terça-feira, 12 de março de 2019

Pós-visão

Meu novo artigo, publicado também na Gazeta de Alagoas, Tribuna do Sertão e Tribuna do Agreste:


Com a hegemonia da globalização financeira, especialmente do capital especulativo, houve uma radical transformação não apenas da economia mundial, mas nas relações pertinentes à vida política, seja a nível regional ou internacional.

Porque o mando das finanças em escala global impôs aos povos novos paradigmas, quase sempre negativos, e uma realidade indubitavelmente trágica, implicando num declínio do progresso humano, na medida em que a acumulação capitalista rentista vem provocando óbvia queda do crescimento econômico mundial. Como se diz, quando há problemas, siga a pista do dinheiro.

Por exemplo, a projeção do crescimento da economia europeia para 2019 será, em média, de um por cento. Em média, porque há nações que vão ter índices negativos em seu PIB. Quando se comenta sobre as explosões sociais que ocorrem no velho continente, é impossível fazê-lo abdicando de uma análise dessa crise econômica generalizada.

Do ponto de vista político, a imposição dos ditames dos especuladores financeiros alteraram radicalmente a autonomia das lideranças regionais em quase todo o planeta submetendo-as às suas diretivas ou restringindo as suas capacidades de comando.

Os presidentes das nações, na maioria delas, possuem autonomias limitadas, são reféns de políticas econômicas internacionais, da vigilância da grande mídia global, hoje associada ao capital financeiro mundializado.

De tal forma que as principais diretrizes internacionais que devem ser obedecidas pelos Estados nacionais são exigências absolutamente favoráveis ao capital financeiro global, restando aos líderes regionais pequenas margens de manobras soberanas.

A capacidade de realização de um presidente de República, ou de outro cargo similar, é hoje muito menor que em décadas anteriores, especialmente se considerarmos o novo milênio.

A financeririzacão especulativa reina, quase absoluta, nas linhas políticas globais. Como disse o Historiador camaronês Achille Mbembe: o grande choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações, como tentam nos fazer crer, mas de um longo e mortal jogo entre a via democrática e o capitalismo financeiro.

Não é sem razão que hoje há em voga duas ideologias absolutamente antípodas que se digladiam em escala global: a Identitária, individualista autocentrada, excludente e narcisista, versus a conservadora, regressiva e intolerante com as minorias.

Atualmente não existe uma proposta ou uma visão de mundo por parte das principais forças políticas em ação. Trata-se de uma época da pós-visão, sem perspectivas de projetos no presente ou para o futuro.

De certa forma o nipo-americano Francis Fukuyama, profeta do Fim da História ao final do século XX, surgida com a debacle da URSS e a hegemonia unipolar dos Estados Unidos, foi precursor desse atual discurso niilista, sem rumos e sem luzes.

Mas assim como Fukuyama foi desautorizado pela História com o surgimento de uma nova era multipolar em turbulenta transição, com novos protagonistas globais em ascensão, também assistiremos à construção de novos cenários nessa queda de braço entre o governo das finanças globais e o governo das nações, o governo dos povos. Entre a democracia versus o obscurantismo e as trevas. Esse será o grande confronto do novo milênio.

sábado, 2 de março de 2019

Fanatismo

Meu novo artigo:


O Brasil continua a viver sob uma intensa Guerra Híbrida cujo objetivo tem sido a fragmentação do tecido que compõe a sociedade nacional e assim possibilitar aos grandes grupos de financistas internacionais, especialmente os especuladores rentistas, auferir lucros estratosféricos provenientes das riquezas nacionais.

A polarização política, extremamente carregada de simbologia ideológica, tem dado a tônica ao discurso da intolerância seja no mundo institucional ou entre grupos de ativistas nas redes sociais, de tal forma que tem sido impossível qualquer convivência e diálogo entre segmentos opostos.

Poucos percebem que, apesar de reais, existe uma extrema artificialidade, que nos tem sido imposta, os conflitos de ódios irracionais que pululam online sejam nos diversos aplicativos usados pelos indivíduos, ou através dos veículos da grande mídia hegemônica presentes na internet.

Qualquer diferença de opiniões tem sido a gota d’água para posturas irracionais, o termo é esse, que descambam para verdadeiros pugilatos verbais, ou até físicos. Esse fenômeno assumiu proporção cavalar a partir, mais ou menos, de 2013 e de lá para cá só tem aumentado.

É possível que setores das novas gerações, agora chamada de Geração Z, não tenham ideia ou memória de outras formas de convivência democrática entre opiniões distintas. E muitos outros se tinham alguma lembrança a perderam ou foram engolidos por essa onda de irracionalidade que se faz presente nos dias atuais.

Como também ressurge com vigor o tal do patrulhamento ideológico, peça vital na guerra híbrida atual, viral na grande mídia e nas redes sociais, que se desdobra em dois níveis: entre os dois polos visceralmente antagônicos e em meio aos próprios polos.

Provocando a falta de oxigênio que asfixia as ideias em geral, a pobreza de opiniões e de reflexão sobre os fenômenos, sejam eles sociológicos ou de qualquer outro tipo.

Como disse o escritor, Historiador, filólogo italiano Umberto Eco: as redes sociais deram voz à idiotia, e o pior é que ela lidera as linhas de pensamento e opiniões em voga.

Assim a incontestável revolução tecnológica digital dos dias atuais está promovendo, pelo menos até o momento, o empobrecimento das relações sociais, o apequenamento das discussões políticas, a incapacidade, por isso mesmo, da boa análise sobre os acontecimentos em curso.

Por exemplo, se você citar Gabriel Garcia Márquez ou Mário Vargas Llosa dois latino-americanos gigantes da literatura universal, prêmios Nobel de literatura, autores, dentre outros livros, de Cem anos de solidão e Conversa na Catedral, respectivamente, a tendência é que não se discuta o enorme valor literário de sua obras mas que você seja chamado de esquerdista ou conservador, dependendo do lado que seja atacado.

Na verdade esses tempos não deram voz apenas à idiotia a que se refere Umberto Eco, mas igualmente ao oportunista e ao burocrata.

Todos proliferam sempre onde haja a pobreza de espírito, enquadramento ideológico e rígido. Isso porque são espécies anaeróbicas, ou seja, não proliferam onde exista oxigênio, ar para respirar.

Enfim, é como já se disse: quem pensa unicamente por slogans, não pensa, reproduz o mesmo.

Quem cria poesia através de chavões ideológicos e palavras de ordem, não cria, os reproduz. O puro ativismo, sem a devida reflexão e o estudo crítico, é endogâmico. Todos são, paradoxalmente, conservadores. Não importa a linha política ou mesmo a ideologia que se professe.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Cidadãos nascem dos sentimentos

Meu novo artigo:


Retorno ao cientista político norte-americano Mark Lilla, porque existe na atualidade uma espécie de recorrência quase monocórdica no pensamento acadêmico conhecido.

De tal forma que parece existir uma aridez de criatividade, como se os fenômenos sociais estivessem definitivamente diagnosticados, cabendo simplesmente a sua aplicação ao mundo real sem mais questionamentos.

Mas o que assistimos é um exercício de imposições de linhas ideológicas hegemônicas, sustentadas através de interesses poderosos, cujo ápice são os grandes grupos financeiros, o capital rentista mundial e, óbvio, a grande mídia hegemônica associada.

Como um deserto de ideias inovadoras, uma aparente ausência de múltiplas análises críticas da realidade. Não que essas interpretações inexistam, mas porque são patrulhadas por essas correntes hegemônicas, sejam do politicamente correto ou pelos grupos da autodenominada “nova direita radical”.

Isso tem uma lógica, tendo em vista que esses atuais campos antagônicos, retroalimentam-se um do outro através da polarização. É uma época de muitas certezas inconsistentes, onde os “ideologismos” determinam a priori a explicação dos fenômenos em curso.

Assim, a realidade resta prisioneira de visões estratificadas, causando tempestades de sentimentos irracionais e ódios difusos com, no mínimo, duas consequências: não se consegue compreender as sociedades de maneira racional e muito menos é possível, nessas circunstâncias, superar o clima de intolerância furibunda que reina geral, inclusive no Brasil.

Mas a verdade é que para além dessa pretensa unanimidade de “certezas ideológicas” há muita gente trabalhando, produzindo ótimos estudos e opiniões nas áreas econômica, política, geopolítica, nas ciências sociais etc., que não se encaixam no figurino da grande mídia ou desses grupos.

É o caso do brasileiro Oliver Stuenkel que escreveu, inclusive, O mundo pós-ocidental - potências emergentes e a Nova Ordem Global, de Christian Edward Lynch, cientista político, também brasileiro, que publicou, entre vários, o ensaio Saquaremas e Luzias, de Camille Paglia, ítalo-americana acadêmica, estudiosa da questão feminina, do escritor, empresário André Araújo, do próprio norte-americano Mark Lilla. E muitos, muitos outros.

São estudiosos contemporâneos que vão na contramão daquilo que é imposto como explicações inquestionáveis dos fatos, promovendo, em geral, ativismos ideológicos delirantes em vários quadrantes.

Por isso é que Mark Lilla diz em O progressista de ontem e o do amanhã, que existe à direita uma ideologia que questiona a existência de um bem comum, nega nossa obrigação de apoiar concidadãos, mediante ação governamental.

E à esquerda uma ideologia institucionalizada em áreas acadêmicas, que tem uma obsessão com vínculos individuais e grupais, aplaude o eu autocentrado e vê com suspeita qualquer invocação de um nós democrático e universal.

Acompanhamos um pugilato entre antípodas viscerais, que fratura o espírito de pertencimento comum de um povo, como o nosso.

O Brasil precisa construir alternativas e confluências - não de unanimidades porque toda unanimidade é burra - mas de um amplo, largo pacto que auxilie a sociedade na busca dos seus rumos estratégicos e mais elevados.

Quanto aos indivíduos, é vital compreender que ninguém nasce cidadão. Eles são produzidos, e às vezes as circunstâncias Históricas cuidam disso. A cidadania é resultado de sentimentos que se desenvolvem. Sentimentos não podem ser ensinados, eles necessitam ser evocados.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Areia movediça

Meu novo artigo:


Existem coisas que estão determinando os rumos no mundo: os grandes financistas, os megaespeculadores rentistas, as disputas econômicas internacionais por espaços de produtos no mercado, e a nova correlação de forças na geopolítica global.

É jogo duro onde as verdadeiras intenções vão sendo embutidas em invólucros sofisticados, prontos para a venda aos consumidores “privilegiados” nas sociedades de cada País.

Falo “privilegiados” porque a maioria das pessoas no planeta não possui poder de compra desses excedentes oferecidos na competição que estamos vivenciando, mal tem como adquirir os gêneros de primeira necessidade para a sobrevivência.

Os financistas, os megaespeculadores rentistas, como George Soros, estão acumulando fortunas estratosféricas, enquanto a economia das nações cresce a níveis ridículos ou negativos.

Essa é uma das causas das grandes crises sociais em um mundo repleto de convulsões cujas origens aparentemente são distintas. Mas só nas aparências. A sabedoria popular tem suas razões: em casa que falta pão todos brigam e ninguém tem razão.

Raras vezes na História contemporânea as nações tiveram crescimento tão pífio, as mais sortudas, porque a maioria vive estado de calamidade crônica.

As vagas de refugiados rumo à Europa, aos Estados Unidos, agora na América do Sul, têm duas causas: as guerras, travadas por recursos naturais ou motivações geopolíticas, e a fome literal, catastrófica como a epidemia da peste na Idade Média.

Cabe à grande mídia usar os recursos do diversionismo sobre as razões do fenômeno, que se alastra como um rastilho de pólvora, pondo em seu lugar agendas socialmente fragmentárias, jogando parcelas da população umas contra as outras, tais como nas Políticas Identitárias, no falso ambientalismo, omite as reais origens de milhões de refugiados, os motivos das guerras etc.

Essa mídia, associada às finanças globais, e as que sustentam as estratégias das grandes potências, são máquinas formidáveis de desinformação da opinião pública.

Como na Venezuela. Interesses econômicos, geopolíticos, administração interna, resultaram num quadro explosivo em uma região até então sob razoável controle de conflitos globais, cuja liderança natural e mediadora é a do Brasil.

A errática condução econômica, hoje sob a batuta de Maduro, as fabulosas reservas de petróleo, os interesses geopolíticos dos EUA, da Rússia e comerciais da China, atraíram a crise global para a América do Sul e às fronteiras do Brasil.

O governo Bolsonaro atua com a linha, ultrapassada, da época da Guerra Fria. O mundo e o jogo atual são outros. O Brasil não pode abrir mão do seu protagonismo diplomático Histórico. Ou o País reorienta a sua estratégia diplomática ou vamos pagar alto preço para sair dessa areia movediça.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Fique com os princípios

Meu novo artigo:


Ao se ler o livro O progressista de ontem e o do amanhã, do cientista político Mark Lilla, tem-se a certeza que os seus argumentos e análises referem-se igualmente ao recente processo eleitoral realizado no Brasil, quase que literalmente.

De tal forma que por aqui também parece existir a polarização entre os Partidos Democrata e o Republicano dos Estados Unidos, especialmente o confronto das políticas Identitárias fomentadas desde os anos 80, hoje sob a hegemonia do clã dos Clintons, apoiada pelas estratégias dos grandes especuladores financeiros do tipo George Soros e outros, versus uma outra casta de financistas aliada ao presidente Trump.

Os Democratas norte-americanos, afirma Mark Lilla, teriam abandonado as grandes linhas de administração e políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade, que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças cometidas às chamadas minorias.

Espertamente Donald Trump tirou proveito da crise estrutural, da desindustrialização que vive os EUA e pôs a culpa nos Democratas, sob a orientação do estrategista e marqueteiro Steve Bannon. O mesmo que atuou nas eleições no Brasil.

As políticas Identitárias atuais dos Democratas e o discurso demagógico, chauvinista da ala de extrema direita Republicana de Donald Trump representam um dos tempos mais medíocres da História dos Estados Unidos.

De tal forma é a influência dessas duas correntes em disputa nos EUA, aqui no Brasil, que jornalistas, analistas afirmam que os blogs, portais, a grande mídia e o mundo da política nativa encontram-se cada vez mais alinhados e semelhantes à linha dos Democratas e Republicanos norte-americanos.

Exatamente nas coisas eivadas de uma carga ideologizada fora da realidade, que serve a interesses que promovem a desunião do povo brasileiro tais como uma antropologia binária, que não é a nossa formação Histórica policrômica, mestiça, a nossa visão de um Estado laico, a tradição do culto de sincretismos religiosos tradicionais celebrados em muitas manifestações populares como as afro-católicas, por exemplo.

O governo Bolsonaro possui claros sinais de uma política incongruente onde se misturam alguns interesses nacionais com um neoliberalismo extremado da Escola de Chicago que já não é praticado nem nos EUA, onde se pauta a independência do Banco Central, mas não o dos EUA, eufemismo para doação do nosso BC às finanças globais, uma reforma da Previdência Social que privilegia o sistema financeiro, penaliza a classe média e os pobres, privatização desbragada de empresas estatais estratégicas etc. etc.

A sua política externa é uma cópia, com tintas de religiosidade puritana, da visão supremacista do governo Trump.

Pior, desvia-se da tradição multilateralista do Itamaraty na mediação diplomática, dos nossos objetivos nacionais, abrindo mão da liderança regional hemisférica, cujas consequências têm sido a crescente presença geomilitar da Rússia, a comercial da China, na região perigosamente conflituosa como a Venezuela. Resultado do vácuo que vai sendo deixado pela nossa ausência de uma diplomacia estratégica eficiente, mediadora e propositiva.

Essas potências estão jogando o jogo delas, o Brasil é que está abrindo mão do seu papel Histórico.

Já setores de “esquerda” insistem no discurso Identitário, que a levou a uma derrota eleitoral “acachapante” e plebiscitária, cuja matriz é patrocinada por megaespeculadores como George Soros e ONGs que atuam no mundo visando desestabilizar, fraturar os povos.

É surreal a existência de 800 mil ONGs atuando alegremente no País, muitas delas contrárias à nossa soberania, desenvolvimento econômico, associadas a Países que sabotam o nosso protagonismo internacional.

Assim, diante desse caldo tóxico de ódios, intolerâncias mil, “guerras ideológicas”, da pós-verdade onde o que menos vale é a análise concreta da realidade concreta, a racionalidade, é aconselhável ficar com os princípios indeclináveis em defesa da nação, do espírito progressista, das liberdades democráticas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Conceitos na pós-verdade

Meu novo artigo:


Estamos vivendo uma época plena do fenômeno da pós-verdade, que não se iniciou ontem, já faz um certo tempo. Daí que assistimos correntes de opiniões lastreadas nessa construção nefasta em todos os sentidos.

Porque nele o que importa não é a veracidade sobre a realidade propriamente dita, mas a versão que se faz dela, daquilo que interessa acreditar, do que é útil a essa ou àquela linha de pensamento, ou de um determinado grupo político.

É uma ilusão achar que a pós-verdade se restringe ao pensamento, às ideias, ela age em todos os sentidos, e é possível afirmar que através dela pode se ganhar ou perder o poder político, portanto, interage com os interesses econômicos e os fatores sociais.

Existem várias correntes de opinião pública conduzidas por “ideologias” formuladas em meio a fantasias teóricas e políticas, que não se sustentam na análise concreta da realidade concreta. É como se fosse uma nova forma de teologia.

Porém, a teologia não pretende abarcar o ramo do concreto, mas da subjetividade relativa “à infinitude do ser”, mesmo que ela recorra aos fatos Históricos e alguns ramos da ciência.

Já a pós-verdade intervém de maneira direta no mundo concreto e material da política, nas relações de produção, nos conflitos sociais. Por isso, o que importa é “a minha verdade”, conforme os “meus interesses ou do meu grupo”.

Dessa maneira a pós-verdade tem algo de um messianismo pagão, que pode resvalar facilmente ao campo do fanatismo e, em consequência, à aversão agressiva contra todos os que não se enquadrem nos critérios da sua interpretação da realidade, com o prejuízo da comprovação do experimento científico dos fatos em discussão.

Constituem-se assim, em muitos casos, uma legião de ativistas embalados por uma paixão e um conjunto de ideias e éticas, mas sempre decepcionado com o mundo ou o seu País, já que elas não são realizáveis ou compatíveis com os dados da vida concreta.

A pós-verdade é, dessa maneira, a desrealização quanto ao mundo, e de um ativismo individual e coletivo, paradoxalmente, cheio de energia combativa e ao mesmo tempo depressivo, o que conduz quase sempre a um processo de vitimização do grupo de ativistas em relação ao conjunto da sociedade.

Não se pode afirmar, é certo, que as consequências da pós-verdade não sejam democráticas, porque elas atingem hoje tantos setores à direita quanto à esquerda que, quase sempre, buscam polarizar a sociedade, provocando muitas vezes enormes malefícios a essa última.

Nesse sentido, a pós-verdade traz um grande prejuízo à lucidez individual e coletiva, pode acarretar, dependendo da situação e do contexto, um perigo à construção elevada dos valores nacionais, democráticos, à convivência social. O Brasil, encontra-se contaminado por formas de delírio cuja origem vem desse fenômeno nocivo, a pós-verdade.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Aquecimento político global

Meu novo artigo:


O Financial Times, conhecido jornal britânico ligado ao capital financeiro mundial, elegeu em dezembro de 2018 o bilionário especulador rentista George Soros personalidade do ano, pelos valores que ele representa. Nada mais coerente para o principal jornal das finanças globais.

De acordo com a matéria, a escolha da personalidade do ano sempre decorre das realizações do eleito, no caso, do bilionário especulador. A seleção ocorre, também, pelos valores que o indicado defende.

Presidente do conselho da Soros Fund Management e da Open Society Foundations, Soros é doador de verbas ao Partido Democrata americano e também às “causas progressistas”, informa o veículo de comunicação das grandes finanças mundiais. Resta saber o que o jornal considera “causas progressistas”.

Na verdade, George Soros ganha fortunas incalculáveis com a especulação financeira mundial a curto prazo, enquanto se agrava a crise econômica das nações e sociedades, e é promotor de um conjunto de ideias programáticas conhecidas como a agenda das Políticas Identitárias.

Cujo mote central tem sido a transmutação das questões nacionais e sociais e portanto dos próprios cidadãos, por uma outra visão, a de que o mundo deve marchar para um conjunto de formulações baseadas nas políticas das afirmações das interioridades dos indivíduos.

Das autoafirmações supremas individuais e de grupos, através de variadas características tais como gênero, raça, sexo, meio ambiente etc., com base nas formulações dos chamados “novos filósofos franceses” que adquiriram notoriedade a partir de Maio de 1968.

Com a desregulamentação radical dos fluxos do capital financeiro e com ele o rentismo predador, Soros transformou-se cada vez mais influente em todos os Países. Tem sido responsabilizado por uma série de desestabilizações em várias nações do planeta.

De uma certa maneira, mesmo que bastante contraditória, existe uma certa semelhança entre a cruzada do megaespeculador financeiro George Soros e as novas concepções neotrotsquistas de uma revolução mundial, só que a de Soros seria através das agendas identitárias, com investimentos bilionários.

A sua fundação Open Society possui sedes em muitas cidades, inclusive em São Paulo, que são visitadas por várias personalidades daquilo que muito cientistas políticos denominam a “Nova Esquerda”, aderente às agendas difundidas por Soros e outros especuladores.

Soros, e vários especuladores rentistas, são adversários implacáveis da questão nacional dos povos e se batem pela mais completa e absoluta liberdade dos fluxos globais do capital financeiro, além de uma cultura mundial que lhes dê sustentação, defesa, e ativismo entusiasta, assim como acadêmico e intelectual. Essas duas questões têm sido a principal cruzada de George Soros.

Com o brutal agravamento das condições de vida das pessoas e sociedades, vítimas das políticas econômicas da globalização financeira, índices pífios de crescimento econômico, quando não negativos, desemprego, aumento da criminalidade, sucateamento dos serviços coletivos, como saúde e educação, salários etc., as populações começaram a se sublevar, como os coletes amarelos em Paris. Insubordinações que possuem caráter reativo, não de plataformas políticas programáticas.

Além disso passaram a votar contra partidos políticos que consideram que não os representam, não importa a matriz ideológica, a cor das suas bandeiras.

Nessa situação, que está em pleno movimento, as Agendas Identitárias que identificam o ideário de várias organizações da Nova Esquerda, mas não exclusivamente delas, passaram a ser referência das políticas econômicas da globalização financeira que as sociedades repudiam.

Emmanuel Macron, presidente da França, eleito por uma coalizão dirigida por banqueiros para por em prática as políticas do capital financeiro, resolveu sobretaxar os combustíveis, que vão finalizar nos preços das mercadorias básicas, sob o argumento que seria um imposto a favor da tese, hegemônica, do aquecimento global.

Respondeu-lhe uma irada senhora dona de casa francesa: não me importa o fim do mundo, quero é saber como chegarei com o meu salário cada vez mais minguado no fim do mês.

A grande mídia hegemônica vem tratando essas manifestações de massas, que devem se estender por grande parte da Europa, como de “extrema direita, fascista ou de nacionalistas populistas” com o objetivo de estigmatizar os levantes sociais.

É óbvio que existam elementos de direita, assim como de esquerda ou anarquistas, nas manifestações.

Porém, negar as causas fundamentais das indignações sociais e não as associar às consequências geradas por décadas às políticas econômicas, financeiras dominantes, e dirigidas ao brutal processo de acumulação do capital financeiro, é um erro fatal de avaliação da realidade.

Esses levantes sociais não estavam no radar das principais organizações políticas, de esquerda, centro ou direita, como queiram se auto intitular. Os repúdios sociais podem acontecer através de manifestações de rua ou pela via eleitoral, como foi o caso do Brasil, caracterizam-se como difusas revoltas contra o sistema. E contra aqueles que estão mais visíveis à sua frente.

O problema é que os partidos políticos, inclusive os ditos representantes das agendas identitárias, da Nova Esquerda, não possuem alternativas políticas ou propostas exequíveis às indignações sociais.

Muitos que se situam no âmbito da Nova Esquerda, tornaram-se por inércia ou incompreensão, em partidos considerados como associados ao sistema repudiado. Ficaram, assim, paradoxalmente, conservadores, identificados ao próprio sistema, mesmo que usem retórica e iconografia de “esquerda”.

Faltam-lhes a compreensão, e buscam justificativas para as suas derrotas fora da realidade objetiva, da irritação social crescente, encontram-se sem perspectivas.

As sociedades não vão consultar os partidos de direita, centro, ou da nova esquerda, ou ao “petit roi” o “reizinho dos financistas” Emmanuel Macron, como diz a mídia francesa, e seja lá quem for, para saber se eles concordam ou não com as suas insubordinações.

Porque é exatamente o contrário, as forças políticas é que devem ter a lucidez de compreender as revoltas das sociedades agoniadas com as suas péssimas condições de vida. E aliás, por que deveria ser mesmo o contrário?

As sociedades estão igualmente defendendo sua cultura, valores, percebem, ao seu jeito, que a nação é para elas um bem valioso que deve ser preservado, em detrimento de qualquer pseudointernacionalismo da globalização financeira, que só lhes tem causado danos e prejuízos. Isso é um fato e uma constatação.

À sua maneira, passam a defender a centralidade da importância da Nação em suas reinvindicações essenciais. Podem inclusive eleger figuras “toscas”, “místicas”, reacionárias, “fascistas” que se apresentem como favoráveis às suas reinvindicações, às causas das suas revoltas.

As sociedades também não podem ser responsabilizadas pelos equívocos políticos táticos dos chamados setores progressistas. E por que deveriam? Nem estão preocupadas com isso.

É evidente que se o “toscos”, os “reacionários”, como dizem no Brasil de Bolsonaro, não corresponderem aos seus reclamos, será repudiado nas urnas ou nas ruas, em algum momento mais adiante. Isso é um comportamento da História social dos povos.

Que o diga Macron: promoveu o Eco Imposto sobre os combustíveis contra o aquecimento global e teve como resposta o aquecimento político enfurecido da sociedade francesa.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

180 milhões de brasileiros fora da política econômica, por André Araújo


O Estado inclui a totalidade daquilo que se considera NAÇÃO, inclui a memória do passado, a História do País, a população presente, as gerações futuras, o Estado não é somente um acerto de contas orçamentárias, é muito mais do que isso.



180 milhões de brasileiros fora da política econômica, por André Araújo

Qual o foco da política econômica de Paulo Guedes? São os trinta milhões de brasileiros que têm renda segura e vida financeira estabilizada, e os demais 180 milhões?

São 60 milhões de desocupados, a soma dos desempregados do mercado formal mais os que desistiram de procurar emprego mais os subempregados mais os autônomos biscateiros. Precisa de confirmação? São 64,3 milhões com ficha suja no SERASA, o pobre só perde o crédito quando NÃO tem mais nenhuma renda. Por qualquer lado que se olhe a imensa massa da população brasileira está mal de vida. Qual a mensagem do plano Paulo Guedes para eles? Virem-se, você não estão no radar, não há nenhuma política para os pobres, ao contrário, vamos cortar o máximo em seguro desemprego, bolsa família, aposentadoria por invalidez.

Ministro da Fazenda precisa ter vasta visão de País, de Estado, de povo, de geopolítica, não pode ser um mero operador de bolsa, câmbio e juros. Essa pequenez que aflige hoje o mundo econômico brasileiro com colocação de empresários com foco micro em funções que exigem visão macro e especialmente uma noção de Estado, que é muito diferente de mercado.

O Estado inclui a totalidade daquilo que se considera NAÇÃO, inclui a memória do passado, a História do País, a população presente, as gerações futuras, o Estado não é somente um acerto de contas orçamentarias, é muito mais do que isso.

A SITUAÇÃO DOS POBRES PARA 2019

É visível a olho nu, não é preciso o trabalho profissional do IBGE, para se notar o avanço da miséria, dos desajustes sociais, da desesperança da população brasileira mais carente, desde a classe C que teve no passado emprego e uma perspectiva de melhora de vida, até os muito pobres ou miseráveis, das classes D e E, não só em um arco geral, mas especialmente nas faixas mais jovens. Um vasto contingente de 20 milhões de indivíduos entre 14 e 24 anos sem escolaridade adequada, sem treinamento profissional, sem apoio mínimo para ter alguma perspectiva de futuro. Essa população tinha esperança entre 1950 e 1980, hoje não.

Na nova política econômica não há ABSOLUTAMENTE NADA para essa população de adultos, velhos, jovens e crianças, é como se ela não existisse, ou pior ainda, um estorvo.

O “dream team” dos “Chicago boys” do projeto Paulo Guedes é muito mais pro-mercado do que os economistas do Real, que apesar de neoliberais tinham uma certa visão de País.

Os “Chicago Boys”, portadores de uma teoria econômica inteiramente superada e desconsiderada nos EUA de hoje, fazem questão de não ter visão social alguma, seu inimigo é exatamente o Estado, um ente que para eles nem deveria existir. São inimigos do Estado, no limite eles pretendem que o País não precise de Estado para existir, tampouco reconhecem diferenças entre os países que desenvolveram um estágio maior de economia de mercado, Inglaterra e EUA e países de outra formação histórica como o Brasil, Índia, Rússia e China, onde o Estado tem uma forte raiz construtiva. O Brasil teve Estado antes de ter povo e o Estado é quem criou o País em 1822. Uma outra trajetória que é muito diferente dos Estados Unidos, onde o povo chegou antes do Estado, são formações diferentes.

A cultura da competição, lastro filosófico do neoliberalismo, tem pés de barro no Brasil. O Plano Real criou toda uma aura de desejada competição no setor bancário, com a vinda de bancos estrangeiros como arautos da concorrência. Nada aconteceu. O mercado bancário nunca foi tão cartelizado como hoje no Brasil, após a liquidação dos bancos estaduais sob o pretexto do “Estado mínimo” e com a esperança de que só com bancos privados haveria mais concorrência. O mesmo aconteceu no mercado de combustíveis, acabou o tabelamento histórico, sob o pretexto de aumento da competição, com o que se cartelizou o mercado pelo qual os preços sobem quando a cotação internacional do barril e do dólar sobe, MAS os preços não caem na contramão. De Setembro a Novembro o preço da gasolina na refinaria caiu 46 centavos e nas bombas cai no máximo 4 centavos. Essa é a competição neoliberal em terreno construído por outra lógica cultural onde a moldura de regência tem peso essencial.

A regulação do Estado é fundamental nas sociedades que têm histórico de berço onde não existe o DNA de competição pura do estilo inglês e americano. Essa realidade é reconhecida na Europa continental e se projeta para a América Latina. Querer impor a ferro e fogo uma cultura neoliberal de corte anglo-americano, sendo outras as bases culturais, jamais dará certo. O risco é a importação do pior dos efeitos do neoliberalismo selvagem sem nenhum de seus benefícios civilizatórios. Importam-se os defeitos e as qualidades não se impõem por falta de ambiente cultural e aceitação social, os atavismos são terríveis instrumentos da realidade.

O PODEROSO ESTADO AMERICANO

A Escola de Chicago foi desmontada duas vezes na história econômica dos EUA. Na sua primeira fase, em 1929, quando seu grande mentor, Irving Fisher, disse duas semanas antes do “crash” de 24 de outubro de 1929 que a “economia americana nunca esteve tão sólida”. Isso dias antes da maior crise econômica do século até aquela semana. Desmoralizado, Fisher desapareceu do mapa. A segunda Escola, a de Milton Friedman, foi desmontada na crise de 2008, causado pelo “livre mercado” e resolvida pelo Estado, desconstruindo a mística.

Mas é bom frisar que a Escola de Chicago e suas vertentes nunca foram unânimes nos EUA, nem no seu apogeu nos anos 70 e muito menos agora. As escolas de economia da costa leste, chamada de “salt water schools”, especialmente MIT e depois Harvard, têm hoje muito maior prestígio intelectual do que a Escola de Chicago. Incensada por saudosistas brasileiros, nos EUA de hoje ninguém mais leva a sério suas derrotadas lições. Até mesmo a eleição de Trump, no conceito brasileiro um nacionalista econômico, é contraponto às ideias neoliberais.

Na verdade a História dos EUA teve sempre um forte e sólido Estado a amparar a economia.

Hoje todo o setor agrícola americano existe pela mão do Estado através de subsídios em larga escala, seguro agrícola suportado pelo Estado, crédito à agricultura dado pelo Estado (Commodity Credit Corp.). O enorme incremento do etanol de milho produzido nos EUA só existiu por causa de um super subsídio do Tesouro americano, sem o que o etanol de milho é inviável economicamente. Mas o Estado americano subsidia por razões estratégicas.

Todo o setor de hipotecas de habitação popular nos EUA é estatal, assim como maior parte da geração de energia hídrica (TVA), os trens de passageiros (Amtrak), os aeroportos, portos, transportes coletivos nas metrópoles, bem como saneamento, água e esgoto, rodovias pedagiadas, são estatais, não sob a forma de empresas, mas sim como “entes públicos” com o nome de “Authority”. A presença estatal na economia americana é ENORME, ao contrário do que inventam os “Chicago boys” brasileiros. Hoje, longe de serem “boys”, são velhotes bem gastos e de mente antiquada, démodés, vivem do passado de glórias dos tempos de Pinochet no Chile dos anos 70, apogeu da Escola de Chicago até a queda do então Ministro da Economia Sergio de Castro. Quando o próprio Pinochet viu o estrago que os Chicago boys causaram, mandou prender o ex-Ministro Castro e reverteu sua política econômica.

A QUESTÃO DO AJUSTE FISCAL

O déficit primário da União e dos Estados no Brasil é causado por dois fatores: o NÃO crescimento que derruba a arrecadação fiscal enquanto as despesas de custeio são constantes e crescentes e os monumentais gastos de vencimentos e de aposentadoria e pensões da elite do funcionalismo dos três poderes, gastos que crescem a taxas muito maiores que os demais custeios do Estado, tomando parcela cada vez maior dos orçamentos.

Nenhuma dessas causas dos déficits fiscais se deve aos pobres. As despesas típicas para essa parte majoritária da população não só não crescem como diminuem na União e nos Estados.

Nas propostas de “ajustes fiscais” os alvos não são as elites do funcionalismo e sim as verbas típicas da pobreza como seguro desemprego, bolsa família, auxílios doença, aposentadoria rural mais as verbas de saúde pública e educação.

Já no conjunto da economia, é a gigantesca despesa de juros da dívida pública o maior dispêndio do custo geral do Estado, seus beneficiários são os bancos e os rentistas, a camada mais alta da população brasileira, que estão nos 30 milhões do grupo de padrão de vida elevado, consolidando a concentração de renda tanto pelos salários e aposentadorias da elite do funcionalismo como pelos rentistas que auferem renda do sistema financeiro.

A AUSÊNCIA DE UM PLANO DE EMERGÊNCIA PARA RECUPERAÇÃO DA RENDA

Sem aumento da renda da massa da população não haverá demanda nova para justificar investimentos na produção de bens e serviços. O novo investimento privado só virá quando a capacidade ociosa, hoje existente na indústria, for ocupada. No setor de cimento, bom para medir a ocupação da indústria, a capacidade não usada é de 60%. As indústrias só investirão quando ocupada toda sua capacidade em um turno e numa segunda fase se partirá pra um segundo ou terceiro turno sem investimento físico. Só quando se esgotar o aproveitamento das linhas usando o mesmo equipamento e instalação e houver indicadores sólidos de maior demanda é que ocorrerão novos investimentos em capital físico e isso hoje está longe de acontecer. Reformas, restabelecimento da confiança e outros indicadores de mercado financeiro não são suficientes como gatilho de crescimento da economia, que irá patinar com pequenas oscilações de índices, comemorados como “início de um novo ciclo”, o que não são. Oscilações milimétricas dentro de uma recessão são a regra, nada é constante em economia, mas isso não indica por si só um novo ciclo de crescimento como a toda hora a mídia econômica faz, com “fake News” sobre novo crescimento inexistente.

UM MODELO ECONÔMICO FRACASSADO

O atual modelo econômico instalado em 1994 com o Plano Real completa 24 anos com um DÉFICIT NOMINAL, isso é o déficit primário mais a conta de juros da dívida pública, de 7,5% do PIB. A dívida pública cresce TODO ANO à razão desse mesmo déficit, já chegando nos 80% do PIB, que por sua vez não cresce há 4 anos. Não há prova maior de fracasso.

Todo o ajuste fiscal apontado, cortando-se o máximo possível de despesas, não resolverá essa equação. Trata-se um modelo inadequado para um País que precisa crescer, não funciona.

O modelo está assentado em um alicerce errado as “metas de inflação” como eixo central de toda a economia, engessando qualquer possibilidade de crescimento natural pelo aumento da demanda. O modelo impede o uso da política monetária para geração de renda que antecede a demanda e esta gera o estímulo ao investimento, sem o aquecimento da demanda não há porque haver crescimento. É a demanda que puxa o investimento e não o contrário.

Para quê construir fábricas se não há demanda porque a população sem renda não tem poder de compra nova. A economia hoje se sustenta pela camada que tem boa situação de emprego e renda, 30 milhões de pessoas, camada que não cresce há anos. A demanda nova teria que vir dos 180 milhões de brasileiros de baixa ou nenhuma renda. Mas não há nenhuma política para esse imenso contingente sair do lodo do desemprego, da desocupação e do desalento.

O ÚNICO CAMINHO DO CRESCIMENTO É A INCLUSÃO DE 180 MILHÕES COMO CONSUMIDORES, FOI ESSE O CAMINHO DO CRESCIMENTO DE 7 e 8% AO ANO DA INDIA E DA CHINA. O PLANO GUEDES NÃO PREVÊ NENHUM PROCESSO NESSA DIREÇÃO.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Rumo ao passado

Meu novo artigo:


Antônio Risério, talvez um dos principais antropólogos brasileiros vivos, disse em entrevista que uma autocrítica, coletiva ou individual, é um processo lento, às vezes depressivo, sobretudo muito doloroso, até quando as coisas ficam claras e passamos a compreender os acontecimentos ocorridos e aí tomar novos rumos.

As recentes eleições presidenciais no Brasil foram um desses fenômenos que provocaram uma catarse de ódios e fúrias poucas vezes já vista em nosso País, cujo resultado com a vitória de Jair Bolsonaro, não encerrou o difícil caminho da nação em busca de novos rumos, possivelmente porque ao que tudo indica momentos turbulentos estão por se iniciar.

A eleição do futuro presidente, é bom que se diga, foi legítima. O segundo turno resultou de uma tendência eleitoral que se caracterizou muito mais como plebiscitária.

Cabe aos derrotados reconhecer a vontade da sociedade nas urnas e fazer o que deve ser feito: a oposição determinada e lúcida.

Quando em certos grupos partidários fala-se em “resistência” à vontade das urnas comete-se erro, porque resistência só é legítima contra regimes totalitários que não surgiram da vontade popular sufragada nas urnas.

A oposição deve ser serena, dura ou mesmo implacável, dependendo dos rumos e das ações do futuro governo.

Dentro da absoluta legalidade constitucional, o presidente eleito pode fazer o que acha pertinente, montar a equipe que desejar, indicar as alternativas que melhor lhe aprouver para a sua administração, definir os rumos programáticos do seu governo etc.

Esse é o princípio da Carta Constitucional. Já a Constituição de 1988 é uma sobrevivente, com mutilações, de terremotos políticos de grandes magnitudes desde a sua promulgação.

Não existiu um só presidente da República após 1988 que não tenha sido alvo da tentativa de impedimento. Todos foram. E dois sofreram o impeachment.

Diante desse fato podemos concluir que o Brasil é um vulcão ativo, sempre pronto para entrar em erupção. Portanto, frente a recorrência da exceção no lugar da regra, cabe a investigação da realidade política.

E isso não é nada fácil porque os acontecimentos políticos institucionais deram-se em um espaço de tempo que já percorre trinta anos, desde 1988, e possuem raízes Históricas mais antigas.

A primeira constatação é a de que o País não possui uma noção política constitucional sedimentada, sólida, assentada no espírito do seu próprio destino e interesse nacional. As forças políticas, e quem elas representam, não têm definido em seus propósitos fundamentais, a centralidade da visão nacional.

E as Constituições, ao longo do tempo, revelam essa deficiência, apesar dos reconhecidos e inegáveis méritos dessa última, a de 1988. É a mais grave de todas as nossas vicissitudes.

A segunda constatação decore da primeira, porque se não temos uma sólida cultura política constitucional, sofremos fortes influências de outras culturas políticas, embora o País não possa, em absoluto, se isolar da realidade mundial e suas interfaces em todos os níveis.

Para não recuarmos excessivamente em nossa História como Estado nacional e jovem sociedade, vejamos um período mais recente que moldou a humanidade após a Segunda Guerra Mundial. A chamada Guerra Fria.

Nessa época as forças políticas, as elites, setores acadêmicos, sempre estiveram divididas pelas fraturas impostas na bipolarização mundial, entre o campo socialista, liderado pela União Soviética, e os Estados Unidos.

Tudo que movimentou os conflitos entre nós à essa época, sempre esteve subordinado ao confronto mundial, cuja centralidade residia nos interesses específicos de Estado desses dois gigantes globais da época.

Os interesses internos, a visão de País, a busca efetiva de um projeto nacional encontravam-se em pensadores, economistas, administradores etc., combatidos pelas forças políticas, intelectuais, alinhadas aos dois campos da Guerra Fria.

Em resumo, salvo em períodos excepcionais, o Brasil não pensou estrategicamente o Brasil, moveu-se conforme os projetos geopolíticos das duas grandes potências. Aliás, essa ideia ainda existe entre alguns setores minoritários até hoje.

Com a globalização financeira, a desregulamentação dos fluxos do capital financeiro, especialmente o especulativo, mais uma vez a centralidade da questão dos interesses nacionais está subordinada à nova realidade, no mundo da política, academia, da economia, administração etc., mas os que se movem em busca de um projeto de nação inserido na nova realidade mundial permanecem determinados.

Parte de setores do campo “progressista” assimilaram as chamadas Políticas Identitárias que fraturam e transformam em tribalismo o espírito de coletividade da comunidade nacional. Estão identificados com uma espécie de pensamento ideológico alimentado pelos grandes financistas globais a exemplo de George Soros, e outros.

Enquanto grupos à “direita” alinham-se a uma visão passadista, em nome de um paradoxal nacionalismo associado a um liberalismo econômico financeiro radical.

E uma formulação política, acadêmica, isolacionista que recorre a conceitos quase medievais, de um hipotético passado glorioso, purificado e inexistente, cujos teóricos principais encontram-se, especialmente, nos Estados Unidos.

Temos assim, uma espécie de uma falsa nova Guerra Fria que galvaniza ativistas políticos, acadêmicos, economistas, cuja resultante principal tem sido a ausência de uma visão aprofundada de um projeto do País. Pelo contrário, aumenta a sua distância.

A recente eleição presidencial refletiu esse conflito, que possui dimensão mundial. Trata-se de uma batalha ideológica, teórica, de profundos interesses econômicos, geopolíticos, um diversionismo autoconsciente e uma adesão a subpolíticas que aí estão postas. Invoca a impressão de que ao invés de se caminhar em direção ao futuro, pretende-se mergulhar rumo ao passado. Um evidente escapismo.

Mas os reacionários, diferente de conservadores, são ativistas intrépidos das suas teses quase sempre fundadas no medo apocalíptico do futuro e lutadores das causas purificadoras, nostálgicas, pela volta de um passado que a bem da verdade nunca existiu fora das suas mentes.

Já os outros idealizam, através da análise distorcida da realidade e de um determinismo Histórico, a visão autocentrada nas transformações sociais tal como desejam em suas cabeças.

Tanto uns como outros parecem atualmente empenhados em conduzir as sociedades a um passado glorioso mais que perfeito, que só existe em seus juízos, como se fossem “mentes naufragadas”.

Da crise geral emergiu uma visão nostálgica de tempos já idos, porque é mais fácil fazer um balanço do que já aconteceu, que sobre a complexidade bem mais abrangente do presente.

Melhor seria envidar esforços para compreender e atuar na realidade de um mundo em célere transição.

Onde o papel destacado do Brasil, da sua sociedade, só poderá se concretizar através do esforço, pela vida política democrática, e a união em torno de um projeto factível de desenvolvimento econômico.

Com base na industrialização do País, investimento em ciência e tecnologia, em infraestrutura, educação estratégica em vários níveis, saúde, combate à criminalidade transnacional, defesa das suas riquezas, cultura, possibilitando que o Brasil alcance patamares científicos e civilizacionais à altura dos desafios do século XXI.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Um copo de cólera

Meu novo artigo:


O título do livro Um copo de cólera do escritor brasileiro Raduan Nassar é emblemático para resumir o estado de espírito das sociedades em todo o mundo, com as consequências que sofrem sob os resultados das políticas adotadas pelo establishment.

Ou seja, os repúdios contra governos e partidos políticos que se alternaram sucessivamente durante o período em que predominou, ainda predomina, a globalização financeira, a supremacia absoluta dos grandes especuladores globais que acumularam fortunas de trilhões de dólares em detrimento do crescimento econômico das nações e dos povos.

Pode-se argumentar que alguns partidos fizeram, nessa realidade hegemônica do capital predador, muito mais em favor das maiorias que outros. E é verdade, fizeram sim.

Mas a realidade imposta aos indivíduos tem sido a sistemática queda da qualidade de vida em todos os aspectos que se possa olhar: desemprego, saúde, educação, criminalidade e o que é pior, a perda do sentimento de esperança por dias melhores. E isso acontece a nível global.

Ao invés de se afirmar, a exemplo do Brasil, que forças de conteúdo “obscurantistas”, “profundamente conservadoras”, que ressuscitam velhos fantasmas como a volta do comunismo sob a liderança de uma inexistente internacional marxista, ganharam as eleições, como diria o Conselheiro Acácio, porque a “Direita” avança em todo mundo, seria mais útil fazer um balanço da realidade e dos próprios rumos.

Li um dos livros publicados pelo professor Mark Lilla, ensaísta e titular da Universidade Columbia dos Estados Unidos. Mark é, além do mais, engajado nas causas progressistas, tem posição e lado definido.

Ele faz uma retrospectiva da luta de ideias nas últimas décadas da política norte-americana, e quando se lê o seu livro, a sensação que se tem é que ele poderia ser usado para a situação do Brasil, com as modificações das distintas realidades entre os dois Países.

Sobre hegemonia política Mark lembra a observação de Abraham Lincoln: “o sentimento público é tudo. Com ele, nada fracassa; contra ele, nada dá resultado. Quem molda o sentimento público vai mais fundo do que quem promulga leis ou profere decisões judiciais”.

Mark Lilla diz que a vitória de Trump “é uma mistura de verdades, meias verdades, mentiras, teorias da conspiração, invencionices, num caldo tóxico engolido com vontade pelos crédulos, indignados, e pelos perigosos”.

A crise da economia global promovida pelo capital especulativo é tão brutal que o que nós estamos assistindo pelo mundo é a assertiva da frase emblemática de Lincoln. Quem está moldando a cólera da opinião pública tem sido a fórmula com que o autor define Trump. A pergunta é, por que?

Uma das respostas de Mark é que os partidos ditos progressistas se cercaram, como referência teórica central, das agendas de Políticas Indentitárias desde os anos oitenta nos EUA. E depois, pelo mundo.

Abandonaram a ideia e a visão central da nação, do sentimento de solidariedade, do espírito da oportunidade para todos e do dever público. Envolveram-se nessa Agenda Identitária, perdendo o sentido do que compartilhamos como cidadãos e do que nos une como nação.

Nos anos sessenta e setenta, a luta pelos Direitos significava a batalha de grandes grupos de pessoas em defesa dos direitos das mulheres, contra o racismo, pelo reconhecimento efetivo das minorias, que tinha a simpatia e adesão entusiasmada das grandes maiorias.

Mas nos anos oitenta, nos EUA, essa política cedera lugar a uma pseudopolítica de autoestima e de autodefinição cada vez mais estreita e excludente, promovendo sucessivas fragmentações internas, visões tribais e a condenação das grandes maiorias que não pertenciam a essas especificidades, que seriam responsáveis pelas alegadas injustiças Históricas, fazendo voltar-se a juventude para a própria interioridade e praticamente condenando o mundo exterior não pertencente aos grupos indentitários.

Isso deixou os jovens despreparados para pensar no bem comum, que é fundamental para assegurar todos os direitos, e na tarefa política nada glamorosa de persuadir a todos em participarem de um esforço comum para o bem da coletividade, da nação.

O identitarismo passou a ser visto, pelas grandes maiorias sociais, como uma “doutrina” professada basicamente por determinados setores das elites urbanas instruídas sem contato com o resto do País, cujos esforços se resumem em zelar e alimentar movimentos hipersensíveis, que dissipam em vez de concentrar as energias da sociedade como um todo.

De outro lado, o identitarismo ao contrário de negar as agendas do neoliberalismo econômico radical reforça-o, porque reduz o espírito de comunidade nacional ao indivíduo, ao grupo. Em consequência, afirma Mark, o identitarismo deixou de ter projeto político relevante e se metamorfoseou num programa de evangelização.

Mas a diferença, diz Mark, é que evangelizar é dizer “verdades” ao poder. Fazer política é conquistar o poder para defender as verdades.

Assim, e por várias outras razões, os cidadãos se sentem abandonados por esses partidos políticos que não respondem ou não propõem alternativas básicas, reais, concretas, assimiláveis, às sociedades que naufragam em uma violenta crise econômica, social. Quer dizer, não os representam.

Porém, afirma Mark, não existe antes em política, só o depois. O que nós estamos vendo nos Estados Unidos, nos levantes populares na França, na Itália, no crescimento parlamentar do grupo VOX na Espanha, na recente eleição no Brasil, Grã Bretanha, e tudo indica, vem muito mais por aí, são imensas revoltas sociais contra as consequências das políticas da globalização financeira, a miséria crescente, a insegurança brutal com o amanhã, a criminalidade crescente, o desemprego, a desesperança. Enfim, é o copo de cólera transbordando.

Ou as forças políticas lúcidas substituem a linha das Políticas Indentitárias como eixo central programático, oficial ou oficioso, ou as sociedades vão abraçar “as verdades, meias verdades, mentiras, invencionices, teorias da conspiração, o caldo tóxico que atrai os crédulos, os indignados”. E os “perigosos” vão liderar os clamores das sociedades.

De nada adianta afirmar, como no Brasil, que os “obscurantistas”, os “conservadores” estão vencendo, diria o Conselheiro Acácio, porque há uma onda de “Direita” no mundo. Ou mais grave “o povo não sabe votar”, “é atrasado e conservador”. isso é errático, uma fuga da realidade. E o que é pior, de nada adianta.

“Eles” estão crescendo porque estão dizendo “suas verdades, meias verdades, mentiras, invencionices, teorias da conspiração” e falando à alma, o coração das sociedades.

Enquanto os demais se “refugiam nas cavernas das suas autossatisfações das Políticas Identitárias” proclamando-se “moralmente superiores”, isolando-se das sociedades que clamam por soluções urgentes e abrangentes.

É pertinente acreditar firmemente na capacidade de unir as amplas maiorias em torno do bem comum, das grandes soluções sociais, inclusas todas as minorias, na defesa dos interesses nacionais, no desenvolvimento que abrigue as aspirações da sociedade, na defesa da nação, da sua identidade cultural, na convivência entre os povos.

Mas para isso é fundamental a vontade crítica de reunir um conjunto de propostas que unifique o espírito coletivo, individual, que atinja os corações e as mentes das sociedades e, em nosso caso, do povo brasileiro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Demônios da carnificina

Meu novo artigo:


As grandes conflagrações de massas que estão acontecendo por várias partes do mundo, como os violentos conflitos sociais atuais na França, indicam o esgotamento da Ordem Mundial vigente, com o agravamento da crise financeira iniciada em 2008, antecedida pela hegemonia unipolar norte-americana, após a extinção da antiga União Soviética, ao final da década de noventa.

A História pode não se repetir, mas os acontecimentos, às vezes, se parecem em muitos aspectos.

As crises geopolíticas, a grande depressão econômica, que antecederam às duas grandes guerras mundiais em 1914 e 1939, mostram que os fatores econômicos e a panela de pressão que tamponam a necessidade de novos rearranjos no teatro das nações, em virtude de realidades emergentes, podem impulsionar os Países e as sociedades no rumo de conflitos perigosos ou até militares de proporções catastróficas.

A atual Ordem Mundial surgiu com base na total desregulamentação dos fluxos dos capitais financeiros, especialmente especulativos e predadores, provocando o estancamento da economia global com as suas consequências, tais como o refluxo das economias produtivas, que passaram a crescer a níveis mínimos ou ridículos, quando não negativos.

Daí cresce a crise social, a queda na produção industrial que aumenta enormemente o desemprego, a informalidade no trabalho. O crime organizado torna-se um setor econômico cada vez mais dinâmico e poderoso, especialmente o narcotráfico.

Ele associa o seu processo de acumulação de fortunas à lavagem do dinheiro em paraísos fiscais e absorve também considerável parcela da mão de obra dos assalariados dispensados, especialmente as populações das periferias, abandonados à própria sorte.

Para a solução dessa monumental crise multilateral, o liberalismo econômico radical indica a redução do papel dos Estados em áreas estratégicas e o famoso ajuste fiscal. E se as medidas tomadas não derem certo, a saída será mais ajustes fiscais e venda de patrimônios estatais, naturais, e assim infinitamente. Essa é a lógica da escola neoliberal de Chicago.

A de que o mercado tudo resolve e o Estado só atrapalha. Mas a verdade é que em canto algum do mundo isso comprovou-se verdadeiro.

O Estado tem papel central como indutor, regulador e promotor do desenvolvimento econômico, inclusive nos Estados Unidos durante a crise de 2008, que salvou os superbancos americanos na época e em consequência, a indústria e a própria economia norte-americana de uma catástrofe generalizada, embora a sua sociedade ainda sofra dos efeitos dessa crise até hoje.

Mais que uma fórmula dogmática, o neoliberalismo, e suas variadas denominações, representam uma ideologia sem bases na análise da realidade, que além de não enfrentar as consequências de uma crise econômica, leva ao seu agravamento.

Por outro lado, e em paralelo, para justificar o novo status gerado pela crise nas sociedades, o capital financeiro invoca novas teses como as Agendas Identitárias e do Politicamente Correto, com o objetivo de fragmentar, tribalizar e atomizar o tecido social, aumentando a desorientação que já é generalizada.

Além do mais, com a crise social atingindo enorme escala, setores da sociedade ficam reféns de alternativas políticas autoritárias internas e isolacionistas na política externa.

Assim, assistimos hoje a uma contenda entre neoliberais multiculturalistas versus neoliberais antimulticulturalistas como falsas alternativas a uma crise global sem precedentes na economia.

Obstaculizam a vida política, essencial aos rumos das nações, por um conflito ideologizado, enrijecido, intolerante, distante das propostas e alternativas às sociedades e aos Países.

Exatamente como no período que antecedeu às duas guerras mundiais, hoje parte das grandes potências do planeta refluem para uma linha econômica e geopolítica isolacionista, vejam os EUA, tratando de, na defensiva, assegurar a hegemonia global.

Essa estratégia levou à sanguinolenta primeira guerra mundial e lançou as bases para a brutal carnificina que foi a segunda guerra mundial.

O outro fator importante é a negativa, da parte das grandes potências, em reconhecer a reconfiguração da geopolítica global com o surgimento de novos atores mundiais a exemplo dos BRICS.

É uma fixação da ideia do domínio incontestável e imutável de uma hegemonia anglo-americana, desconhecendo, portanto, uma realidade em curso e em evolução, que pode beneficiar todos os Países, inclusive a essas mesmas potências atuais.

Para sustentar suas premissas ressuscitam-se velhos fantasmas, buscam atrair para as suas áreas de influências parceiros sob argumentos ideológicos e alguns até místicos.

É preciso que os Países construam alternativas à supremacia do capital especulativo predador, definam novas linhas partilhadas, cooperadas, de desenvolvimento econômico, defendam uma geopolítica global multilateral, o direito à autodeterminação das nações e das suas riquezas. Porque o mundo dá sinais de rápida deterioração das soberanias nacionais, das liberdades democráticas e individuais.

O perigo atual não são os velhos fantasmas que saem das catacumbas, mas os Demônios das Carnificinas que resultaram nas guerras mundiais de 1914 e em 1939 com centenas de milhões de mortos e mutilados. O Brasil precisa defender o seu protagonismo econômico e geopolítico regional. Propositivo, cooperativo e rejeitar qualquer política externa xenófoba, isolacionista.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Rumos de uma política externa, por André Araújo




Política externa parte de sinais indicativos que um novo governo apresenta ao mundo. Nesse sentido, e muito antes que necessário, o novo governo a se instalar em Janeiro aponta rumos que produzirão consequências previsíveis. Quais são elas:

1. Afastamento do Brasil das históricas boas relações com a ARGENTINA, que vem sem maiores tropeços desde os anos 50, culminaram com o Acordo do Mercosul entre os Presidentes Alfonsin e Sarney, tão importante que os passaportes dos quatro participantes têm no topo da capa o nome MERCOSUL.

As economias do Brasil e Argentina estão razoavelmente integradas com montadoras de automóveis no Brasil dimensionadas em função do Mercosul.

2. Congelamento das relações do Brasil com a UNIÃO EUROPEIA pela negação dos acordos climáticos, de transcendental importância no contexto europeu.

Essa movimentação trará evidentes barreiras às exportações brasileiras, especialmente de proteína animal, que já são difíceis para esse grande mercado.

3. Distanciamento que poderá levar ao rompimento da aliança do Brasil com o GRUPO BRICS, constituído pelos grandes países que se contrapõem à política externa dos Estados Unidos. O Brasil é fundador e dá a primeira letra do bloco, um desligamento significará uma diminuição evidente da importância do País.

A adesão incondicional do Brasil à política externa americana é uma negação da própria razão do BRICS e o Brasil perde a lógica de estar no grupo.

4. Uma óbvia ruptura com o MUNDO ÁRABE em função de uma aproximação desnecessária com a política externa israelense, colocando em risco vários interesses do Brasil conquistados na região desde o Governo Geisel, quando o Iraque salvou o Brasil com fornecimento de petróleo a crédito, recebedo em produtos brasileiros e obras executadas pela engenharia brasileira. Um capital político de 40 anos colocado em risco real, as exportações de proteína animal do Brasil para o mundo árabe garantem, por baixo, 160.000 empregos no Brasil. Os árabes são emocionais e costumam reagir ao que consideram ofensas.

5. Finalmente, adesão indiscriminada e incondicional da política externa brasileira à Washington, NÃO COM OS EUA como País e sim com o PRESIDENTE TRUMP, é uma adesão ideológica aos que consideram serem as teses anti-globalistas e fundamentalistas desse Presidente que vêem como companheiro.

Trump já caminha pela segunda metade do mandato e a cada dia suas chances de reeleição diminuem. As investigações do Promotor independente Robert Mueller avançam e agora descobre-se que a Organização Trump, antes da eleição do atual Presidente, propos ao Presidente da Rússia, Putin, a construção de uma Trump Tower de apartamentos de luxo em Moscou. Por tal projeto Trump foi várias vezes a Moscou, assim como o filho, seu genro e filha. Putin deveria fornecer o terreno, as licenças e o financiamento e receberia de presente um apartamento de 50 milhões de dólares na torre.

Este caso está na mídia americana deste o início da semana em grandes matérias de jornais e noticiários de TVs. Mais desgaste para um Trump atacado.

No próprio Partido Republicano, o capital político de Trump está em queda livre, especialmente após a derrota nas eleições para a Câmara.

Atrelar a política externa brasileira gratuitamente a esse personagem significa que haverá um reverso se um Presidente do Partido Democrata for eleito em 2020, quando o Governo Bolsonaro ainda terá 2 anos à frente. A política externa da Presidência Trump é considerada um grave desvio até por grande número de Republicanos, o Brasil está se vinculando a essa política cujo fracasso é apontado pela elite política e empresarial americana. A política externa de Trump tem oposição quase total no Departamento de Estado e no "establishment" de relações exteriores dos Estados Unidos.

Mais ainda, não há segurança alguma de que o Governo Trump dê valor a essa adesão gratuita do Brasil. A Colômbia foi eleita pelo Governo Trump como parceiro preferencial dos EUA na América do Sul. Nenhum gesto do Presidente Trump demonstrou maior crédito a essa adesão, se o Brasil não atender ao que os EUA quer que o Brasil faça na Venezuela, de nada valerá a submissão do Brasil. Americanos são frios e objetivos, não se comovem por amizade.

Uma política externa de um grande País não pode se atrelar ao Presidente de outro País. Isso nunca aconteceu na diplomacia brasileira, que sempre preservou sua capacidade de manobra no complicado contexto da geopolítica mundial porque o interesse de uma semana pode ser outro na semana seguinte. E mesmo entre aliados há divergências em temas, não existe aliança incondicional em política externa, nem em tempos de guerra.

O caminho que se aponta para a política externa brasileira pode ser o caminho do abismo para os interesses geopolíticos brasileiros a longo prazo, levando o Brasil a um inédito isolamento diplomático que trará evidentes reflexos na economia e na visão sobre o País no mundo.