domingo, 24 de maio de 2020
Em defesa do Brasil
Detalhe do mural Guerra e Paz, de Portinari, oferecido pelo Brasil como presente à Organização das Nações Unidas (ONU) em 1957, colocado em posto de honra à entrada do grande anfiteatro da Assembleia Geral da ONU.
Em pouco mais de 500 dias, o governo Bolsonaro esgotou-se. Esgotou-se mas não acabou. Essa é uma lição que a História tem nos ensinado ao longo dos tempos. Nem tudo que perde a sua utilidade às sociedades, significa que se encerra de imediato.
A verdadeira política, aquela que é a grande arte, ou ciência, da organização, administração, dos Estados e da nações, nos ensina que o êxito de um governo é aquele que conduz os interesses nacionais visando o bem comum de um País, sob a égide da soberania nacional, através da democracia e das mais amplas liberdades políticas.
A gestão do presidente Bolsonaro representa um corolário de ideias associadas a um fundamentalismo ideológico intolerante, como todos os fundamentalismos ideológicos, medieval e acima de tudo excludente das grandes maiorias sociais.
Por isso ele tem agido sistematicamente através do confronto, contra o conjunto da sociedade, com vistas a manter unidas as suas bases de apoiadores, que vêm diminuindo na medida em que grandes parcelas dos seus eleitores vão paulatinamente se desencantando com as suas ações e diretivas administrativas.
Quanto mais o presidente Bolsonaro fala em liberdade, mais revela os seus pendores autoritários, quanto mais fala em Brasil, na prática demonstra a sua intenção de alienar o patrimônio estatal do povo brasileiro, muitos construídos há quase um século, a exemplo do ministro Paulo Guedes que em reunião ministerial declarou a sua intenção de vender “a porra do Banco do Brasil”.
Na verdade, se deixarem ele privatiza todo e qualquer patrimônio estatal, com a sua visão neoliberal ortodoxa e ultrapassada, que já não é mais usada em canto nenhum do mundo. O ministro Paulo Guedes age como um mascate de tempos mais antigos: vende e troca qualquer coisa.
Assim é que por tudo isso, e mais algumas coisas, o presidente Bolsonaro usurpou a bandeira do Brasil, por um grande erro, também, das oposições, e a usurpou vendendo um falso nacionalismo, porque ele não representa os interesses nacionais, mas, exatamente, um governo antinacional, antipatriótico.
Ao clamar diariamente em nome de Deus, ele age espertamente contra uma agenda ativista antirreligiosa, que virou moda em alguns estratos da sociedade, sabendo que o povo brasileiro tem em seu imaginário social o sentimento religioso.
Mas, que nunca impediu esse mesmo povo de votar em candidatos de todos os espectros políticos, como aqueles presidentes que antecederam Bolsonaro até 2016, por exemplo, e que, aliás, todos sempre se anunciaram cristãos declarados e devotos, sem exceções.
Assim, a base social do bolsonarismo é confusa, alimenta-se de falsos simbolismos, foi ganha por um discurso diuturnamente repetido em redes sociais à exaustão, contra inimigos, praticamente, imaginários, em cada esquina, beco ou viela.
Mas ele elevou-se ao poder através de um vácuo político, da sistemática campanha das grandes corporações do Estado contra a política, e a pobreza da própria atividade política partidária, que foi absorvida pelo discurso do Mercado financeiro, com suas agendas existenciais e comportamentais, que se propõem hegemônicas.
Que terminaram substituindo e exilando os rumos, as propostas que galvanizassem os anseios de um Brasil real de mais de 180 milhões de almas, que se sentiram órfãs de representatividade e referências políticas.
O Brasil encontra-se fraturado em diversas questões. Mas todas essas fraturas não são “naturais”. Elas foram sendo plantadas passo a passo com vistas à divisão da sociedade brasileira. Como dizia a máxima do antigo império romano: dividir para reinar.
O Brasil, mergulhado em uma terrível pandemia sanitária, depara-se com um governo Bolsonaro que contraria todas as recomendações médicas de isolamento social, apostando demagogicamente na onda de desemprego que será provocada pelas consequências, inevitáveis, da pandemia do corona vírus, pondo a culpa nos governadores e prefeitos.
Não se sabe, porém, se o resultado lhe será favorável, os movimentos da vida política são mais complexos que sonha ou aposta o presidente. Perante as demais instituições do Estado nacional Bolsonaro encontra-se isolado e encurralado através de várias investigações. Por isso ele vai radicalizar no confronto total.
Mas por tudo isso, é fundamental a união do País e do povo brasileiro, a divisão e a fratura só o beneficia. A polarização extremada o favorece. O confronto emocional e irracional é a sua praia.
A nossa grande tarefa é a união nacional, pelas exatas razões inversamente contrárias às do presidente Bolsonaro e do mercado financeiro.
A epopeia da construção de Brasília de 1957 a 1960, a nova capital da República.
A nossa tarefa é o esforço diligente de unir as grandes maiorias sociais, as minorias também, independente de preferências partidárias, credo religioso, opções sexuais, combater qualquer forma de racismo.
Mas acima de tudo, unir o povo brasileiro, sem o qual ficaremos patinando nesse presente contínuo pantanoso, à mercê desse, e de novos aventureiros.
Construir um rumo, um estado de espírito democrático, batalhar pela convivência solidária, a tolerância social. Apresentar um projeto nacional de desenvolvimento estratégico, que crie esperanças, factíveis e concretas ao povo brasileiro.
Para isso, sugiro a leitura do Manifesto à Nação, elaborado pelo destacado brasileiro Aldo Rebelo, com contribuições de outras pessoas, subscrito por milhares de cidadãos.
O País se encontra em uma profunda crise multilateral, agravada por uma terrível pandemia sanitária. Uma verdadeira encruzilhada Histórica. Mas não é hora de desespero, nem desencanto. O Brasil, hoje com mais de 210 milhões de habitantes, é inevitável, o seu povo, jovem, é combativo, destemido e criativo.
E, assim, mostra a História, quando unido em torno de um propósito comum e altruísta, ele se agiganta e realiza coisas formidáveis. Portanto, como disse um dos grandes poetas da nossa língua portuguesa: É Hora!. É tempo de reconstruir economicamente, socialmente, politicamente, espiritualmente, a grande nação brasileira. Vamos dar os primeiros passos nessa caminhada.
http://blogdoeduardobomfim.blogspot.com/2017/07/manifesto-em-defesa-da-nacao.html
quarta-feira, 20 de maio de 2020
Dois Brasis
Rafaela Silva, campeã olímpica e mundial de judô.
O Brasil mergulhou, desde o início da pandemia do coronavírus 19, em uma falsa dicotomia entre o isolamento social e a permanência, sem interrupções, das atividades econômicas e do trabalho.
Essa pandemia global impôs a todas as nações do planeta os mesmos desafios: como salvar vidas, evitar, ao máximo, o número de cidadãos infectados, ao mesmo tempo traçar rumos para manter as atividades essenciais e procurar elaborar estratégias para a retomada da grande roda da economia produtiva.
A premissa defendida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro tem sido errada por dois motivos: em primeiro lugar, por razões humanitárias. A ideia da “imunidade de rebanho”, ou darwinismo social, acarreta um morticínio bem maior que o atual, absurdo, brutal, que tem sido minimizado pelas atitudes dos governadores e prefeitos, já que eles se negaram, corretamente, a pagar essa conta macabra.
Machado de Assis
Um Brasil extremamente desigual e polarizado
Já dizia o grande, e imortal, escritor Machado de Assis que existem dois Brasis: o Brasil oficial e o Brasil real. Que pode ser traduzido atualmente da seguinte maneira: um País das grandes maiorias sociais, mais de 180 milhões de habitantes, e aquele composto pelas elites econômicas, financeiras e a classe média tradicional, onde residem as grandes faixas de consumo mais rentáveis e sofisticadas, onde a grande mídia derrama suas mensagens publicitárias, ideológicas etc.
Toda, repetindo, toda a polarização ideológica e política, que se assiste hoje, e nas últimas décadas, encontra-se no Brasil oficial. O Brasil real, só participa efetivamente na hora do voto e nas pesquisas de opinião pública, muito especialmente nas pesquisas eleitorais.
Às vezes, surgem políticas “compensatórias”, o nome usado, inclusive, pela mídia é esse mesmo, para amenizar as chagas sociais profundas e históricas. A única válvula de ascensão social realmente existente aos filhos do Brasil real é através dos esportes, particularmente o futebol, mesmo assim, bastante peneirada.
O Brasil real é um País estrangeiro, ou será o Brasil oficial? Não se sabe dos seus anseios, angústias, esperanças, fantasias etc.
Em certos setores das elites “esclarecidas” há dois tipos de comportamentos: o paternalista de “esquerda”, e o neoliberalismo de “direita”. Um resolve achar ou falar em nome do País real, com as suas agendas ideológicas, que muitas vezes servem aos seus anseios existenciais ou pragmáticos. O outro, sempre se bate pela ausência do papel do Estado, ou por reduzi-lo ao mínimo, como é o caso, atual, do ministro Paulo Guedes.
Sejamos óbvios, o Estado Nacional só adquire relevância em casos de pandemia, como a atual, porque ela atinge a todos indistintamente. Mas, todas as mortes nos atingem terrivelmente.
A fundamental e incontornável política, a democracia no Brasil só estará definitivamente assentada, com suas óbvias imperfeições, quando incorporar as grandes maiorias sociais do Brasil real. E, para tanto, é fundamental um projeto de desenvolvimento estratégico, que incorpore, literalmente, toda uma nação excluída da sua própria nação.
Essa é mãe de todas as injustiças, a excelência de todos os preconceitos, o racismo de todos os racismos, nesse povo mestiço e original, como afirmou o antropólogo Darcy Ribeiro.
Porque o Brasil atual, mesmo modernizado tecnologicamente, sofisticado em vários aspectos, digitalizado, globalizado em todas as vertentes, a oitava economia mundial, ainda continua a ser o País da Geografia da Fome, de Josué de Castro, de meados do século XX. E do genial Machado de Assis, falecido em 1908.
O demais, é poesia parnasiana, ou tese acadêmica de Sociologia, com a devida vênia dos sociólogos e dos poetas parnasianos.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
O Brasil não é para iniciantes
Presidente Jânio Quadros tomou posse em janeiro de 1961 e renunciou após 7 meses de governo.
O mundo encontra-se mergulhado em uma profunda crise que tem como ponto central a brutal acumulação do capital financeiro rentista, enquanto os povos e as nações patinam em uma depressão econômica sem precedentes na História recente do capitalismo.
A pandemia provocada pelo corona vírus agravou sobremaneira essa catástrofe financeira global, cujas origens residem na doutrina do neoliberalismo e o seu toque de finados a que assistimos ao vivo e em cores cinzentas.
Nesse sentido, não foi essa pandemia que provocou a debacle das economias das nações, simplesmente ela foi o elemento catalizador que as desestabilizou e as conduziu à paralisia quase que absoluta.
Nesse período, a globalização do capital especulativo é que tem mandado no mundo atual, que promoveu também as suas próprias ideologias, e que sempre tiveram dois objetivos centrais: a exaltação das suas próprias ambições de acumulação desenfreada, absolutamente desvinculadas dos investimentos na produção de riquezas dos povos e das nações.
O outro objetivo, também central, foi, e tem sido, a fragmentação, em grande escala, do sentimento de solidariedade entre as sociedades, de tal forma que imobilizasse o espírito de pertencimento das pessoas a uma comunidade nacional.
Assim é que até às vésperas da pandemia sanitária em que estamos mergulhados e confinados, não existia qualquer discussão relevante sobre um projeto estratégico para a nação brasileira.
Porque a hegemonia ideológica do rentismo especulativo reside exclusivamente nas prioridades do Mercado financeiro, nos lucros estratosféricos dos Bancos, nas políticas econômicas ultraliberais que abatem o protagonismo do Estado nacional e aprofunda de maneira acelerada os imensos abismos sociais.
De tal forma cristalizou-se essa hegemonia, que nas últimas décadas todas as instituições da República foram, de uma forma ou de outra, tragadas pelas ideologias do capital financeiro, e as organizações partidárias de todos os espectros também foram gravemente contaminadas por uma espécie de irrelevâncias programáticas.
O resultado disso tudo é que a vida política se apequenou, e perante os olhos da opinião pública, transformou-se no contrário do que realmente é, da sua verdadeira essência: a maneira pela qual o povo exerce a sua vontade soberana nos destinos democráticos da nação e de cada um de nós.
Daí, a sociedade migrou paulatinamente para as redes sociais, seja para tratar das suas vidas diárias, seja para se dedicar a um ativismo político, em paralelo à vida política real.
Mas a verdade que também nas redes sociais o capital financeiro exerce a sua hegemonia ideológica, assim como os agentes políticos atuam forte e profundamente, comprovando que não há vida fora da política.
Jair Bolsonaro, presidente da República desde janeiro de 2019.
O governo Bolsonaro
O desorientado governo do presidente Jair Bolsonaro não é fruto do acaso, ele é resultado desse contexto de falta de rumos para o Brasil, de um Projeto Nacional de Desenvolvimento em todos os níveis, na economia, da vida social, na cultura etc., que em 500 dias de mandato mergulhou, ou aprofundou, melhor dizendo, a desorientação generalizada em que se encontra a nação.
Sem uma união nacional em torno de um propósito comum de País, parece que o cidadão foi envolvido em uma falsa premissa: a pessoa só é ocasionalmente brasileira, se o seu grupo político, ao qual é alinhado ideologicamente, ou por interesses concretos, encontra-se no poder. Isto é o ápice da fragmentação da sociedade nacional.
Jair Bolsonaro é resultado de uma crise espiritual nacional e social, com essas características já destacadas, cujo sinais, mais externos, apareceram nas manifestações de 2013 e daí foram num crescendo, passando pelo impedimento da ex-presidente Dilma.
Nas manifestações contra a realização da Copa do Mundo de futebol, que uniu setores de esquerda e de direita com objetivos distintos, no governo Temer, na imensa judicialização da vida política, a melhor expressão e testemunha que as grandes corporações do Estado nacional tomaram conta dos destinos nacionais, substituindo, nada mais nada menos, que as grandes maiorias sociais, o povo brasileiro.
Incapazes de achar um rumo nacional, as organizações partidárias foram, assim, destruídas e ao mesmo tempo se destruindo, abrindo um vácuo de poder que possibilitou o surgimento do governo Bolsonaro.
Que se guia por uma ideologia fanática, uma total falta de discernimento político, conceitos estapafúrdios e fora da realidade, como o terraplanismo, a intolerância generalizada e medieval, que se avulta na visão de uma falsa dicotomia sobre a atual pandemia sanitária, entre o óbvio e cientificamente comprovado isolamento social e a imprescindível questão da economia.
O presidente Jair Bolsonaro não é, na prática, presidente de todos os brasileiros, mas de um grupo de ativistas envolvidos, por enquanto, com a sua visão estreita do Brasil e do mundo, prejudicando enormemente os interesses nacionais através da orientação delirante da nossa política externa, nessa louvação sem nexo à dependência aos Estados Unidos e Israel, sem observar os múltiplos interesses geopolíticos e comerciais do Estado brasileiro. Um enorme prejuízo.
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista, o genial Tom Jobim.
Nesse sentido, é imprescindível que as diversas forças políticas nacionais contribuam, e não fiquem simplesmente marcando posição, para encontrar uma solução democrática e constitucional para o Brasil em meio a uma tríplice crise: sanitária, econômica e institucional. Porque estamos marchando, sem dúvida, para uma encruzilhada institucional gravíssima.
Mas a verdade é que se não construirmos um projeto de nação que recupere a confiança das amplas maiorias sociais, do povo brasileiro, em si próprio e nos destinos do País, estaremos condenados a patinar inevitavelmente nesse presente contínuo em que estamos mergulhados há algumas décadas.
Porque o Brasil é inevitável, mas falta-nos um rumo, um estado de espírito, um destino factível e perfeitamente realizável nos marcos democráticos. Mas, enfim, como disse o grande maestro Tom Jobim: o Brasil não é para iniciantes.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
Diplomacia e civilidade
O dileto amigo Ênio Lins postou um lúcido comentário sobre o ex-governador Guilherme Palmeira em virtude do seu falecimento. Diz Ênio Lins: Guilherme é um grande exemplo dos bons tempos em que existia a diplomacia e civilidade no trato da coisa pública e na política.
Na verdade o Brasil vive, já faz algum tempo, uma época de grandes hostilidades institucionais, agravadas agora com o arrivismo destemperado, agressivo e perigoso às instituições democráticas, à Constituição e aos interesses soberanos do povo brasileiro.
É preciso saber distinguir na vida pública e na política a diferença entre conflitos políticos e confrontos. Conflitos políticos são algo típico do regime democrático. Confrontos significam a apologia sistemática e cotidiana à ruptura democrática e a exaltação à misantropia social entre grupos na vida política nacional.
O exemplo que todos têm falado sobre a memória de Guilherme Palmeira e sua trajetória política no cultivo da diplomacia e da civilidade não representa o passado mas são conceitos universais, imprescindíveis e uma exigência ao país e à nação brasileira para melhor traçar os seus caminhos democráticos. Na verdade, o passado é onde nos encontramos agora, atolados até o pescoço.
O governo Bolsonaro é um exemplo contrário de tudo o que precisamos. O Brasil precisa reencontrar com urgência os caminhos do entendimento e da saudável convivência social e política.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Quem manda na economia é a pandemia
Lorenzo Carrasco, Resenha Estratégica
Quem está no comando é a realidade imposta pela pandemia. Tratemos, pois, de obedecer a ela e virar essa página.
Em 27 de abril, após demitir o seu segundo ministro em meio à pandemia de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro apressou-se em prestigiar o superministro Paulo Guedes, afirmando ser ele quem manda na economia. Ao lado do presidente, com a soberba inflada, após alguns dias de chiliques juvenis desencadeados pelo anúncio do Plano Pró-Brasil da Casa Civil da Presidência, o “superministro” voltou a manifestar o seu habitual alheamento diante da realidade nacional, prometendo a quimera de que o País “vai voltar à tranquilidade muito brevemente, muito antes do que todos esperam”. Afinal, justificou, “surpreendemos o mundo no ano passado, vamos surpreender o mundo de novo (sic)”.
No universo paralelo habitado por Guedes, cuja coreografia é desenhada pelos arautos do “mercado” (leiam-se bancos, financeiras e outros especuladores), o pífio crescimento de 1,1% do PIB em 2019 “surpreendeu” positivamente apenas ao próprio ministro e seus corifeus. Por outro lado, puderam regozijar-se com o desempenho recordista dos bancos e do setor financeiro em geral, em meio aos cinco anos de estagnação socioeconômica vividos pela esmagadora maioria da população brasileira, refletidos nos índices igualmente recordistas de desemprego, subemprego, desalento e capacidade produtiva ociosa.
Para a quase totalidade dos brasileiros, salvo o reduzido núcleo de privilegiados que vive na bolha dos serviços financeiros de um “capitalismo sem risco”, a realidade está sendo escancarada pela pandemia, expondo as mazelas decorrentes do descompromisso histórico com a construção de uma Nação moderna e comprometida com o Bem Comum, em especial, as deficiências de infraestrutura física e serviços básicos de saúde, que estão agravando sobremaneira o combate à pandemia.
Para todos os brasileiros dotados de um mínimo de sensibilidade social e com um sentido de responsabilidade coletiva pela construção de um futuro compartilhado, a pandemia está evidenciando a absoluta inviabilidade de continuação do modelo “balcão de negócios” na organização econômica do País, que tem prevalecido, com ênfase especial, desde o início da década de 1990, com a primazia dos interesses representados mercados financeiros na formulação das políticas públicas.
A pandemia está evidenciando a imperiosa necessidade de retomada da antiga aspiração referente a um projeto nacional e desenvolvimento, da capacidade de planejamento do estado brasileiro, em má hora abandonada em favor das ilusórias vantagens da malfadada globalização financeira, cuja disfuncionalidade civilizatória ficou exposta de forma insofismável sob o ataque do coronavírus.
Tal empreitada exigirá um amplo empenho de todos os setores da sociedade, não apenas das suas forças produtivas, para um esforço que será equivalente a uma mobilização nacional correspondente a um estado de guerra total, que se estenderá por anos após o encerramento da emergência sanitária da covid-19 – ou seja, não poderá limitar-se a um mero programa de governo, mas transcenderia o atual mandato presidencial.
Da mesma forma, salta aos olhos que tal mobilização terá que ser dirigida pelo Estado – e não pelos mercados -, em estreita sinergia com a iniciativa privada e a sociedade em geral, missão para a qual o Estado brasileiro está plenamente aparelhado, tanto em capacidade de investimentos como com os quadros técnicos necessários.
Para tanto, porém, será necessário superar o crucial obstáculo das amarras ideológicas que, nas últimas décadas, têm ancorado o Brasil em um pântano de virtual estagnação, conformismo e mediocridade.
Como afirmou a economista Monica de Bolle, professora da Universidade Johns Hopkins, em sua coluna no “Estadão” de 29 de abril: “A economia e a população brasileiras precisam mais do que nunca que tabus sejam abandonados em prol do bem maior: a atenuação da crise humanitária provocada pela epidemia e pela crise econômica.
O momento é de pensar seriamente o papel do investimento público, como estão fazendo vários países mundo afora, e de lembrar que nossas deficiências de infraestrutura não serão sanadas sem o envolvimento do Estado. A falsa dicotomia entre Estado e mercado caducou. Viremos essa página.”
“Talvez seja a hora de buscar a porta de saída”, disse de Bolle, referindo-se à inadequação da equipe do prestidigitador Guedes para o pós-pandemia (evidentemente, as restrições de viagens a Miami, Nova York, Londres e Paris, talvez, os obrigariam a conformar-se com um confinamento dourado no Leblon e outros bairros chiques do Rio e São Paulo).
De fato. Quem está no comando é a realidade imposta pela pandemia. Tratemos, pois, de obedecer a ela e virar essa página.
segunda-feira, 20 de abril de 2020
A razão do nosso afeto
De repente, as políticas adotadas na últimas décadas através da globalização financeira, que acarretaram uma acumulação de fortunas jamais vista na humanidade, mostrou a sua verdadeira face aos cidadãos, através da pandemia do Coronavírus 19.
Toda a ideologia edificada pelo capital rentista global, que jamais investe na produção, desmoronou pelas mãos de um vírus que se espalhou pelos continentes, abalando, inicialmente, as nações mais ricas do planeta.
De tal forma, que nos últimos três meses os Estados Unidos, a grande potência econômica, militar do mundo, já tem quase 800 mil infectados pelo vírus e perto de 50 mil mortos. Enquanto a Europa está com um milhão de casos e 100 mil mortos pela pandemia.
A verdade é que as nações “civilizadas”, na Europa e os EUA, redescobriram que essa tragédia não acontece apenas em Países subdesenvolvidos e/ou emergentes, já que os atingiram em cheio.
As políticas de redução do papel estratégico dos Estados nacionais soberanos, o tal do “Estado Mínimo”, que prevaleceram como um mantra desde o final dos anos noventa passados, caíram por terra em poucos meses.
De repente, as rotineiras agendas, que pontuavam as discussões acadêmicas, nas redes sociais, determinando as pautas políticas e midiáticas globais, praticamente desapareceram.
As sociedades viviam sob uma luta sectária entre subdivisões de grupos sociais, que cada vez se subdividiam ainda mais, em uma espécie de slogan: cada um contra todos, e todos contra qualquer um.
Onde o que menos prevalecia era, ou ainda é, o bem comum, a tolerância, o espírito em comum de pertencimento social, a solidariedade em geral.
No entanto, um dos principais promotores, ideológicos e financeiros, dessas agendas, o megaespeculador global George Soros, momentaneamente, saiu discretamente de cena. Até agora.
Por um curto espaço de tempo, os magnatas do Mercado financeiro estiveram perplexos frente ao desastre sanitário e econômico que atingiu o planeta.
Mas, em seguida, vêm retomando a iniciativa, sabotando o espírito de solidariedade que surgiu entre as populações, as nações. Na Europa a usura financeira continua dificultando a ajuda necessária e indiscutível, à Itália, Espanha etc., sob o argumento que essas nações não cumpriram com os ajustes fiscais exigidos pela banca financeira europeia, quer dizer arrocho financeiro contra esses Estados e, especialmente, os trabalhadores dessas nações.
No Brasil, o discurso ultraliberal do presidente Bolsonaro, que não se aplica mais em lugar nenhum do mundo, insiste na falsa polarização: combate à pandemia versus a retomada da economia.
Suas atitudes, falas, vem num crescendo de um espírito totalitário que agride a constituição e as instituições do Estado nacional. Essa falsa polarização, mas real, vem sendo adotada em outros Países, como nos EUA.
A última pandemia, a gripe espanhola, em 1918, matou 50 milhões de pessoas no mundo, 102 anos atrás, e ceifou a vida de um presidente eleito, Rodrigues Alves, mas que faleceu antes de tomar posse.
Ao afirmar que temos que escolher entre o emprego ou o coronavírus, entre a vida ou o trabalho, Bolsonaro retoma o primado do ultra liberalismo ortodoxo do Estado mínimo neoliberal, inaugurado pela Primeira ministra britânica Margaret Thatcher, a dama de ferro, que desmantelou o Estado de bem estar social inglês.
Mas hoje as populações reconhecem os seus heróis: profissionais de saúde, bombeiros, trabalhadores em serviços essenciais, forças armadas etc.
Entendem o valor estratégico do Estado nacional, ao lado da iniciativa privada, vital à sobrevivência de suas próprias vidas. O alerta profético do historiador britânico Eric Hobsbawm, no final dos anos noventa passados, de que as novas gerações iriam viver em uma espécie de presente contínuo, foi verdadeiro. Quem sabe, essa tragédia acorde as sociedades.
O descaso para com as desigualdades sociais, econômicas, drástica redução, por décadas, de investimentos em infraestrutura, saneamento, habitações dignas, ciência, tecnologia e pesquisas avançadas, prevenção de pandemias, o sucateamento da saúde pública, são testemunhas irrefutáveis dessas políticas genocidas que resultaram, inclusive, na pandemia do corona vírus.
Disse um médico infectologista europeu ao ver alarmado o número de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, auxiliares de enfermagem, infectados ou morrendo nessa batalha contra o Covid 19: Nós os queremos vivos, não mortos, essa é a razão do nosso afeto e aplausos, em todo mundo, das janelas dos nossos confinamentos.
sábado, 11 de abril de 2020
Diário do isolamento
Em tempos de coronavírus 19 muita coisa mudou, mas não como alguns dizem, a começar pela ideia de se fazer esse diário, que não vai se chamar diário do exílio, como era mais comum, mas diário do isolamento social, como mandam as coisas do bom senso.
O mundo se encontra frente a dois problemas gravíssimos: a pandemia de um vírus tremendamente agressivo, que ainda, por enquanto, não tem uma vacina, e por isso mesmo, bem mais letal que os seus demais primos, tipo a Influenza, “gripe espanhola” e outros.
Cuja enorme diferença é que a ciência já produziu os respectivos anticorpos, ou seja, a conhecida vacina, mas que mesmo assim continua matando muita gente que não se vacina, seja por desinformação, ou porque aderiram ao Movimento Naturalista contra a Vacinação.
No Brasil, existem ainda outras epidemias igualmente dramáticas, como a dengue, por exemplo. Que recebe reforços de doenças antes debeladas, ou quase, como o sarampo, a malária, a febre amarela, aquela que o grande médico brasileiro Oswaldo Cruz enfrentou corajosamente, provocando inclusive a famosa Revolta da Vacina, insuflada pela mídia da época, em uma tremenda peleja política.
Mas como a memória nacional vem sendo rejeitada, um movimento também global, poucos sabem da imensa batalha contra a varíola, enfrentada pelo herói nacional Dr. Oswaldo Cruz e a sublevação popular que ele enfrentou por tornar a vacinação obrigatória, salvando centenas de milhares de vidas. Pensem num sujeito odiado à época. Era ele.
O País convive diariamente com muitas outras graves epidemias, decorrentes da ausência de saneamento básico nas grandes e pequenas cidades com rios e riachos fétidos, desde o acelerado e caótico processo de urbanização, principalmente ali pela década de setenta do século passado.
O descaso para com a população é amplo, geral e irrestrito. Nunca houve um plano nacional estratégico de saneamento básico que saísse do papel, o que salvaria, anualmente, centenas de milhares de crianças e adultos em todo o País.
O que provoca uma espécie de darwinismo social, ceifando vidas nas populações mais “vulneráveis”, palavra na moda hoje em dia, que se refere aos mais pobres, aos deserdados de uma vida digna.
Estamos diante de um falso dilema: o isolamento social frente ao coronavírus ou a retomada da economia. Na verdade, há que se promover o isolamento social em defesa da vida de milhões, por razões humanitárias, cristãs etc., para diminuir o grande número de vítimas que já ocorre, e vai aumentar substancialmente, infelizmente.
Não há o que se discutir. A vida não é um dado estatístico na análise de economistas, nada é mais relevante que o precioso dom da vida. E vamos combinar, o coronavírus é “democrático”, não faz distinção de classes, sexo, ou ideologias. Embora os mais desvalidos irão pagar um preço mais caro, no final dessa conta.
E depois, vamos ter que superar uma brutal recessão econômica, e global, que já se faz presente, mas que poucos têm a exata dimensão da catástrofe social que se avizinha em termos de desemprego generalizado, quebradeira nas pequenas, médias e grandes empresas, só algumas das grandes empresas irão se salvar, agricultura, comércio, serviços etc.
Já existem algumas “teses” sobre o que virá após a pandemia. Uma delas, me alertou um dileto amigo, é que teremos uma época do pós-capitalismo. Que significaria um tempo de “tutti fratelli ”, todos irmãos, em uma sociedade mundial solidária, uma governança global irmã. Uma espécie de Nova Era de Aquários, tão em moda nos anos sessenta passados. Seria lindo, mas não vai ser verdade.
O capital financeiro, que será bem mais concentrado, vai continuar exercendo a sua hegemonia rentista, as grandes potências vão continuar a impor as suas vontades e interesses.
A única “novidade” é que a globalização financeira não é a solução aos povos, e o Estado nacional mostra que sem ele a catástrofe seria mais horrível.
O “mercado” financeiro não acudiu, nem vai acudir, aos infectados pelo coronavírus, só o Estado nacional, tão agredido e vilipendiado, é quem está em ação, através dos profissionais da saúde, polícia, forças armadas, bombeiros, trabalhadores essenciais, equipamentos estratégicos, da Justiça etc,. Alguns setores da indústria, comércio, agricultura, também estão atuando solidariamente.
Mas, em resumo, o Estado nacional tem sido o verdadeiro protagonista nessa pandemia.
E também será o protagonista central na reconstrução do Brasil, assim como nos demais Países duramente afetados por essa tragédia de saúde pública. Seja na Itália, França, Espanha, Peru, Equador etc. etc.
Essa é a única novidade, que não é nova, a do papel estratégico dos Estados nacionais. Sem eles os povos sucumbem ao caos, ao pântano. Enfim, nós precisamos de união nacional. Em defesa da vida e da reconstrução econômica e social do povo brasileiro.
O coronavírus e a peste da usura
Editorial do jornal Solidariedade Ibero-americana, edição especial de março de 2020
"O triunfo da morte", quadro pintado por Peter Bruegel o Velho, em 1562, foi inspirado na devastação causada pela Peste Negra em meados do século XIV, magistralmente descrita no "Decameron" de Boccaccio, com cujas palavras iniciamos o editorial desta edição.
“A peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais. Incansável, fora de um lugar para outro, e estendera-se de forma miserável para o ocidente [...]. Nenhuma providência foi válida, nem valeu a pena qualquer providência do homem.
Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.
Para dar sepultura a grande quantidade de corpos, já não era suficiente a terra sagrada junto às igrejas; por isso, passaram-se a edificar igrejas nos cemitérios, punham-se nessas igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles empilhados como as mercadorias nos navios.”
Não poderiam ser mais atuais as palavras do grande escritor italiano Giovanni Boccaccio, no Decameron (1353), descrevendo a extensão da Peste Negra, que, em meados do século XIV, eliminou quase a metade da população europeia, tanto direta como indiretamente, em consequência da desagregação socioeconômica dela derivada, em condições de debilidade social, nos estertores de um sistema feudal dominado por um sistema bancário usurário.
Não muito diferentes são as condições da humanidade, na presente pandemia deflagrada pelo coronavírus Sars-CoV-2, não somente pelo potencial de mortalidade, mas também – e sobretudo – pelas condições impostas pela “globalização financeira” sobre a economia mundial, nas últimas décadas. Há meio século, seria impossível imaginar, por exemplo, que os EUA não disporiam da capacidade de produzir os seus próprios equipamentos de saúde pública, nem possuí-los em estoque, por ser mais conveniente financeiramente mandar produzi-los no estrangeiro (outsourcing). Ou que Washington pretendesse, vergonhosamente, facilitar vistos de entrada para médicos e enfermeiros estrangeiros, a fim de ajudarem a combater a pandemia nos EUA, como se não fossem necessários em seus próprios países e fossem sujeitos apenas ao mesmo princípio da mercantilização absoluta das atividades humanas, que está na raiz do presente impasse civilizatório, sobre o qual desabou a Covid-19. Lá, o que poderíamos qualificar de “saúde just in time” (outro preceito da “globalização”), mostra que o móvel do sistema de saúde estadunidense não é a proteção da população, mas os negócios que gravitam ao seu redor.
Agora, os cerca de 8 trilhões de dólares que os países do G-20 pretendem injetar na economia, correm o risco de, em grande medida, serem atirados no buraco negro do hiperalavancado e hiperespeculativo sistema financeiro global, assim como ocorreu na crise de 2008. Sim, a economia física e os empregos devem ser mantidos, mas este é um momento de se reconduzirem os Estados nacionais soberanos à sua função insubstituível de condutores e reguladores da vida econômica das nações, enquadrando os respectivos sistemas financeiros e reorientado-os para a sustentação da economia produtiva real, inclusive, com as suas próprias instituições de crédito público – subitamente, requisitadas até mesmo pelos mais radicais adeptos do liberalismo econômico.
No Brasil, onde o fundamentalismo de mercado e pró-rentista capitaneado pelo “superministro” Paulo Guedes vai sendo suplantado pelo peso da realidade, que exige uma pronta disposição de recursos públicos para o combate à emergência sanitária e socioeconômica, este será um momento de definições cruciais para o futuro imediato do País. É hora de se livrar a formulação das políticas econômicas do vírus da usura, que as infesta ininterruptamente desde a década de 1990, vide os lucros indecentes dos grandes bancos, em meio a cinco anos de estagnação econômica. É hora de iniciar já a inadiável reconstrução nacional, orientada pelo “Princípio do Bem Comum”.
segunda-feira, 2 de março de 2020
As eras das intolerâncias
Operários, de Tarsila do Amaral, retrata o povo brasileiro mestiço
Concordando ou discordando do regime chinês, todos são unânimes: a China marcha inapelavelmente para se transformar na primeira economia global. Mas nem sempre foi assim, a revolução de 1949 que iniciou a libertação nacional do jugo colonial, contra as grandes potências europeias e norte-americana, deparou-se com uma nação estraçalhada e miserável.
Durante algumas décadas, a China, o antigo Império do Meio, pastou na pobreza, insuficiência econômica crônica, adotando uma espécie de igualitarismo social que se resumia na máxima: todos somos pobres, mas somos iguais e felizes, inclusive nas vestimentas cinzentas, ao estilo da túnica do presidente Mao Tsé-Tung.
Essa ideia de uma China igualitária e feliz na pobreza, que galvanizou as mentes dos jovens revolucionários, durante as jornadas do Maio de 1968 e que virou uma espécie de mantra para a juventude rebelde ocidental à época, não passou de uma tremenda provação econômica e social, que incluiu a terrivelmente famosa Grande Fome que vitimou dezenas de milhões de chineses, ao tempo que, conflagrada, deu início a outro processo político macabro: a grande revolução cultural, também saudada por parte da geração de 1968 no ocidente como um marco revolucionário de rupturas mundiais, e uma espécie de apologia à pobreza igualitária.
Onde milhões de cidadãos da China foram perseguidos, vários mortos, porque encarnavam a “sociedade decadente do passado”.
Professor em "reeducação" durante a Revolução Cultural chinesa
Em resumo, a revolução cultural chinesa propunha-se a exterminar as tradições, as permanências do seu próprio povo: cultura, literatura, música, arte, pintura, religião, filosofia etc. O célebre, milenar, pensador Confúcio, foi considerado como uma aberração indescritível. Todos os clássicos da música chinesa e literatura ocidentais foram banidos, livros e discos queimados em praça pública, professores foram mortos ou levados aos campos de reeducação, de onde muitos jamais voltaram.
Assim a revolução cultural chinesa, celebrada com vibrante entusiasmo por certa parte da juventude ocidental de esquerda dos anos sessenta passados, nada mais foi que um festival macabro de intolerância cuja finalidade era eliminar o passado, e, desde o presente, introduzir o “novo” na sociedade chinesa. Durou poucos anos e foi derrotada pelas lideranças da China, inclusive na esfera econômica.
É famosa a frase de um dirigente chinês pós revolução cultural: queriam que nós fôssemos pobres, felizes e sem memória, inclusive alguns ocidentais. Nós agora estamos no rumo de sermos felizes, ricos, com memória e cultura.
Existe algo em comum entre o nazi-fascismo, a revolução cultural chinesa dos anos sessenta passados, e as pautas identitárias, “conservadoras” ou “progressistas” dos dias atuais: a intolerância xenófoba, o desprezo pela memória e o patrimônio dos povos, e a vã tentativa pela reconstrução ideológica, artificial, da própria História em geral.
A revolução cultural chinesa elaborou o “livro vermelho de pensamentos do presidente Mao”, os nazistas uma arte e cultura com base na raça ariana pura e no destino irrefutável alemão em dominar o mundo. E as pautas identitárias, “conservadoras” ou ditas “progressistas”, a reinterpretação politicamente correta do gênero, da arte, da cultura, da música, da História a partir das suas cartilhas de orientação à sociedade.
Todas elas foram, continuam a ser, excludentes, intolerantes e persecutórias frente às grandes maiorias sociais, pretendiam, ou pretendem, enquadrar a sociedade conforme os seus ditames evangelizadores de vocação autoritária e despótica, e quem discordar, queimariam, ou vão queimar, no fogo do inferno, em certos casos, reais, em outros, virtuais.
Na revolução cultural chinesa, uma facção sectária do partido comunista da China apoderou-se de frases do presidente Mao, para “disciplinar” a sociedade chinesa “corrompida” em valores, cultura e hábitos.
No regime nazista alemão, os nazistas no poder, “inventaram” a “nova cultura” de uma Alemanha pura e superior ao resto do mundo, com vistas a dominá-lo.
Queima de livros na Alemanha nazista
No identitarismo dos dias atuais, dois campos disputam a mesma coisa com sinais trocados: uns pretendem impor um neoliberalismo econômico radical que já não é mais aplicado em canto nenhum do planeta, e o outro uma espécie de neoliberalismo social individualista, que os povos também rejeitam. Em qualquer um dos dois casos a agressividade, fanatismo e intolerância dão a tônica.
Ambos se opõem à centralidade da nação como fator de união dos seus compatriotas em torno de um projeto de desenvolvimento econômico e social soberano, comum. Tais aspirações não existem no discurso identitário, só a evangelização em torno de suas agendas restritivas, excludentes.
Por serem neoliberais, se pretendem “pseudointernacionalistas” porque se encontram sob o beneplácito e incentivo do capital financeiro internacional contra a soberania dos Estados Nações. Procuram com ideologias criar falsos antagonismos entre a soberania nacional e a democracia.
Esse discurso massificado encontra imensa guarida na grande mídia internacional, associado ao rentismo especulativo, que aliás anda faturando horrores com a especulação intensamente alarmista sobre o corona vírus. Alguns especialistas já chamam de infopandemia.
Enfim, quando os tempos são de desorientação generalizada, como é o caso atual, surgem ideologias sectárias, intolerantes e fanáticas querendo se impor sobre o conjunto das sociedades.
Mas, elas depois sempre entram em decadência e sucumbem. Seja através da consciência política social, ou em alguns casos mais graves, por mecanismos invasivos e dolorosos, como a derrota nazista na Segunda Guerra mundial. É o que nos ensina a História.
sábado, 18 de janeiro de 2020
Democracia e Relativismos
A financeirização, praticamente absoluta, da economia mundial fez surgir uma espécie de totalitarismo global, cujas ideias atendem à manutenção da hegemonia das políticas que servem aos mecanismos da atual ordem especulativa parasitária.
O historiador egípcio-britânico Eric Hobsbawm foi profético em seu livro O Breve Século XX ao afirmar que as novas gerações corriam sério risco em viver em um estado de presente contínuo, sem referências do passado e, portanto, sem perspectivas, incapaz de traçar, planejar, com os instrumentos que a humanidade possui, rumos ao futuro, mesmo que acertando ou errando. Nada disso, porém, acontece ao acaso.
Fala-se muito, entre outras pautas, ou “narrativas”, palavra da moda hoje, sobre a essência, o sentido das religiões, mas não como uma indagação teológica, filosófica ou existencial, porque essa discussão é hoje circunscrita ao campo de uma agenda superficial, sem profundidade, não como a que arrastou por quase toda sua vida, por exemplo, o consagrado escritor britânico Graham Greene, assim como vários pensadores ou filósofos de envergadura, inclusive no século XX.
Entre os fenômenos do novo milênio, destaca-se de maneira acentuada o Relativismo, não confundir com a teoria da Relatividade de Einstein e outros, cujo objetivo foi a tentativa da compreensão da Astrofísica, da matéria e da energia etc., mas de um relativismo pueril, raso, sem fundamentos.
O “presente contínuo”, o “Relativismo pós-moderno”, como é denominado, representa a negação dos acontecimentos Históricos do passado, e do presente, mesmo os mais recentes.
Mas o passado é real e se encontra no inconsciente individual das pessoas, na sua infância, adolescência, fase adulta. Em documentário exibido no Canal Curta, o cantor e compositor Alceu Valença afirmou que toda a sua produção resulta das suas vivências, em são Bento do Una, Pernambuco, na primeira vez que viu o mar em Olinda, em Recife, no Rio de Janeiro, São Paulo e pelo mundo afora.
Assim também é com o inconsciente coletivo, que se revela nas tradições orais, populares ou eruditas, como igualmente nos episódios que compõem a História de um povo. A crítica historiográfica, assim, só pode vingar se partir dos fatos acontecidos. Precisos e rigorosos.
O relativismo “pós-moderno” é o esfumaçamento da verdade, individual ou coletiva, o que nos faz lembrar a pergunta da famosa estagiária universitária nas crônicas de Nelson Rodrigues, ao lhe indagar o que ele achava do “nada absoluto”. Enfim, representa a negação de tudo acumulado nas referências concretas de qualquer sociedade.
É por isso que o cientista político Roberto Mangabeira Unger afirmou: nas Humanidades, ou ciências sociais, o escapismo está na ordem do dia. A ciência social vai passear numa montanha russa de aventuras, desconectada da reconstrução da vida prática.
Não é sem razão a “consagração” de certas palavras “códigos” em vários extratos de setores médios, tais como: a “narrativa” do movimento tal, o “lugar de fala” de determinadas “tribos” sociais urbanas, a apologia do conceito “diversidade” em substituição à ideia da Democracia, que significa a conquista universal e maior da Igualdade para todos, sem exceção.
Porque o que importa para o capital financeiro parasitário é a fragmentação e não o esforço social em comum na busca de soluções para as necessidades reais de uma sociedade.
Essas e outras formulações estão embutidas no ideário do relativismo pós-moderno das agendas multiculturais e identitárias, sob a capa de um pretenso marxismo cultural, que na verdade mais se assemelha a um “marxismo caricatural”.
O relativismo pós-moderno indica a tentativa de esmagamento da memória, do pertencimento em comum, a aspiração da igualdade para todo um povo, uma nação.
Em seu lugar buscam introduzir a fragmentação, uma sociedade de dissidências de origens irreconciliáveis, a abdicação de um projeto coletivo de uma comunidade nacional.
Cria-se, dessa maneira, uma sensação esmagadora de orfandade no indivíduo, como também no social, gerando uma epidemia de neuroses e depressões em escala geométrica, que com o tempo passou a ser assimilada como “normal”. E isso nada tem a ver com a importância da psicologia, psiquiatria ou a necessidade de uma psicanálise mais democratizada, para quem a desejar ou precisar.
Na verdade as neuroses ou patologias mentais são atualmente uma pandemia cuja origem reside no abandono do individual, ou do social, na falta de rumos ou de causas ensejadas nesse presente contínuo, nas exigências definidas pela ordem financeira especulativa, violenta, implacável, massivamente excludente.
Não se pode abstrair também dessa realidade, aí sim, realidade mesmo, a proliferação das “religiões midiáticas”, que se espalham profusamente por todos os lados, revelando uma carência, não sobre as grandes reflexões teológicas, mas o sentimento de abandono do indivíduo e da coletividade.
Porém, de todos os movimentos religiosos midiáticos existentes, que continuam a surgir, é possível afirmar que a maior religião monoteísta deste novo milênio do pós-modernismo relativista, é a adoração à Tecnologia. Não como um instrumento fundamental ao desenvolvimento da humanidade, mas como se ela fosse, em última instância, um fim em si mesmo, um Deus substituto e definitivo. Um ente a ser cultuado, preenchendo vazios existenciais. O que jamais será possível.
Quanto à pandemia das neuroses e outras patologias, nessa sociedade sem rumos, o que manda é a lógica do ultraliberalismo financeiro excludente das maiorias sociais.
Você pode estar com a cabeça totalmente louca, mas tem que funcionar para o sistema. E quem não conseguir, mesmo à base de fármacos, então você está fora. E já existe um exército de dezenas ou centenas de milhões de excluídos ou precarizados no mundo.
A Nova Ordem financeira mundializada é selvagem, caótica, mas tem suas agendas que incutem um corolário de “causas” sempre diversionistas, segregacionistas, disfuncionais, quando não alarmistas, várias delas se encontram nessas chamadas “pautas identitárias”.
As chamadas “Distopias” e constituições das famosas “realidades paralelas” fazem parte de uma construção hegemônica jamais vista antes, dada a sua massiva difusão através da grande mídia hegemônica. E isso nada tem a ver com ficção, seja ela científica, como recurso de linguagem, literatura, cinema futurista etc. etc.
Os atores das grandes mídias passam a ser os novos filósofos rasos, os jornalistas na grande mídia hegemônica, esses, narcisistas, substituem a própria notícia, que raramente é uma notícia verdadeira, os pop stars nativos ou internacionais possuem a última palavra sobre qualquer assunto circulante, sejam eles reais ou inventados.
Na verdade a grande mídia hegemônica mundial, quase que abandonou a notícia, mesmo que parcial, e em seu lugar adotou as “narrativas” ideologizadas das agendas inclusive as “identitárias”, salvo a linha econômica do neoliberalismo radical, e a criminalização da política, que é um elemento chave da vida democrática na sociedade. Justiça se faça, ela está no seu papel doutrinário.
Mas também não é sem fundamento que as pesquisas de opinião pública apontam para um enorme descrédito da grande mídia. Afirmar que as causas desse descrédito se devem unicamente às redes sociais, é tergiversar sobre os fatos.
Disfuncionais, alguns setores progressistas incorporam-se, paradoxalmente, ao “pós-relativismo” e à “pós-verdade” mesmo que vários não o saibam. Daí, as famosas “bolhas das redes sociais”, desconectadas das aspirações das grandes maiorias sociais.
Já os ultra conservadores, reacionários, pró sistema financeiro especulativo, como no Brasil, mas não apenas aqui, passaram a encarnar, pelo menos, durante algum tempo, a figura da rebeldia antissistema, quando na verdade eles representam e são o próprio sistema.
Basta usar algumas palavras chaves, caras ao imaginário popular. Assim, a desrealização é tamanha que muitos jovens acreditam que jamais existiu o golpe civil-militar de 1964, que durou vinte e um anos, pleno de matérias jornalísticas, arquivos, fatos publicados, fotografias, depoimentos de pessoas vivas, documentários filmados etc. etc. Interpretar o golpe civil-militar sob um ângulo, conservador, retrógrado é uma coisa. Negá-lo, é mais que espantoso, é um exemplo da chamada “realidade paralela” em ação. Ainda mais quando o ex-secretário nacional de cultura do governo Bolsonaro resolve citar Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, como paradigma cultural. Um psicopata, facínora genocida, da Alemanha nazista.
Porém, de outro lado, alguns setores de “esquerda” já consideram que a ditadura jamais terminou e que o governo Bolsonaro seria um exemplo cabal de tal “narrativa”.
Ou seja, desde 1985, passando pela Assembleia Constituinte, as diversas eleições presidenciais, o País sempre esteve sob uma ditadura disfarçada. É preciso considerar que tal ideia, até alguns anos atrás seria até risível. Hoje, não mais. Qual nome podemos dar a esses fenômenos tão distintos dos fatos reais e da vida?
O cientista político norte-americano Mark Lilla, em entrevista no Brasil, afirmou que os mitos várias vezes são benignos na História. Quando o general Charles De Gaulle exigiu, na libertação de Paris, durante a Segunda Guerra Mundial, marchar em primeiro lugar sobre os Campos Elísios à frente das tropas francesas no exílio, que eram minoria em relação à vasta dimensão dos exércitos aliados, ali ele criou um mito para os franceses sobre a real importância do exército francês para os seus compatriotas.
Restituiu o orgulho para uma França ocupada e humilhada pelo colaboracionismo do governo de Vichy. Após o fim da guerra a França estava dividida e ameaçada por uma larga conflagração civil entre a resistência e os ex-colaboracionistas, numa espécie de ajuste de contas contra os simpatizantes do nazismo.
Mais uma vez o general, herói nacional, declarou que o colaboracionismo tinha sido uma aberração de minorias. Ele sabia que isso não era verdade, mas o seu gesto evitou uma guerra fratricida interna e unificou a França. Aqui temos o exemplo do Estadista político e do mito em prol do bem comum a uma nação, afirmou Mark Lilla.
Ao erguer a bandeira do Brasil como símbolo de sua campanha, o presidente Bolsonaro criou um falso mito de candidato patriota, no entanto, a sua agenda econômica é a mesma do capital financeiro, pior ainda, ultra neoliberal, que não se aplica mais nem nos Estados Unidos.
Ao alinhar a diplomacia brasileira à norte-americana, além de manchar a História extremamente competente do Itamaraty, subordinou a nossa política externa ao governo Trump, também conservador e de direita.
Parte da esquerda, ao se negar a abraçar as cores nacionais na última campanha presidencial, contra o adversário Bolsonaro, abriu mão da emblemática questão nacional e sua simbologia incontornável ao imaginário popular. E incorporou em seu discurso eleitoral uma agenda global que podia ser usada em todas as partes do planeta, porque ela é internacional e hegemônica.
Abstraindo a realidade nacional, distanciou-se dos grandes problemas do País, e por fim enredou-se nas “bolhas” das redes sociais, cuja manipulação ficou mais que evidente com as denúncias feitas pelo ex-agente da NSA, espécie de uma sucursal da CIA, Edward Snowden, exilado na Rússia. Aliás, as redes sociais estão exatamente no topo da pirâmide das nocivas fake news.
Ao insistir em uma retroalimentação política contra os arrivismos, muito bem calculados, do presidente Bolsonaro, essa mesma esquerda deixa de abordar como centrais as grandes questões que afligem a sociedade brasileira, a necessidade de rumos concretos ao Brasil, a retomada do desenvolvimento econômico e soberano da nação, o seu protagonismo diplomático internacional, o combate às abissais desigualdades sociais etc.
Enfim, na era de “mitos negativos” como disse Mark Lilla, “realidades paralelas”, “visões distópicas”, o País necessita pensar, com a máxima amplitude e capacidade política, espírito prático, amplo entendimento entre diversos setores sociais, em construir caminhos para o futuro, motivar e empolgar com projetos factíveis, 210 milhões de cidadãos, órfãos de perspectivas na atualidade.
sexta-feira, 15 de novembro de 2019
Encruzilhada
O Grito, de Edvard Munch, de 1883
Mesmo ameaçadas, a democracia, e a Constituição, que completa trinta e um anos desde a sua promulgação, estão conseguindo resistir bravamente a todos os tipos de ataques e destemperos. Os tempos atuais não estão sendo fáceis em grande parte do planeta.
Os discursos “ultristas” vão ganhando espaços em várias nações, porque a crise global, de feição multilateral, se alastra velozmente e as insatisfações sociais adquirem enormes dimensões em um período em que o dissenso é a marca na vida política.
Se a História fosse um círculo contínuo e eterno poderíamos afirmar que estamos de volta aos contornos econômicos, sociais, geopolíticos que antecederam às grandes tormentas que desembocaram na tremenda carnificina da Segunda Guerra mundial.
O declínio da hegemonia mundial absoluta dos Estados Unidos, após a debacle da extinta União Soviética, vem provocando grandes tensões internacionais assemelhadas à agonia do grande império britânico, onde se dizia, e era verdade, que o sol nunca se punha.
Naquela época a disputa por domínios internacionais no comércio e nas finanças, especialmente através da Alemanha nazista, Japão, Itália, Estados Unidos, União Soviética, sem alternativas diplomáticas, desembocaram no mais terrível conflito bélico da História da humanidade com dezenas de milhões de mortos, sem falar nos mutilados, órfãos de guerra etc.
Atualmente vivemos uma acelerada transição para outra ordem global com o protagonismo mais destacado da China, Rússia (o Brasil e a Índia em menor escala), e a ação reativa dos EUA em defesa de uma realidade já em plena transformação. Aqui está o centro dos principais conflitos comerciais, militares e geopolíticos que estão abalando o mundo.
Assim é que hoje Ideologias fundamentalistas, à esquerda e à direita, como nas décadas de vinte e trinta do século passado, proliferam e demarcam terreno, com ativistas em cruzadas muitas vezes dogmáticas que mais se parecem com a Inquisição na Idade Média, onde pessoas como Galileu e Giordano Bruno pagaram caro tributo, tanto como a ciência, a filosofia e a liberdade de pensamento crítico.
Nesse jogo atual onde o vencedor tem sido o grande capital especulativo, a mídia globalizada associada a esse rentismo predador tem feito a sua parte ajudando a semear o confronto, fomentando a dissenção, a fragmentação do tecido social, e fundamentalmente escondendo as verdadeiras causas das angústias dos povos, que advêm de uma brutal crise, decorrente de uma concentração de renda estratosférica.
Marion Jansen associa o atual estágio da globalização financeira ao famoso quadro O Grito do pintor norueguês Edvard Munch, de 1883, a imagem de uma pessoa disforme, transmitindo desespero em um cenário tortuoso e angustiante. Nesse quadro “nós vemos o grito mas não o ouvimos”.
As polarizações entre ideologias sectárias tomam conta do discurso político e se retroalimentam, muitas vezes conscientemente, em uma espécie de jogo macabro. Uma espiral que parece nunca ter fim. A máxima prevalecente hoje é: se você não concorda comigo, então você é um inimigo.
As novas tecnologias de comunicação, as mídias sociais, representam um avanço irreversível, mas elas não substituem a concertação e o entendimento só possível pela vida política democrática. O que pressupõe a necessidade de um projeto de nação amplamente inclusivo, jamais excludente das grandes maiorias sociais.
A atual realidade política nacional, óbvio, também padece desse veneno letal já há algum tempo.
No Brasil, muitos falam em democracia e respeito à Constituição. Mas quem viveu os tempos da ditadura, da lei de segurança nacional, do AI5, dos tribunais de exceção para julgar e prender adversários políticos, cassar parlamentares, demitir sumariamente trabalhadores ou servidores públicos suspeitos de fazer oposição ao regime, da total censura à imprensa, do decreto 477 para expulsar das escolas lideranças estudantis, quem viveu tudo isso sabe muito bem que o arbítrio só foi superado através da “união de todos os democratas e patriotas em defesa da democracia e do Brasil”, para ser redundante com documentos valiosos da época.
Não será em uma nação fraturada, sectária, intolerante, dividida, odienta, que vamos conseguir superar o atual estágio de desorientação generalizada que ora vivemos. Isso só serve às “bolhas” em perpétuo confronto que presenciamos.
E mesmo assim é útil até um certo ponto, porque ninguém é capaz de adivinhar até onde a democracia, a Constituição e o Brasil, podem suportar essa espiral de furor e da “não política” onde estamos metidos.
O País, apesar de novo, tem larga tradição Histórica de encontrar soluções para os seus conflitos, para os seus demônios interiores, até para as guerras civis sangrentas mesmo, e seguir em frente como nação unificada na diversidade de opiniões. Aquilo que chamamos convivência política democrática sem adjetivações.
Tudo indica que será necessário, cedo ou tarde, um novo pacto democrático, mais uma vez através da via política e da participação de toda a sociedade, que seja representativo de todos segmentos nacionais. Sem esse amplo entendimento político e social não vamos conseguir sair dessa encruzilhada Histórica que vivemos.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
O Chile em luta pela segunda independência, por Aldo Rebelo
Texto de Aldo Rebelo, publicado no portal Bonifácio.
Batalha de Maipú, confraternização entre Bernardo O'Higgins e San Martin - Pedro León Subercaseaux (1880-1956).
No último dia 10 de outubro, o presidente do Chile, Sebastian Piñera, em entrevista à televisão, aclamava seu país como um “oásis” de crescimento econômico, geração de empregos e estabilidade democrática na América Latina, cercado de crises, no Brasil, no México, na Argentina, no Paraguai, na Bolívia e Peru.
No dia 20, Piñera voltava à televisão, desta vez acompanhado de seu ministro da Defesa, para atacar “um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém, e que está disposto a usar a violência e a delinquência sem nenhum limite”. Esse inimigo era o próprio povo chileno, que desencadeava uma inédita onda de mobilizações contra o aumento das tarifas de transporte e de denúncia das desigualdades sociais.
As autoridades chilenas convocaram as forças de segurança para reprimir as manifestações e a violência se espalhou pelas ruas de Santiago, resultando em mais de uma dezena de mortos.
Três dias depois, no dia 23, Piñera retornava mais uma vez às redes de televisão para pedir perdão à população por ter compreendido tardiamente suas reivindicações. Prometeu reformar a Previdência, a educação e a saúde, elevar o salário mínimo e reduzir as tarifas de energia.
Depois, pelo Twitter, Piñera elogiou as manifestações como “caminhos para o futuro e esperança”. No esforço para conter a crise, pediu a todos os seus ministros que colocassem seus cargos à disposição, ou seja, que renunciassem. Sebastian Piñera, finalmente, dobrava-se à força dos acontecimentos.
O que se passa com o Chile? Visto por seu presidente como o “oásis” latino-americano, elogiado pelo ministro da Fazenda do Brasil, Paulo Guedes, como a “Suíça” da América do Sul, a ebulição social caiu sobre o país como um raio em céu azul.
A verdade é que o laboratório chileno de crescimento econômico apoiado na concentração de renda e privatizações dos serviços públicos explodiu. Sem renda, sem Previdência e sem serviços públicos o modelo chileno exibia as deformidades que esgotaram a paciência popular. Os rancores acumulados pelas frustrações da vida difícil da classe média e do povo desencadearam as mais vigorosas manifestações da história recente do país.
Os chilenos travam nas ruas de Santiago a sua segunda Batalha de Maipú. Na primeira, em 1818, conquistaram a independência ao Império colonial espanhol. Agora tratam de emancipar o Chile, sua classe média e seu povo do modelo excludente imposto pela elite rentista.
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