institucionalizaram o racismo em suas relações sociais.

O combate à corrupção deve ser um objetivo permanente da sociedade e do Estado, mas não se pode paralisar o País a pretexto de se eliminar um mal que é endêmico nas economias de todo o mundo.

O Brasil precisa voltar a crescer. Esta é a questão central. Não há como sanear as finanças públicas sem que a economia cresça e a arrecadação tributária aumente. Não há como se negar que o Brasil precisa de reformas que corrijam distorções, eliminem privilégios corporativos, facilitem a empregabilidade e o funcionamento da economia. Mas não haverá equilíbrio da Previdência se não houver emprego e arrecadação. Não haverá reforma que convença o empreendedor privado a investir se não houver perspectiva de demanda. E para o Brasil voltar a crescer, o primeiro consenso a ser alcançado é que todos se convençam disso. Nenhum homem ou mulher de boa vontade irá se opor a algum sacrifício se isso significar esperança para si e futuro para seus filhos. Mas todos precisam abrir mão de alguma coisa. São inaceitáveis reformas que descarreguem o peso do ajuste sobre os ombros dos mais fracos e protejam os interesses de grupos elitistas que concentram o patrimônio nacional.

O Brasil é um País rico, principalmente em recursos humanos. Se todos puderem compartilhar do desenvolvimento dessa riqueza ele será mais próspero e feliz. Ninguém é contra que os mais capazes e talentosos se enriqueçam. Ninguém é contra que quem empreenda tenha a justa recompensa pelo seu esforço. Mas o Brasil não precisa, não deve e não pode ser tão desigual. Esse é o grande acordo que precisa se estabelecer na sociedade brasileira. É em torno desse ideal transcendente de grandeza nacional e de justiça que devem se unir os brasileiros de todas as classes, profissões, origens, condições sociais e credos.