sexta-feira, 28 de setembro de 2018
O “mercado” defende os seus, por André Araújo
Nos países centrais do capitalismo, Estados Unidos e Reino Unido, não passa pela cabeça de um jornalista político de primeira linha procurar saber a opinião de um rapaz da bolsa sobre eleições para chefe de governo ou chefe de Estado. O “mercado” "NÃO" é um ator político.
A política se define no mundo político, não na bolsa, o espaço da política é muito mais importante e não se sustenta nos “mercados” e sim em plataformas mais altas.
A pobreza da vida política brasileira, desde o Governo Collor, fez desaparecer o time dos políticos de primeira linha e com isso subiram ao pódio atores secundários, coadjuvantes, simples figurantes, a quem ninguém no passado pedia opinião porque essa não tinha importância alguma, faltava a sabedoria, a qualidade, a legitimidade.
Hoje nos comentários políticos chama-se o “mercado” a opinar, como se fossem deuses.
Mas qual mercado? Há muitos e variados e eles não falam uma só língua. O agronegócio tem sua lógica, os caminhoneiros tem outra e contraria, qual prevalece? Quem é importador tem um tipo de interesse, quem exporta tem outro, quem fabrica quer uma política, quem distribui quer outra, o construtor de imóveis quer crédito barato, o aplicador quer juro alto.
Nos anos Vargas e JK o que hoje se chama “mercados” eram então as CLASSES PRODUTORAS.
Eram os grandes industriais e comerciantes, que se contrapunham à CLASSE TRABALHADORA.
Tratava-se de figuras de peso e consistência, capitães de indústria como se falava, experientes, sofisticados, refinados muitas vezes, suas mulheres eram as mais elegantes, gente traquejada nos negócios e na vida. Eram ouvidos com respeito, mas o mundo da política era outro e não se movia a não ser lateralmente por essas vozes e nem girava em torno delas.
Hoje a mídia econômica trata o mercado pelo que ele não é, o mercado NÃO é a plataforma onde se administram os interesses do País, nem os “investidores” que o mercado representa, o que no Brasil se considera “o mercado” são agentes dos investidores e não os próprios. Esse ente coletivo NÃO tem a compreensão e nem a dimensão de todos os interesses do País, quem vê o País como um todo, como um conjunto de interesses, valores e estratégias é o ESTADO.
Quando Trump, certo ou errado, age contra as exportações chinesas ele está visando o interesse do País como um todo e não apenas o interesse das companhias globalizadas que preferem um mercado americano aberto ao que vem de suas fábricas na China. Não é problemas dessas empresas os desempregos que os produtos chineses geram dentro dos Estados Unidos, mas é problema do Presidente, ele foi eleito por causa desse problema.
Não tem sentido se tentar no Brasil colocar “o mercado” como árbitro de eleição. É uma diminuição, um apequenamento da questão nacional, muito maior que o “mercado”, que nesse contexto é apenas a plataforma de capital volátil que circula pelo mundo e dá uma parada no Brasil. NÃO é definitivamente a estação onde desembarcam as empresas da economia produtiva que interessam ao Brasil e que aqui aportaram mesmo nos momentos de mais alta inflação MAS com crescente demanda de seus produtos no Pais. Algumas empresas como GM, Ford, Siemens, Lever, Goodyear, Abbott, Lilly, Exxon, Shell, estão no Brasil a bem mais de CEM anos, esse é o investidor que interessa ao Brasil e que não é entrevistado pelos comentaristas econômicos da mídia ignorante, esse investidor não está todo dia em eventos frequentados pela mídia, não é disponível para dar entrevistas a qualquer hora.
Então a mídia se encosta nas corretoras, gestoras e bancos de investimento como SE esses personagens fossem a economia do País. ELES NÃO SÃO, é apenas um pedaço visível e nunca o maior da economia, muito mais complexa do que a Av. Faria Lima e o Leblon.
Hoje os comentaristas econômicos alardeiam aos quatro ventos que foram a eventos onde ouviram o que pensa o mercado sobre esse ou aquele candidato, sua opinião pesa enormemente, não é apenas uma cortesia ouvi-los. Que pequenez, que pobreza, que coisa micha, minúscula, medíocre, de pé de chinelo, a política cruzando talheres com cambistas.
QUAL É O MERCADO QUE SE OUVE?
O chamado “mercado” consultado com reverência pela mídia é o MERCADO ESPECULATIVO de ações e câmbio, são os “rapazes da bolsa” cujo ÚNICO interesse é o deles, só eles.
Não estão nem aí para o País, para os desempregados, para os pobres biscateiros, para as periferias, para o futuro dos jovens sem futuro, nem para o País que legarão a seus filhos.
A “meta” (eles adoram metas) deles é ganhar os tubos no mercado aqui e dar o “bye bye Brazil”, mudando eles e suas peruas para Miami, com o dinheiro lavado aqui.
Não lhes passa pela cabeça e não tem o mínimo interesse pela indústria e empregos no Brasil, pela educação no Brasil, pelo sistema de saúde publica no Brasil, pelas carências de saneamento e infra estrutura no Brasil, nada disso interessa, o negócio deles é o “eu mesmo”.
É esse o mercado aloprado, badalado e consultado pelas Veras, Elianes, Andreias, Denises, é a opinião deles sobre os candidatos que elas querem ouvir. Pobre Brasil, um grande País que se encolheu na mão de gente pequena e insignificante, inculta, sem grandeza e sem visão.
Enquanto isso, Rússia, China e Índia crescem como potências porque o Estado deles é respeitado, a visão de Pais e de povo é central na política, a sociedade se orgulha de sua cultura, de seus costumes, de sua língua, de sua música, de seus projetos de Pais. O Brasil está ameaçado de cair na lata do lixo da História, acontecimento que será reportado pela GLOBONEWS com direito a luzes e show de tolices, enquanto o mercado especula com a desgraça do Brasil menor, trilha de passagem dos fundos especulativos globais.
O Brasil está na categoria dos grandes países continentais com projeção de poder estratégico por sua expressão territorial, demográfica, econômica, cultural e ecológica, é preciso que haja consciência de sua dimensão muito acima e além de ser apenas um simples mercado.
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
O Manifesto em defesa da nação
Republicamos para uma profunda reflexão o Manifesto à nação de 6 de junho de 2017 escrito pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, subscrito por milhares de personalidades e segmentos da vida pública brasileira.
A atualidade do Manifesto à nação diante do agravamento da crise política, econômica e institucional é candente.
Da sua publicação inicial aos dias atuais, a crise multilateral que se abate sobre o País agravou-se intensamente.
A união do povo brasileiro em defesa do Brasil, da democracia, da soberania nacional, da justiça social, da sua identidade cultural torna-se ainda mais premente.
O País necessita da união nacional da sociedade, na convivência dos contrários, da tolerância no convívio democrático, ou ao que tudo indica vai marchar para um clima de radicalismos polarizado em posições extremadas e irreconciliáveis, que nos conduzirá ao agravamento dos múltiplos fatores de instabilidades que hoje presenciamos. O manifesto em si mesmo dispensa outras apresentações .
MANIFESTO PELA UNIÃO NACIONAL
“Não precisa o Brasil ser dividido, é melhor união progresso e paz”
(Geraldo Amancio, poeta e repentista)
O Brasil vive grave e profunda crise, que ameaça seu futuro de Nação livre, próspera e soberana. O esforço de nossos antepassados, sem temer sacrifícios nem renúncias para construir a País é posto à prova pela atual desorientação sobre que rumos seguir para ampliar a independência e a autonomia nacionais, elevar o bem-estar material e espiritual da população e proteger o convívio democrático entre os brasileiros. As rupturas operadas na ordem institucional geraram um quadro de aguda polarização, agravado pela recessão econômica, pelos altos níveis de desemprego e subemprego, e pela violência em suas variadas formas. A sociedade brasileira encontra-se dividida, desorientada e desalentada, com sua agenda pautada por atores e interesses minoritários, e mesmo antinacionais, ambiente ideal para a proliferação de várias formas de morbidez social, entre elas a corrupção.
Somente a união de amplas forças políticas, econômicas e sociais, em torno de uma proposta de reconstrução e afirmação nacional, pode abrir caminho para a superação da crise atual. Tal proposta não pode ser apenas uma plataforma de metas econômicas e sociais, mas deve buscar sua inspiração no estado de espírito capaz de mobilizar amplamente os diversos atores da sociedade, com o objetivo comum de ver o País progredir de forma que os benefícios do desenvolvimento sejam percebidos por todos eles, levando-os a se sentirem como seus protagonistas ativos. Este projeto exige como pressuposto que a defesa e o desenvolvimento do Brasil sejam o fundamento para assegurar a efetiva expansão dos direitos sociais e da democracia.
A elaboração e implantação do projeto de construção e afirmação nacional não poderão limitar-se à classe política, mas terão que ser compartilhadas pelos mais diversos segmentos representativos da sociedade. Isto exige o afastamento de toda sorte de preconceitos motivados por ideologias e maniqueísmos, que se mostram insuficientes e limitados para permitir o entendimento da situação. Acima de tudo, é necessário abandonar a enganosa dicotomia entre Estado e Mercado, que tem servido apenas para mascarar a captura das estruturas do primeiro por coalizões de interesses particulares, substituindo-a por uma eficiente cooperação entre o poder público e a iniciativa privada, em prol do bem comum, como ocorreu e ocorre em todos os países que conseguiram enfrentar e remover os desafios no caminho do desenvolvimento duradouro e sustentável.
As gerações que nos antecederam ergueram material e espiritualmente o Brasil, em quatro grandes movimentos, a saber:
1) a formação da base física, a conformação do território, do ano zero de 1500 e da originária Terra de Santa Cruz, ao Tratado de Madrid, em 1750, que configurou de forma aproximada as atuais fronteiras nacionais e iniciou o processo de mestiçagem que caracterizou a formação social brasileira.
2) a epopeia da Independência, consolidada em 1822, representada nas figuras luminares de Tiradentes e José Bonifácio, Patriarca idealizador de um projeto de Nação que ainda guarda grande atualidade.
3) a fase da defesa e manutenção da unidade territorial, com D.Pedro I e D.Pedro II e que se encerra com a libertação dos escravos em 1888;
4) a República proclamada por Deodoro da Fonseca e consolidada por Floriano Peixoto, que tem o apogeu em Getúlio Vargas e seu ambicioso programa de industrialização e modernização do Estado, pondo em prática aspirações anteriores dos movimentos Sanitarista, Tenentista e da Nova Educação. A partir de Vargas o Brasil oscilou ao sabor das correntes varguista e anti-varguista, até os nossos dias.
Hoje, nos marcos da economia globalizada e com o País em condições mais favoráveis que no passado, temos a missão de iniciar um novo projeto nacional, o quinto movimento, em três direções e três objetivos:
1) ampliar a soberania nacional com o pleno desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e dos meios de defesa do País;
2) elevar a qualidade de vida do povo brasileiro com a redução das desigualdades sociais; proteção da infância e da maternidade, acesso à educação de qualidade, saúde e saneamento básico; combate sem tréguas ao crime organizado e valorização da segurança pública contra o banditismo em todas as suas formas;
3) fortalecer a democracia e a tolerância na convivência entre os brasileiros, com realização de uma reforma política que liberte nosso sistema político do controle de interesses corporativos e oligárquicos e assegure o predomínio dos grandes debates dos temas nacionais na esfera pública.
A crise nacional acontece em meio a um quadro global de mudança de época, marcado por:
a) agravamento das consequências socioeconômicas negativas da globalização dirigida pelas finanças especulativas internacionais;
b) alteração do eixo geoeconômico mundial para a Eurásia-Pacífico;
c) emergência de um cenário de poder multipolar, em contraposição à unipolaridade do período posterior ao fim da Guerra Fria;
d) novas revoluções científicas e tecnológicas e rápida introdução de tecnologias inovadoras (Quarta Revolução Industrial), com profundos impactos sobre as formas de produção de bens e serviços, níveis de emprego, relações de trabalho, qualificação da força de trabalho e as próprias relações sociais em geral.
Todos esses aspectos terão influência determinante para o necessário projeto nacional brasileiro, que, por sua vez, é condição decisiva para exercer influência sobre a dinâmica global. Por isso o projeto nacional brasileiro precisa contemplar a relevância continental do País, que ocupa metade da América do Sul, representa cerca de 50% da economia da região, faz fronteira com dez outros países e representa a força motriz potencial para a integração física e econômica do subcontinente. O Brasil deve assumir definitivamente o papel de liderança benigna e não hegemônica do bloco sul-americano, dando-lhe “massa crítica” para participar de forma eficaz e positiva na reconstrução da ordem mundial que está em marcha.
É fundamental que o sistema financeiro reoriente seus esforços para estimular e apoiar as atividades produtivas. Os títulos da dívida pública não podem continuar sendo o investimento mais rentável do País, como ocorreu no período de 2001-2016, muito acima de qualquer atividade produtiva. A aspiração ao desenvolvimento não pode ser bloqueada pelos interesses rentistas locais ou estrangeiros.
A reversão da desindustrialização que afeta o País é crucial. O Brasil tem regredido dramaticamente em capacidade industrial, principalmente no segmento de alta tecnologia, impactando as camadas médias da sociedade, com a perda de empregos qualificados e de melhor remuneração. A despeito da rapidez do processo, ainda temos uma das dez maiores e mais diversificadas bases industriais do mundo. Além de recuperar a capacidade produtiva, é determinante requalificar todo o setor industrial para enfrentar o desafio da Quarta Revolução Industrial, baseada em elevados índices de automação e conectividade, e intenso fluxo de inovações tecnológicas de ponta.
A retomada do desenvolvimento brasileiro exige a estruturação de cadeias produtivas de maior valor agregado baseadas em conhecimento nacional. Isto, por sua vez, requer a ampliação dos investimentos públicos e privados em todas as dimensões da educação e geração do conhecimento e de sua aplicação inovadora na economia nacional, incluindo o apoio efetivo e criterioso à capacitação e elevação da produtividade das empresas nacionais. O Estado Nacional deverá passar também por uma profunda reforma que incorpore e internalize no seu sistema de controles o princípio da incerteza que rege a descoberta científica e a dinâmica da inovação, de forma a não travar a atividade de pesquisa ou inibir a criatividade do empreendedor.
Aos alarmantes índices de deficiências educacionais da população matriculada na rede de ensino, soma-se a crescente degradação do ambiente escolar, com o aumento da violência e o abandono das noções de disciplina e hierarquia, sem as quais o esforço de aprendizagem está fadado ao fracasso. A realidade tem demonstrado que além da destinação de recursos é urgente a retomada da questão educacional como prioridade central do Estado, que deve protegê-la dos vícios do corporativismo, enaltecer o papel do professor e restaurar sua autoridade dentro da sala de aula e na sociedade.
A agricultura, a pecuária e a agroindústria constituem ativos econômicos, sociais, culturais e geopolíticos de grande importância para o Brasil. Mesmo enfrentando a forte e subsidiada concorrência dos criadores e agricultores europeus e norte-americanos, nossos, pequenos, médios e grandes produtores abastecem o mercado interno e ganham cada vez mais espaço no comércio mundial de alimentos. O status de grande produtor de grãos e proteína gera para o Brasil, além de divisas, respeito crescente num mundo cada vez mais carente de segurança alimentar. O Brasil deve valorizar social e culturalmente seus trabalhadores, criadores e produtores rurais, protegê-los com financiamento, crédito e seguro; destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação para melhorar a produtividade de todas as atividades a eles relacionadas.
As Forças Armadas são instituições fundadoras da nacionalidade e do Estado Nacional e cumprem a dupla missão de defender e construir o País. Do programa nuclear ao nosso primeiro computador, da pesquisa espacial, indústria aeronáutica e defesa cibernética, as instituições armadas têm cumprido papel de vanguarda e pioneirismo. Cumprem missão humanitária socorrendo os índios e ribeirinhos da Amazônia ou as vítimas da seca no sertão nordestino sem perder o etos de organização de combate e de defesa da Pátria.
Portanto, é preciso valorizar e reconhecer as Forças Armadas brasileiras, seus feitos e seus heróis, seus valores, patriotismo e elevado espírito de generosidade e solidariedade para com a comunidade. Tal atitude deve ter sentido educativo para as crianças e para a juventude exposta ao ambiente de corrosão dos valores da nacionalidade com que convivemos no dia a dia.
A política ambiental deve refletir um real compromisso com o desenvolvimento sustentável do País, em vez de simplesmente se enquadrar em agendas formuladas por atores e interesses externos. Entre outras prioridades, deverá enfocar as deficiências em saneamento básico, disposição de lixo, ocupação irregular de áreas de risco, e a ampliação da infraestrutura de previsão e resposta a emergências causadas por fenômenos naturais.
Da mesma forma, é preciso uma urgente redefinição da política para as populações indígenas, compatibilizando-a com o direito de toda a população a uma evolução civilizatória digna, respeitando-se as suas tradições culturais e sua contribuição decisiva para a constituição da identidade nacional. Somente assim será possível assegurar-lhes uma integração gradativa à sociedade nacional, como cidadãos plenos e aptos a dispensar, eventualmente, a tutela permanente do Estado.
Alvo de pressões e cobiça internacional, a Amazônia clama por ações efetivas de controle e afirmação da soberania sobre seu imenso território, e por políticas públicos de estímulo e apoio ao seu desenvolvimento e de proteção de suas populações indígenas e ribeirinhas e da biodiversidade.
Nossa produção artística e cultural, em sintonia com os grandes movimentos da Nação, inventou o Brasil ao longo da sua história. É importante defender e promover o rico e variado patrimônio cultural da Nação brasileira, sua língua, suas tradições e múltiplas manifestações, sua criatividade e seu potencial de desenvolvimento econômico, enfrentando as práticas concentradoras e restritivas dos grandes conglomerados internacionais da mídia e da internet.
O Brasil deve promover e exaltar a participação da mulher na construção do País e reconhecer em nossas antepassadas indígenas, africanas e europeias relevante papel na constituição da Nação e na formação da identidade do povo brasileiro.
A luta sem trégua contra o preconceito racial no Brasil se impõe pela valorização da herança e contribuição africana na formação da cultura e da identidade nacional brasileira e pela celebração da mestiçagem como traço decisivo de nosso legado civilizatório. Devemos repudiar qualquer tentativa de se introduzir no Brasil modelos importados de sociedades que institucionalizaram o racismo em suas relações sociais.
O combate à corrupção deve ser um objetivo permanente da sociedade e do Estado, mas não se pode paralisar o País a pretexto de se eliminar um mal que é endêmico nas economias de todo o mundo.
O Brasil precisa voltar a crescer. Esta é a questão central. Não há como sanear as finanças públicas sem que a economia cresça e a arrecadação tributária aumente. Não há como se negar que o Brasil precisa de reformas que corrijam distorções, eliminem privilégios corporativos, facilitem a empregabilidade e o funcionamento da economia. Mas não haverá equilíbrio da Previdência se não houver emprego e arrecadação. Não haverá reforma que convença o empreendedor privado a investir se não houver perspectiva de demanda. E para o Brasil voltar a crescer, o primeiro consenso a ser alcançado é que todos se convençam disso. Nenhum homem ou mulher de boa vontade irá se opor a algum sacrifício se isso significar esperança para si e futuro para seus filhos. Mas todos precisam abrir mão de alguma coisa. São inaceitáveis reformas que descarreguem o peso do ajuste sobre os ombros dos mais fracos e protejam os interesses de grupos elitistas que concentram o patrimônio nacional.
O Brasil é um País rico, principalmente em recursos humanos. Se todos puderem compartilhar do desenvolvimento dessa riqueza ele será mais próspero e feliz. Ninguém é contra que os mais capazes e talentosos se enriqueçam. Ninguém é contra que quem empreenda tenha a justa recompensa pelo seu esforço. Mas o Brasil não precisa, não deve e não pode ser tão desigual. Esse é o grande acordo que precisa se estabelecer na sociedade brasileira. É em torno desse ideal transcendente de grandeza nacional e de justiça que devem se unir os brasileiros de todas as classes, profissões, origens, condições sociais e credos.
A atualidade do Manifesto à nação diante do agravamento da crise política, econômica e institucional é candente.
Da sua publicação inicial aos dias atuais, a crise multilateral que se abate sobre o País agravou-se intensamente.
A união do povo brasileiro em defesa do Brasil, da democracia, da soberania nacional, da justiça social, da sua identidade cultural torna-se ainda mais premente.
O País necessita da união nacional da sociedade, na convivência dos contrários, da tolerância no convívio democrático, ou ao que tudo indica vai marchar para um clima de radicalismos polarizado em posições extremadas e irreconciliáveis, que nos conduzirá ao agravamento dos múltiplos fatores de instabilidades que hoje presenciamos. O manifesto em si mesmo dispensa outras apresentações .
MANIFESTO PELA UNIÃO NACIONAL
“Não precisa o Brasil ser dividido, é melhor união progresso e paz”
(Geraldo Amancio, poeta e repentista)
O Brasil vive grave e profunda crise, que ameaça seu futuro de Nação livre, próspera e soberana. O esforço de nossos antepassados, sem temer sacrifícios nem renúncias para construir a País é posto à prova pela atual desorientação sobre que rumos seguir para ampliar a independência e a autonomia nacionais, elevar o bem-estar material e espiritual da população e proteger o convívio democrático entre os brasileiros. As rupturas operadas na ordem institucional geraram um quadro de aguda polarização, agravado pela recessão econômica, pelos altos níveis de desemprego e subemprego, e pela violência em suas variadas formas. A sociedade brasileira encontra-se dividida, desorientada e desalentada, com sua agenda pautada por atores e interesses minoritários, e mesmo antinacionais, ambiente ideal para a proliferação de várias formas de morbidez social, entre elas a corrupção.
Somente a união de amplas forças políticas, econômicas e sociais, em torno de uma proposta de reconstrução e afirmação nacional, pode abrir caminho para a superação da crise atual. Tal proposta não pode ser apenas uma plataforma de metas econômicas e sociais, mas deve buscar sua inspiração no estado de espírito capaz de mobilizar amplamente os diversos atores da sociedade, com o objetivo comum de ver o País progredir de forma que os benefícios do desenvolvimento sejam percebidos por todos eles, levando-os a se sentirem como seus protagonistas ativos. Este projeto exige como pressuposto que a defesa e o desenvolvimento do Brasil sejam o fundamento para assegurar a efetiva expansão dos direitos sociais e da democracia.
A elaboração e implantação do projeto de construção e afirmação nacional não poderão limitar-se à classe política, mas terão que ser compartilhadas pelos mais diversos segmentos representativos da sociedade. Isto exige o afastamento de toda sorte de preconceitos motivados por ideologias e maniqueísmos, que se mostram insuficientes e limitados para permitir o entendimento da situação. Acima de tudo, é necessário abandonar a enganosa dicotomia entre Estado e Mercado, que tem servido apenas para mascarar a captura das estruturas do primeiro por coalizões de interesses particulares, substituindo-a por uma eficiente cooperação entre o poder público e a iniciativa privada, em prol do bem comum, como ocorreu e ocorre em todos os países que conseguiram enfrentar e remover os desafios no caminho do desenvolvimento duradouro e sustentável.
As gerações que nos antecederam ergueram material e espiritualmente o Brasil, em quatro grandes movimentos, a saber:
1) a formação da base física, a conformação do território, do ano zero de 1500 e da originária Terra de Santa Cruz, ao Tratado de Madrid, em 1750, que configurou de forma aproximada as atuais fronteiras nacionais e iniciou o processo de mestiçagem que caracterizou a formação social brasileira.
2) a epopeia da Independência, consolidada em 1822, representada nas figuras luminares de Tiradentes e José Bonifácio, Patriarca idealizador de um projeto de Nação que ainda guarda grande atualidade.
3) a fase da defesa e manutenção da unidade territorial, com D.Pedro I e D.Pedro II e que se encerra com a libertação dos escravos em 1888;
4) a República proclamada por Deodoro da Fonseca e consolidada por Floriano Peixoto, que tem o apogeu em Getúlio Vargas e seu ambicioso programa de industrialização e modernização do Estado, pondo em prática aspirações anteriores dos movimentos Sanitarista, Tenentista e da Nova Educação. A partir de Vargas o Brasil oscilou ao sabor das correntes varguista e anti-varguista, até os nossos dias.
Hoje, nos marcos da economia globalizada e com o País em condições mais favoráveis que no passado, temos a missão de iniciar um novo projeto nacional, o quinto movimento, em três direções e três objetivos:
1) ampliar a soberania nacional com o pleno desenvolvimento econômico, científico, tecnológico e dos meios de defesa do País;
2) elevar a qualidade de vida do povo brasileiro com a redução das desigualdades sociais; proteção da infância e da maternidade, acesso à educação de qualidade, saúde e saneamento básico; combate sem tréguas ao crime organizado e valorização da segurança pública contra o banditismo em todas as suas formas;
3) fortalecer a democracia e a tolerância na convivência entre os brasileiros, com realização de uma reforma política que liberte nosso sistema político do controle de interesses corporativos e oligárquicos e assegure o predomínio dos grandes debates dos temas nacionais na esfera pública.
A crise nacional acontece em meio a um quadro global de mudança de época, marcado por:
a) agravamento das consequências socioeconômicas negativas da globalização dirigida pelas finanças especulativas internacionais;
b) alteração do eixo geoeconômico mundial para a Eurásia-Pacífico;
c) emergência de um cenário de poder multipolar, em contraposição à unipolaridade do período posterior ao fim da Guerra Fria;
d) novas revoluções científicas e tecnológicas e rápida introdução de tecnologias inovadoras (Quarta Revolução Industrial), com profundos impactos sobre as formas de produção de bens e serviços, níveis de emprego, relações de trabalho, qualificação da força de trabalho e as próprias relações sociais em geral.
Todos esses aspectos terão influência determinante para o necessário projeto nacional brasileiro, que, por sua vez, é condição decisiva para exercer influência sobre a dinâmica global. Por isso o projeto nacional brasileiro precisa contemplar a relevância continental do País, que ocupa metade da América do Sul, representa cerca de 50% da economia da região, faz fronteira com dez outros países e representa a força motriz potencial para a integração física e econômica do subcontinente. O Brasil deve assumir definitivamente o papel de liderança benigna e não hegemônica do bloco sul-americano, dando-lhe “massa crítica” para participar de forma eficaz e positiva na reconstrução da ordem mundial que está em marcha.
É fundamental que o sistema financeiro reoriente seus esforços para estimular e apoiar as atividades produtivas. Os títulos da dívida pública não podem continuar sendo o investimento mais rentável do País, como ocorreu no período de 2001-2016, muito acima de qualquer atividade produtiva. A aspiração ao desenvolvimento não pode ser bloqueada pelos interesses rentistas locais ou estrangeiros.
A reversão da desindustrialização que afeta o País é crucial. O Brasil tem regredido dramaticamente em capacidade industrial, principalmente no segmento de alta tecnologia, impactando as camadas médias da sociedade, com a perda de empregos qualificados e de melhor remuneração. A despeito da rapidez do processo, ainda temos uma das dez maiores e mais diversificadas bases industriais do mundo. Além de recuperar a capacidade produtiva, é determinante requalificar todo o setor industrial para enfrentar o desafio da Quarta Revolução Industrial, baseada em elevados índices de automação e conectividade, e intenso fluxo de inovações tecnológicas de ponta.
A retomada do desenvolvimento brasileiro exige a estruturação de cadeias produtivas de maior valor agregado baseadas em conhecimento nacional. Isto, por sua vez, requer a ampliação dos investimentos públicos e privados em todas as dimensões da educação e geração do conhecimento e de sua aplicação inovadora na economia nacional, incluindo o apoio efetivo e criterioso à capacitação e elevação da produtividade das empresas nacionais. O Estado Nacional deverá passar também por uma profunda reforma que incorpore e internalize no seu sistema de controles o princípio da incerteza que rege a descoberta científica e a dinâmica da inovação, de forma a não travar a atividade de pesquisa ou inibir a criatividade do empreendedor.
Aos alarmantes índices de deficiências educacionais da população matriculada na rede de ensino, soma-se a crescente degradação do ambiente escolar, com o aumento da violência e o abandono das noções de disciplina e hierarquia, sem as quais o esforço de aprendizagem está fadado ao fracasso. A realidade tem demonstrado que além da destinação de recursos é urgente a retomada da questão educacional como prioridade central do Estado, que deve protegê-la dos vícios do corporativismo, enaltecer o papel do professor e restaurar sua autoridade dentro da sala de aula e na sociedade.
A agricultura, a pecuária e a agroindústria constituem ativos econômicos, sociais, culturais e geopolíticos de grande importância para o Brasil. Mesmo enfrentando a forte e subsidiada concorrência dos criadores e agricultores europeus e norte-americanos, nossos, pequenos, médios e grandes produtores abastecem o mercado interno e ganham cada vez mais espaço no comércio mundial de alimentos. O status de grande produtor de grãos e proteína gera para o Brasil, além de divisas, respeito crescente num mundo cada vez mais carente de segurança alimentar. O Brasil deve valorizar social e culturalmente seus trabalhadores, criadores e produtores rurais, protegê-los com financiamento, crédito e seguro; destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação para melhorar a produtividade de todas as atividades a eles relacionadas.
As Forças Armadas são instituições fundadoras da nacionalidade e do Estado Nacional e cumprem a dupla missão de defender e construir o País. Do programa nuclear ao nosso primeiro computador, da pesquisa espacial, indústria aeronáutica e defesa cibernética, as instituições armadas têm cumprido papel de vanguarda e pioneirismo. Cumprem missão humanitária socorrendo os índios e ribeirinhos da Amazônia ou as vítimas da seca no sertão nordestino sem perder o etos de organização de combate e de defesa da Pátria.
Portanto, é preciso valorizar e reconhecer as Forças Armadas brasileiras, seus feitos e seus heróis, seus valores, patriotismo e elevado espírito de generosidade e solidariedade para com a comunidade. Tal atitude deve ter sentido educativo para as crianças e para a juventude exposta ao ambiente de corrosão dos valores da nacionalidade com que convivemos no dia a dia.
A política ambiental deve refletir um real compromisso com o desenvolvimento sustentável do País, em vez de simplesmente se enquadrar em agendas formuladas por atores e interesses externos. Entre outras prioridades, deverá enfocar as deficiências em saneamento básico, disposição de lixo, ocupação irregular de áreas de risco, e a ampliação da infraestrutura de previsão e resposta a emergências causadas por fenômenos naturais.
Da mesma forma, é preciso uma urgente redefinição da política para as populações indígenas, compatibilizando-a com o direito de toda a população a uma evolução civilizatória digna, respeitando-se as suas tradições culturais e sua contribuição decisiva para a constituição da identidade nacional. Somente assim será possível assegurar-lhes uma integração gradativa à sociedade nacional, como cidadãos plenos e aptos a dispensar, eventualmente, a tutela permanente do Estado.
Alvo de pressões e cobiça internacional, a Amazônia clama por ações efetivas de controle e afirmação da soberania sobre seu imenso território, e por políticas públicos de estímulo e apoio ao seu desenvolvimento e de proteção de suas populações indígenas e ribeirinhas e da biodiversidade.
Nossa produção artística e cultural, em sintonia com os grandes movimentos da Nação, inventou o Brasil ao longo da sua história. É importante defender e promover o rico e variado patrimônio cultural da Nação brasileira, sua língua, suas tradições e múltiplas manifestações, sua criatividade e seu potencial de desenvolvimento econômico, enfrentando as práticas concentradoras e restritivas dos grandes conglomerados internacionais da mídia e da internet.
O Brasil deve promover e exaltar a participação da mulher na construção do País e reconhecer em nossas antepassadas indígenas, africanas e europeias relevante papel na constituição da Nação e na formação da identidade do povo brasileiro.
A luta sem trégua contra o preconceito racial no Brasil se impõe pela valorização da herança e contribuição africana na formação da cultura e da identidade nacional brasileira e pela celebração da mestiçagem como traço decisivo de nosso legado civilizatório. Devemos repudiar qualquer tentativa de se introduzir no Brasil modelos importados de sociedades que institucionalizaram o racismo em suas relações sociais.
O combate à corrupção deve ser um objetivo permanente da sociedade e do Estado, mas não se pode paralisar o País a pretexto de se eliminar um mal que é endêmico nas economias de todo o mundo.
O Brasil precisa voltar a crescer. Esta é a questão central. Não há como sanear as finanças públicas sem que a economia cresça e a arrecadação tributária aumente. Não há como se negar que o Brasil precisa de reformas que corrijam distorções, eliminem privilégios corporativos, facilitem a empregabilidade e o funcionamento da economia. Mas não haverá equilíbrio da Previdência se não houver emprego e arrecadação. Não haverá reforma que convença o empreendedor privado a investir se não houver perspectiva de demanda. E para o Brasil voltar a crescer, o primeiro consenso a ser alcançado é que todos se convençam disso. Nenhum homem ou mulher de boa vontade irá se opor a algum sacrifício se isso significar esperança para si e futuro para seus filhos. Mas todos precisam abrir mão de alguma coisa. São inaceitáveis reformas que descarreguem o peso do ajuste sobre os ombros dos mais fracos e protejam os interesses de grupos elitistas que concentram o patrimônio nacional.
O Brasil é um País rico, principalmente em recursos humanos. Se todos puderem compartilhar do desenvolvimento dessa riqueza ele será mais próspero e feliz. Ninguém é contra que os mais capazes e talentosos se enriqueçam. Ninguém é contra que quem empreenda tenha a justa recompensa pelo seu esforço. Mas o Brasil não precisa, não deve e não pode ser tão desigual. Esse é o grande acordo que precisa se estabelecer na sociedade brasileira. É em torno desse ideal transcendente de grandeza nacional e de justiça que devem se unir os brasileiros de todas as classes, profissões, origens, condições sociais e credos.
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Mares e alfinetes
Meu novo artigo:
O cientista, astrofísico Carl Sagan, 1934-1996, muito popular durante a segunda metade do século XX, âncora de um programa de televisão sobre astronomia, Cosmos, costumava afirmar: eu não sei para onde vou, mas sei que estou a caminho.
Há um provérbio árabe que diz: Quem espalha alfinetes não deve andar descalço.
Essas duas sábias observações, vindas de culturas e épocas distintas expressam, paradoxalmente, situações como o momento que vive o Brasil. Podemos dizer que não é só o País, mas uma tendência mundial.
Isso é verdade, mas não explica as nossas atuais especificidades como nação, e de todas as demais, que possui a sua própria formação cultural e Histórica.
As atuais eleições no País são uma representação objetiva de uma sociedade desorientada que não sabe para onde vai, polarizada em ódios e sectarismos difusos, sem causas relevantes para o bem maior da sociedade, submetida a uma Guerra Híbrida cuja função principal é a fratura do nosso corpo social.
Nessas condições, o fanatismo conduzido através de um primarismo emocional dá a tônica ao Não Debate político e eleitoral, salutar em qualquer sociedade democrática que se preze.
Apesar das evidentes consequências provocadas pela conhecida Guerra Híbrida, que substitui a guerra convencional armada contra outro País, com o potencial de destruí-lo sem a necessidade de se dar um único tiro, muito menos de uma única baixa do exército invasor, há outras razões que também explicam o desnorteamento nacional.
Quando não se sabe que se está a caminho, como disse Carl Sagan, a tendência é o predomínio do pragmatismo absoluto, sem rumos ou projetos que orientem a nação, os indivíduos e as sociedades.
Como um veterano das lutas de esquerda, nacionalista e democrática, vejo, com responsabilidade, essa desorientação que atingiu os principais espectros das forças políticas da nação.
Daí que, sem projetos, assoma o radicalismo estéril, a retórica rasa em campos antagônicos que se retroalimentam um precisando do outro para se afirmar em ideologismos, o que não é igual a Ideologia.
A especulação financeira, de outro lado, impõe para os seus interesses de lucros estratosféricos uma agenda diversionista, do Politicamente Correto, com vistas a fraturar a sociedade.
Esse é em resumo o retrato das eleições presidenciais: a Guerra Híbrida, as ações da agenda global do Mercado rentista, a ausência de amplos caminhos das forças políticas.
Por isso surge com força o ódio, a intolerância, e por trás da retórica da “convicção” que exclui qualquer outro ponto de vista, há na política a prática que espelha o utilitarismo exclusivista e, por mais contraditório que pareça, o Conformismo com a atual sociedade, o País e até mesmo como indivíduo.
Nesse cenário a democracia vem sendo solapada passo a passo, até porque quem ganhar as eleições não será reconhecido pela outra parcela da população, apesar do pronunciamento do presidente do STF, Dias Toffoli, o que contraria as regras básicas de uma sociedade democrática.
O Brasil é inevitável pelo seu papel Histórico, tamanho continental, quinta maior nação do planeta, oitava economia global, população superior a 200 milhões de habitantes, protagonismo geopolítico mundial inarredável. Crises sempre existiram, acontecem e passam.
Mas é fundamental a restauração da convivência social entre os contrários, a defesa da soberania ameaçada abertamente, rumos para a nação, a defesa da democracia. O povo brasileiro bem que pode se inspirar no provérbio, anônimo, do Mar: o marinheiro não reza por ventos favoráveis; ele aprende a navegar.
O cientista, astrofísico Carl Sagan, 1934-1996, muito popular durante a segunda metade do século XX, âncora de um programa de televisão sobre astronomia, Cosmos, costumava afirmar: eu não sei para onde vou, mas sei que estou a caminho.
Há um provérbio árabe que diz: Quem espalha alfinetes não deve andar descalço.
Essas duas sábias observações, vindas de culturas e épocas distintas expressam, paradoxalmente, situações como o momento que vive o Brasil. Podemos dizer que não é só o País, mas uma tendência mundial.
Isso é verdade, mas não explica as nossas atuais especificidades como nação, e de todas as demais, que possui a sua própria formação cultural e Histórica.
As atuais eleições no País são uma representação objetiva de uma sociedade desorientada que não sabe para onde vai, polarizada em ódios e sectarismos difusos, sem causas relevantes para o bem maior da sociedade, submetida a uma Guerra Híbrida cuja função principal é a fratura do nosso corpo social.
Nessas condições, o fanatismo conduzido através de um primarismo emocional dá a tônica ao Não Debate político e eleitoral, salutar em qualquer sociedade democrática que se preze.
Apesar das evidentes consequências provocadas pela conhecida Guerra Híbrida, que substitui a guerra convencional armada contra outro País, com o potencial de destruí-lo sem a necessidade de se dar um único tiro, muito menos de uma única baixa do exército invasor, há outras razões que também explicam o desnorteamento nacional.
Quando não se sabe que se está a caminho, como disse Carl Sagan, a tendência é o predomínio do pragmatismo absoluto, sem rumos ou projetos que orientem a nação, os indivíduos e as sociedades.
Como um veterano das lutas de esquerda, nacionalista e democrática, vejo, com responsabilidade, essa desorientação que atingiu os principais espectros das forças políticas da nação.
Daí que, sem projetos, assoma o radicalismo estéril, a retórica rasa em campos antagônicos que se retroalimentam um precisando do outro para se afirmar em ideologismos, o que não é igual a Ideologia.
A especulação financeira, de outro lado, impõe para os seus interesses de lucros estratosféricos uma agenda diversionista, do Politicamente Correto, com vistas a fraturar a sociedade.
Esse é em resumo o retrato das eleições presidenciais: a Guerra Híbrida, as ações da agenda global do Mercado rentista, a ausência de amplos caminhos das forças políticas.
Por isso surge com força o ódio, a intolerância, e por trás da retórica da “convicção” que exclui qualquer outro ponto de vista, há na política a prática que espelha o utilitarismo exclusivista e, por mais contraditório que pareça, o Conformismo com a atual sociedade, o País e até mesmo como indivíduo.
Nesse cenário a democracia vem sendo solapada passo a passo, até porque quem ganhar as eleições não será reconhecido pela outra parcela da população, apesar do pronunciamento do presidente do STF, Dias Toffoli, o que contraria as regras básicas de uma sociedade democrática.
O Brasil é inevitável pelo seu papel Histórico, tamanho continental, quinta maior nação do planeta, oitava economia global, população superior a 200 milhões de habitantes, protagonismo geopolítico mundial inarredável. Crises sempre existiram, acontecem e passam.
Mas é fundamental a restauração da convivência social entre os contrários, a defesa da soberania ameaçada abertamente, rumos para a nação, a defesa da democracia. O povo brasileiro bem que pode se inspirar no provérbio, anônimo, do Mar: o marinheiro não reza por ventos favoráveis; ele aprende a navegar.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
Ensaio de orquestra
Meu novo artigo:
Artigo recente na mídia remeteu-me ao último filme de Federico Fellini, Ensaio de Orquestra.
Nos anos setenta e oitenta do século passado, a nação italiana vivia um confronto de radicalização que culminou numa escalada de violência e assassinatos promovidos por grupos de extrema esquerda, tipo Brigadas Vermelhas, assim como de vários grupos de extrema direita.
Sobressaltados, os cidadãos assistiam a notícias de sequestros, atentados à bomba em edifícios públicos, empresas privadas, associações sindicais e muitas outras coisas, como o assassinato do primeiro ministro Aldo Moro.
Nesse período, os extremismos fanatizados deram a tônica e os rumos de um País rico em cultura, no Direito, nas artes em geral.
Não mais existia o diálogo, a política iniciou a partir daquele momento uma escala descendente até a sua quase total anulação, culminando com a famosa Operação Mãos Limpas que destruiu as principais organizações políticas, e a ascensão ao poder por longos anos do poderoso magnata da comunicação Silvio Berlusconi, uma espécie de caricatura pós-moderna de Mussolini.
O filme de Fellini retrata o caos vivido pela Itália através de uma orquestra que se rebela contra o maestro, destituindo-o. Mas que em seguida os seus músicos entram em um processo de total desorientação, convulsão anárquica no desespero geral em que ninguém mais se entendia, não haviam mais referências, a situação descambou para as agressões físicas e morte.
Até que surgiu alguém com a mão de ferro para botar ordem na casa cuja semelhança física com Adolf Hitler era real. Fellini fazia uma analogia da Itália, através da orquestra no seu filme cujo desfecho foi uma gigantesca bola de ferro para por abaixo toda a estrutura do edifício onde ensaiava a orquestra.
O incrível nisso tudo é que o genial cineasta italiano foi criticado pelos extremistas de esquerda por não os apoiar e também pela extrema direita pelas mesmas razões, quando na verdade ele denunciava o delírio furibundo e incontrolável que tomava conta da Itália, e alertava para a grande vítima no processo. A democracia.
Evidente que aquela era a época da Guerra Fria, mas o Brasil de hoje não se encontra longe do felliniano Ensaio de Orquestra, através da chamada Guerra Híbrida de Quarta Geração cujos conceitos, estratégias e técnicas o grande diretor jamais chegou a conhecer.
No Brasil a tal da Guerra Híbrida estreou em movimentos de massas em 2013 e de lá para cá não mais parou de ser acionada, conduzindo o País a uma tempestade de ódios que vem atingindo o paroxismo, onde reina absoluta a intolerância, nenhuma base racional. Neste caso quem também pode ser ferida de morte são a democracia e a nação.
Os interesses nacionais e a própria democracia são argumentos laterais, e não centrais, de grande parte dos atores nas eleições.
Na escalada do ódio, a perda da perspectiva da discussão dos problemas nacionais e da sociedade encontra-se em quinto plano, no contaminado e extremamente tóxico ambiente político do País, onde pululam teorias da conspiração e notícias falsas como se fossem capim na pradaria.
Apelos à razão e ao bom senso mais vulgar é fazer o jogo do outro lado. Lideranças políticas, em grande parte, ou foram engolidas por esse clima ou perderam o controle das suas bases.
Mas nada disso é ao acaso, faz parte do processo de desestabilização, da fratura da sociedade brasileira onde a antiga máxima do império romano, dividir para reinar, se impõe com força.
De tal forma que seja qual for o lado que ganhar a eleição, não terá o reconhecimento da outra parte da sociedade, uma característica do jogo, da vida democrática nos Países.
O pragmatismo e a política sempre andaram juntos, mas política sem rumos e projetos nunca deu em boa coisa. Assim a Guerra Híbrida, tudo indica, vai atingir estágios superiores de fragmentação da sociedade brasileira. E sem sociedade não existe sentido de nação. Em nosso caso, de Brasil.
Para usar um jargão no mundo da política: esse é o principal jogo jogado, em paralelo à campanha eleitoral.
Tudo isso é terreno fértil para o veneno do fascismo, para facilitar os interesses forâneos contra a nação, dos especuladores rentistas, dos espertalhões do Mercado financeiro que lucram milhões de dólares a cada publicação das pesquisas eleitorais.
No clima de ódios polarizados apelos à razão parecem chover no molhado e fazem pouco sentido, embora nunca sejam demais. A ação contra o País e a sociedade, que vem de fora, obedece a processos sofisticados, mesmo utilizando-se de ideologismos primários, useiros e vezeiros em outras ocasiões como na primavera árabe, na “revolução rosa”, na “revolução laranja” etc.
A defesa da sociedade, da plena vida democrática, vai se deparar com uma batalha cada vez mais complexa em um País reconfigurado por essa nova realidade.
Será fundamental compreendê-la, estudá-la melhor, para a sobrevivência do Brasil, da sociedade em crise, para a nossa continuidade como nação protagonista, soberana e democrática.
Artigo recente na mídia remeteu-me ao último filme de Federico Fellini, Ensaio de Orquestra.
Nos anos setenta e oitenta do século passado, a nação italiana vivia um confronto de radicalização que culminou numa escalada de violência e assassinatos promovidos por grupos de extrema esquerda, tipo Brigadas Vermelhas, assim como de vários grupos de extrema direita.
Sobressaltados, os cidadãos assistiam a notícias de sequestros, atentados à bomba em edifícios públicos, empresas privadas, associações sindicais e muitas outras coisas, como o assassinato do primeiro ministro Aldo Moro.
Nesse período, os extremismos fanatizados deram a tônica e os rumos de um País rico em cultura, no Direito, nas artes em geral.
Não mais existia o diálogo, a política iniciou a partir daquele momento uma escala descendente até a sua quase total anulação, culminando com a famosa Operação Mãos Limpas que destruiu as principais organizações políticas, e a ascensão ao poder por longos anos do poderoso magnata da comunicação Silvio Berlusconi, uma espécie de caricatura pós-moderna de Mussolini.
O filme de Fellini retrata o caos vivido pela Itália através de uma orquestra que se rebela contra o maestro, destituindo-o. Mas que em seguida os seus músicos entram em um processo de total desorientação, convulsão anárquica no desespero geral em que ninguém mais se entendia, não haviam mais referências, a situação descambou para as agressões físicas e morte.
Até que surgiu alguém com a mão de ferro para botar ordem na casa cuja semelhança física com Adolf Hitler era real. Fellini fazia uma analogia da Itália, através da orquestra no seu filme cujo desfecho foi uma gigantesca bola de ferro para por abaixo toda a estrutura do edifício onde ensaiava a orquestra.
O incrível nisso tudo é que o genial cineasta italiano foi criticado pelos extremistas de esquerda por não os apoiar e também pela extrema direita pelas mesmas razões, quando na verdade ele denunciava o delírio furibundo e incontrolável que tomava conta da Itália, e alertava para a grande vítima no processo. A democracia.
Evidente que aquela era a época da Guerra Fria, mas o Brasil de hoje não se encontra longe do felliniano Ensaio de Orquestra, através da chamada Guerra Híbrida de Quarta Geração cujos conceitos, estratégias e técnicas o grande diretor jamais chegou a conhecer.
No Brasil a tal da Guerra Híbrida estreou em movimentos de massas em 2013 e de lá para cá não mais parou de ser acionada, conduzindo o País a uma tempestade de ódios que vem atingindo o paroxismo, onde reina absoluta a intolerância, nenhuma base racional. Neste caso quem também pode ser ferida de morte são a democracia e a nação.
Os interesses nacionais e a própria democracia são argumentos laterais, e não centrais, de grande parte dos atores nas eleições.
Na escalada do ódio, a perda da perspectiva da discussão dos problemas nacionais e da sociedade encontra-se em quinto plano, no contaminado e extremamente tóxico ambiente político do País, onde pululam teorias da conspiração e notícias falsas como se fossem capim na pradaria.
Apelos à razão e ao bom senso mais vulgar é fazer o jogo do outro lado. Lideranças políticas, em grande parte, ou foram engolidas por esse clima ou perderam o controle das suas bases.
Mas nada disso é ao acaso, faz parte do processo de desestabilização, da fratura da sociedade brasileira onde a antiga máxima do império romano, dividir para reinar, se impõe com força.
De tal forma que seja qual for o lado que ganhar a eleição, não terá o reconhecimento da outra parte da sociedade, uma característica do jogo, da vida democrática nos Países.
O pragmatismo e a política sempre andaram juntos, mas política sem rumos e projetos nunca deu em boa coisa. Assim a Guerra Híbrida, tudo indica, vai atingir estágios superiores de fragmentação da sociedade brasileira. E sem sociedade não existe sentido de nação. Em nosso caso, de Brasil.
Para usar um jargão no mundo da política: esse é o principal jogo jogado, em paralelo à campanha eleitoral.
Tudo isso é terreno fértil para o veneno do fascismo, para facilitar os interesses forâneos contra a nação, dos especuladores rentistas, dos espertalhões do Mercado financeiro que lucram milhões de dólares a cada publicação das pesquisas eleitorais.
No clima de ódios polarizados apelos à razão parecem chover no molhado e fazem pouco sentido, embora nunca sejam demais. A ação contra o País e a sociedade, que vem de fora, obedece a processos sofisticados, mesmo utilizando-se de ideologismos primários, useiros e vezeiros em outras ocasiões como na primavera árabe, na “revolução rosa”, na “revolução laranja” etc.
A defesa da sociedade, da plena vida democrática, vai se deparar com uma batalha cada vez mais complexa em um País reconfigurado por essa nova realidade.
Será fundamental compreendê-la, estudá-la melhor, para a sobrevivência do Brasil, da sociedade em crise, para a nossa continuidade como nação protagonista, soberana e democrática.
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Rebeldia e conformismo
Meu novo artigo:
Iludem-se aqueles que imaginam estar presenciando o ápice da intolerância política e psicossocial no País. Ela vai aumentar substancialmente a escalas exponenciais.
O Brasil possui indiscutível expressão territorial, populacional, econômica, estratégica, que nem o pior governo do mundo poderá destruir, por isso é que ele é inevitável.
No entanto, essas condições excepcionais de um gigante internacional, a quinta maior nação do planeta, com uma população superior a 200 milhões de habitantes, imensas riquezas naturais, uma potência continental, não é antídoto suficiente para o processo contínuo de envenenamento a que a sociedade vem sendo submetida ao longo de umas décadas.
Aliás, não é só o País que vem sendo submetido a essa onda tóxica de ódio, de um contra todos e de todos contra qualquer um, trata-se de fenômeno global.
Mesmo que seja um clichê já usado, o mundo encontra-se submetido a uma agenda dirigida pelo capital financeiro especulativo, da agiotagem internacional.
Os megaespeculadores se tornaram, efetivamente, os donos de, quase, todo o mundo. Interferem nos organismos internacionais, ditam as regras e os comportamentos das sociedades, encontram-se por trás dos principais conflitos globais, comerciais, diplomáticos ou militares, buscam promover ou derrubar lideranças políticas, desde que lhes seja conveniente.
Saímos de uma época em que a máxima era “viva e deixe viver” e passamos ao período do “politicamente correto” onde o cidadão, a cidadã, tornam-se prisioneiros de regras que ditam como, de que forma, e onde é “o seu quadrado”, a “sua caixinha de pensar e agir”. O mundo jamais teve tantas regras: pode isso, não pode aquilo etc. E no entanto as sociedades nunca foram tão caóticas. O extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico não se encontra a serviço da lucidez ou da liberdade humana.
Mas é um templo perfeito ao exercício do pragmatismo vulgar como estilo de convivência social e política, de competição sem regras consensuais da mínima solidariedade social e humana.
O que vale é como o indivíduo cria as condições perfeitas para atropelar os demais, para atingir seus objetivos na escala da competição profissional. A chamada Guerra Híbrida no Brasil, e no mundo, utiliza-se, invariavelmente, de dois polos antagônicos, através de grupos midiáticos globais, das redes sociais.
É como dois fios descascados conectados, o positivo e o negativo, provocando ondas de choques emocionais sistemáticos na sociedade. Quanto mais ódios espalhados e fúrias sociais polarizadas, melhor se atinge o objetivo de fraturar o tecido social. É assim, a “criminalização” do próximo. O pensamento conservador liberal e tolerante, de antes, foi induzido a um tipo de extremismo reacionário de direita ao tipo fascista.
Setores ponderáveis da esquerda abdicaram de um projeto de nação com características nacionais, socialmente mais justa, aderiram, paradoxalmente, a uma agenda global patrocinada pelo Mercado que anula as identidades, as especificidades culturais do seu País. Enfim é, como disse Eric Hobsbawm, o presente contínuo, o Alzheimer Histórico.
As eleições no Brasil vêm refletindo, já há algum tempo, um sentimento de perplexidade psicossocial, uma orfandade de projetos reais, onde surgem, pela falta de rumos, confrontos de fanatismos, incapazes de convivência e tolerância.
Diagnósticos concluem: atualmente nunca existiram tantos jovens infelizes caminhando sobre a Terra, exatamente quando o mundo se transformou num “parque temático” de “inteligência”, “direitos”, esbanjando “gente bacana”.
Assim, a rebeldia hoje é a luta constante através do pensamento crítico. Ou você se rebela ou é domado pela agenda do sistema financeiro global. Seria o conformismo pragmático. Cada escolha tem suas consequências. Como sempre, nada é fácil.
Iludem-se aqueles que imaginam estar presenciando o ápice da intolerância política e psicossocial no País. Ela vai aumentar substancialmente a escalas exponenciais.
O Brasil possui indiscutível expressão territorial, populacional, econômica, estratégica, que nem o pior governo do mundo poderá destruir, por isso é que ele é inevitável.
No entanto, essas condições excepcionais de um gigante internacional, a quinta maior nação do planeta, com uma população superior a 200 milhões de habitantes, imensas riquezas naturais, uma potência continental, não é antídoto suficiente para o processo contínuo de envenenamento a que a sociedade vem sendo submetida ao longo de umas décadas.
Aliás, não é só o País que vem sendo submetido a essa onda tóxica de ódio, de um contra todos e de todos contra qualquer um, trata-se de fenômeno global.
Mesmo que seja um clichê já usado, o mundo encontra-se submetido a uma agenda dirigida pelo capital financeiro especulativo, da agiotagem internacional.
Os megaespeculadores se tornaram, efetivamente, os donos de, quase, todo o mundo. Interferem nos organismos internacionais, ditam as regras e os comportamentos das sociedades, encontram-se por trás dos principais conflitos globais, comerciais, diplomáticos ou militares, buscam promover ou derrubar lideranças políticas, desde que lhes seja conveniente.
Saímos de uma época em que a máxima era “viva e deixe viver” e passamos ao período do “politicamente correto” onde o cidadão, a cidadã, tornam-se prisioneiros de regras que ditam como, de que forma, e onde é “o seu quadrado”, a “sua caixinha de pensar e agir”. O mundo jamais teve tantas regras: pode isso, não pode aquilo etc. E no entanto as sociedades nunca foram tão caóticas. O extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico não se encontra a serviço da lucidez ou da liberdade humana.
Mas é um templo perfeito ao exercício do pragmatismo vulgar como estilo de convivência social e política, de competição sem regras consensuais da mínima solidariedade social e humana.
O que vale é como o indivíduo cria as condições perfeitas para atropelar os demais, para atingir seus objetivos na escala da competição profissional. A chamada Guerra Híbrida no Brasil, e no mundo, utiliza-se, invariavelmente, de dois polos antagônicos, através de grupos midiáticos globais, das redes sociais.
É como dois fios descascados conectados, o positivo e o negativo, provocando ondas de choques emocionais sistemáticos na sociedade. Quanto mais ódios espalhados e fúrias sociais polarizadas, melhor se atinge o objetivo de fraturar o tecido social. É assim, a “criminalização” do próximo. O pensamento conservador liberal e tolerante, de antes, foi induzido a um tipo de extremismo reacionário de direita ao tipo fascista.
Setores ponderáveis da esquerda abdicaram de um projeto de nação com características nacionais, socialmente mais justa, aderiram, paradoxalmente, a uma agenda global patrocinada pelo Mercado que anula as identidades, as especificidades culturais do seu País. Enfim é, como disse Eric Hobsbawm, o presente contínuo, o Alzheimer Histórico.
As eleições no Brasil vêm refletindo, já há algum tempo, um sentimento de perplexidade psicossocial, uma orfandade de projetos reais, onde surgem, pela falta de rumos, confrontos de fanatismos, incapazes de convivência e tolerância.
Diagnósticos concluem: atualmente nunca existiram tantos jovens infelizes caminhando sobre a Terra, exatamente quando o mundo se transformou num “parque temático” de “inteligência”, “direitos”, esbanjando “gente bacana”.
Assim, a rebeldia hoje é a luta constante através do pensamento crítico. Ou você se rebela ou é domado pela agenda do sistema financeiro global. Seria o conformismo pragmático. Cada escolha tem suas consequências. Como sempre, nada é fácil.
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
O processo
Meu novo artigo:
O incêndio que devorou o Museu Nacional e consumiu a maior parte do seu acervo valiosíssimo, é descaso gravíssimo que por todas as informações tem responsabilidades acumuladas em décadas.
Tanto como as chamas que destruíram o palácio, da época de D. João VI, que abrigava o próprio Museu, porque ele celebrava, era testemunha, e continua sendo, da existência do contínuo Histórico nacional.
Nenhum País do mundo que se preze, seja qual for o regime ou sistema de governo, comete esse ato contra a sua própria História, ao contrário, faz todos os esforços para manter o seu patrimônio cultural, arquitetônico, a própria memória, em nome do passado, do presente e às futuras gerações, ou que seja por investimento em turismo.
Especialmente o Brasil, que é a sétima economia global, a quinta maior nação do planeta em dimensões territoriais, com mais de 200 milhões de habitantes e um protagonismo geopolítico estratégico.
A tragédia do Museu Nacional além do mais é um sinal dos tempos atuais, um alerta dramático e simbólico aos desdobramentos da realidade nacional que persiste há alguns anos.
Está certo o economista, escritor André Araújo quando afirma: “o processo e prisão do ex-presidente Lula, cuja popularidade e recall no exterior são um vasto capital político ao País, no primeiro momento teve a percepção comprada pelo valor de face, vendida pela mídia brasileira.
Nos últimos meses esta visão está se esvaindo e a ideia que Lula praticou um crime comum se nulifica, porque trata-se de um processo criminal com provas indiciárias e não provas materiais, coroando a fragilidade da condenação com escasso valor monetário do alegado delito, frente à dimensão do cargo de presidente de um dos maiores Países do mundo. A miudeza do fato choca por si próprio".
E continua o economista: “a mídia brasileira se fixou na formalidade do processo do caso Lula, mas a opinião pública internacional não compra mais esse pacote”. Depois de fazer uma alusão aos processos de Moscou em 1938, diz André Araújo:
“Impressionou na avaliação estrangeira a unanimidade das sentenças sem qualquer dissenso normal em casos de julgamentos de políticos, a conclusão foi a de que juízes pertenciam ao mesmo grupo ideológico atuando como força tarefa, portanto as confirmações de sentenças ao invés de provocar convencimento, aumentaram as dúvidas”. Há exceções.
“Graves violações da vontade popular são crises institucionais contratadas” e continua André Araújo “emparedar a democracia pode ganhar uma batalha, mas o custo Histórico pode ser muito alto mais à frente”.
Assim, os fatos vão se sobrepondo às interpretações ideológicas, ao consenso formalista, casuístico, construído inclusive pela grande mídia. E a crise só aumenta em escala galopante por vício de origem.
Na terça-feira, 04/09, noticiou-se que dois dos principais institutos de pesquisas, o Datafolha e o Ibope, suspenderam a divulgação de pesquisas já realizadas, gerando boatos seja sobre o crescimento do candidato Jair Bolsonaro, seja sobre um crescimento ainda maior de Lula, que já é líder disparado em todas as avaliações dos institutos de pesquisa. Ou até sobre a consolidação do nanismo eleitoral de Alckmin.
De toda maneira essa crise não tem como encontrar um sinal de normalidade democrática, como desejam as forças do Mercado financeiro ou os diversos responsáveis pelo cenário em curso.
Ela só tende a aumentar em falta de legitimidade. Já se vem dizendo, faz um bom tempo, que ou as lideranças políticas e econômicas nacionais encontram uma saída que atenda às expectativas das grandes maiorias sociais ou vamos assistir a novos e imprevisíveis desdobramentos institucionais em algum momento.
O Brasil possui “indiscutível expressão territorial, econômica e estratégica que nem o pior governo do mundo pode destruir”. Por isso ele é inevitável. Mas não resolve o imbróglio em que o voluntarismo jogou o País.
Ainda restam escassos espaços para uma legítima, democrática, concertação das forças políticas nacionais, que atenda aos anseios das grandes maiorias sociais, da soberania nacional, cada vez mais aviltada, antes que as chamas da insensatez consumam o que resta do cenário democrático e institucional. E depois, sabe-se lá o que virá, mas não será o que deseja a sociedade e a nação.
O incêndio que devorou o Museu Nacional e consumiu a maior parte do seu acervo valiosíssimo, é descaso gravíssimo que por todas as informações tem responsabilidades acumuladas em décadas.
Tanto como as chamas que destruíram o palácio, da época de D. João VI, que abrigava o próprio Museu, porque ele celebrava, era testemunha, e continua sendo, da existência do contínuo Histórico nacional.
Nenhum País do mundo que se preze, seja qual for o regime ou sistema de governo, comete esse ato contra a sua própria História, ao contrário, faz todos os esforços para manter o seu patrimônio cultural, arquitetônico, a própria memória, em nome do passado, do presente e às futuras gerações, ou que seja por investimento em turismo.
Especialmente o Brasil, que é a sétima economia global, a quinta maior nação do planeta em dimensões territoriais, com mais de 200 milhões de habitantes e um protagonismo geopolítico estratégico.
A tragédia do Museu Nacional além do mais é um sinal dos tempos atuais, um alerta dramático e simbólico aos desdobramentos da realidade nacional que persiste há alguns anos.
Está certo o economista, escritor André Araújo quando afirma: “o processo e prisão do ex-presidente Lula, cuja popularidade e recall no exterior são um vasto capital político ao País, no primeiro momento teve a percepção comprada pelo valor de face, vendida pela mídia brasileira.
Nos últimos meses esta visão está se esvaindo e a ideia que Lula praticou um crime comum se nulifica, porque trata-se de um processo criminal com provas indiciárias e não provas materiais, coroando a fragilidade da condenação com escasso valor monetário do alegado delito, frente à dimensão do cargo de presidente de um dos maiores Países do mundo. A miudeza do fato choca por si próprio".
E continua o economista: “a mídia brasileira se fixou na formalidade do processo do caso Lula, mas a opinião pública internacional não compra mais esse pacote”. Depois de fazer uma alusão aos processos de Moscou em 1938, diz André Araújo:
“Impressionou na avaliação estrangeira a unanimidade das sentenças sem qualquer dissenso normal em casos de julgamentos de políticos, a conclusão foi a de que juízes pertenciam ao mesmo grupo ideológico atuando como força tarefa, portanto as confirmações de sentenças ao invés de provocar convencimento, aumentaram as dúvidas”. Há exceções.
“Graves violações da vontade popular são crises institucionais contratadas” e continua André Araújo “emparedar a democracia pode ganhar uma batalha, mas o custo Histórico pode ser muito alto mais à frente”.
Assim, os fatos vão se sobrepondo às interpretações ideológicas, ao consenso formalista, casuístico, construído inclusive pela grande mídia. E a crise só aumenta em escala galopante por vício de origem.
Na terça-feira, 04/09, noticiou-se que dois dos principais institutos de pesquisas, o Datafolha e o Ibope, suspenderam a divulgação de pesquisas já realizadas, gerando boatos seja sobre o crescimento do candidato Jair Bolsonaro, seja sobre um crescimento ainda maior de Lula, que já é líder disparado em todas as avaliações dos institutos de pesquisa. Ou até sobre a consolidação do nanismo eleitoral de Alckmin.
De toda maneira essa crise não tem como encontrar um sinal de normalidade democrática, como desejam as forças do Mercado financeiro ou os diversos responsáveis pelo cenário em curso.
Ela só tende a aumentar em falta de legitimidade. Já se vem dizendo, faz um bom tempo, que ou as lideranças políticas e econômicas nacionais encontram uma saída que atenda às expectativas das grandes maiorias sociais ou vamos assistir a novos e imprevisíveis desdobramentos institucionais em algum momento.
O Brasil possui “indiscutível expressão territorial, econômica e estratégica que nem o pior governo do mundo pode destruir”. Por isso ele é inevitável. Mas não resolve o imbróglio em que o voluntarismo jogou o País.
Ainda restam escassos espaços para uma legítima, democrática, concertação das forças políticas nacionais, que atenda aos anseios das grandes maiorias sociais, da soberania nacional, cada vez mais aviltada, antes que as chamas da insensatez consumam o que resta do cenário democrático e institucional. E depois, sabe-se lá o que virá, mas não será o que deseja a sociedade e a nação.
domingo, 2 de setembro de 2018
Um vulcão ativo
Meu novo artigo:
Um conhecido veterano militante de esquerda, nos idos de 2006 disse-me com a plena convicção de uma sentença, em contraposição a argumentos de preocupações sobre a realidade brasileira: “não existe isso, o País tem uma democracia consolidada!”. Hoje em dia faz parte dos que denunciam o impeachment contra a presidente Dilma e os seus desdobramentos até os dias atuais.
O grande problema atual, nessas três últimas décadas, é que muita gente acreditou que no Brasil havia, finalmente, um regime democrático totalmente sustentável, a partir da promulgação da Constituição de 1988.
As novas gerações, inclusive de militantes de esquerda e ativistas de redes sociais, foram educadas com essa mesma visão, que lhes passaram “gurus” de várias espécies, na economia, na grande mídia, com seus sociólogos e cientistas políticos engomadinhos, de sotaques indecifráveis.
A discorrerem sobre um País asséptico, globalizado, em que tanto faria analisar os fenômenos surgidos aqui como em New York, Londres ou Paris, como era chamado antes o Circuito Helena Rubinstein da moda. A realidade seria a mesma, os anseios da sociedade idênticos, as características culturais iguais.
Esse sonho, ou pesadelo, foi vendido, e comprado, nas academias, em muitos estratos artísticos, entre os jornalistas, nos chamados “ativistas sociais”, de tal maneira que se tornou o verniz que encobriu os problemas do Brasil real, das grandes maiorias da sociedade.
Quem incentivou, financiou essa visão de País foi o Mercado Financeiro, especialmente o especulativo, com os seus megaespeculadores, a exemplo de George Soros e suas ONGs, cuja finalidade seria a pasteurização do discurso político e cultural por aqui. E funcionou, ainda funciona. A interpretação do Brasil verdadeiro foi chutada para as calendas gregas, salvo os muitos resistentes conhecidos.
Nem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra encarnam semelhante idealização na vida prática ou na sua História. A Inglaterra transformou-se em uma nação do primeiro mundo sobre uma imensa pilha de cadáveres de um império colonial “onde o sol nunca se punha”, como eles próprios diziam. Até hoje a sua política externa é bruta e a realidade interna da maioria da população inglesa está distante do “politicamente correto” adotado pelos filhos da classe média inglesa. A realidade para os demais é pesada.
A charmosa cidade de New York que nos é vendida pelo sistema Globo de TV, e a Globo News voltada para a classe média e as elites, é também outra, muito barra pesada, que o digam os imigrantes legais ou ilegais de lá.
A cidade foi edificada sob os violentíssimos e mortais confrontos entre as gangues de New York que representavam grupos antagônicos de colonos, que disputavam o poder entre si, imortalizado pelo diretor de cinema Martin Scorsese.
Os Estados Unidos trazem até hoje consigo dois conflitos cujas feridas ainda estão abertas: o apartheid que vigorou, oficialmente, até os anos 1960 passados, quase como na África do Sul, e a Guerra Civil americana onde morreram mais de 1 milhão de norte-americanos, número de vítimas jamais superado em outras das dezenas de guerras em que se envolveram, inclusive as primeira e segunda guerras mundiais. Algumas causas da atual divisão nos EUA provêm dessa época.
A França, oh a França culta, sua História é um verdadeiro banho de sangue interno com as guilhotinas sobre as cabeças dos adversários rolando dia e noite incessantemente, onde a revolução burguesa não tendo a quem mais, devorou os seus próprios filhos, em um período conhecido como O Terror. Além do mais, o refinamento da cultura francesa repousa sobre os escombros do colonialismo de ontem e o neocolonialismo de hoje. Que o digam os vietnamitas, os argelinos, os africanos hoje etc.
Mas o que procuram passar os intelectuais, objetiva e subjetivamente, mentalmente colonizados? É copiar essas nações porque suas Histórias foram civilizadas. É como uma socióloga paulista disse anos atrás: “por aqui são quinhentos anos de nada”. Por isso, entre outras coisas, o que vale é a agenda do “politicamente correto” que eles, generosamente, inventaram e nós inteligentemente adotamos como solução definitiva aos nossos males de origem.
A História do Brasil também nunca foi tranquila, mas ao contrário, carregada de sérios conflitos, muitas vezes à bala.
Para não retroceder a outras épocas mais remotas da nossa breve trajetória como nação, citamos a revolta dos Tenentes em 1922, a revolução de 1930 que deu início ao processo de modernização do País com Getúlio Vargas. Essa foi uma revolução real de conflitos políticos e militares, com mortos, feridos e tudo mais.
Em 1932 as oligarquias cafeeiras de São Paulo rebelaram-se contra a vitoriosa revolução de 1930. O País todo levantou-se contra as oligarquias paulistas e atacou São Paulo em intenso combate político e militar.
As elites paulistas guardam até hoje mágoas do resto do País pela derrota, inclusive parte da sua elite acadêmica, em todos espectros políticos. Em 1935 houve uma tentativa de rebelião, basicamente militar, nos quarteis, sob a liderança do PCB, Partido Comunista do Brasil. Debelada. O que causou imensa repressão contra intelectuais, militantes progressistas. Os comunistas tinham feito uma análise extremamente equivocada da realidade brasileira, mas a III Internacional em Moscou nela teria acreditado, endossando-a. Alguns analistas contestam que os líderes soviéticos tenham aceito tal informe dos comunistas brasileiros.
Além desse episódio, houve em 1938 a tentativa de insurreição armada dos Integralistas, vertente de massas, no Brasil, do nazifascismo que vivia o seu auge com o avanço da Alemanha nazista e da Itália fascista de Mussolini. Foram igualmente derrotados, e consequente repressão.
Getúlio Vargas, líder e promotor da revolução de 1930, que modernizou o Brasil, inclusive nos direitos trabalhistas, sob pressão, renunciou em 1945, voltou em 1950 ao poder pelo voto popular e, acossado pela reação, suicidou-se em 1954, derrotando com esse gesto seus adversários.
Juscelino que interiorizou o País com a construção de Brasília, só tomou posse quando eleito, porque o Marechal Lott colocou os tanques na rua, fechou um canal de TV que fazia campanha contra a sua posse, prendeu gente, e Juscelino governou, apesar de duas tentativas de golpe, de Jacareacanga e Aragarças, abafadas. Juscelino, estadista e hábil político, anistiou os revoltosos.
O governo nacionalista de João Goulart foi pego em meio a uma escalada da Guerra Fria. Para derrubá-lo armou-se uma conspiração interna e externa. Muitos, pouco estavam ligando para a tal da Guerra Fria. Queriam o poder político e o mando do País. O golpe de 1964 foi mais civil que militar, mas os civis golpistas, que eram a maioria das elites brasileiras, conseguiram passar incólumes no processo recente da revisão do golpe.
Com a exceção do jornal Última Hora de Samuel Wainer, toda a imprensa brasileira da época conspirou e apoiou abertamente para a derrubada de Jango, incluindo religiosos. Era o perigo comunista que batia à porta. A toda poderosa hoje Globo, promotora atual das agendas do politicamente correto, publicou um editorial redimindo-se do “erro em ter apoiado o golpe de 1964”.
Jamais vai se safar desse ato perante a História. Até porque já está metida de novo em uma conspirata à qual, nem ela, dona quase absoluta da opinião midiática nacional, sabe, no momento, para onde vai. O Brasil vive um quadro institucional kafkiano.
A Folha de São Paulo, porta voz do pós-modernismo multicultural, não só apoiou o golpe como ajudou o processo repressivo durante o a vigência do regime. Enfim, o Brasil não é para iniciantes, como disseram.
Após a promulgação da Constituição de 1988 que encerrou o ciclo autoritário o Brasil viu-se diante de duas questões: a ânsia da ressaca do autoritarismo que fez com que a Constituinte centrasse os seus esforços em assegurar todos os diretos civis, e outros mais, que tinham deixado de existir, e a ausência de uma carta magna voltada para um projeto de Estado nacional.
Os governos subsequentes aprofundaram o espírito autônomo das corporações do Estado, criando uma constelação de instituições poderosas que defendem o seus próprios protagonismos e poderes, desvinculados de qualquer rumo nacional, abrindo amplos espaços para a hegemonia do Mercado Financeiro, interesses externos das grandes potências, e a absoluta hegemonia de uma grande mídia associada às estratégias desse Mercado financeiro.
A consequência é a violência institucional que vivemos no presente. Nessas condições, a política e a vida democrática só atrapalham os poderosos grupos e estamentos do aparelho de Estado e midiáticos que controlam o País. Assim, essa crise atual não surgiu do éter. O pior é que as forças políticas partidárias coonestaram com ele ou porque nele acreditaram na resultante ou porque não o entenderam.
Durante a época após a Constituição de 1988 todos os presidentes eleitos sofreram a tentativa de afastamento, dois foram impedidos, sem a participação das forças armadas, através da luta social sob vários argumentos, uma espécie de “fora todo mundo, menos eu”, especialmente a corrupção, que é o principal mote até os dias atuais, nenhum sob a primazia da legalidade democrática, demonstrando vocação autoritária, mesmo sob bases populares, de organizações sociais.
Assim, o Brasil não tem uma democracia consolidada de longo curso. Nunca teve, as forças políticas jogam pesado, as elites não brincam em serviço, a mídia é poderosa e implacável, as corporações do Estado viraram, cada uma delas, protagonistas dos seus próprios interesses. Esse é o quadro da atual crise dramática que vivemos. Mas a única via correta é a democracia através da atividade política em bom senso e respeito à legalidade constitucional, embora o atual ciclo Histórico mostre sinais evidentes de esgotamento.
As recentes gerações não têm a ideia, ou não foram educadas para tanto, de que o País não é uma vasta terra de consolidados hábitos democráticos. O Brasil é um vulcão ativo que, vez em quando, entra em erupção cuspindo lava por todos os lados. Aliás, o planeta é um vulcão em erupção.
A melhor maneira de participar é defender a via democrática, discutindo os caminhos da nação, as suas necessidades fundamentais, sua agenda para o desenvolvimento, o aperfeiçoamento da vida democrática, defendendo os interesses nacionais, diminuindo as abissais desigualdades sociais, ou qualquer outro tipo de injustiças.
A História das outras nações foi e tem sido lavrada em sangue e conflitos tenebrosos. Essa coisa de “noblesse oblige” europeia é produto de exportação para os outros.
A globalização financeira, George Soros e megaespeculadores, “venderam” ao Brasil e ao mundo, especialmente a partir do século XXI, uma interpretação da História, da cultura, da vida real, da geopolítica, das artes, do contínuo Histórico das nações, inteiramente ficcional. E tanta foi a força da grande mídia global, e o investimento, bilhões de dólares, que atingiram os objetivos que pretendiam. Um estágio de descolamento da realidade em parcelas importantes da população. Especialmente em setores médios.
A luta em defesa permanente da democracia, da vida política, dos interesses da nação, dos avanços sociais é, como sempre foi, tremenda, inconstante, difícil, cheia de armadilhas, exige atenção e persistência. Bem vindos, apesar dos pesares, ao Brasil, e ao mundo real.
Um conhecido veterano militante de esquerda, nos idos de 2006 disse-me com a plena convicção de uma sentença, em contraposição a argumentos de preocupações sobre a realidade brasileira: “não existe isso, o País tem uma democracia consolidada!”. Hoje em dia faz parte dos que denunciam o impeachment contra a presidente Dilma e os seus desdobramentos até os dias atuais.
O grande problema atual, nessas três últimas décadas, é que muita gente acreditou que no Brasil havia, finalmente, um regime democrático totalmente sustentável, a partir da promulgação da Constituição de 1988.
As novas gerações, inclusive de militantes de esquerda e ativistas de redes sociais, foram educadas com essa mesma visão, que lhes passaram “gurus” de várias espécies, na economia, na grande mídia, com seus sociólogos e cientistas políticos engomadinhos, de sotaques indecifráveis.
A discorrerem sobre um País asséptico, globalizado, em que tanto faria analisar os fenômenos surgidos aqui como em New York, Londres ou Paris, como era chamado antes o Circuito Helena Rubinstein da moda. A realidade seria a mesma, os anseios da sociedade idênticos, as características culturais iguais.
Esse sonho, ou pesadelo, foi vendido, e comprado, nas academias, em muitos estratos artísticos, entre os jornalistas, nos chamados “ativistas sociais”, de tal maneira que se tornou o verniz que encobriu os problemas do Brasil real, das grandes maiorias da sociedade.
Quem incentivou, financiou essa visão de País foi o Mercado Financeiro, especialmente o especulativo, com os seus megaespeculadores, a exemplo de George Soros e suas ONGs, cuja finalidade seria a pasteurização do discurso político e cultural por aqui. E funcionou, ainda funciona. A interpretação do Brasil verdadeiro foi chutada para as calendas gregas, salvo os muitos resistentes conhecidos.
Nem os Estados Unidos, a França, a Inglaterra encarnam semelhante idealização na vida prática ou na sua História. A Inglaterra transformou-se em uma nação do primeiro mundo sobre uma imensa pilha de cadáveres de um império colonial “onde o sol nunca se punha”, como eles próprios diziam. Até hoje a sua política externa é bruta e a realidade interna da maioria da população inglesa está distante do “politicamente correto” adotado pelos filhos da classe média inglesa. A realidade para os demais é pesada.
A charmosa cidade de New York que nos é vendida pelo sistema Globo de TV, e a Globo News voltada para a classe média e as elites, é também outra, muito barra pesada, que o digam os imigrantes legais ou ilegais de lá.
A cidade foi edificada sob os violentíssimos e mortais confrontos entre as gangues de New York que representavam grupos antagônicos de colonos, que disputavam o poder entre si, imortalizado pelo diretor de cinema Martin Scorsese.
Os Estados Unidos trazem até hoje consigo dois conflitos cujas feridas ainda estão abertas: o apartheid que vigorou, oficialmente, até os anos 1960 passados, quase como na África do Sul, e a Guerra Civil americana onde morreram mais de 1 milhão de norte-americanos, número de vítimas jamais superado em outras das dezenas de guerras em que se envolveram, inclusive as primeira e segunda guerras mundiais. Algumas causas da atual divisão nos EUA provêm dessa época.
A França, oh a França culta, sua História é um verdadeiro banho de sangue interno com as guilhotinas sobre as cabeças dos adversários rolando dia e noite incessantemente, onde a revolução burguesa não tendo a quem mais, devorou os seus próprios filhos, em um período conhecido como O Terror. Além do mais, o refinamento da cultura francesa repousa sobre os escombros do colonialismo de ontem e o neocolonialismo de hoje. Que o digam os vietnamitas, os argelinos, os africanos hoje etc.
Mas o que procuram passar os intelectuais, objetiva e subjetivamente, mentalmente colonizados? É copiar essas nações porque suas Histórias foram civilizadas. É como uma socióloga paulista disse anos atrás: “por aqui são quinhentos anos de nada”. Por isso, entre outras coisas, o que vale é a agenda do “politicamente correto” que eles, generosamente, inventaram e nós inteligentemente adotamos como solução definitiva aos nossos males de origem.
A História do Brasil também nunca foi tranquila, mas ao contrário, carregada de sérios conflitos, muitas vezes à bala.
Para não retroceder a outras épocas mais remotas da nossa breve trajetória como nação, citamos a revolta dos Tenentes em 1922, a revolução de 1930 que deu início ao processo de modernização do País com Getúlio Vargas. Essa foi uma revolução real de conflitos políticos e militares, com mortos, feridos e tudo mais.
Em 1932 as oligarquias cafeeiras de São Paulo rebelaram-se contra a vitoriosa revolução de 1930. O País todo levantou-se contra as oligarquias paulistas e atacou São Paulo em intenso combate político e militar.
As elites paulistas guardam até hoje mágoas do resto do País pela derrota, inclusive parte da sua elite acadêmica, em todos espectros políticos. Em 1935 houve uma tentativa de rebelião, basicamente militar, nos quarteis, sob a liderança do PCB, Partido Comunista do Brasil. Debelada. O que causou imensa repressão contra intelectuais, militantes progressistas. Os comunistas tinham feito uma análise extremamente equivocada da realidade brasileira, mas a III Internacional em Moscou nela teria acreditado, endossando-a. Alguns analistas contestam que os líderes soviéticos tenham aceito tal informe dos comunistas brasileiros.
Além desse episódio, houve em 1938 a tentativa de insurreição armada dos Integralistas, vertente de massas, no Brasil, do nazifascismo que vivia o seu auge com o avanço da Alemanha nazista e da Itália fascista de Mussolini. Foram igualmente derrotados, e consequente repressão.
Getúlio Vargas, líder e promotor da revolução de 1930, que modernizou o Brasil, inclusive nos direitos trabalhistas, sob pressão, renunciou em 1945, voltou em 1950 ao poder pelo voto popular e, acossado pela reação, suicidou-se em 1954, derrotando com esse gesto seus adversários.
Juscelino que interiorizou o País com a construção de Brasília, só tomou posse quando eleito, porque o Marechal Lott colocou os tanques na rua, fechou um canal de TV que fazia campanha contra a sua posse, prendeu gente, e Juscelino governou, apesar de duas tentativas de golpe, de Jacareacanga e Aragarças, abafadas. Juscelino, estadista e hábil político, anistiou os revoltosos.
O governo nacionalista de João Goulart foi pego em meio a uma escalada da Guerra Fria. Para derrubá-lo armou-se uma conspiração interna e externa. Muitos, pouco estavam ligando para a tal da Guerra Fria. Queriam o poder político e o mando do País. O golpe de 1964 foi mais civil que militar, mas os civis golpistas, que eram a maioria das elites brasileiras, conseguiram passar incólumes no processo recente da revisão do golpe.
Com a exceção do jornal Última Hora de Samuel Wainer, toda a imprensa brasileira da época conspirou e apoiou abertamente para a derrubada de Jango, incluindo religiosos. Era o perigo comunista que batia à porta. A toda poderosa hoje Globo, promotora atual das agendas do politicamente correto, publicou um editorial redimindo-se do “erro em ter apoiado o golpe de 1964”.
Jamais vai se safar desse ato perante a História. Até porque já está metida de novo em uma conspirata à qual, nem ela, dona quase absoluta da opinião midiática nacional, sabe, no momento, para onde vai. O Brasil vive um quadro institucional kafkiano.
A Folha de São Paulo, porta voz do pós-modernismo multicultural, não só apoiou o golpe como ajudou o processo repressivo durante o a vigência do regime. Enfim, o Brasil não é para iniciantes, como disseram.
Após a promulgação da Constituição de 1988 que encerrou o ciclo autoritário o Brasil viu-se diante de duas questões: a ânsia da ressaca do autoritarismo que fez com que a Constituinte centrasse os seus esforços em assegurar todos os diretos civis, e outros mais, que tinham deixado de existir, e a ausência de uma carta magna voltada para um projeto de Estado nacional.
Os governos subsequentes aprofundaram o espírito autônomo das corporações do Estado, criando uma constelação de instituições poderosas que defendem o seus próprios protagonismos e poderes, desvinculados de qualquer rumo nacional, abrindo amplos espaços para a hegemonia do Mercado Financeiro, interesses externos das grandes potências, e a absoluta hegemonia de uma grande mídia associada às estratégias desse Mercado financeiro.
A consequência é a violência institucional que vivemos no presente. Nessas condições, a política e a vida democrática só atrapalham os poderosos grupos e estamentos do aparelho de Estado e midiáticos que controlam o País. Assim, essa crise atual não surgiu do éter. O pior é que as forças políticas partidárias coonestaram com ele ou porque nele acreditaram na resultante ou porque não o entenderam.
Durante a época após a Constituição de 1988 todos os presidentes eleitos sofreram a tentativa de afastamento, dois foram impedidos, sem a participação das forças armadas, através da luta social sob vários argumentos, uma espécie de “fora todo mundo, menos eu”, especialmente a corrupção, que é o principal mote até os dias atuais, nenhum sob a primazia da legalidade democrática, demonstrando vocação autoritária, mesmo sob bases populares, de organizações sociais.
Assim, o Brasil não tem uma democracia consolidada de longo curso. Nunca teve, as forças políticas jogam pesado, as elites não brincam em serviço, a mídia é poderosa e implacável, as corporações do Estado viraram, cada uma delas, protagonistas dos seus próprios interesses. Esse é o quadro da atual crise dramática que vivemos. Mas a única via correta é a democracia através da atividade política em bom senso e respeito à legalidade constitucional, embora o atual ciclo Histórico mostre sinais evidentes de esgotamento.
As recentes gerações não têm a ideia, ou não foram educadas para tanto, de que o País não é uma vasta terra de consolidados hábitos democráticos. O Brasil é um vulcão ativo que, vez em quando, entra em erupção cuspindo lava por todos os lados. Aliás, o planeta é um vulcão em erupção.
A melhor maneira de participar é defender a via democrática, discutindo os caminhos da nação, as suas necessidades fundamentais, sua agenda para o desenvolvimento, o aperfeiçoamento da vida democrática, defendendo os interesses nacionais, diminuindo as abissais desigualdades sociais, ou qualquer outro tipo de injustiças.
A História das outras nações foi e tem sido lavrada em sangue e conflitos tenebrosos. Essa coisa de “noblesse oblige” europeia é produto de exportação para os outros.
A globalização financeira, George Soros e megaespeculadores, “venderam” ao Brasil e ao mundo, especialmente a partir do século XXI, uma interpretação da História, da cultura, da vida real, da geopolítica, das artes, do contínuo Histórico das nações, inteiramente ficcional. E tanta foi a força da grande mídia global, e o investimento, bilhões de dólares, que atingiram os objetivos que pretendiam. Um estágio de descolamento da realidade em parcelas importantes da população. Especialmente em setores médios.
A luta em defesa permanente da democracia, da vida política, dos interesses da nação, dos avanços sociais é, como sempre foi, tremenda, inconstante, difícil, cheia de armadilhas, exige atenção e persistência. Bem vindos, apesar dos pesares, ao Brasil, e ao mundo real.
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Estereótipos e a Guerra Híbrida
Meu novo artigo:
A principal característica da atual campanha eleitoral à presidência da República reside no esquematismo das posições em disputa. Vivemos um confronto de ideias na grande mídia e nas redes sociais, em que os problemas centrais do Brasil, e da sociedade, não são o centro do debate entre os candidatos, com raras exceções.
Em meio a uma crise política, econômica, social gravíssima que exige a discussão sobre novos rumos da nação, assistimos a uma batalha de estereótipos, onde posições engessadas buscam determinar uma agenda com base em conceitos ideologizados a priori, buscando polarizar suas plataformas, ficando, em segundo plano os anseios da sociedade como um todo.
Com o candidato Lula perseguido, preso e emparedado nas dependências da Polícia Federal, em vias de ser tornado inelegível, o Partido dos Trabalhadores adotou a tática eleitoral do Lula Livre. A concepção da campanha é que o ex-presidente se torna “a própria Ideia” como foi dito literalmente.
A denúncia da perseguição a uma liderança inegável como ele é mais que justa e associa todos os democratas do País a essa batalha. Transformar Lula como uma ideia em si mesmo, resvala para o total messianismo.
Compreende-se até como tática eleitoral e reafirmação da hegemonia em um campo do espectro político nacional, mas falta a proposta de superação de um imbróglio dramático que vive o Brasil.
Todos somos, de um jeito ou de outro, responsáveis pelo passado, presente e futuro da nação, especialmente os que atuam na vida política nacional.
Em evidente antagonismo há o candidato Jair Bolsonaro, escorado num pseudonacionalismo, um agressivo falso-moralismo sem propostas ou rumos factíveis aos destinos da nação.
Mas o seu guru na economia é um financista do Mercado, defensor contumaz da privatização geral, ampla e irrestrita de empresas estatais, como solução aos problemas nacionais.
Esposa, pelo verbo e intenções, um fascismo tupiniquim, uma caricatura de pretenso salvador da pátria. No momento atual essa é a polarização, retroalimentada, em que o Brasil se encontra. Mas novos capítulos estão para acontecer.
Trata-se de uma campanha de emocionalismos, não na forma de galvanizar as propostas dos candidatos, mas no próprio conteúdo. É uma espécie de extensão da Guerra Híbrida que assola o Brasil há um bom tempo. Uma guerra de estereótipos.
Mas o presidente eleito dificilmente terá condições de governabilidade. Será o prolongamento da atual crise institucional em estágio bem mais agudo.
Com as instituições da República em verdadeiro estágio de canibalismo entre si, um presidente fantoche e impopular, o desemprego crescente que atinge grande parte da força de trabalho, a perda da competitividade industrial, a infraestrutura em declínio, a autoestima e a identidade nacionais em baixa, segurança, saúde e educação esfrangalhadas, o Brasil precisa de rumos, projetos, causas e lideranças que unifiquem a sociedade.
O pragmatismo e a política sempre andaram juntos. Mas o pragmatismo sem projetos nivela a ação política ao nível mais elementar, confunde sagacidade com espertezas sem responsabilidades públicas.
Evidente que nos confrontos da política tem-se que fazer opções conforme a realidade objetiva, ninguém é inocente, onde é preciso se posicionar de acordo com o possível, aquilo que está dado.
No entanto, a gravidade da situação adquiriu um estágio de tal incerteza que exige além da competência política, responsabilidade para com os destinos do País, da sociedade.
Como já se disse, o Brasil esgotou um ciclo Histórico iniciado em 1988. Não é o primeiro que finda e nem será o último.
É preciso que forças políticas, ao lado de estrategistas, juristas, economistas, trabalhadores etc., assumam a responsabilidade de encontrar as saídas para outra etapa da vida nacional, a qual, de um jeito ou outro, vai acontecer. Esperamos que seja através da união das grandes maiorias sociais, e das lideranças nacionais que serão cobradas pela História.
A principal característica da atual campanha eleitoral à presidência da República reside no esquematismo das posições em disputa. Vivemos um confronto de ideias na grande mídia e nas redes sociais, em que os problemas centrais do Brasil, e da sociedade, não são o centro do debate entre os candidatos, com raras exceções.
Em meio a uma crise política, econômica, social gravíssima que exige a discussão sobre novos rumos da nação, assistimos a uma batalha de estereótipos, onde posições engessadas buscam determinar uma agenda com base em conceitos ideologizados a priori, buscando polarizar suas plataformas, ficando, em segundo plano os anseios da sociedade como um todo.
Com o candidato Lula perseguido, preso e emparedado nas dependências da Polícia Federal, em vias de ser tornado inelegível, o Partido dos Trabalhadores adotou a tática eleitoral do Lula Livre. A concepção da campanha é que o ex-presidente se torna “a própria Ideia” como foi dito literalmente.
A denúncia da perseguição a uma liderança inegável como ele é mais que justa e associa todos os democratas do País a essa batalha. Transformar Lula como uma ideia em si mesmo, resvala para o total messianismo.
Compreende-se até como tática eleitoral e reafirmação da hegemonia em um campo do espectro político nacional, mas falta a proposta de superação de um imbróglio dramático que vive o Brasil.
Todos somos, de um jeito ou de outro, responsáveis pelo passado, presente e futuro da nação, especialmente os que atuam na vida política nacional.
Em evidente antagonismo há o candidato Jair Bolsonaro, escorado num pseudonacionalismo, um agressivo falso-moralismo sem propostas ou rumos factíveis aos destinos da nação.
Mas o seu guru na economia é um financista do Mercado, defensor contumaz da privatização geral, ampla e irrestrita de empresas estatais, como solução aos problemas nacionais.
Esposa, pelo verbo e intenções, um fascismo tupiniquim, uma caricatura de pretenso salvador da pátria. No momento atual essa é a polarização, retroalimentada, em que o Brasil se encontra. Mas novos capítulos estão para acontecer.
Trata-se de uma campanha de emocionalismos, não na forma de galvanizar as propostas dos candidatos, mas no próprio conteúdo. É uma espécie de extensão da Guerra Híbrida que assola o Brasil há um bom tempo. Uma guerra de estereótipos.
Mas o presidente eleito dificilmente terá condições de governabilidade. Será o prolongamento da atual crise institucional em estágio bem mais agudo.
Com as instituições da República em verdadeiro estágio de canibalismo entre si, um presidente fantoche e impopular, o desemprego crescente que atinge grande parte da força de trabalho, a perda da competitividade industrial, a infraestrutura em declínio, a autoestima e a identidade nacionais em baixa, segurança, saúde e educação esfrangalhadas, o Brasil precisa de rumos, projetos, causas e lideranças que unifiquem a sociedade.
O pragmatismo e a política sempre andaram juntos. Mas o pragmatismo sem projetos nivela a ação política ao nível mais elementar, confunde sagacidade com espertezas sem responsabilidades públicas.
Evidente que nos confrontos da política tem-se que fazer opções conforme a realidade objetiva, ninguém é inocente, onde é preciso se posicionar de acordo com o possível, aquilo que está dado.
No entanto, a gravidade da situação adquiriu um estágio de tal incerteza que exige além da competência política, responsabilidade para com os destinos do País, da sociedade.
Como já se disse, o Brasil esgotou um ciclo Histórico iniciado em 1988. Não é o primeiro que finda e nem será o último.
É preciso que forças políticas, ao lado de estrategistas, juristas, economistas, trabalhadores etc., assumam a responsabilidade de encontrar as saídas para outra etapa da vida nacional, a qual, de um jeito ou outro, vai acontecer. Esperamos que seja através da união das grandes maiorias sociais, e das lideranças nacionais que serão cobradas pela História.
Sun Tsu e a guerra comercial EUA x China
Sun Tzu e a arte de guerrear guerra comercial, por Pepe Escobar
Será longa e será suja, e Trump é doido se subestimar Xi e a firmeza da China
23/8/2018, Pepe Escobar, Asia Times
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Publicado no Blog do Alok
"Toda guerra baseia-se na dissimulação. Finge desordem. Jamais deixes de oferecer um engodo ao inimigo, para ludibriá-lo. Simula inferioridade para encorajar sua arrogância. Atiça sua raiva para melhor mergulhá-lo na confusão. Sua cobiça o arremeterá contra ti e, então, ele se estilhaçará" (Sun Tzu, A Arte da Guerra, século IV a.C.).
Imagine a liderança chinesa sumir durante quase duas semanas – praticamente posta em hibernação, imersa num debate secreto. Foi precisamente o que aconteceu em Beidaihe, resort de férias de verão na província ocidental de Hebei.
Por mais que circulem por aí teorias da conspiração à moda James Bond sobre esse rito anual, não há dúvidas sobre o tema-chave das discussões: a guerra comercial EUA-China.
A segunda maior economia do mundo sob o presidente Xi Jinping está já muito avançada na longa marcha rumo ao status de superpotência. O status quo geopolítico e geoeconômico anterior está morto.
Xi já disse incontáveis vezes e muito claramente que não basta, para a China, tornar-se simples "acionista responsável" na ordem liberal internacional pós-Guerra Fria controlada pelos EUA.
Não escapou à alta liderança em Beidaihe a mudança de direção operada pelo governo do presidente Donald Trump ao assumir abordagem beligerante, ao mesmo tempo em que a US National Security Strategy em dezembro de 2017 muito claramente rotulou a China "potência revisionista", rival estratégico e, para todas as finalidades práticas, do ponto de vista do Pentágono, alta ameaça.
Mas o que a liderança chinesa está identificando é o que podemos definir, na terminologia da cultura chinesa, como caso de "três ameaças".
Uma ameaça ao conceito de política exterior para as próximas décadas, como a Iniciativa Cinturão e estrada; e uma ameaça ao próprio movimento da própria integração da China, movimento centrado nas três zonas estratégicas da Área da Baía Expandida, o corredor Pequim-Tianjin-Hebei e o delta do rio Yangtze. E, claro, uma ameaça ao mercado chinês de ações.
A mídia estatal ainda não decidiu como lidar com isso tudo. The People's Daily definiu a estratégica do governo Trump, polidamente, como "engajamento plus contenção."
A rede CGTN [ing. China Global Television Network] jogou a carta do poder soft e enviou carta sarcástica a Trump. A rede agradeceu por ele ter unido o resto do mundo e, ao mesmo tempo, ter forçado a China a tornar o próprio ambiente econômico mais para sedutor para investimentos vindos do exterior. Pouco depois, o vídeo da rede CGTN "desapareceu" de YouTube e Twitter.
Assim, ainda que o consenso na liderança talvez seja que se trata de conter a irresistível ascensão da China, e mesmo considerando a névoa que cerca todas as grandes decisões de Pequim, mesmo assim se detectam algumas nuances fascinantes.
Sem dó nem piedade
Para Trump, nas declarações públicas, "guerras comerciais são boas e fáceis de vencer". É opinião que reflete sua fascinação pelo etos do Campeonato Mundial de Vale-tudo [ing. World Wrestling Entertainment (WWE)]. Trump, nesse caso é O Demolidor, empenhado em jogar Xi no chão de cimento, por cima das cordas. Xi seria O Bom-Rapaz [orig. Mr. Nice Guy], ex "bom amigo" de Trump.
Assim sendo, nem passa pela cabeça de Xi que hipnotizar a multidão, como o super-herói The Rock baste para salvar o dia. O Campeonato Mundial de Vale-tudo não é jogo de "ganha-ganha" – "ganha-ganha" é pra maricas. Agora, já praticamente não há limites. Trump acusa a China de interferir nas eleições nos EUA: "Idiotas que estão tão focados, só olhando para a Rússia, que tratem de olhar também noutra direção, para a China."
O "aventureirismo" militar da China permite ao Pentágono vir com uma Força Espacial. A China está proibida de investir em indústrias norte-americanas relacionadas à segurança nacional.
A resposta dos EUA ao alcance da Iniciativa Cinturão e Estrada é investir no vago "Indo-Pacífico" – aplicando lá miseráveis $113 milhões em infraestrutura de energia e comércio digital. "Made in China 2025" foi definido como ameaça absoluta a "EUA em 1º lugar" ["America First"].
E a China cada dia com mais frequência é apresentada como "maligna" – palavra de propaganda que põe Trump, nesse caso, perfeitamente alinhado com o complexo industrial-militar-segurança e respectivos think-tanks.
Assim sendo, como lutar numa jaula, sem árbitro? É onde entra Sun Tzu, legendário estrategista militar da China, autor de A Arte da Guerra. A primeira regra é simples: "Toda guerra baseia-se na dissimulação".[1] Caso de Pequim, que passa a negociar ao mesmo tempo como parceiro e como ameaça.
'Bárbaros do exterior'
Vai demorar, vai ser suja, será estendida, irá bem além das conversações dessa semana com os EUA, que – muito significativo – não incluem o vice-presidente Wang "Bombeiro" Qishan, ator chave e consigliere no qual Xi muito confia. É mais útil coordenando a estratégia de longo prazo em Pequim.
Aqui, é imprescindível um rápido flashback até o Império Britânico. Em 1793, durante a primeira missão diplomática a Pequim, liderada por Lord Macartney e recebida pelo Imperador Qianlong, os britânicos rapidamente perceberam que os fervilhantes mercados da China eram uma "ameaça" à Europa e ao sistema mundial de comércio de então.
A China era autossuficiente àquela época e exportava para a Europa itens como seda, chá, tecidos, porcelanas. De fato, todo um mercado de luxo em ebulição, numa rede de rotas da seda, ou uma versão inicial de Cinturão e Estrada.
Mas... o que os chineses importavam? Pouca coisa, além de peles da Sibéria, alguns alimentos exóticos e ingredientes da tradicional medicina chinesa. Nesse ponto, fala o Imperador Qianlong: "O Império Celestial tem tudo em fértil abundância e não precisa de produto algum dentro das próprias fronteiras. Não há pois qualquer necessidade de importar manufaturados por bárbaros do exterior, em troca de nossos próprios produtos."
Todos sabemos como terminou – diplomacia do canhão, as Guerras do Ópio, Pequim saqueada em 1860, "tratados desiguais" e o "século da humilhação" dos chineses.
Tudo isso ainda sobrevive nas profundezas do inconsciente coletivo chinês, bem como as raízes reais da atual guerra comercial. A brilhante estratégia de Deng Xiaoping consistiu em abrir as Zonas Econômicas Especiais [ing. SEZs] como bases insuperáveis, de produção de baixo custo, às multinacionais ocidentais e asiáticas.
Deng ofereceu a primeira plataforma para a expansão do capitalismo global. Consequência inevitável foi um estouro-da-boiada de investimento estrangeiro direto [ing. foreign direct investment (FDI)], deslocalização e transferência de fábricas e de cadeias de produção [ing. off-shoring and outsourcing].
Agora, comparem isso e alguns dados chaves fornecidos pela Administração Geral e Aduana da China [ing. China's General Administration and Customs]. Nos primeiros seis meses desse ano, nada menos que 41,58% das exportações da China para o resto do mundo foram produzidas por multinacionais norte-americanas, europeias e asiáticas.
Não se vê sinal algum de que os EUA corporativos – representados pelas empresas multinacionais – tenha interesse em sacrificar baixo custo de produção para "levar de volta aqueles empregos". As multinacionais também muito apreciam um yuan desvalorizado, porque assim os baixos custos de produção continuam baixos.
Além do mais, nenhum ataque de Trump contra "Made in China 2025" alterará o fato de que a segunda maior economia do mundo continua a escalar incansavelmente a escada da manufatura. Mais cedo ou mais tarde superará os EUA em inovação tecnológica.
Como lembra Zhigang Tao, diretor do Instituto para Desenvolvimento da China e Global, da Universidade de Hong Kong, Pequim ofereceu ao capital norte-americana a oferta proverbial que não pode ser recusada – acesso ao mercado chinês, em troca de transferência de tecnologia.
"[De fato,] essa estratégia de tecnologia-em-troca-de-acesso-ao-mercado funcionou extremamente bem, como se vê pelo crescimento da China em indústrias chaves, inclusive ferrovias para altas velocidades, aviação, automóveis e turbinas de vento" – disse Tao.
Significa que o próximo passo deve ser uma ampliação do modelo Tesla-em-Xangai.
Luta de classes?
Seduzir o capital norte-americano para investir na China sob regras mais lenientes pode ser apenas um aspecto de uma manobra à Sun Tzu para que Pequim dilua a guerra comercial. Com certeza Beidaihe avaliou o que pode acontecer se tudo der errado e virar guerra comercial quente.
Um furacão Tarifas teria potencial para devastar o emprego e a paisagem financeira da China, e provocar alta inflação e, até, recessão. Xi não pode de modo algum pôr em risco sua base de poder de facto, que não é o proletariado chinês, mas a classe média ascendente, que vive surto de consumo frenético e de turismo global.
Acrescente a isso a fúria indomável da classe trabalhadora, que já está ativada, segundo Minqi Li da Universidade de Utah. Afinal de contas, "Socialismo com Características Chinesas" não é exatamente Marx.
A proverbial miopia ocidental há anos insiste na ladainha de um colapso da China. Sim, há uma possível bomba da dívida. Sim, a China depende de fontes externas de petróleo e gás, o que é pesadelo recorrente. E, sim, as relações EUA-China já estão hoje sem dúvida em território de Guerra Fria, mesmo que nem se considere o Mar do Sul da China e Taiwan.
Mas subestimar uma potência ascendente capaz de planejar estratégia global concertada em detalhes até 2049 é tolice. Xi e Trump terão oportunidade de um sério cara a cara, dia 30 de novembro, na reunião do G20 na Argentina.
Trump pode até contabilizar o encontro como "ganha", como fez no caso do encontro com o presidente Vladimir Putin da Rússia e com o governante da Coreia do Norte Kim Jong Un. Mas Sun Tzu lá estará, a tudo assistindo das coxias.
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
A crise política e os ciclos históricos republicanos
O Estado Novo que atravessa os tempos, por André Araújo
O cineasta Eduardo Escorel tem nos proporcionado uma notável recuperação do tempo histórico com sua série de documentários sobre o Estado Novo. Com uso dos arquivos de cine jornais da época, Escorel reconstitui o regime que, mais que nenhum outro, molda o Brasil contemporâneo, o momento em que o Brasil se tornou protagonista da geopolítica internacional numa escala não mais repetida depois.
IMAGENS DO ESTADO NOVO em cinco episódios é obra rara de documentação e reconstituição histórica, imperdível para os que gostam de política e de História brasileira.
O último episódio, exibido no Canal CURTAS, é sobre o levante comunista de 1935, que serviu de base e instrumento para Vargas elaborar o autogolpe de 10 de Novembro de 1937.
Personagem central do levante comunista em Natal e Rio de Janeiro foi Luís Carlos Prestes, o líder do Tenentismo de 1922, comandante da Coluna Prestes que percorreu o Brasil sem ser derrotada de 1925 a 1927 e que poderia ser, se assim quisesse, o líder da Revolução de 1930.
Esse homem que parecia ser das profundezas do tempo histórico deu entrevista no programa Jô Soares da TV Globo, sempre achei isso extraordinário. Como esse personagem atravessou tal percurso de tempo, a mesma pessoa, o mesmo homem? Prestes nasceu em 1898 e morreu em 1990, sai das batalhas a cavalo para chegar no talk show da TV Globo.
Outro personagem que atravessou o tempo histórico foi Artur Bernardes. Quando meu pai elogiava os discursos do Deputado Artur Bernardes em favor da criação da Petrobras em 1953, já no ultimo governo de Getúlio (1950-1954), eu não imaginava que esse era o mesmo Presidente Artur Bernardes de 1922 a 1926, o mesmo homem da época das casacas e polainas, o que enfrentou a Coluna Prestes, não era possível. O Presidente Bernardes parecia ser de outra época, de um Brasil profundo da República Velha, mas chegou inteiro à Era da Televisão. O Deputado Artur Bernardes era o mesmo Presidente Bernardes de três décadas anteriores.
Eduardo Escorel tem reconstituído magistralmente essa era que explica o Brasil de hoje porque lá estão as sementes de muitos de nossos problemas e desafios atuais, a raiz é antiga.
Escorel é ele mesmo produto desse Brasil profundo, neto do grande Embaixador Lauro Escorel que conheci no México em 1981 na famosa viagem do então Governador Paulo Maluf em roteiro internacional se preparando para a candidatura à Presidência. O Embaixador ofereceu um jantar ao Governador Maluf na linda residência da Embaixada. Como se não bastasse, o cineasta Eduardo Escorel é neto de Antônio Candido e Gilda de Mello e Souza, a quitessência intelectual do Brasil culto dos tempos do Estado Novo, do segundo Governo Vargas, dos anos dourados de JK e do fecho da Era Vargas no regime militar de 1964 desfechado por generais formados no Estado Novo. Geisel foi homem de Vargas na Paraíba em 1930.
É impressionante o desconhecimento desse substrato político que parece longínquo, mas é recente na História do Brasil, por parte de jornalistas e comentaristas moderninhos. Muitos dizem que estas eleições são as mais importantes da História da República e que o Brasil nunca viveu crise como a de hoje. Que grande tolice. O Brasil vive em crise política permanente desde a proclamação da República. Grandes entrechoques ocorreram na Campanha Civilista da Primeira República, no movimento tenentista que pretendia derrubar o Governo, nas insurreições regionais. Quem lembra que Salvador foi bombardeada pela Marinha em 1912 ou que a cidade de São Paulo foi bombardeada em 1924 por artilharia do Exército?
A Coluna Prestes não era pouca coisa, quatro colunas a cavalo em marcha, com 10 mil combatentes percorreu o Brasil por 25 mil quilômetros, sem que o Exército pudesse derrotá-la. Ao fim a Coluna se internou na Bolívia, invicta e seus próceres foram protagonistas, em 1930, na marcha que veio do Rio Grande para o Rio de Janeiro para derrubar o Presidente Washington Luiz, do qual o chefe da Revolução tinha sido Ministro da Fazenda.
Mega crises políticas marcam a História contemporânea do Brasil, a partir do Estado Novo e sua queda em 1945, eclodiram crises dramáticas como o suicídio de Vargas em 1954, a derrubada em duas semanas de três Presidentes, em Novembro de 1955, com o Palácio do Catete cercado por tanques, a eleição e a queda de Jânio Quadros em sete meses de Presidência, o regime parlamentarista improvisado de 1961, a volta do Presidencialismo, as agitações de Brizola e a derrubada de Jango. Com a liquidação da República de 1946, o novo regime militar em várias fases distintas que representavam choques internos violentos e pouco visíveis, a crise da morte de Tancredo e a Era Collor. O Brasil sem crises foi uma rara exceção e não regra, esta é a crise permanente da política, um País complexo, continental, fraturado, carente desde 1889. Nunca houve estabilidade real econômica ou política no Brasil.
FIM DE CICLO HISTÓRICO
Se existe alguma teoria a extrair da História brasileira é uma repetição de começo, meio e fim de ciclos históricos. A Primeira República se esgota em 1930, o Estado Novo acaba em 1945, o ciclo de governos oriundos da Era Vargas termina em 1964, o regime militar se esgota em 1985, agora chegamos ao fim do ciclo da Constituição de 1988, que tornou o processo de governar o Brasil impossível. Como disse ontem, 25 de agosto, no programa PAINEL GLOBONEWS, o mais experiente homem do poder vivo, Delfim Neto, com qualquer governo eleito neste ano o Brasil será ingovernável. Não há mais como compor os conflitos entre o Poder Executivo e o Congresso e entre esses dois e o Poder Judiciário. O ciclo esgotou-se e o novo governo eleito entra em meio a uma grande crise econômica, social e política cujo desfecho em todos os tempos, países e regimes se dá por traumatismos, sejam golpes, revoluções, guerra civil ou fraturas institucionais. Não há registro de estabilidade possível em um clima social onde grande parte da população está desempregada e sem meios de subsistência, seja na Roma Imperial, na França de Luís XVI ou na Itália pós Primeira Guerra.
A Constituição de 1988 terminou sua utilidade, mas uma nova Constituição só existirá por uma derrocada do atual regime e o nascimento de um novo que dê conta dos conflitos.
Tudo isso pode ou não correr, também é possível uma lenta agonia do regime de 1988 que se recusará a morrer. Períodos de decadência e decomposição são também ciclos históricos conhecidos, o Império Romano teve 300 anos de decadência até morrer.
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Silenciosa arma de Washington, para guerras nada silenciosas, por F. William Engdahl, com atualização de Pepe Escobar
Publicado no Blog do Alok:
20/8/2018, F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
Atualização de Pepe Escobar, 22/8/2018
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Hoje, a mais mortal das armas de destruição em massa do arsenal de Washington não está no Pentágono nem é qualquer daquelas armas de matar tradicionais. É arma silenciosa: a capacidade que tem Washington para controlar a oferta global de dinheiro, de dólares, mediante ações do banco (privado) Federal Reserve coordenadas com o Tesouro dos EUA e seletos grupos financeiros ativos em Wall Street.
Desenvolvida ao longo de décadas, desde que dólar e ouro foram separados por ato de Nixon, em agosto de 1971, o controle sobre o dólar é arma financeira contra a qual poucas nações, talvez nenhuma, têm hoje condições de enfrentar, pelo menos ainda não, até esse momento.
Há dez anos, em setembro de 2008, o secretário do Tesouro dos EUA e ex-banqueiro de Wall Street Henry Paulson deliberadamente tirou da tomada o sistema global do dólar, ao deixar que um banco de investimentos de tamanho médio de Wall Street, Lehman Bros., quebrasse. Naquele momento, com ajuda do recurso para criar dinheiro infinito no Fed, conhecido como "Alívio Quantitativo" [ing. Quantitative Easing], os meia-dúzia de maiores bancos de Wall Street, entre os quais o próprio banco de Paulson, Goldman Sachs, foram 'resgatados' de uma debacle criada pela exótica finança securitizada deles mesmos.
O Fed também agiu para dar linhas de crédito sem precedentes, de centenas de bilhões de EUA-dólares, a bancos centrais da União Europeia de modo a evitar carência de moeda que claramente teria levado ao desmoronamento de toda a arquitetura financeira global. Naquele momento, seis bancos da eurozona deviam, em dólares, mais de 100% dos respectivos PIB.
Um mundo cheio de dólares
Desde então, há uma década, a oferta de dólares baratos para todo o sistema financeiro global subiu a níveis sem precedentes. O Institute for International Finance (IIF) em Washington estima que a dívida das famílias, governos, empresas e setor financeiro nos 30 maiores mercados emergentes chegou, no início de 2018, a 211% do PIB doméstico. Era de 143% no final de 2008.
Outros dados do IIF indicam a escala de uma armadilha de dívida que está só nos estágios iniciais de detonar as economias menos avançadas, da América Latina à Turquia e à Ásia. Com exclusão da China, a dívida total dos mercados emergentes, em todas as moedas, incluindo dívidas domésticas, quase dobrou, de 15 trilhões de dólares em 2007, para 27 trilhões de dólares no final de 2017. A dívida da China, no mesmo período foi, de 6 trilhões de dólares para 36 trilhões de dólares, segundo o IIF.
Para o grupo de países dos mercados emergentes, suas dívidas denominadas em dólares cresceram para cerca de 6,4 trilhões de dólares, a partir de 2,8 trilhões de dólares em 2007. Empresas turcas devem quase 300 bilhões em moedas estrangeiras, mais da metade do próprio PIB, a maior parte dessa dívida, em dólares. Os mercados emergentes preferiram o dólar, por muitas razões.
Enquanto aquelas economias emergentes estavam crescendo, recebendo dólares de exportação a uma taxa crescente, a dívida foi administrável. Agora, isso está começando a mudar. O agente dessa mudança é o banco central mais politizado do mundo, o Federal Reserve dos EUA, cujo novo presidente Jerome Powell é ex-sócio do sinistro Carlyle Group. Sob o argumento de que a economia doméstica dos EUA é suficientemente forte e que é possível devolver os juros dos EUA-dólar para o patamar "normal", o Fed iniciou deriva titânica para liquidez em dólar na economia mundial. Powell e o Fed sabem muito bem o que estão fazendo. Estão apertando os parafusos do dólar, para precipitar uma grande nova crise econômica em todo o mundo emergente, especialmente em economias eurasianas chaves, como Irã, Turquia, Rússia e China.
Apesar de todos os esforços de Rússia, China, Irã e outros países, para se afastarem da dependência do EUA-dólar para comércio internacional e finança, o dólar ainda é moeda de reserva dos bancos centrais do mundo, cerca de 63% de todas as reservas dos bancos centrais do Banco de Compensações Internacionais (ing. BIS). Além disso, quase 88% de todos os negócios diários em moedas estrangeiras são feitos em EUA-dólar. A maior parte do comércio de petróleo, ouro e commodities é denominado em EUA-dólar. Desde a crise grega em 2011, o euro jamais foi rival sério contra a hegemonia do dólar como moeda de reserva. Hoje, cerca de 20% das reservas são em EUA-dólar.
Desde a crise financeira de 2008, o EUA-dólar e a importância do Fed cresceram a níveis sem precedentes. Só agora o mundo começa a perceber, pela primeira vez desde 2008, real falta de dólares, o que significa custo muito mais alto para tomar novos empréstimos em dólares para refinanciar velhas dívidas em EUA-dólar. O pico dos vencimentos da dívida total em EUA-dólar dos mercados emergentes acontece em 2019: estarão vencendo dívidas num total de mais de 1,3 trilhão de dólares.
Aqui vem a armadilha. O Fed não está avisando apenas que aumentará mais agressivamente os juros para emprestar em dólares ainda esse ano, adiante, e no próximo ano. Está também reduzindo a quantidade de dívida do Tesouro dos EUA que comprou depois da crise de 2008, o chamado Arrocho Quantitativo [ing. QT, Quantitative Tightening).
Do Alívio Quantitativo, ao Arrocho Quantitativo
Depois de 2008, o Fed iniciou o que foi chamado de Alívio Quantitativo. O Fed comprou dos bancos soma estarrecedora de bônus do Tesouro, até um pico de 4,5 trilhões de dólares, a partir dos apenas 900 bilhões no início da crise. Agora o Fed anuncia que planeja reduzir as compras em pelo menos um terço, nos próximos meses.
O resultado do Alívio Quantitativo foi que o Fed inundou de liquidez os grandes bancos que estiveram por trás da crise financeira de 2008, e os juros caíram a zero. Aquela liquidez dos bancos foi, por sua vez, investida em qualquer parte do mundo que oferecesse retorno mais alto, enquanto os papéis dos EUA pagaram juro zero. Virou papel podre no setor do petróleo de xisto, num novo mini-boom da construção nos EUA. Mais marcadamente, os EUA-dólares líquidos foram para mercados emergentes de mais alto risco, como Turquia, Brasil, Argentina, Indonésia, Índia. EUA-dólares fluíram para a China, onde a economia vivia um boom. E EUA-dólares escorreram para a Rússia, antes que as sanções, no início desse ano, começassem a assustar investidores estrangeiros.
Agora, o Fed começou o Arrocho Quantitativo [ing. QT – Quantitative Tightening] – o contrário do Alívio Quantitativo. No final de 2017, o Fed lentamente começou a fazer encolher a própria carteira de bônus, o que reduz a liquidez de EUA-dólares no sistema bancário. No final de 2014, o Fed já parara de comprar novos papeis do mercado. A redução da carteira de papéis do Tesouro no Fed, por sua vez, empurrou os juros para cima. Até esse verão, tudo foi feito despacito, despacito. Até que o presidente dos EUA lançou uma ofensiva de guerra comercial com alvo determinado, gerando terrível incerteza na China, na América Latina, na Turquia e por toda parte, e novas sanções econômicas contra Rússia e Irã.
Hoje, o Fed está deixando que 40 bilhões de dólares de seus papeis do Tesouro e de empresas amadureçam sem substituí-los, quantia que subirá para 50 bilhões de dólares mensais adiante, esse ano. Significa que todos esses dólares são tirados do sistema bancário. Além disso, para agravar o que rapidamente se vai convertendo em claro e absoluto racionamento de dólares, as leis de cortes de impostos do governo Trump estão acrescentando centenas de bilhões ao déficit que o Tesouro dos EUA terá de financiar mediante emissão de novos papéis da dívida. Com o aumento na oferta de papéis da dívida do Tesouro, o Tesouro será forçado a pagar mais juros, para conseguir vendê-los. Juros mais altos nos EUA já estão operando como um ímã, para trazer de volta os dólares que se espalharam pelo mundo.
Para aprofundar o Arrocho global, sob pressão da dominação do Fed e do dólar, o Banco do Japão e o Banco Central Europeu foram obrigados a anunciar que não mais comprarão bônus nos respectivos programas de Alívio Quantitativo. Desde março, o mundo já entrou, de fato, na nova era de Arrocho Quantitativo.
Visto desse ponto, a coisa parece estar ficando dramática, a menos que o Federal Reserve pare tudo, desista e recomece uma nova operação de Alívio Quantitativo, para evitar crise sistêmica global. Não parece provável que aconteça. Hoje, os bancos centrais, mais até do que antes de 2008, dançam pela música que o Federal Reserve está tocando. Como consta que Henry Kissinger teria dito nos anos 1970s "Se você controla o dinheiro, você controla o mundo."
Nova Crise Global em 2019?
Embora até aqui o impacto da contração do dólar tenha sido gradual, está às vésperas de tornar-se dramático. Os balanços dos bancos centrais somados do G-3 mostram crescimento de apenas 76 bilhões na primeira metade de 2018, comparados aos 703 bilhões de dólares de crescimento nos seis meses anteriores – quase meio trilhão de dólares saíram do pool global de dinheiro a emprestar. Bloomberg estima que as compras líquidas [orig. net asset purchases] pelos três principais bancos centrais cairão a zero no final de 2018, dos quase 100 bilhões de dólares mensais no final de 2017. Anualmente, isso se traduz no equivalente a 1,2 trilhões de dólares a menos na liquidez em dólares no mundo em 2019.
A lira turca caiu pela metade desde o início desse ano em relação ao EUA-dólar. Significa que as grandes empresas turcas de construção e outras que conseguiram tomar empréstimos em dólares "baratos" terão de arranjar o dobro da quantidade de dólares que tomaram, para pagar os empréstimos. A maior parte da dívida não é dívida do estado turco, mas de empresas privadas. Empresas turcas devem estimados 300 bilhões de dólares em moeda estrangeira, a maior parte da dívida em EUA-dólares, quase metade de todo o PIB do país. Essa liquidez em EUA-dólares manteve o crescimento da economia turca desde a crise financeira dos EUA em 2008. E não só a economia turca. Países asiáticos, do Paquistão à Coreia do Norte, exceto a China, tomaram emprestados estimados 2,1 trilhão de dólares.
Enquanto o dólar esteve barato, contra essas moedas, e o Fed manteve baixos os juros – como de 2008 a 2015 –, o problema foi pequeno. Agora isso estão mudando e mudando dramaticamente. O dólar está subindo fortemente contra todas as outras moedas, esse ano, 7%. Isso, combinado com as guerras comerciais que Washington está deliberadamente começando, provocações políticas, quebra unilateral do tratado nuclear com o Irã, novas sanções contra Rússia, Irã, Coreia do Norte, Venezuela, além de provocações sem precedentes contra a China. Ironicamente, as guerras comerciais de Trump levaram a uma "corrida para segurança", para longe de países emergentes como Turquia ou China, para os mercados dos EUA, mais notavelmente para o mercado de ações.
O Fed está usando o EUA-dólar como arma de guerra, e as precondições são, em muitos sentidos, semelhantes às que se tinha durante a crise da Ásia em 1997. Naquele momento, bastou um ataque concertado de fundos 'abutres' norte-americanos contra a moeda do terço mais pobre das economias asiáticas, o baht tailandês, para disparar o colapso por quase todo o sul da Ásia, até a Coreia do Sul e até Hong Kong. Hoje, o gatilho é Trump e seus tuítos belicosos contra Erdogan.
As guerras comerciais dos EUA de Trump, as sanções políticas e as novas leis de impostos, no contexto da clara estratégia do Fed de arrocho na oferta de dólares, oferecem o pano de fundo para uma guerra do dólar contra opositores globais dos EUA, sem sequer ser preciso declarar guerra. Bastaram algumas provocações comerciais contra a economia gigante da China, provocações políticas contra o governo turco, novas sanções sem qualquer fundamento contra a Rússia e bancos de Paris a Milão, Frankfurt e New York e quaisquer outros que tenham dívidas em dólares, para que mercados emergentes, de maior risco, começarem a corrida rumo à porta de saída. O colapso da lira como resultado de um quase pânico de venda, ou a crise da moeda do Irã, a queda do rublo russo. Tudo isso reflete o início, como também o declínio do renminbi chinês, de um 'racionamento' global do dólar.
Se Washington conseguir dia 4 de novembro cortar todas as exportações de petróleo do Irã, os preços mundiais do petróleo subirão acima de 100 dólares, o que aumentará dramaticamente a falta de dólares no mundo em desenvolvimento. É guerra, por outros meios. A estratégica do dólar, do Fed, está operando hoje como "arma silenciosa" para guerras nada silenciosas. Se isso continua, pode ter efeito grave na crescente independência dos países da Eurásia em torno da Nova Rota da Seda da China e da alternativa Rússia-China-Irã ao sistema dólar. O papel do dólar como principal moeda global de reserva e a habilidade do Federal Reserve para controlar o processo é arma de destruição em massa e pilar estratégico para que a superpotência norte-americana mantenha-se como tal. As nações da Eurásia, e mesmo o Banco Central Europeu estão preparados para enfrentar tudo isso efetivamente?
Atualização:
Pepe Escobar, 22/8/2018
EXCLUSIVO, MEGA IMPORTANTE ALEMANHA CONTRA O EUA-DÓLAR (ATUALIZAÇÃO)
Bem, estou me aprofundando no assunto – de fato, é praticamente matéria de primeira mão. Prefiro não esperar, e aí vai, pra vocês, enquanto ainda é noite na Europa e início da tarde nos EUA.
Comecemos com fonte muito bem informada, importante financista alemão na Suíça, que comentou o que disse o ministro de Relações Exteriores alemão [Heiko] Maas, sobre a ideia de um sistema europeu ou global para deixar de fora os EUA (Aqui, a matéria da Reuters).
Por falar disso, se a coisa for global, é exatamente o que Rússia-China e os (B)RICS [exceto o Brasil, que vive sob golpe e virou quarto de despejo da CIA-EUA (NTs)] vêm discutindo há anos.
Segundo a fonte, "muitas instituições financeiras (e agências reguladoras) europeias (e suíças) são dirigidas por norte-americanos ou fãs apaixonados dos EUA. Como se não bastasse, morrem de medo da retórica dos EUA de bloqueá-las e impedir-lhes o acesso a Wall St., se não se comportarem bem."
A fonte lembra que "desde o Tratado de Roma a União Europeia não consegue concordar quanto a qualquer (uma, que fosse, uma só!) decisão importante relacionada a dinheiro, banking, impostos, subsídios, tudo! Por que estariam em harmonia agora?" – a fonte estranha.
Além do mais, "a confiança de outras nações em alguma 'liderança da União Europeia' é ainda mais baixa do que na temida, embora de modo geral quase sempre obedecida, liderança global dos EUA".
E, "ainda que pudessem fazer um vago movimento, alguma tentativa, na direção de revolução em tão larga escala como essa, antes de acabarmos de comer croissants os corretores de moeda em NYC já teriam detonado uma bomba atômica sobre o euro e a Força Aérea dos EUA já controlaria toda a Europa, antes de Bruxelas acordar da sesta de depois do almoço..."
Está bom p'rá vocês?
Do nosso mesmo e muito bem relacionado amigo: "na economia do futuro, a Europa será passado. Num horizonte de 5-10 anos, só vejo a China com chances de dominar a moeda. Isso, sim, é inevitável. Esqueça a Europa."
Agora, comparem com a visão de curto prazo de meu amigo, o analista Peter Spengler. Peter argumenta, corretamente, que ser 'exilado' do sistema SWIFT não é o problema:
"SWIFT, a maior rede cooperativa [sic] de pagamentos do mundo, opera sob a legislação da Bélgica, quer dizer, sob leis da União Europeia – as mesmas leis que os guerrilheiros do Tesouro dos EUA (+ o Government Communications Headquarters (GCHQ) [serviço de inteligência britânico encarregado da segurança e da espionagem e contraespionagem] e a Agência de Segurança Nacional dos EUA]) só fazem desrespeitar há mais de dez anos, apesar dos muitos protestos no nível do Parlamento Europeu. A Europa e os países e moedas associados não precisam de novo sistema. Precisam É FAZER VALER A LEI INTERNACIONAL E AFASTAR-SE DO EUA-DÓLAR (maiúsculas minhas) e portanto do Fed-NY, para transações de pagamentos –, para ter compensação neutra, confiável e multilateral."
Agora a bomba – vinda diretamente de uma lista muito fechada que circula nos mais altos níveis da finança, que recebi de uma das minhas fontes nas finanças da União Europeia.
Segundo aquelas análises, o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha "não soltou esse balão de ensaio sem permissão dos que mandam em Merkel, que não passa de fantoche da grande finança."
E ainda melhora: "Alemanha está extremamente temerosa de que o Estreito de Ormuz seja fechado, interrompendo parte crucialmente importante do gás natural e do petróleo de que o país precisa e pondo a Alemanha em total dependência do petróleo e do gás natural russos. Por isso os alemães têm de se agarrar com unhas e dentes ao acordo nuclear iraniano, custe o que custar, porque, sem acordo, podem perder também a Rússia. Daí o recente encontro Merkel & Putin (Cobri o encontro para Asia Times: "Do Mar Báltico ao Mar Negro, Rússia busca ganha-ganha", 20/8/2018, Pepe Escobar [traduzido])
e o aparecimento de um novo plano para a moeda para quebrar o controle dos EUA sobre a Alemanha e o mundo do sistema dólar dos SWIFT-CHIPS."
Em resumo: segundo esses pesos pesados, "o que está empurrando as forças que mandam em Merkel na direção de ameaçar separar-se do EUA-dólar, é O MEDO de perder o petróleo e o gás da Rússia e dos '-stões' centro asiáticos e o Estreito de Ormuz, caso Trump enlouqueça nas sanções, e o Irã reaja bloqueando Ormuz.
A mensagem aqui é que a elite alemã parece crer que os EUA não têm competência militar para manter aberto o Estreito de Ormuz – e nesse caso, com o Estreito fechado, a Alemanha ficaria simplesmente paralisada. E por isso o desmonte do sistema que controla o mundo pelo EUA-dólar começa agora a ser 'ventilado' pela Alemanha: é questão de sobrevivência nacional.
Agora imaginem tudo isso em discussão no palco do mundo, em breve (provavelmente em setembro) na reunião de cúpula Rússia-Alemanha-França-Turquia.
20/8/2018, F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
Atualização de Pepe Escobar, 22/8/2018
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Hoje, a mais mortal das armas de destruição em massa do arsenal de Washington não está no Pentágono nem é qualquer daquelas armas de matar tradicionais. É arma silenciosa: a capacidade que tem Washington para controlar a oferta global de dinheiro, de dólares, mediante ações do banco (privado) Federal Reserve coordenadas com o Tesouro dos EUA e seletos grupos financeiros ativos em Wall Street.
Desenvolvida ao longo de décadas, desde que dólar e ouro foram separados por ato de Nixon, em agosto de 1971, o controle sobre o dólar é arma financeira contra a qual poucas nações, talvez nenhuma, têm hoje condições de enfrentar, pelo menos ainda não, até esse momento.
Há dez anos, em setembro de 2008, o secretário do Tesouro dos EUA e ex-banqueiro de Wall Street Henry Paulson deliberadamente tirou da tomada o sistema global do dólar, ao deixar que um banco de investimentos de tamanho médio de Wall Street, Lehman Bros., quebrasse. Naquele momento, com ajuda do recurso para criar dinheiro infinito no Fed, conhecido como "Alívio Quantitativo" [ing. Quantitative Easing], os meia-dúzia de maiores bancos de Wall Street, entre os quais o próprio banco de Paulson, Goldman Sachs, foram 'resgatados' de uma debacle criada pela exótica finança securitizada deles mesmos.
O Fed também agiu para dar linhas de crédito sem precedentes, de centenas de bilhões de EUA-dólares, a bancos centrais da União Europeia de modo a evitar carência de moeda que claramente teria levado ao desmoronamento de toda a arquitetura financeira global. Naquele momento, seis bancos da eurozona deviam, em dólares, mais de 100% dos respectivos PIB.
Um mundo cheio de dólares
Desde então, há uma década, a oferta de dólares baratos para todo o sistema financeiro global subiu a níveis sem precedentes. O Institute for International Finance (IIF) em Washington estima que a dívida das famílias, governos, empresas e setor financeiro nos 30 maiores mercados emergentes chegou, no início de 2018, a 211% do PIB doméstico. Era de 143% no final de 2008.
Outros dados do IIF indicam a escala de uma armadilha de dívida que está só nos estágios iniciais de detonar as economias menos avançadas, da América Latina à Turquia e à Ásia. Com exclusão da China, a dívida total dos mercados emergentes, em todas as moedas, incluindo dívidas domésticas, quase dobrou, de 15 trilhões de dólares em 2007, para 27 trilhões de dólares no final de 2017. A dívida da China, no mesmo período foi, de 6 trilhões de dólares para 36 trilhões de dólares, segundo o IIF.
Para o grupo de países dos mercados emergentes, suas dívidas denominadas em dólares cresceram para cerca de 6,4 trilhões de dólares, a partir de 2,8 trilhões de dólares em 2007. Empresas turcas devem quase 300 bilhões em moedas estrangeiras, mais da metade do próprio PIB, a maior parte dessa dívida, em dólares. Os mercados emergentes preferiram o dólar, por muitas razões.
Enquanto aquelas economias emergentes estavam crescendo, recebendo dólares de exportação a uma taxa crescente, a dívida foi administrável. Agora, isso está começando a mudar. O agente dessa mudança é o banco central mais politizado do mundo, o Federal Reserve dos EUA, cujo novo presidente Jerome Powell é ex-sócio do sinistro Carlyle Group. Sob o argumento de que a economia doméstica dos EUA é suficientemente forte e que é possível devolver os juros dos EUA-dólar para o patamar "normal", o Fed iniciou deriva titânica para liquidez em dólar na economia mundial. Powell e o Fed sabem muito bem o que estão fazendo. Estão apertando os parafusos do dólar, para precipitar uma grande nova crise econômica em todo o mundo emergente, especialmente em economias eurasianas chaves, como Irã, Turquia, Rússia e China.
Apesar de todos os esforços de Rússia, China, Irã e outros países, para se afastarem da dependência do EUA-dólar para comércio internacional e finança, o dólar ainda é moeda de reserva dos bancos centrais do mundo, cerca de 63% de todas as reservas dos bancos centrais do Banco de Compensações Internacionais (ing. BIS). Além disso, quase 88% de todos os negócios diários em moedas estrangeiras são feitos em EUA-dólar. A maior parte do comércio de petróleo, ouro e commodities é denominado em EUA-dólar. Desde a crise grega em 2011, o euro jamais foi rival sério contra a hegemonia do dólar como moeda de reserva. Hoje, cerca de 20% das reservas são em EUA-dólar.
Desde a crise financeira de 2008, o EUA-dólar e a importância do Fed cresceram a níveis sem precedentes. Só agora o mundo começa a perceber, pela primeira vez desde 2008, real falta de dólares, o que significa custo muito mais alto para tomar novos empréstimos em dólares para refinanciar velhas dívidas em EUA-dólar. O pico dos vencimentos da dívida total em EUA-dólar dos mercados emergentes acontece em 2019: estarão vencendo dívidas num total de mais de 1,3 trilhão de dólares.
Aqui vem a armadilha. O Fed não está avisando apenas que aumentará mais agressivamente os juros para emprestar em dólares ainda esse ano, adiante, e no próximo ano. Está também reduzindo a quantidade de dívida do Tesouro dos EUA que comprou depois da crise de 2008, o chamado Arrocho Quantitativo [ing. QT, Quantitative Tightening).
Do Alívio Quantitativo, ao Arrocho Quantitativo
Depois de 2008, o Fed iniciou o que foi chamado de Alívio Quantitativo. O Fed comprou dos bancos soma estarrecedora de bônus do Tesouro, até um pico de 4,5 trilhões de dólares, a partir dos apenas 900 bilhões no início da crise. Agora o Fed anuncia que planeja reduzir as compras em pelo menos um terço, nos próximos meses.
O resultado do Alívio Quantitativo foi que o Fed inundou de liquidez os grandes bancos que estiveram por trás da crise financeira de 2008, e os juros caíram a zero. Aquela liquidez dos bancos foi, por sua vez, investida em qualquer parte do mundo que oferecesse retorno mais alto, enquanto os papéis dos EUA pagaram juro zero. Virou papel podre no setor do petróleo de xisto, num novo mini-boom da construção nos EUA. Mais marcadamente, os EUA-dólares líquidos foram para mercados emergentes de mais alto risco, como Turquia, Brasil, Argentina, Indonésia, Índia. EUA-dólares fluíram para a China, onde a economia vivia um boom. E EUA-dólares escorreram para a Rússia, antes que as sanções, no início desse ano, começassem a assustar investidores estrangeiros.
Agora, o Fed começou o Arrocho Quantitativo [ing. QT – Quantitative Tightening] – o contrário do Alívio Quantitativo. No final de 2017, o Fed lentamente começou a fazer encolher a própria carteira de bônus, o que reduz a liquidez de EUA-dólares no sistema bancário. No final de 2014, o Fed já parara de comprar novos papeis do mercado. A redução da carteira de papéis do Tesouro no Fed, por sua vez, empurrou os juros para cima. Até esse verão, tudo foi feito despacito, despacito. Até que o presidente dos EUA lançou uma ofensiva de guerra comercial com alvo determinado, gerando terrível incerteza na China, na América Latina, na Turquia e por toda parte, e novas sanções econômicas contra Rússia e Irã.
Hoje, o Fed está deixando que 40 bilhões de dólares de seus papeis do Tesouro e de empresas amadureçam sem substituí-los, quantia que subirá para 50 bilhões de dólares mensais adiante, esse ano. Significa que todos esses dólares são tirados do sistema bancário. Além disso, para agravar o que rapidamente se vai convertendo em claro e absoluto racionamento de dólares, as leis de cortes de impostos do governo Trump estão acrescentando centenas de bilhões ao déficit que o Tesouro dos EUA terá de financiar mediante emissão de novos papéis da dívida. Com o aumento na oferta de papéis da dívida do Tesouro, o Tesouro será forçado a pagar mais juros, para conseguir vendê-los. Juros mais altos nos EUA já estão operando como um ímã, para trazer de volta os dólares que se espalharam pelo mundo.
Para aprofundar o Arrocho global, sob pressão da dominação do Fed e do dólar, o Banco do Japão e o Banco Central Europeu foram obrigados a anunciar que não mais comprarão bônus nos respectivos programas de Alívio Quantitativo. Desde março, o mundo já entrou, de fato, na nova era de Arrocho Quantitativo.
Visto desse ponto, a coisa parece estar ficando dramática, a menos que o Federal Reserve pare tudo, desista e recomece uma nova operação de Alívio Quantitativo, para evitar crise sistêmica global. Não parece provável que aconteça. Hoje, os bancos centrais, mais até do que antes de 2008, dançam pela música que o Federal Reserve está tocando. Como consta que Henry Kissinger teria dito nos anos 1970s "Se você controla o dinheiro, você controla o mundo."
Nova Crise Global em 2019?
Embora até aqui o impacto da contração do dólar tenha sido gradual, está às vésperas de tornar-se dramático. Os balanços dos bancos centrais somados do G-3 mostram crescimento de apenas 76 bilhões na primeira metade de 2018, comparados aos 703 bilhões de dólares de crescimento nos seis meses anteriores – quase meio trilhão de dólares saíram do pool global de dinheiro a emprestar. Bloomberg estima que as compras líquidas [orig. net asset purchases] pelos três principais bancos centrais cairão a zero no final de 2018, dos quase 100 bilhões de dólares mensais no final de 2017. Anualmente, isso se traduz no equivalente a 1,2 trilhões de dólares a menos na liquidez em dólares no mundo em 2019.
A lira turca caiu pela metade desde o início desse ano em relação ao EUA-dólar. Significa que as grandes empresas turcas de construção e outras que conseguiram tomar empréstimos em dólares "baratos" terão de arranjar o dobro da quantidade de dólares que tomaram, para pagar os empréstimos. A maior parte da dívida não é dívida do estado turco, mas de empresas privadas. Empresas turcas devem estimados 300 bilhões de dólares em moeda estrangeira, a maior parte da dívida em EUA-dólares, quase metade de todo o PIB do país. Essa liquidez em EUA-dólares manteve o crescimento da economia turca desde a crise financeira dos EUA em 2008. E não só a economia turca. Países asiáticos, do Paquistão à Coreia do Norte, exceto a China, tomaram emprestados estimados 2,1 trilhão de dólares.
Enquanto o dólar esteve barato, contra essas moedas, e o Fed manteve baixos os juros – como de 2008 a 2015 –, o problema foi pequeno. Agora isso estão mudando e mudando dramaticamente. O dólar está subindo fortemente contra todas as outras moedas, esse ano, 7%. Isso, combinado com as guerras comerciais que Washington está deliberadamente começando, provocações políticas, quebra unilateral do tratado nuclear com o Irã, novas sanções contra Rússia, Irã, Coreia do Norte, Venezuela, além de provocações sem precedentes contra a China. Ironicamente, as guerras comerciais de Trump levaram a uma "corrida para segurança", para longe de países emergentes como Turquia ou China, para os mercados dos EUA, mais notavelmente para o mercado de ações.
O Fed está usando o EUA-dólar como arma de guerra, e as precondições são, em muitos sentidos, semelhantes às que se tinha durante a crise da Ásia em 1997. Naquele momento, bastou um ataque concertado de fundos 'abutres' norte-americanos contra a moeda do terço mais pobre das economias asiáticas, o baht tailandês, para disparar o colapso por quase todo o sul da Ásia, até a Coreia do Sul e até Hong Kong. Hoje, o gatilho é Trump e seus tuítos belicosos contra Erdogan.
As guerras comerciais dos EUA de Trump, as sanções políticas e as novas leis de impostos, no contexto da clara estratégia do Fed de arrocho na oferta de dólares, oferecem o pano de fundo para uma guerra do dólar contra opositores globais dos EUA, sem sequer ser preciso declarar guerra. Bastaram algumas provocações comerciais contra a economia gigante da China, provocações políticas contra o governo turco, novas sanções sem qualquer fundamento contra a Rússia e bancos de Paris a Milão, Frankfurt e New York e quaisquer outros que tenham dívidas em dólares, para que mercados emergentes, de maior risco, começarem a corrida rumo à porta de saída. O colapso da lira como resultado de um quase pânico de venda, ou a crise da moeda do Irã, a queda do rublo russo. Tudo isso reflete o início, como também o declínio do renminbi chinês, de um 'racionamento' global do dólar.
Se Washington conseguir dia 4 de novembro cortar todas as exportações de petróleo do Irã, os preços mundiais do petróleo subirão acima de 100 dólares, o que aumentará dramaticamente a falta de dólares no mundo em desenvolvimento. É guerra, por outros meios. A estratégica do dólar, do Fed, está operando hoje como "arma silenciosa" para guerras nada silenciosas. Se isso continua, pode ter efeito grave na crescente independência dos países da Eurásia em torno da Nova Rota da Seda da China e da alternativa Rússia-China-Irã ao sistema dólar. O papel do dólar como principal moeda global de reserva e a habilidade do Federal Reserve para controlar o processo é arma de destruição em massa e pilar estratégico para que a superpotência norte-americana mantenha-se como tal. As nações da Eurásia, e mesmo o Banco Central Europeu estão preparados para enfrentar tudo isso efetivamente?
Atualização:
Pepe Escobar, 22/8/2018
EXCLUSIVO, MEGA IMPORTANTE ALEMANHA CONTRA O EUA-DÓLAR (ATUALIZAÇÃO)
Bem, estou me aprofundando no assunto – de fato, é praticamente matéria de primeira mão. Prefiro não esperar, e aí vai, pra vocês, enquanto ainda é noite na Europa e início da tarde nos EUA.
Comecemos com fonte muito bem informada, importante financista alemão na Suíça, que comentou o que disse o ministro de Relações Exteriores alemão [Heiko] Maas, sobre a ideia de um sistema europeu ou global para deixar de fora os EUA (Aqui, a matéria da Reuters).
Por falar disso, se a coisa for global, é exatamente o que Rússia-China e os (B)RICS [exceto o Brasil, que vive sob golpe e virou quarto de despejo da CIA-EUA (NTs)] vêm discutindo há anos.
Segundo a fonte, "muitas instituições financeiras (e agências reguladoras) europeias (e suíças) são dirigidas por norte-americanos ou fãs apaixonados dos EUA. Como se não bastasse, morrem de medo da retórica dos EUA de bloqueá-las e impedir-lhes o acesso a Wall St., se não se comportarem bem."
A fonte lembra que "desde o Tratado de Roma a União Europeia não consegue concordar quanto a qualquer (uma, que fosse, uma só!) decisão importante relacionada a dinheiro, banking, impostos, subsídios, tudo! Por que estariam em harmonia agora?" – a fonte estranha.
Além do mais, "a confiança de outras nações em alguma 'liderança da União Europeia' é ainda mais baixa do que na temida, embora de modo geral quase sempre obedecida, liderança global dos EUA".
E, "ainda que pudessem fazer um vago movimento, alguma tentativa, na direção de revolução em tão larga escala como essa, antes de acabarmos de comer croissants os corretores de moeda em NYC já teriam detonado uma bomba atômica sobre o euro e a Força Aérea dos EUA já controlaria toda a Europa, antes de Bruxelas acordar da sesta de depois do almoço..."
Está bom p'rá vocês?
Do nosso mesmo e muito bem relacionado amigo: "na economia do futuro, a Europa será passado. Num horizonte de 5-10 anos, só vejo a China com chances de dominar a moeda. Isso, sim, é inevitável. Esqueça a Europa."
Agora, comparem com a visão de curto prazo de meu amigo, o analista Peter Spengler. Peter argumenta, corretamente, que ser 'exilado' do sistema SWIFT não é o problema:
"SWIFT, a maior rede cooperativa [sic] de pagamentos do mundo, opera sob a legislação da Bélgica, quer dizer, sob leis da União Europeia – as mesmas leis que os guerrilheiros do Tesouro dos EUA (+ o Government Communications Headquarters (GCHQ) [serviço de inteligência britânico encarregado da segurança e da espionagem e contraespionagem] e a Agência de Segurança Nacional dos EUA]) só fazem desrespeitar há mais de dez anos, apesar dos muitos protestos no nível do Parlamento Europeu. A Europa e os países e moedas associados não precisam de novo sistema. Precisam É FAZER VALER A LEI INTERNACIONAL E AFASTAR-SE DO EUA-DÓLAR (maiúsculas minhas) e portanto do Fed-NY, para transações de pagamentos –, para ter compensação neutra, confiável e multilateral."
Agora a bomba – vinda diretamente de uma lista muito fechada que circula nos mais altos níveis da finança, que recebi de uma das minhas fontes nas finanças da União Europeia.
Segundo aquelas análises, o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha "não soltou esse balão de ensaio sem permissão dos que mandam em Merkel, que não passa de fantoche da grande finança."
E ainda melhora: "Alemanha está extremamente temerosa de que o Estreito de Ormuz seja fechado, interrompendo parte crucialmente importante do gás natural e do petróleo de que o país precisa e pondo a Alemanha em total dependência do petróleo e do gás natural russos. Por isso os alemães têm de se agarrar com unhas e dentes ao acordo nuclear iraniano, custe o que custar, porque, sem acordo, podem perder também a Rússia. Daí o recente encontro Merkel & Putin (Cobri o encontro para Asia Times: "Do Mar Báltico ao Mar Negro, Rússia busca ganha-ganha", 20/8/2018, Pepe Escobar [traduzido])
e o aparecimento de um novo plano para a moeda para quebrar o controle dos EUA sobre a Alemanha e o mundo do sistema dólar dos SWIFT-CHIPS."
Em resumo: segundo esses pesos pesados, "o que está empurrando as forças que mandam em Merkel na direção de ameaçar separar-se do EUA-dólar, é O MEDO de perder o petróleo e o gás da Rússia e dos '-stões' centro asiáticos e o Estreito de Ormuz, caso Trump enlouqueça nas sanções, e o Irã reaja bloqueando Ormuz.
A mensagem aqui é que a elite alemã parece crer que os EUA não têm competência militar para manter aberto o Estreito de Ormuz – e nesse caso, com o Estreito fechado, a Alemanha ficaria simplesmente paralisada. E por isso o desmonte do sistema que controla o mundo pelo EUA-dólar começa agora a ser 'ventilado' pela Alemanha: é questão de sobrevivência nacional.
Agora imaginem tudo isso em discussão no palco do mundo, em breve (provavelmente em setembro) na reunião de cúpula Rússia-Alemanha-França-Turquia.
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