domingo, 14 de novembro de 2010

Brasil, finalista do Mundial de vôlei




A garra, a graça e a competência das meninas brasileiras, finalistas do campeonato mundial de vôlei no Japão.

ATUALIZADA ÀS 20h30

Parabéns às jogadoras brasileiras do mundial de vôlei, que protagonizaram uma bonita batalha contra as russas, e voltam para casa com uma medalha de prata.

Resenha Estratégica: A Reserva Federal e o câncer monetário

A Resenha Estratégica, uma revista eletrônica da qual sou assinante, publicou, em sua última edição, um excelente texto a respeito das medidas econômicas adotadas pela Reserva Federal dos Estados Unidos para responder ao baixo crescimento do país e à crise mundial financeira, e o papel das nações emergentes, como Brasil e Índia, no atual contexto. Segue o texto na íntegra:

Reserva Federal propõe metástase global para combater câncer monetário



10 de novembro de 2010 (www.msia.org.br) - A esperada decisão do Sistema da Reserva Federal dos EUA de injetar mais 600 bilhões de dólares no sistema financeiro com a compra de títulos do Tesouro, anunciada na quarta-feira 3 de novembro, sinaliza um ponto de inflexão talvez determinante para os desdobramentos da crise sistêmica global. A medida, que tornou ainda mais carregada a atmosfera na qual deverá ocorrer a cúpula do G-20 em Seul, em 11-12 de novembro, colocou os EUA numa posição antagônica à praticamente todo o resto do mundo e, principalmente, sinalizou de forma ostensiva a determinação da cúpula do Establishment oligárquico de preservar a qualquer custo o sistema financeiro mundial em sua presente forma.

O "recado", dado com a arrogância típica dos altos serviçais do Establishment, foi transmitido sem meias palavras pelo economista Stanley Fischer em entrevistas publicadas em vários jornais do planeta, entre eles os brasileiros O Globo e O Estado de S. Paulo. Fischer, que já foi o segundo em comando no Fundo Monetário Internacional (FMI) e atualmente preside o Banco Central de Israel (além de ter sido orientador de tese do atual presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke), deixou quaisquer pudores de lado e colocou os fatos com a sutileza de um capo da Camorra:

(...) No fundo, o problema principal consiste em saber como distribuir a conta do ajuste e se os mercados estão em condições de distribuí-la bem. A outra questão é o que vai fazer a China. Se mantiver seu câmbio atrelado ao dólar, um peso maior do ajuste será descarregado sobre os demais países... Há outra maneira de considerar o problema. Há a hipótese A, em que os EUA adotam os mecanismos de afrouxamento quantitativo, inundam o resto do mundo com capitais e provocam excessiva valorização cambial, mas retomam o crescimento, todos podem voltar a exportar para eles. E há a hipótese B, em que os EUA não fazem nada, não há essa enorme pressão sobre os mercados de câmbio, mas o crescimento econômico americano se mantém baixo por muito tempo. Eu prefiro a hipótese A. A gente tem de trabalhar com os instrumentos que tem. A situação ideal é aquela em que todos os países colaboram no ajuste, incluindo a China. Prefiro que os EUA saibam o que fazer para voltar a crescer.

Evidentemente, Fischer descarta qualquer alternativa protecionista como linha de defesa de países individuais contra a tsunami global.

No mesmo diapasão, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, teve um artigo divulgado pelo Project Syndicate e publicado em jornais de vários países (inclusive O Globo de 10 de novembro), no qual afirma com todas as letras que os países que não ajudarem os EUA "estão brincando com fogo". Em suas palavras:

Os líderes do G-20 que escarnecem da proposta dos EUA para limites numéricos das balanças comerciais deveriam saber que estão brincando com fogo. Os EUA não estão fazendo uma exigência, tanto quanto estão emitindo um apelo por ajuda.

As economias emergentes foram alvos preferenciais da retórica belicosa de Rogoff:

Índia, Brasil e China, por exemplo, continuam a explorar as regras da Organização Mundial do Comércio que permitem longos e graduais períodos para a abertura plena dos seus mercados domésticos às importações dos países desenvolvidos, mesmo quando os seus próprios exportadores desfrutam de pleno acesso aos mercados dos países ricos. Uma defesa canhestra dos direitos de propriedade intelectual agravam o problema, prejudicando as exportações estadunidenses de software e entretenimento.

Um esforço determinado dos países de mercados emergentes que têm saldos comerciais, no sentido de expandir as importações dos EUA (e da Europa) faria mais para corrigir os desequilíbrios comerciais globais a longo prazo do que alterações nas suas taxas de câmbio ou políticas fiscais. Os mercados emergentes se tornaram muito importantes para se permitir que continuem a atuar pelas suas próprias regras comerciais. Os seus líderes devem fazer mais para enfrentar os interesses estabelecidos domésticos e incentivar a competição externa.

Como se percebe, Bernanke, Rogoff, Fischer e caterva continuam aferrados aos disfuncionais e falidos axiomas que levaram o sistema financeiro e a economia mundiais a um impasse terminal, entre eles, o "livre comércio". Ou seja, o que pretendem é nada menos que acelerar a metástase de um sistema levado a um estado terminal pelo câncer da financeirização que se espalhou pelo mundo após a ruptura do velho sistema de Bretton Woods, o qual possibilitou duas décadas e meia dos maiores índices de desenvolvimento per capita da História. O recém-falecido economista Angus Maddison, especialista em estatísticas econômicas históricas, aponta que, entre 1950 e 1973, a diferença de PIB per capita entre os países mais ricos e os mais pobres caiu, dos 15:1 registrados no período 1913-50, para 13:1; no período 1973-98, na por ele denominada "ordem neoliberal", o índice subiu para 19:1 (e este número não considera o período de agravamento da crise, ao longo da década passada).

Embora não se deva subestimar a capacidade de autoperpetuação do Establishment, o fato é que o presente sistema baseado no controle majoritariamente privado da emissão de moeda e crédito, coordenado por meio de uma rede internacional de bancos centrais "independentes", não mais se coaduna com a complexidade e o dinamismo crescentes das economias modernas. Definitivamente, não é mais possível financiar governos e economias produtivas do século XXI com métodos que remontam à criação do Banco da Inglaterra, no final do século XVII. Esperemos que, a partir de Seul, tal realidade comece a ficar evidente para as principais lideranças políticas mundiais.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Caçada do multiculturalismo


O livro que pretendem censurar, em uma edição antiga, e seu
criador, caricaturado por Theo
(fontes: lobato.globo.com - desenho e afinsophia.wordpress.com - livro)

     

     Recomendo a leitura de importante texto de Aldo Rebelo contra a censura da cultura e da literatura brasileiras pelos tribunais de inquisição do politicamente correto, cuja vítima mais nova foi o grande escritor Monteiro Lobato, pai do Jeca Tatu e responsável pela criação de um mundo ficcional infantil que até hoje faz parte da memória das crianças brasileiras. Segue o artigo publicado na Folha de S. Paulo, que também pode ser conferido no Vermelho:





Aldo Rebelo: Monteiro Lobato no tribunal literário


O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro "Caçadas de Pedrinho" deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal literário.

A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional Biblioteca na Escola.


Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma "nota explicativa" nas passagens incriminadas de "preconceitos, estereótipos ou doutrinações". O Conselho recomenda que entrem no índex "todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante".


Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da "nota explicativa" -a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da "submissão da mulher", e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.


Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e personagem, o Conselho vê em "Caçadas de Pedrinho" preconceito de cor na passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada boneca Emília, "torneirinha de asneiras", nas palavras do próprio autor: "É guerra, e guerra das boas".


Não vai escapar ninguém -nem Tia Nastácia, que tem carne negra". Escapou aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado pelo rinoceronte: "Tenha paciência -dizia a boa criatura. Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá...".


Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca Tatu, pincelado no livro "Urupês", de 1918, como infamante retrato do brasileiro. Mereceria uma "nota explicativa"?


Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma eleitoral "A Questão Social e Política no Brasil", ao interpretar o Jeca de Lobato, "símbolo de preguiça e fatalismo", como a visão que a oligarquia tinha do povo, "a síntese da concepção que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram".


Ou seja, é assim que se faz uma "nota explicativa": iluminando o texto com estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.


O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário. Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé de guerra com a sociedade nacional.


Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas.


A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas. País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos retóricos.


Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a orientação desses "guardiões" da cultura.


Fonte: Folha de S.Paulo

Avelar: a falsa tese do "país dividido"

Leitura fundamental é a do artigo do Idelber Avelar, publicado ao seu blog, O Biscoito Fino e a Massa, e reproduzido pelo Vermelho. Ele questiona a tese do país dividido entre "vermelhos" e "azuis", com base no resultado da votação presidencial, conforme mapa pintado pela grande mídia. Abaixo reproduzo o texto na íntegra.

Idelber Avelar: a falsa tese do “país dividido”

Nem bem contada estava a maior parte dos 55.752.529 votos recebidos por Dilma Rousseff e um insidioso meme começava a circular pelos meios de comunicação brasileiros, especialmente pela Rede Globo de Televisão. Parece que não entendiam, ou se recusavam a entender, o momento histórico que vivíamos. Trata-se da cantilena do “país dividido”, reforçada por um enganoso mapa em que o Brasil aparecia separado entre estados azuis e vermelhos.


Por Idelber Avelar no blog O Biscoito Fino e a Massa


Acompanhado por uma série de bizarras declarações de figuras como W. Waack (“a imprensa criou o mito de Lula e ele se voltou contra ela, ingrato”) ou do inacreditável Merval Pereira (“Dilma deve saber que a oposição teve uma votação muito alta”), o mapa cumpriu o papel de sugerir uma divisão que absolutamente não existe: Dilma venceu com larga margem (12%), que em qualquer democracia presidencialista qualificaria como um sacode-Iaiá. Basta lembrar que na categórica vitória de Obama sobre McCain a diferença foi 52,9% a 45,7%, pouco mais da metade, portanto, da diferença imposta por Dilma a Serra.


Como apontou Alexandre Nodari no seu Twitter, a divisão por estados peca por impor ao Brasil um modelo que é essencialmente estadunidense, baseado no princípio de que o candidato vencedor num determinado estado leva todos os seus votos a um Colégio Eleitoral, numa eleição que é, para todos os efeitos, indireta. No Brasil, como se sabe, o presidente é eleito por sufrágio universal, e nele a ideia de estados “vermelhos” e “azuis” não faz o menor sentido. O mapa do Estadão, colorido por municípios e com várias gradações de azul e vermelho, esse sim, serve a um estudo sério, já iniciado pelo Fabricio Vasselai.


A ideia dos estados azuis e vermelhos faz menos sentido ainda depois de estudado o mapa eleitoral do pleito de 2010. A grande maioria dos estados que aparecem em azul no “país dividido” da TV Globo são unidades da federação em que Serra venceu por mínima diferença: Goiás (50,7%), Rio Grande do Sul (50,9%), Espírito Santo (50,8%), Mato Grosso (51,1%). Não se encontra, na coluna azul, nem rastro de um estado em que a vantagem se compare com a conquistada por Dilma em lugares como Amazonas (80%), Maranhão (79%), Ceará (77%), Pernambuco (75%), Bahia (70%), Piauí (69%) e vários outros. Num país com eleição por sufrágio universal e uma diferença tão acachapante entre os estados “dilmistas” e os “serristas”, só com muita desonestidade intelectual você colore alguns estados de azul e outros de vermelho, sem variação no tom das cores, para apresentar um país “dividido”.


Se a tese do país dividido não tem fundamento, menos ainda o tem a tese do país dividido entre Sul/Sudeste, por um lado, e o Norte/Nordeste, por outro. Não custa lembrar, mas essa divisão grita em desacordo com os fatos: Dilma enfiou goleadas acachapantes em Serra no Rio de Janeiro (60,5% x 39,5%) e Minas Gerais (58,5 x 41,5), além conquistar um empate no Rio Grande do Sul. Não custa lembrar aos jornalistas da Globo: Dilma Rousseff venceu as eleições no Sudeste, caso o fato tenha passado despercebido no Jardim Botânico.


Já na segunda-feira, a mídia brasileira havia conseguido insuflar uma onda divisionista que não demorou em encontrar solo fértil no nosso bom e velho racismo latente. No Twitter, proliferava o discurso do ódio aos nordestinos, desinformado até do básico dado de que Dilma teria ganho eleição mesmo se o Brasil não incluísse o Nordeste. Aludindo de forma desonesta ao “fato” que ela mesma havia ajudado a criar, a Globo relatava que havia um “embate” entre regiões do Brasil nas redes sociais, quando na verdade o único embate se deu entre a sanidade e uma minoria racista e ressentida. Começa mal, muito mal a Vênus Platinada, talvez como consequência do que aconteceu nesta eleição histórica: Dilma venceu o pleito com o debate da Band, desmontou a última armação com um vídeo do SBT e concedeu sua primeira entrevista à Record.


Sinais dos tempos.

domingo, 7 de novembro de 2010

O voto do Nordeste

A economista e socióloga Tânia Bacelar concedeu entrevista ao Diário de Pernambuco sobre artigo que escreveu a respeito do voto nordestino. Intitulado "O voto do Nordeste, para além do preconceito", causou grande repercussão entre os blogs e sites políticos e respondeu às críticas voltadas para a votação elevada obtida pela presidente Dilma na região.

Recomendo a leitura dos dois materiais. Também há um vídeo no link da entrevista que vale à pena ser assistido.


- Entrevista: http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/11/07/politica12_0.asp
- Artigo que provocou a entrevista: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=139373&id_secao=1

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Três mitos sobre a eleição de Dilma

Recomendo e publico aqui ótimo texto de Marcos Coimbra, presidente do instituto Vox Populi, copiado do blog do jornalista Luís Nassif, que analisa os erros dos discursos simplificados para explicar a vitória de Dilma Rousseff para a presidência do Brasil. Confiram abaixo:


Três mitos sobre a eleição de Dilma


Enviado por luisnassif, dom, 31/10/2010 - 22:59

Por zanuja castelo branco

Três mitos sobre a eleição de Dilma

Marcos Coimbra 31 de outubro de 2010 às 19:25h

Marcos Coimbra desfaz falsas análises a respeito da eleição da petista


Enquanto o País vai se acostumando à vitória de Dilma Rousseff, uma nova batalha começa. Nem é preciso sublinhar quão relevante, objetivamente, é o fato de ela ter vencido a eleição, nas condições em que aconteceu. Ela é a presidente do Brasil e, contra este fato, não há argumentos.


Sim e não. Porque, na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem. E as coisas que se dizem a respeito deles nos levam a percebê-los de maneiras muito diferentes.


Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência, a reduzir seu significado e lhe diminuir a importância. É nesse sentido que cabe falar em nova batalha, que se trava em torno dos porquês e de como chegamos a ele.


Para entender a eleição de Dilma, é preciso evitar três erros, muito comuns na versão que as oposições (seja por meio de suas lideranças políticas, seja por seus jornalistas ou intelectuais) formularam a respeito da candidatura do PT desde quando foi lançada. E é voltando a usá-los que se começa a construir uma versão a respeito do resultado, como estamos vendo na reação da mídia e dos “especialistas” desde a noite de domingo.


O “economicismo” – O primeiro erro a respeito da eleição de Dilma é o mais singelo.


Consiste em explicá-la pelo velho bordão “é a economia, estúpido!”


É impressionante o curso que tem, no Brasil, a expressão cunhada por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, quando quis deixar clara a ênfase que propunha para o discurso de seu cliente nas eleições norte-americanas de 1992. Como o país estava mal e o eleitorado andava insatisfeito com a economia, parecia evidente que nela deveria estar o foco do candidato da oposição.


Era uma frase boa naquele momento, mas só naquele. Na sucessão de Clinton, por exemplo, a economia estava bem, mas Al Gore, o candidato democrata, perdeu, prejudicado pelo desgaste do presidente que saía. Ou seja, nem sempre “é a economia, estúpido!”


Aqui, as pessoas costumam citar a frase como se fosse uma verdade absoluta e a raciocinar com ela a todo momento. Como nas eleições que concluímos, ao discutir a candidatura Dilma.


É outra maneira de dizer que os eleitores votaram nela “com o bolso”.


Como se nada mais importasse. Satisfeitos com a economia, não pensaram em mais nada. Foi o bolso que mandou.


Esse reducionismo está equivocado. Quem acompanhou o processo de decisão do eleitorado viu que o voto não foi unidimensional. As pessoas, na sua imensa maioria, votaram com a cabeça, o coração e, sim, o bolso, mas este apenas como um elemento complementar da decisão. Nunca como o único critério (ou o mais importante).


A “segmentação” – O segundo erro está na suposição de que as eleições mostraram que o eleitorado brasileiro está segmentado por clivagens regionais e de classe. Tipicamente, a tese é de que os pobres, analfabetos, moradores de cidades pequenas, de estados atrasados, votaram em Dilma, enquanto ricos, educados, moradores de cidades grandes e de estados modernos, em Serra.


Ainda não temos o mapa exato da votação, com detalhe suficiente para testar a hipótese. Mas há um vasto acervo de pesquisas de intenção de voto que ajuda.


Por mais que se tenha tentado, no começo do processo eleitoral, sugerir que a eleição seria travada entre “dois Brasis”, opondo, grosso modo, Sul e Sudeste contra Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os dados nunca disseram isso. Salvo no Nordeste, as distâncias entre eles, nas demais regiões, nunca foram grandes.


Também não é verdade que Dilma foi “eleita pelos pobres”. Ou afirmar que Serra era o “candidato dos ricos”. Ambos tinham eleitores em todos os segmentos socioeconômicos, embora pudessem ter presenças maiores em alguns do que em outros.


As diferenças no comportamento eleitoral dos brasileiros dependem mais de segmentações de opinião que de determinações materiais. Em outras palavras, há tucanos pobres e ricos, no Norte e no Sul, com alta e com baixa escolaridade. Assim como há petistas em todas as faixas e nichos de nossa sociedade.


Dilma venceu porque ganhou no conjunto do Brasil e não em razão de um segmento.


O “paternalismo” – O terceiro erro é interpretar a vitória de Dilma como decorrência do “paternalismo” e do “assistencialismo”. Tipicamente, como pensam alguns, como fruto do Bolsa Família.


Contrariando todas as evidências, há muita gente que acha isso na imprensa oposicionista e na classe média antilulista. São os que creem que Lula comprou o povo com meia dúzia de benefícios.


As pesquisas sempre mostraram que esse argumento não se sustenta. Dilma tinha, proporcionalmente, mais votos que Serra entre os beneficiários do programa, mas apenas um pouco mais que seu oponente. Ou seja: as pessoas que tinham direito a ele escolheram em quem votar de maneira muito parecida à dos demais eleitores. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os candidatos do PSDB aos governos estaduais foram eleitos com o voto delas.

Os três erros têm o mesmo fundamento: uma profunda desconfiança na capacidade do povo. É o velho preconceito de que o “povo não sabe votar” que está por trás do reducionismo de quem acha que foi a barriga cheia que elegeu Dilma. Ou do argumento de que foram o atraso e a ignorância da maioria que fizeram com que ela vencesse. Ou de quem supõe que a pessoa que recebe o benefício de um programa público se escraviza.


É preciso enfrentar essa nova batalha. Se não, ficaremos com a versão dos perdedores.

 Marcos Coimbra

sábado, 30 de outubro de 2010

Mensagem aos alagoanos


Neste domingo, 31 de outubro, o Brasil irá se defrontar com o seu destino histórico. Ou bem continuará com uma política direcionada ao desenvolvimento associado à inclusão social de milhões de brasileiros pobres ou retrocederá às políticas neoliberais da era FHC, cujas premissas fundamentais são a defesa do Estado mínimo desregulamentado em suas funções estratégicas, inclusive da sua integridade territorial, além da privatização das riquezas nacionais.

Por isso é que votamos em Dilma Roussef. Para continuarmos na senda do crescimento econômico, equilibrado com a distribuição da renda nacional e voltado à diminuição dos abismos sociais em nosso País. Abismos esses que além de seculares são também regionais.


Em Alagoas o nosso combate renhido desde o primeiro turno das eleições, quando fui candidato ao Senado da República, honrado pelos alagoanos com quase 140 mil votos, sufragados através de uma campanha cuja base programática foi a defesa de Alagoas, do seu desenvolvimento integrado a esse ideário nacional citado em nossa declaração de voto a Dilma para presidente da República.

Isso significa votar no segundo turno, mais uma vez, em Ronaldo Lessa para governador de Alagoas. Essa é a nossa causa e o nosso objetivo nesta extraordinária batalha política que vivenciamos intensamente neste ano de 2010.

Um grande abraço a todos.

Eduardo Bomfim

Sobre a região Norte, novamente


No último post, falei sobre os municípios litorâneos da região norte de Alagoas e de como fui bem recebido pela população. Deixei para contar minha experiência nos outros municípios agora, para fazer um agradecimento especial a um garoto de 7 anos, João Felipe, e ao seu pai, Silvânio Santos do Nascimento, morador de São Luiz do Quitunde, em nome de todos os apoiadores da parte norte do estado.
João Felipe no momento em que subia no palco, e depois, ao meu lado
João ficou à beira do palco, no comício feito na cidade, me chamando insistentemente. Ele pediu para subir no palco; eu atendi ao pedido, e ele permaneceu ao meu lado até o fim. Antes de ir embora, ainda pude conversar por alguns minutos com Silvânio, que falou de sua família e declarou seu voto com felicidade. Ainda recebi um beijo de João Felipe quando o carro estava saindo.

 


Assim como essa demonstração de carinho, pude conversar com moradores de Matriz de Camaragibe e Porto Calvo, em comícios feitos nos municípios, todos lotados, apesar de uma chuva fina que caiu em quase todas as ocasiões. Muito obrigado ao povo, lideranças, empresários, profissionais liberais, vereadores e prefeitos que me ajudaram a realizar a campanha em cada uma das cidades da Região Norte. Agradeço também aos deputados Marquinhos Madeira e Flávia Cavalcante pelo apoio e compromisso. 




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Maragogi e ao Roteiro do Charme

Outra região que se destacou na campanha foi o Litoral Norte. De praias belíssimas e culinária agradável, os municípios de Maragogi e do chamado roteiro do charme, Porto de Pedras, Japaratinga, São Miguel dos Milagres e Passo de Camaragibe, foram palco, mais de uma vez, de carreatas e comícios que puderam nos aproximar mais com a população. E o que se ouviu, em todas as cidades, através de um número grande de pessoas, foram reclamações da falta de estrutura para que os seus moradores pudessem desenvolver o que eles têm de melhor para oferecer: o turismo, principalmente o ecológico.

Pudemos, de fato, ver com nossos próprios olhos. Faltam estradas em boas condições, mão de obra capacitada, rede de atendimento bancário amplo, policiamento numeroso, posto de informações turísticas, rede de transporte de qualidade e infraestrutura turística privada, como bares, restaurantes, supermercados, lojas de roupas, livrarias.


É preciso instalar escolas profissionalizantes voltadas para o turismo, das que aliam o curso técnico ao ensino médio, e criar cursos de ensino superior relacionados à área, para estabelecer um centro de formação de profissionais de larga escala voltado à região norte de Alagoas.


Não foi raro ouvir de donos de pousadas e comerciantes a lembrança da necessidade de pagamento de segurança particular para escoltar carros com turistas que chegavam ao aeroporto de Maceió, ano passado, porque a polícia não dispunha de viaturas e homens suficientes para o trabalho. Muitos visitantes transferiram seu local de chegada para o aeroporto de Recife, para percorrer o trajeto contrário.


E foram essas pessoas, que pretendem e querem a geração de riqueza local, para a população do Litoral Norte, que me receberam com muito entusiasmo. Na campanha pude contar com a região em todas as camadas da sociedade: de empresários a pescadores, de comerciantes a artesãs. Muito obrigado a todos pela dedicação e pelo voto consciente. Espero que seja dado o devido valor, de forma séria e competente, à potencialidade desse paraíso a dois passos de todos os alagoanos.

 Amanhã continuo a falar da região norte, desta vez sobre os municípios não litorâneos, que também contribuem de forma substancial para o desenvolvimento dessa parte de Alagoas.





Obrigado, Viçosa


Quando passei por Viçosa, o comício me impressionou muito. Não só ele, é verdade; a carreata também foi acompanhada por um número enorme de pessoas. Porém, foi a praça lotada do Centro do município que me fez lembrar um tempo não muito distante, quando a democracia retornava ao solo brasileiro e milhares compareciam nos comícios de políticos de esquerda, muitos retornando do exílio, como o Miguel Arraes (Arrasta aí – quem não se lembra dessa frase que seria hoje encarada como uma jogada de marketing brilhante?) em Pernambuco.

Depois as bandas começaram a tomar o lugar dos grandes discursos, e as multidões continuaram. Com a proibição do famoso showmício, o interesse por ouvir o que os
candidatos têm a dizer vem retornando, e essa eleição mostrou que essa mudança está sendo rápida, talvez fruto, também, desse fortalecimento do conceito de nação, do Estado brasileiro, por que passa durante o governo Lula. Pois Viçosa foi o exemplo vivo da mobilização popular.

Foi ainda mais gratificante ouvir desse povo o retorno: declarações de voto, elogios sobre o discurso e mensagens de otimismo. Relatos como o de Quitéria Oliveira, estudante de Direito e moradora de Viçosa, que disse se uma tradição em sua família votar em mim, e lembrar minha história de luta contra a ditadura, são o combustível de uma boa campanha eleitoral.
Então agradeço a toda Viçosa, e em especial ao ex-prefeito Peri Brandão, de quem tive a oportunidade de receber o apoio. Meus sinceros agradecimento a essa figura da política alagoana, que mostrou sua popularidade na cidade e seu compromisso com Viçosa, ao se juntar a nós no palanque.







Quitéria, estudante de Direito

Peri Brandão, ex-prefeito de Viçosa

Apesar da tragédia, Rio Largo mostra sua força

Esse município, vizinho da capital alagoana, Maceió, teve parte de seu perímetro urbano arrasado pela força do rio, que arrastou consigo casas, pontes, árvores e animais, e mais tudo o quanto visse pela frente. Mesmo diante da tristeza da tragédia e do desafio da recuperação, Rio Largo não se abateu, e foi à luta também nessas eleições. Testemunhei a população bastante engajada na disputa política, presente em grande número em todas as atividades que me levaram até a cidade.
 
Foi palco, também, de um congresso da Assembleia de Deus, um evento impressionante pelo número de pessoas, mais de 10 mil por dia, reunidas em um grande ginásio, e pela capacidade de diálogo e consciência democrática, que os fiéis e pastores demonstraram ao receber-me, um comunista, a despeito do preconceito – de ambas as partes – que já vigorou em épocas passadas. Tenho grande afeto e simpatia pelas pessoas que tornaram essa conversa, essa aproximação, realidade.

Portanto, obrigado duplamente, aos moradores de Rio Largo e aos seguidores da Assembleia de Deus. Não poderia, no entanto, deixar de aproveitar o ensejo para fazer um apelo aos leitores: assim como Rio Largo, outros municípios sofrem até hoje com as enchentes. As doações ainda são bem-vindas, principalmente de alimentos e água. Procure os Bombeiros ou o Exército e se informe sobre as necessidades específicas de cada local.



 
 
 


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A França, o Brasil e a luta contra o neoliberalismo

Publico artigo escrito pela jornalista Sumaia Villela, a meu convite, cujo tema sugeri: as manifestações na França contra a reforma da Previdência. Confiram abaixo.

Fonte das imagens: e-l-i-s-e.blogspot.com (fotos de maio de 68) e G1



As milenares ruas de Paris testemunham, mais uma vez, uma convulsão política na França. Milhões de pessoas, a maioria trabalhadores, com forte adesão da juventude, tomam as ruas, viram carros, constroem barricadas, enfrentam a polícia. Palavras de ordem escritas em cartazes e em cada rosto da multidão avisam que não deixarão que a reforma da Previdência seja consumada. O número 60, desenhado nas bochechas da juventude francesa, resume um direito de que a população não pretende abrir mão: a aposentadoria aos sessenta anos.


Há 42 anos, as esquinas por onde já passou, também, a Revolução Francesa e a Comuna de Paris, eram pontos estratégicos na luta entre o povo e os policiais, entre o Governo e a vontade popular. Como agora, o país encarou uma greve geral que paralisou serviços básicos para o funcionamento da França. Hoje, mesmo após a aprovação da reforma pelo Senado, um quarto dos postos de combustíveis franceses permanece sem gasolina.

Creio que as duas grandes ondas manifestações são diferentes de vários pontos de vista, mas são semelhantes em dois aspectos importantes: são fruto da crise do sistema capitalista, que de tempos em tempos sofre um grande abalo, e têm grande participação da juventude, ao lado dos trabalhadores.

O que ocorre hoje na França é um exemplo da vitalidade da luta política social, viva e pulsante na história contemporânea, que o neoliberalismo propagou estar extinta. E merece uma observação mais atenta para o papel solidário das novas gerações na garantia dos direitos trabalhistas conquistados por seus pais e avós.

O povo não quer mais um sistema de governo que restrinja gastos públicos em áreas sociais. Não quer pagar a conta da crise provocada pelos especuladores financeiros, espremendo seus direitos e bolsos em favor do grande capital.

As centrais sindicais e diversas organizações populares também demonstram seu engajamento à frente das greves e manifestações, assim como a união dos trabalhadores com estudantes e intelectuais e outros segmentos amplos da sociedade francesa.

Na França, o aumento da idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos e 65 para 67 no caso da aposentadoria integral é considerado o início de um vilipêndio aos direitos conquistados com muita luta, como aqui já tivemos exemplos práticos dessa ameaça, por parte do tucanato e seus aliados.

O Brasil não precisou percorrer esse conturbado caminho porque, graças à política econômica e internacional adotada, não foi duramente atingido pela crise, a verdadeira razão do déficit público francês, através anarquia financeira e um governo subserviente ao capital especulativo. Agora, culpando a Previdência, Sarkozy aproveita para minar um direito conquistado em favor do aumento dos lucros dos empresários.

Essa dualidade de projetos, um que pretende utilizar recursos do Estado em favor dos grandes grupos econômicos, e outro em favor dos direitos e garantias fundamentais da população em geral, também está posta aqui. Indiretamente, o Brasil dança a mesma canção, com outro ritmo: as eleições. Aqui, vamos demonstrar que tipo de nação queremos através de um grande duelo, do voto, que escolherá entre uma política neoliberal ou progressista e social-desenvolvimentista, expressadas nas candidaturas de Serra e Dilma, respectivamente.