domingo, 29 de janeiro de 2012

A próxima guerra na agenda dos EUA

Uma boa análise da realidade geopolítica mundial feita pelo norte-americano Paul Graig Roberts, embora chegue a uma conclusão equivocada como destaca O Diario na apresentação do texto publicado no ODiario.info:
 
O porta-aviões USS Nimitz posiciona-se ao largo, na costa do Irã.

"Neste artigo Craig Roberts faz um significativo paralelo histórico: o que estamos a testemunhar é uma repetição da política de Washington para com o Japão na década de 1930, que provocou o ataque japonês a Pearl Harbour. Os saldos bancários do Japão no Ocidente foram apreendidos e o acesso do Japão a petróleo e matérias-primas foi restringido. O objetivo era prevenir ou retardar a ascensão do Japão. O resultado foi a guerra.

Mas é surpreendente que uma tal análise leve no final o autor a apelar ao apoio ao candidato Ron Paul nas próximas presidenciais dos EUA. Por muito maus que sejam os restantes candidatos, a alternativa não é certamente este personagem ultraliberal."
 
Só os cegos não vêem que o governo dos EUA se prepara para atacar o Irã. Segundo o Professor Michel Chossudovsky, “os preparativos para a guerra contra o Irã (com o envolvimento de Israel e da NATO) foram iniciados em Maio de 2003.” http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=28542
 
Washington instalou mísseis apontados ao Irã nos estados emirados com petróleo que funcionam como seus fantoches, Omã e os Emirados Árabes Unidos e, com poucas reservas, noutros estados fantoches no Médio Oriente. Reforçou a frota de caças da Arábia Saudita. Mais recentemente, enviou 9.000 soldados para Israel, para participar em “jogos de guerra” cujo objectivo é testar o sistema de defesa aérea dos EUA / Israel. Uma vez que o Irã não representa uma ameaça a menos que seja atacado, os preparativos de guerra de Washington assinalam a intenção de atacar o Irã.

Outro sinal de que Washington tem uma nova guerra em agenda é o aumento da retórica e demonização do Irã. A julgar pelas estatísticas, a propaganda de Washington de que o Irã ameaça os EUA através do desenvolvimento de uma arma nuclear foi bem sucedida. Metade do público norte-americano apoia um ataque militar ao Irã, a fim de impedir este país de adquirir poder nuclear. Aqueles de nós que tentam despertar os nossos concidadãos partem de um deficit que corresponde ao facto de metade da população dos EUA estar sob controlo do Big Brother.

Como os relatórios dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica no terreno no Irã deixaram claro há anos, não há provas de que o Irã tenha desviado qualquer urânio enriquecido a partir do seu programa de energia nuclear. O estridor de Washington e dos media neoconservadores é infundado. A mentira está ao mesmo nível da reivindicação de que Saddam Hussein tinha no Iraque armas de destruição em massa. Cada soldado dos EUA que morreu naquela guerra morreu em nome de uma mentira.

Não poderia ser mais óbvio que os preparativos de guerra de Washington contra o Irã nada têm que ver com dissuadir o Irã de construir uma arma nuclear. Qual, então, a sua base?

Em minha opinião, os preparativos do governo dos EUA para a guerra são movidos por três fatores. Um deles é a ideologia neoconservadora, adotada pelo governo dos EUA, que os leva a usar a sua posição de superioridade militar e econômica para conseguir a hegemonia mundial. Este objetivo faz apelo à arrogância norte-americana e ao poder e sede de lucro que ela serve.

Um segundo fator é o desejo de Israel de eliminar todo o apoio aos palestinos e ao Hezbollah no sul do Líbano. O objetivo de Israel é dominar toda a Palestina e os recursos hídricos do sul do Líbano. A eliminação do Irã remove todos os obstáculos à expansão de Israel.

Um terceiro fator é o de impedir ou retardar a ascensão da China como potência militar e econômica, controlando o acesso da China à energia. Foram os investimentos da China em petróleo no leste da Líbia que levaram os EUA e os seus fantoches da OTAN a virar-se subitamente contra a Líbia, e foram os investimentos da China em petróleo noutras regiões de África que resultaram na criação, por parte do regime de Bush, do Comando dos EUA para África, o AFRICOM, destinado a combater a influência econômica da China com a influência militar dos EUA. A China tem investimentos significativos em energia no Irã, e uma percentagem substancial das importações de petróleo da China provém do Irã. Privar a China do acesso independente ao petróleo é a maneira de Washington dominar e encurralar a China.

O que estamos a testemunhar é uma repetição da política de Washington para com o Japão na década de 1930, que provocou o ataque japonês a Pearl Harbor. Os saldos bancários do Japão no Ocidente foram apreendidos e o acesso do Japão a petróleo e matérias-primas foi restringido. O objetivo era prevenir ou retardar a ascensão do Japão. O resultado foi a guerra.

Apesar da sua desmedida arrogância, Washington entende a vulnerabilidade da sua Quinta Frota no Golfo Pérsico e não arriscaria perder uma frota e 20.000 homens a menos que fosse para ganhar uma desculpa para um ataque nuclear ao Irã. Um ataque nuclear ao Irã alertaria a China e a Rússia de que poderiam sofrer o mesmo destino. Como consequência, o mundo enfrentaria um risco de cataclismo nuclear maior do que no tempo do impasse EUA-URSS, que assegurava uma destruição mútua.

Washington está a colocar-nos numa situação fora de controle. Declarou que o eixo “Ásia-Pacífico” e o Mar da China Meridional são áreas de “interesse nacional dos EUA”. Qual o sentido destas palavras? O mesmo que teria a China declarar o Golfo do México e o Mar Mediterrâneo como áreas de interesse nacional da China.

Washington colocou 2.500 fuzileiros, prometendo a chegada de mais, na Austrália, com que fim? Proteger a Austrália da China ou ocupar a Austrália? Cercar a China com 2.500 fuzileiros navais? Não significaria nada para a China, se Washington colocasse 25.000 fuzileiros navais na Austrália.

Se formos aos fatos, as palavras duras de Washington não constituem senão uma provocação sem sentido ao seu maior credor. E se a idiotia de Washington fizer com que a China passe a temer a possibilidade de Washington e os seus fantoches europeus e Reino Unido se apoderarem dos seus saldos bancários e se recusarem a honrar as participações da China de 1 bilião de dólares em títulos do Tesouro dos EUA? Irá a China retirar os seus saldos dos enfraquecidos bancos dos EUA, Reino Unido e Europa? Irá a China atacar primeiro, não com armas nucleares, mas com a venda do seu bilhão de dólares em títulos do Tesouro de uma só vez?

Seria mais barato do que a guerra.

A Reserva Federal teria de imprimir rapidamente mais 1 bilhão de dólares para comprar os títulos, caso contrário as taxas de juros dos EUA iriam disparar. O que faria a China com um 1 bilhão de dólares acabados de imprimir? Na minha opinião, a China iria livrar-se de tudo de uma vez no mercado de câmbio, porque a Reserva Federal não pode imprimir euros, libras britânicas, yen Japonês, franco suíço, rublo russo e yuan chinês para comprar a sua moeda recém-impressa.

O dólar norte-americano seria esmagado. Os preços de importação dos EUA (que agora incluem, graças ao offshoring, quase tudo o que os norte-americanos consomem) subiriam. Os 90% que vivem com maiores dificuldades seriam ainda mais esmagados, atraindo ainda mais os seus opressores em Washington. O resto do mundo, antecipando a guerra nuclear, libertar-se-ia dos dólares, já que Washington seria um alvo de ataque primário.

Se os mísseis não forem lançados, os norte-americanos levantar-se-ão no dia seguinte na condição de país falido do terceiro mundo. Se os mísseis forem lançados, serão poucos a despertar.

Enquanto norte-americanos, precisamos de nos interrogar sobre o que está em jogo. Porque é que o nosso governo provoca deste modo o Islã, a Rússia, a China, o Irã? Que propósito, quem estão a servir? Certamente não a nós.

Quem beneficia do fato de o nosso governo falido se lançar em mais guerras, desta vez não contra países indefesos como o Iraque e a Líbia, mas a China e a Rússia? Pensarão os idiotas em Washington que o governo russo não sabe por que razão a Rússia está a ser cercada com bases de mísseis e sistemas de radar? Acreditarão os imbecis que o governo russo cairá na sua mentira de que os mísseis são dirigidos contra o Irã? Só os idiotas que se sentam à frente da Fox “News” acreditariam que se trata aqui verdadeiramente de uma arma nuclear iraniana.

Quanto tempo mais irá o governo russo permitir à National Endowment for Democracy (Fundação Nacional para a Democracia), que é uma fachada da CIA, interferir nas suas eleições através do financiamento dos partidos da oposição liderada por nomes como Vladimir Kara-Murza, Boris Nemtsov, e Alexei Navalny, que protestam todas as eleições ganhas pelo partido de Putin, acusando sem qualquer prova, mas fornecendo a Washington, que, sem dúvida, paga muito bem, propaganda de acordo com a qual as eleições foram e serão roubadas? http://www.globalresearch.ca/PrintArticle.php?articleId=28571

Nos EUA, ativistas como estes seriam declarados “extremistas internos” e sujeitos a um duro tratamento. Nos EUA, mesmo os pacifistas estão sujeitos a invasões de domicílio pelo FBI e a investigações dos tribunais.

O que isto significa é que “o criminoso estado russo” é uma democracia mais tolerante do que os EUA ou os seus estados europeus e que o Reino Unido.

Para onde vamos a partir daqui? Se não quisermos caminhar para a destruição nuclear, os americanos têm que acordar. Jogos de futebol, pornografia, e centros comerciais são uma coisa. A sobrevivência da humanidade é outra. Washington, isto é, o “governo representativo”, consiste somente de uns quantos interesses poderosos. Esses interesses privados, e não o povo americano, controlam o governo dos EUA.

É por isso que nada que o governo dos EUA faça beneficia o povo norte-americano.

A atual colheita de candidatos presidenciais, com exceção de Ron Paul, representa os interesses no controle. A guerra e a fraude financeira são os únicos valores norte-americanos que restam.

Voltarão os norte-americanos a dar o esplendor da “democracia” a governar por uns poucos, participando nas próximas eleições manipuladas?

Se tiver que votar, vote em Ron Paul ou num candidato de um terceiro partido mais radical. Mostre que não apoia a mentira que é este sistema.

Deixe de ver televisão. Deixe de ler os jornais. Deixe de gastar dinheiro. Quando faz qualquer destas coisas, está a apoiar o mal.

Tradução: André Rodrigues P. Silva

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Pinheirinho, o novo fascismo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


A violenta repressão policial contra os moradores de Pinheirinho no estado de São Paulo representa uma tendência progressiva de tratar os problemas sociais como casos de delinquência coletiva.

Esses fatos recentes se juntam a uma onda conservadora, a uma galopante inclinação reacionária que se faz cada vez mais presente no Brasil e em grande parte do mundo.

É mais uma expressão da crescente intolerância típica de uma época onde reinam o capital financeiro e o complexo midiático internacional.

Que determinam comportamentos através de uma governança mundial que exerce a sua autoridade por intermédio de vários organismos internacionais que perderam as suas funções originárias e foram gradualmente se transformando em condutos dos interesses mais baixos, grosseiros e infames do lucro global.

Essa intolerância, o ultra-individualismo mais estúpido, as manifestações de truculência contra os trabalhadores e outros segmentos populares vão atingindo proporções de fenômeno generalizado.

Uma truculência associada a uma política higienista social repressora de inspiração nazista, à xenofobia, ao terror psicossocial, ao pânico coletivo, aos direitos constitucionais dos cidadãos rasgados, às nações invadidas criminosamente.

São poucos os governos nacionais que se armam de autoridade moral para resistir politicamente contra essa marcha ao fascismo (os que o fazem são ameaçados, caluniados) e que significa agora como em outras épocas a "expressão mais exacerbada da natureza agressiva e virulenta do capital global". Mas grande parte dos governos prefere imitar o capitão do transatlântico naufragado na costa italiana.

Esse é um tempo em que se busca colonizar a mentalidade das novas gerações através de um "presente contínuo alienante" sem referências históricas, sem causas, rebeldias ou utopias realizáveis, empurradas ao mais elementar pragmatismo existencial.

Pinheirinho é parte dessa cultura do ódio contra os "povos e classes subalternas", onde se pretende um cordão sanitário contra as maiorias assalariadas, o seu cheiro e os seus hábitos de plebe rude.

Da crise atual o capital global tenta erigir uma nova aristocracia de punhos de renda, imune às "impurezas sociais". Assim, é fundamental a construção de uma frente dos trabalhadores e nações contra essa novíssima ordem mundial fascista em avançado estágio de gestação.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Brasil, governo e civilização

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


Apesar da crise sistêmica do capitalismo o Brasil continua a crescer economicamente, o que vai consolidando o fato de que essa nova realidade veio para ficar e faz parte de nova configuração do tabuleiro geopolítico global.

O País tem quase todas as características que são comuns aos gigantes emergentes: extensão territorial, mercado interno em crescimento, liderança econômica regional ascendente, parque industrial complexo etc.

Além disso, é detentor de potencialidades distintas aos demais componentes dos chamados BRICS. Possui a maior reserva florestal, o maior manancial de água doce, a maior extensão de terras agricultáveis do planeta.

Por outro lado é insuficiente a infra-estrutura do País em relação às estradas de rodagem, portos, ferrovias de interligação com o território nacional, hidrovias e por aí vai.

O crescimento econômico da última década não foi acompanhado por um plano nacional de desenvolvimento com metas e objetivos a serem alcançados, mostrando que as heranças da doutrina neoliberal dos anos noventa e início do milênio não foram de todo superadas.

Porque as estratégias, os planos estruturais, o papel do Estado como indutor central ao desenvolvimento não só foram descartados nos governos FHC como a nova ordem mundial continua difundindo esses pré-requisitos ao desenvolvimento do País como abomináveis.

Na verdade os preceitos neoliberais mantêm-se hegemônicos no planeta sob a batuta do complexo midiático mundial, do capital financeiro global.

No Brasil as forças neoliberais estão tensionadas para que não se constituam novos caminhos tanto ao crescimento econômico quanto ao desenvolvimento soberano, coisas complementares porém diferentes.

Por outro lado, além de pelejarmos pela construção da riqueza nacional, da emancipação social, devemos lutar pelo resgate e desenvolvimento dos grandes valores humanos universais esmagados pela "globalização", o que já implica em tremenda resistência ideológica e política.

Valores esses resgatados, desenvolvidos e mesclados ao nosso rico processo de nação tropical. Mas não devemos perseguir, como objetivo último, alguma coisa como se fossemos uma espécie de "esquerda" da própria globalização capitalista.

Os nossos desafios devem nos confrontar como alternativa econômica, social, cultural e de civilização a essa nova ordem mundial do capital.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sem nenhum limite

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


Por um dessas casualidades encontro entre os meus papéis velhos que não foram queimados ou rasgados, uma extensa análise publicada na revista Carta Capital em 2001.

E isso sempre é interessante quando acontece porque nós podemos cotejar não apenas as opiniões mas observar as grandes transformações que se efetivaram no mundo e no Brasil no período de dez anos.

Já se disse profeticamente que há dias que valem por anos e há anos que valem por dias sob a perspectiva das grandes transformações progressistas em escala mundial.

No entanto esse período de dez anos que nos separa desse texto de 2001  mostrou que a roda da História tanto se move para frente, ou fica atolada em terreno lamacento por um bom tempo, quanto pode também se movimentar por saltos em marcha ré.

Não que os retrocessos sejam uma novidade mas um que além de ser econômico também é ideológico, em dimensão global, talvez seja algo inusitado na recente História contemporânea.

Tanto quanto uma crise planetária do capitalismo onde os Países do primeiro mundo afundam no lodaçal da recessão, do desemprego de centenas de milhões, e pari passu, há uma ascensão econômica, geopolítica, de nações emergentes como os BRICs, Brasil, Rússia, China e Índia.

Na última década do século vinte houve uma onda de fusões e uma reengenharia do capitalismo que proporcionou durante dez anos um crescimento anual médio da ordem de 15% nos lucros e no valor de mercado das grandes corporações, chegando a mais de 25% em setores de ponta.

Mas como diz a análise da revista, o capital entendeu que seria possível manter essa tendência por longo prazo, sabendo que é impossível a massa total de lucros crescer indefinidamente mais que a produção sem as devidas consequências.

Nesses últimos vinte anos "o capitalismo conseguiu realizar o seu sonho de derrubar as fronteiras", construiu uma nova ordem mundial, fragilizou ou fragmentou Estados soberanos, promoveu uma revolução tecnológica, instituiu uma governança global de fato, guardiã e fiscalizadora de uma espécie de constituição internacional discricionária, imposta aos povos.

Um capitalismo que massacrou identidades e culturas nacionais, promoveu invasões sangrentas, assassinatos políticos brutais, produziu talvez a sua maior crise econômica estrutural, e visando o lucro, esgarçou ao extremo e sem nenhum limite, as relações sociais e humanas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Amazônia cobiçada

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


Há em curso uma intensa e sórdida campanha imperialista com vistas à anexação da Amazônia, uma verdadeira guerra assimétrica, cultural e ideológica contra o Brasil visando tornar hegemônica a ideia de que essa extraordinária região deve se tornar um condomínio internacional o que na verdade é outra mentira porque esconde os interesses inconfessáveis dos EUA.

Com uma dimensão de aproximadamente 5.028.392 quilômetros quadrados, constituída pela superfície dos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e incluindo-se ainda para efeitos legais o Estado do Mato Grosso ela representa 63,42 % de todo o território nacional.

A Amazônia brasileira pertence ao complexo da maior selva tropical e a mais rica biodiversidade do planeta onde vivem mais de 30.000 espécies de plantas já estudadas, mas estima-se que por lá deve haver mais de cinco milhões de diferentes espécies botânicas.

As riquezas naturais do solo e subsolo da Amazônia, já dimensionadas, que podem ser exploradas sem comprometer o meio ambiente e a biodiversidade, ultrapassam os trilhões de dólares.

Há, como exemplo, um extraordinário potencial para o desenvolvimento da tecnologia de medicamentos avançados, através da flora, que podem gerar grandes recursos ao País e muitos benefícios à humanidade.

Por lá se encontra a maior reserva de água doce do mundo assim como um espetacular potencial à produção de energia limpa e renovável inigualáveis no planeta.

Portanto os ambiciosos projetos imperialistas para a região incluem, além da expansão territorial, principalmente a anexação da maior concentração de riquezas naturais conhecidas do planeta.

A estratégia em curso tem sido a do "convencimento" da opinião pública mundial através do complexo industrial multimidiático global sob o comando dos EUA e Inglaterra de que a Amazônia deve ser um patrimônio gerido por organismos internacionais e as suas consequências já se fazem sentir como revela a pesquisa CNT/SENSUS publicada esta semana pela imprensa brasileira.

A outra linha desse bombardeio ideológico tem sido a tentativa de provocar a confusão no povo brasileiro, a sua anemia moral, levando-o à capitulação do sentimento nacional. Assim, impõe-se com urgência uma ampla campanha de esclarecimento, tenaz resistência patriótica e política, em defesa da nossa integridade territorial e da Amazônia brasileira.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Nem desejos, nem promessas



O decálogo do camarada e amigo Luciano Siqueira, publicado em seu blog:

Dez desejos que não acalento em 2012

Folheio revistas antigas misturadas a jornais e livros amontoados num canto da sala. Deparo-me com uma página de amenidades onde se faz uma enquete com alguns personagens conhecidos chamados a apresentar dez desejos ou promessas que alimentam para o novo ano. Tem de tudo: mudança de temperamento, viagem à Índia, geração de um primeiro filho, realização profissional, aprender mandarim e que tais.

Ninguém me entrevistou a respeito, jamais. Certamente pouco hão de interessar aos leitores desse tipo de publicação as minhas aspirações mais caras. No que têm toda razão.

Pois faço o contrário: compartilho com meus provavelmente poucos leitores o que não prometo nem desejo em 2012:

1) Não prometo mudar minhas convicções sobre o mundo, a vida, o amor e a necessidade de transformar a sociedade, pois assim caminho há cinco décadas e de nada me arrependo do que tenho pensado nem feito ou deixado de fazer por opção consciente. Nem abrir mão da minha confiança no sonho dos poetas e na força do povo.

2) Nenhuma condescendência me comprometo a ter com quem pratica a maledicência com o prazer mórbido dos que traem, nem com os que disputam um lugar à mesa como quem guerreia pelo poder real, nem com os que anseiam pela autoafirmação como ideal de vida. De individualismo assim tão exacerbado quero distância, pois aprendi desde garoto a repudiar esse vírus que corrói as relações humanas.

3) Ah, também é bom que deixe claro de uma vez por todas: não me disponho a retornar aos estádios aos domingos nem em qualquer outro dia para apreciar o que se chamava antigamente de esporte bretão: nem para apoiar o meu Náutico, nem para torcer pelo Sport ou Santa cruz (quando enfrentando times de fora), nem mesmo para ver a seleção canarinho, a não ser na Copa de Mundo, se vier jogar na arena de São Lourenço da Mata. Aprendi que o futebol é um grande negócio nem sempre lícito e que o torcedor é o último a saber – se é que sabe realmente o que acontece fora das quatro linhas.

4) Longe de mim prometer superar o vício da leitura diária de livros, revistas, jornais e páginas na internet. Vício por vício prefiro este, já que não me disponho a aderir ao tabagismo nem ao atraente e permissivo alcoolismo.

5) Não admito também passar à responsabilidade de ninguém, de nenhum dos meus assessores, o manejo do Twitter e do Facebook, nem do meu blog pessoal, nem da minha correspondência via e-mail, pois tenho certeza de que amig@s logo perceberiam a artificialidade do diálogo. Prefiro a imperfeição do contato direto à assepsia da comunicação burocrática. (Sem deixar de anotar que o site do meu mandato é feito por profissionais competentes e dedicados, por isso mesmo é uma página de sucesso).

6) Também não me disponho a juntar dinheiro: desde cedo descobri que ficar rico não é minha sina, nem para tanto tenho talento. Se sobra algum, que o queime em livros e viagens de lazer, nada mais que isso.

7) Não desejo aprender os passos do tango, por mais que admire a dança portenha e me deslumbre a sua coreografia apaixonante e bela. Não dou para a coisa e é melhor ficar quieto, eu que sequer aprendi a valsa vienense nem o nosso bom e popular forró.

8) Nem pretendo gostar de salpicão, porque adocicado; nem de jenipapo, por puro preconceito com a fruta; nem de uísque com água de coco, porque o prefiro com pouco gelo; nem de cachaça com limão, porque a prefiro pura.

9) Parar de escrever artigos e crônicas semanais, nem pensar - por mais que tenha consciência das limitações do escriba. Sempre haverá uma boa alma disposta a me premiar com a leitura generosa e compreensiva.

10) Aprender a cozinhar, tem jeito não. Compenso, entretanto, com reconhecida habilidade para lavar pratos que, modéstia à parte, faço com prazer e esmero.

Que 2012 seja para todos de muito trabalho, amores, dores, esperanças, conquistas e paz.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A sexta economia mundial

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


Há uma crescente indignação na Europa contra as medidas que estão sendo adotadas pelos governos em relação ao enfrentamento da crise econômica e social que grassa no velho continente.

Daí é que surgem com força movimentos contrários à perda da soberania dos Estados nacionais em detrimento do fortalecimento do Banco Central europeu sob o comando hegemônico da Alemanha e França.

Tudo isso associado ao desemprego crescente, estagnação econômica, destruição de conquistas sociais históricas, aumento da criminalidade e socorro aos bancos do setor privado através de injeções bilionárias de recursos oriundos dos cofres públicos.

Portanto o que está em curso na Europa é a prescrição do receituário neoliberal para recuperar um paciente contaminado pelo vírus do próprio neoliberalismo.

O diagnóstico é que se não houver uma tenaz e massiva resistência popular os europeus sairão dessa tormenta bem mais pobres e muito menos soberanos do que antes.

Já no Brasil tanto como na China, Rússia e Índia, as consequências dessa crise global do capitalismo também são fortes muito embora em escala e densidade bem inferiores às das nações do primeiro mundo.

Mas é mesmo de se perguntar em que intensidade ou profundidade estaria essa crise global sem o atual crescimento econômico dos BRICS.

Aliás, esta semana o Brasil foi notícia internacional ao ultrapassar o PIB da Grã Bretanha e se tornar a sexta economia mundial, o que é um fato alvissareiro mas que não esconde as grandes vicissitudes nacionais.

Porque está correto o ministro Guido Mantega ao declarar que apesar da boa nova sobre a posição internacional da nossa economia, só deveremos atingir o padrão de vida dos cidadãos do primeiro mundo em vinte anos.

Os chineses com a cultura e sabedoria milenares que lhes são próprias dizem que é melhor um crescimento desequilibrado que uma decadência persistente, o que é verdade porque uma coisa são os problemas de distribuição da riqueza crescente e a outra é a socialização da miséria que se acumula.

O povo chinês sabe muito bem dessas coisas porque sofreu humilhação e fome durante os períodos de domínio colonial e neocolonial. Quanto a nós, apesar dessa posição no pódio econômico mundial ainda lutamos de maneira lenta, gradual e sofrida contra uma sobrevivente e nociva herança neoliberal, além de uma dívida social respeitável.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Vietnã, soberania e determinação


O Vietnã é uma das economias que mais crescem no mundo em crise. Em 2010 atingiu uma taxa de crescimento real de seu Produto Interno Bruto de 6,8%, enquanto sua produção industrial cresceu 14% naquele ano. O heroísmo de seu povo que enfrentou guerras coloniais e neo-coloniais contra o Japão, França e Estados Unidos é um exemplo de sabedoria para os povos. Em 2004, quando exercia a função de secretário executivo da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República, ao lado do ministro Aldo Rebelo, tive oportunidade de dialogar com o então embaixador do Vietnã no Brasil. Na conversa, disse ao embaixador que a minha geração acompanhou e tem muita admiração pela luta do povo vietnamita. Respondeu-me o embaixador: “Nós é que temos a aprender com vocês brasileiros, como conseguem viver por tantos anos em paz...”.

Reproduzo a seguir trechos do texto do diplomata Rubens Ricupero, desse mesmo ano de 2004:


De heroísmo só, não se vive

"Já sabemos que o vietnamita é um povo heroico. Temos agora de provar que ele é também capaz de superar a pobreza." Em outras palavras, não se pode viver exclusivamente de heroísmo. Ouvi essa proclamação de quem tem pleno direito a fazê-la, um dos últimos heróis genuínos do nosso tempo. Escrevo a bordo do avião da Vietnam Airlines que me leva a Paris. Ontem, dia 20, tive o privilégio de ser recebido pelo general Giap, quase centenário, lúcido, falando um francês impecável.

Ho Chi Minh, Mao, Chu En Lai não existem mais. Giap é o único contemporâneo deles e de Mahatma Gandhi, de Nehru, de Sukarno, dos personagens de Malraux em "La Condition Humaine", de Edgar Snow em "Red Star Over China", dos que fizeram a Longa Marcha e conheceram a ocupação japonesa. Foram eles que, com métodos diversos segundo as circunstâncias, prepararam a atual emergência da Ásia, depois de destruírem o jugo e a espoliação dos colonialistas.
...

Na Ásia, na Indochina, a independência foi mais dura, custou luta e se pagou ao preço de milhões de vidas. Não por escolha ou gosto perverso da violência. Ho Chi Minh desejava um processo pacífico. Foram os franceses, a começar pelo general De Gaulle, que não lhe deixaram alternativa. A paz, quando chegou, não veio por causa da conversão dos corações, mas devido à derrota militar e política. Mesmo assim, revelou-se precária, um imperialismo humilhado, o francês, sendo substituído por outro, o americano, arrogante e cheio de si mesmo.

É difícil hoje acreditar que a estupidez ocidental tenha durado 30 anos, de 1945 a 1975. Hanói voltou a encontrar o charme do passado. É verdade que, no lugar das bicicletas, as milhares de motos soam como um enxame de abelhas zumbindo em direções desencontradas. Mas é como se fossem cigarras que não conseguem perturbar a paz dos arvoredos majestosos, quase encobrindo as mansões pintadas de ocre, remanescentes da era colonial, ora sedes de ministérios ou do Partido. Aqui, o camarada Lênin continua a presidir sobre a praça que leva seu nome, e o mausoléu do tio Ho marca o coração de capital que, apesar de frenética economia, não perdeu o encanto da província.


Há um jeito de Belém, com suas mangueiras e edifícios de Landi, com o ar molhado e abafado de perto do Equador. A casa do general traz saudades daquelas chácaras do Brasil antigo, com sapotizeiros e palmeiras, tamarindeiros magníficos, jambeiros, o mato crescendo um pouco aqui e ali, a umidade dos trópicos enegrecendo os muros, cobrindo-os de musgo. Nada de ar condicionado, mas a sala atapetada de livros, de fotos amarelecidas de Giap jovem, num daqueles ternos brancos que se usavam no Nordeste, ao lado de Ho, magro como a letra I, de bermudas, ambos na jungla.

Giap é o gênio militar na sua expressão mais árdua e enobrecedora. Árdua porque representa o triunfo do fraco contra o forte... Enobrecedora posto que se tratou de empresa de libertação nacional, não de conquista, anexação, glória de mandar, vã cobiça.


Dois heróis: em 1957 o presidente vietnamita Ho Chi Minh e o General Vo Nguyen Giap passam em revista uma unidade armada


Perto de nazistas e nipônicos que cobriram de imperecível infâmia suas guerras criminosas, dos que hoje dilaceram mulheres e crianças árabes do alto de seus aviões invulneráveis, que diferença! Giap era advogado, não militar, da mesma forma que Ho foi até confeiteiro em Paris. Conforme o próprio general me disse a propósito de seu líder, o que eles eram, acima de tudo, se resume nas palavras em desuso, patriota, nacionalista, amante da independência.

... Guerreiros de pés descalços, franzinos seres humanos mal chegando à cintura dos marines norte-americanos, carregando no ombro ou na garupa da bicicleta pesadas peças de artilharia, construindo pontes submersas 20 cm a fim de não serem avistadas do ar, compensaram com tenacidade, estoicismo, motivação o que lhes faltava em dinheiro ou armas sofisticadas.

Prevaleceram a um preço quase insuportável: 3 milhões de mortos, 4 milhões de aleijados ou queimados por napalm, 1 milhão de deformados ou estropiados pelo agente laranja, 40 mil mortos por minas desde 1975. As firmas alemães fabricantes do gás de extermínio ou dos fornos crematórios tiveram de pagar indenização, mas quem se lembra das empresas que produziram o agente laranja?

O Vietnã não esquece, mas não se lamuria. Finda sua guerra de 30 anos, o país começa a sair da pobreza. Como os demais asiáticos, a Malásia e a Tailândia, por exemplo, tem sabido utilizar os produtos primários como a alavanca da industrialização. Liberou a pequena agricultura familiar e já superou a Indonésia, tornando-se o maior exportador de café robusta.

Acaba de conquistar o primeiro lugar na pimenta, é grande produtor de arroz, borracha, camarão, peixe. Em 2001, exportou aos EUA vestuário no valor de US$ 49 milhões; no ano passado, a cifra foi de US$ 2,5 bilhões! Para a Europa, as vendas de roupas foram de US$ 600 milhões; para o Japão, de US$ 500 milhões. Em móveis, a estimativa para este ano é de US$ 750 milhões...

... A razão está com Giap: o prêmio do heroísmo será a vitória final sobre a pobreza.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Renato Rabelo: Um PCdoB ideologicamente mais forte e organizado


Em entrevista ao Portal Vermelho, o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, falou das perspectivas eleitorais do PCdoB em 2012, definidas por ele como um importante momento de acumulação de forças. Segundo ele, o Partido tem registrado a cada pleito um importante crescimento e as eleições majoritárias [para prefeitos] serão importantes para que o PCdoB se torne ainda mais conhecido pela população.

A seguir a segunda parte da entrevista com o dirigente nacional do PCdoB ao Vermelho:

Vermelho: Quais são as perspectivas para a atuação do Partido em 2012?

Renato Rabelo: O Partido tem uma compreensão, que considero uma conquista muito importante, que é a acumulação de forças. Para alcançar nossos objetivos maiores, é preciso acumular forças. Baseado exatamente nessa compreensão teórica, o PCdoB definiu a sua política. O Programa Socialista também reflete isso porque está estruturado nessa visão – de que é preciso alcançarmos um rumo, que é o nosso grande ideal: a construção de uma nova sociedade, uma sociedade socialista.

Para isso, é preciso um caminho de acumulação – que é traduzido dentro de uma orientação política que seria a luta pela construção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. O Partido vem tentando seguir essa orientação e com isso tem crescido e se expandido – não apenas na sua influência política e no governo do qual participamos, mas também no seio do povo e dos trabalhadores.

Vermelho: Qual a importância das eleições do próximo ano nesse processo de acumulação de forças?

Renato Rabelo: O PCdoB vem crescendo, mesmo que progressivamente, nos pleitos – onde também foi definido um processo de acumulação. Estamos também fortalecendo pouco a pouco nossa participação nas eleições majoritárias. Se em 2008 tivemos uma presença maior nas eleições majoritárias, em 2012 essa participação será muito maior.

Temos hoje condições concretas para disputar o pleito majoritário em 10 capitais brasileiras – o que é também um processo importante de acumulação. Além disso, o Partido passou a ocupar posições institucionais de maior relevância no governo federal, criando inclusive incômodos para as forças reacionárias. É exatamente em função dessa expansão, desse crescimento e do aumento dessa influência, que essas forças mais à direita vêm procurando atingir o Partido – na tentativa de jogar o PCdoB na vala comum. Para eles é muito perigoso um partido que defende um novo rumo, uma nova sociedade.

O PCdoB tem que ficar mais conhecido da população e para isso tem que ter candidatos majoritários. O momento da acumulação de forças, no nível em que o Partido se encontra, são as eleições majoritárias. Quando chegamos em uma capital ou cidade média importante – e iremos disputar a Prefeitura em mais 20 dessas cidades – apresentando as nossas propostas, passamos a popularizar o PCdoB e o nosso número de legenda, o 65.

Uma candidatura em São Paulo, que é o maior município do país, tem uma repercussão muito grande. O povo de São Paulo passa a ficar conhecendo o PCdoB. Ainda mais porque teremos um nome conhecido. As pesquisas mostram que um dos pré-candidatos mais conhecidos é Netinho de Paula. Teremos um candidato muito conhecido representando o Partido e isso é muito importante para aproximar o povo do PCdoB. Se levarmos em conta as demais capitais e cidades médias onde vamos disputar as eleições municipais, é possível atingir mais da metade do eleitorado do Brasil. Por isso 2012 tem um significado importante para nós.

Vermelho: Os recentes ataques caluniosos contra o Partido e contra o ex-ministro Orlando Silva foram motivados pelo crescimento do PCdoB e pelas lutas que ele defende?

Renato Rabelo: Para as forças de direita, ter um governo que possui em seu núcleo partidos mais consequentes, que oferecem uma visão mais à esquerda, é inimaginável. Tudo aquilo que pode levar o governo mais à esquerda tem que ser barrado. Eles criam uma agenda que é para incompatibilizar o governo com esses partidos. O próprio Fernando Henrique Cardoso, que é o ideólogo deles, já vinha atacando o PCdoB. Por que ele nominava o PCdoB? Se fosse um Partido que não tivesse influência, ou nenhum papel maior, para quê ele perderia tempo?

Eles encontraram um provocador que fez uma denúncia montada, uma grande armação política – isso na história dos Partidos Comunistas existem muitos exemplos – e a partir daí procuraram exatamente construir aquilo que eles já vinham perseguindo. A campanha não se voltou apenas contra o ministro Orlando Silva, ela foi dirigida contra o Partido. Foram 20 dias de campanha uníssona nacional contra o PCdoB. É tanto que você vê que nos outros casos os partidos não entraram muito em cena. No nosso caso houve uma campanha dirigida, orquestrada, montada contra o Partido.
 
Vermelho: Quais são as lições que o PCdoB tirou desse episódio?

Renato Rabelo: À medida que um partido como o nosso cresce, a luta de classes se acirra. À medida que partidos como o nosso têm um papel maior, podendo até influir nos rumos do governo, a luta política se acirra e temos que estar mais preparados para ela. Não podemos subestimar isso. Não devemos deixar de lado que a elevação e a radicalização da luta política acontecem nos momentos em que um partido mais consequente, ou com uma visão mais avançada, começa a vingar. As forças de direita procuram reagir, muitas vezes, agressivamente.

No plano mundial o cenário atual é muito parecido. À medida que a crise se aprofunda e que as forças de direita podem perder posições, as reações são mais agressivas. Temos dito inclusive que o processo de radicalização decorre da ação das forças dominantes de direita que não querem perder posição. Eles não querem deixar suas posições simplesmente no diálogo. Temos que estar preparados para isso. Essa é uma lição histórica para os comunistas. Temos que ter uma compreensão profunda sobre isso.

Outra questão é que podemos cometer erros também, deixar flancos, e nessas horas o método que usamos é sempre tirar lições. As experiências socialistas do século passado, que foram importantes, chegaram a um apogeu muito grande, mas tiveram grandes reveses. É o que o Partido vai procurar fazer, tirar ensinamentos e se preparar mais ainda para as lutas que vêm.

Vermelho: A unidade do PCdoB, desde sua militância até seus quadros e dirigentes partidários, também marcou esse momento. Em sua análise, qual foi a importância dessa unidade?

Renato Rabelo: É nas grandes batalhas e diante dos grandes ataques que a luta política e de classe revela, que temos de ver também como o Partido se comporta. O PCdoB se comportou com uma característica essencial nessas horas, que é a unidade. Em situações como essas, tanto na guerra como na luta política, não pode haver desagregação. Porque a divisão leva justamente à derrota. A prova mais importante, mostrando que o Partido vai se colocando à altura, é que conseguimos nos unir. O Partido não recuou e se colocou de forma viva e audaz diante do ataque que sofreu. Começo pelo próprio ministro, o alvo direto dos ataques, que atuou com altivez e de forma determinada. Posso dizer que diante dessa grande batalha o Partido até cresceu. Durante a deflagração das denúncias, as conferências municipais e estaduais – que são uma norma estatutária e que vinham sendo realizadas em todo o país – se transformaram em grandes atos de desagravo ao ministro e em defesa do PCdoB.

Procuramos também demonstrar que o ataque contra o PCdoB foi igualmente um ataque ao próprio governo. O medo das forças reacionárias é que o governo seja ainda mais influenciado pelas forças de esquerda. Esse era um foco importante para desestabilizar e descaracterizar o governo. Percebemos que o governo teve essa compreensão porque um dos objetivos dos ataques era afastar o PCdoB. No ato de posse do ministro Aldo Rebelo – que aconteceu no Palácio do Planalto – a presidente Dilma Rousseff defendeu o Partido, dizendo que o PCdoB é fundamental para o seu governo, que o Orlando havia sido um ministro excepcional e que o novo ministro iria elevar e valorizar ainda mais o governo. A mídia ficou engasgada naquele momento. Por isso o ato não teve tanta repercussão.

Vermelho: Além da disputa em grandes capitais nas eleições do próximo ano, qual será a importância do crescimento da base partidária em 2012?

Renato Rabelo: O Partido tem aumentado sua influência política e por isso tem atraído muita gente para se filiar. Durante o processo de conferências, nosso contingente cresceu 35% em alguns meses – inclusive incorporando lideranças populares, do âmbito intelectual e de diversos setores da sociedade.

O outro lado da medalha é que temos que nos estruturar e organizar. Isso é o que diferencia o PCdoB. Um partido estruturado tem muito mais força do que um partido que não é tão organizado e permanente. Lutamos e definimos tarefas, sobretudo tendo uma política de quadros – que também é uma grande conquista do Partido – que seja capaz de nos levar aos objetivos que traçamos. O Partido não é um ente abstrato, não está fora da contenda política. Quadros e uma camada grande de militantes são fundamentais.

Demos alguns passos nesse sentido e esse foi um dos fatores que causou temor em alguns setores. Um Partido estruturado, organizado, consciente e permanente é uma ameaça. Na prática, a resposta que temos que dar é fazer um grande esforço por um Partido mais forte ideologicamente e mais bem organizado.
 
Vermelho: Diante dessa necessidade, qual é a importância do lançamento do Curso do Programa Socialista?

Renato Rabelo: Esse é um curso básico sobre o Programa do Partido – uma iniciativa que já vínhamos perseguindo – e que agora se tornou mais focal e pelo qual todos os filiados e militantes precisam passar. Temos que envolver todos os 280 mil filiados. Considero o curso como o primeiro liame de nossos militantes com o PCdoB. Sabemos que um partido bem organizado é uma grande força. Um partido pode ter uma política justa, mas se não tem uma organização forte essa força será sempre débil e sem condições de grandes enfrentamentos.

Vermelho: A questão da luta pela verdade no episódio dos ataques contra o PCdoB foi definida, na última reunião do Comitê Central do Partido, como prioridade. Como o Partido vai encarar essa tarefa?

Renato Rabelo: Nossa luta hoje é para repor a verdade. Essa é uma tarefa atual que não será deixada para segundo plano. Começando por demonstrar a inocência do ministro Orlando Silva, que é essencial. Vamos persistir e queremos demonstrar isso no menor tempo possível. Estamos com a verdade. Fomos vítimas de uma grande armação, de uma inquisição. Não podemos ficar submetidos a calúnias, mentiras e difamações como essas. Isso tudo leva o Partido a se levantar e foi por isso que o PCdoB se uniu.

Foi uma grande injustiça em uma situação muito desigual em que não tivemos o direito de defesa. Eles falavam para milhões e nós apenas para alguns milhares. Temos que fazer com que a verdade venha à luz do dia. Por isso todas as respostas políticas e orgânicas são importantes. O Partido crescer é uma grande resposta, termos uma grande vitória no pleito de 2012 é uma resposta. Alcançarmos um prestígio maior no seio dos movimentos sociais e sindicais, conseguirmos nos ligar mais ao povo e às massas, também são importantes respostas. Além, é claro, do terreno judicial para provar o mais rapidamente possível a inocência do ministro e a dignidade do Partido. Impetramos três ações e queremos que elas rapidamente sejam julgadas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Soberania e criminalidade

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


Em 1920 na Grande Depressão econômica as elites dos EUA em um dos seus recorrentes surtos de puritanismo hipócrita e eugenia sanitarista introduziram a famosa Lei Seca, para combater a pobreza e violência social que grassava no País.

Proibiu-se a fabricação, o comércio, a importação e o consumo de bebidas alcoólicas em território norte-americano o que durou exatos 13 anos.

Achavam que as chagas sociais tinham como causa principal o consumo de bebidas alcoólicas o que excluía portanto a miséria, o desemprego, a desestruturação do parque industrial, a quebradeira do comércio, a falência da agricultura, decorrentes da crise.

O resultado foi que nunca se bebeu tanto em toda a História dos Estados Unidos, o alcoolismo atingiu índices altíssimos, a violência explodiu com o fenômeno dos gangsterismo.

A História tem mostrado que os fatores de instabilidades psicossociais não resultam unicamente das realidades econômicas depressivas ou em nações estraçalhadas por guerras mas acontecem também nos Países em crescimento como o Brasil.

Por exemplo, os atuais episódios que estão ocorrendo em Maceió provocando o pânico generalizado da população, a queima de ônibus, notícias sobre arrastões no centro da cidade e bairros da capital nos leva à reflexão sobre o aumento do crime organizado am Alagoas mas que é uma realidade nacional incontestável.

O crescimento econômico do País, a inclusão social de milhões de pessoas não estão correspondendo a uma elevação do nível de satisfação espiritual e de civilização do povo, e a miséria generalizada, onde são recrutados os soldados rasos desse crime organizado, ainda é imensa.

Quando se tomam de assalto as favelas do Rio, incorrendo-se no erro de usar as forças armadas, as organizações criminosas buscam os elos mais débeis das estruturas de segurança como é o caso óbvio de Alagoas.

O crime organizado no Brasil só pode ser derrotado através de uma eficaz política nacional de segurança, na vigilância total das nossas fronteiras, na repressão ao tráfico de armas, na ação da Inteligência contra o bilionário e fagueiro trânsito dos narco-dólares no País.

É um grave problema de soberania que exige também muito investimento no combate aos abismos sociais que persistem. Caso contrário, o Estado brasileiro, a exemplo do México, será refém dessa vaga criminosa típica da nova era global.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Tendência ao fascismo

Meu artigo publicado na Gazeta de Alagoas, no Vermelho e na Tribuna do Sertão:


O Brasil se depara com a necessidade de adotar com urgência iniciativas na área econômica com vistas à retomada do ciclo de crescimento econômico que possibilitou a inserção de dezenas de milhões de trabalhadores na economia em um processo gigantesco de inclusão social.

Porém o País vem sofrendo um violento constrangimento moral, uma campanha ideológica, cultural e política com o objetivo de sustar o seu processo de desenvolvimento econômico-social através de uma agressiva agenda externa contrária aos objetivos estratégicos de nação próspera e socialmente avançada.

Essa plataforma anti-nacional, anti-popular, que vem sendo difundida pelos centros hegemônicos multimidiáticos internacionais está intimamente associada aos esforços de promover a criminalização generalizada do exercício da política, dos partidos e dos políticos.

Essas forças irmanadas às orientações neoliberais forâneas almejam o retrocesso, sonham com um tipo de gestão orientada pela banca especulativa global e um governo de tecnocratas oriundos dos grandes conglomerados financeiros mundiais.

Que é uma realidade na Europa em crise com a substituição de presidentes ou primeiros-ministros, mesmo aqueles de centro-direita ou direita, por executivos dos bancos de investimentos especulativos.

Já entre as propagandas bilionárias difundidas no Brasil pela chamada "governança global", da nova ordem mundial, está o ambientalismo fundamentalista, antropofóbico, adversário do desenvolvimento nacional.

Alheio ao fato de que há 36 milhões de pessoas no País sem acesso à água potável e 126 milhões que não possuem serviço de tratamento de esgoto, fatos que são causadores de terrível degradação humana e ambiental.

Mas esse ambientalismo fundamentalista persegue mesmo é um Brasil transformado em parque natural continental desprovido das condições infra-estruturais ao crescimento econômico soberano, que respeite a natureza, mas que elimine a pobreza e a violência social.

Os democratas, patriotas, progressistas, vão percebendo que a agenda multiculturalista da "governança global" pretende imobilizar a sociedade, diversionar a juventude, sustar o desenvolvimento nacional.

Esse tendência mundial de criminalização da política e a agenda ideológica, cultural, da nova ordem mundial são duas faces da mesma moeda, uma pressão de caráter fascista que se alastra no bojo da crise global do capitalismo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Mauro Santayana: O Brasil e os tempos de crise

No Vermelho o texto de Mauro Santayana:


Sarkozy teme que a Europa exploda, e quer uma solução urgente para o problema econômico do continente. O Tratado de Roma, de março de 1957, envelheceu. As confederações, e a Europa Unida é uma delas, têm a vigência das circunstâncias, amarradas ao perigo ou à esperança, mas se dissolvem quando um estado ou um grupo de estados pretendem nelas exercer a hegemonia.

Assim ocorreu com a Confederação de Delos, que havia unido o mundo grego contra os persas. Ela sucumbiu diante do imperialismo ateniense, que levou à Guerra do Peloponeso. A definitiva dissolução ocorreu com a invasão de Filipe da Macedônia, em 378 a.C. – e a Grécia, também nisso, foi um modelo de todas as confederações e impérios do Ocidente.

O mundo chegou a essa exasperação da crise por falta de estadistas. Chegamos a uma situação na qual Ângela Merkel e Sarkozy resolvem ditar o comportamento dos demais países da Europa, e encontram o contraponto de um velho rival histórico, a Inglaterra – também sob o poder nominal de outro governante medíocre, David Cameron. Todos eles estão fazendo de conta, porque quem está mandando não são eles: é o quase senhor do mundo, o Goldman Sachs Bank que, neste momento, exerce o poder de fato e de direito na Itália, com Mário Monti; na Grécia, com Lucas Papademos; e dirige a economia de todo o continente, mediante o Banco Central Europeu, com Mário Draghi. Todos os três são empregados do Goldman.

Houve, ontem, importante encontro no Itamaraty, promovido pelo Embaixador Gilberto Sabóia, presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, para discutir a atualidade das relações internacionais. Foram convidadas personalidades do mundo acadêmico, para tratar do assunto, sob o foco da crise política e econômica mundial. Na parte da manhã, que se concentrou nas relações diplomáticas e no estado político do mundo, intervieram os professores Carlos Milani, da Uerj; João Daniel de Almeida, da Universidade Cândido Mendes; Alcides da Costa Vaz e José Flávio Saraiva, da UNB. Na parte da tarde, dedicada aos aspectos econômicos da crise, falaram Antonio Correa de Lacerda, da PUC, de São Paulo; Antonio Jorge Ramalho Rocha, da UNB; Ricardo de Medeiros Carneiro, da Unicamp, e Márcio Pochmann, presidente do IPEA. Mas, mesmo as análises econômicas foram, como é natural, conduzidas pelas preocupações políticas.

A conclusão de quase todos os expositores é preocupante: temos que mobilizar a nação inteira, a fim de nos confrontar com o futuro em que todos os cenários de catástrofe são prováveis – entre eles os da guerra em prazo curto ou, se dela escaparmos, de nova configuração do poder que não nos serve – se a inteligência do mundo não optar pelo multilateralismo e a autodeterminação dos povos, como regra para a arbitragem dos conflitos.

O problema atual se iniciou com o fim da guerra fria, quando a desregulamentação transferiu para o poder financeiro as decisões políticas, com o esvaziamento dos estados nacionais. Para se ter uma idéia, o mercado de capitais, sob o domínio dos grandes bancos, movimenta hoje de 5 a 6 vezes o PIB mundial – e o de derivativos é também alucinante: seu volume é equivalente a 435 trilhões de dólares, ou seja cerca de 30 vezes o PIB dos Estados Unidos. As instituições criadas com o fim da 2ª Guerra Mundial perderam seu sentido, a partir do Acordo de Bretton Woods, que deixou de existir no momento em que se abandonou o padrão ouro como garantia do dólar norte-americano, por decisão unilateral de Washington. Isso trouxe, na definição de um dos participantes, tempestade de dólares sem lastro sobre o mundo.

A desregulamentação - com o fim do Welfare State - permitiu o desatino, de que hoje todos os povos são vítimas, entregues à voracidade do poder financeiro. Um poder financeiro ( e essa é a opinião do colunista, não do encontro) dominado por criminosos, como os já identificados de Wall Street, entre eles o ex-senador por Nova Iorque e ex-governador de Nova Jersey - depois de ter sido presidente do Goldman Sachs - Jon Corzine, que ontem pediu desculpas aos clientes de sua corretora MF Global. Diz não saber aonde foram parar mais de um bilhão de dólares dos recursos de seus clientes, que ele administrava.

As perspectivas não animam. No melhor dos cenários, como apontou o professor Medeiros Carneiro, a China e os Estados Unidos, em parceria, assumem o condomínio do mundo. No pior dos cenários, o futuro, como vem sendo, será decidido pelas armas.

De um modo geral todos concordaram que nós, brasileiros, temos agido no caminho certo. Mas ainda é pouco: é necessário investir pesado na educação. Temos muitas universidades e muitos alunos, mas, com a exceção dos centros de excelência das universidades públicas, a qualidade do ensino é lastimável. Como assinalou Pochmann, só temos 5% dos jovens na idade própria freqüentando as universidades, enquanto no Vietnã – massacrado e arrasado pelos norte-americanos – essa relação é de 34%. Como sabemos, o problema é de base: a educação elementar, no Brasil, é das piores do mundo.

Pochmann demonstrou que as grandes corporações associadas ao capital financeiro, dominam hoje o mundo: os ativos dessas grandes empresas transnacionais correspondem a 47% do PIB mundial. Não se subordinam aos estados nacionais: os estados nacionais é que se subordinam aos seus interesses.

O Embaixador Baena Soares, que moderou o encontro da manhã, lamentou a ausência da imprensa, em dois encontros internacionais ocorridos recentemente em Manaus, um deles entre todos os paises que compartilham da soberania amazônica. Em tom bem humorado, lamentou que Lady Gaga ali não estivesse, para atrair todos os grandes meios de comunicação. No encontro de ontem, no Itamaraty, estava presente um atento jornalista chinês, o que não deixa de ser uma advertência.