terça-feira, 12 de março de 2019

Pós-visão

Meu novo artigo, publicado também na Gazeta de Alagoas, Tribuna do Sertão e Tribuna do Agreste:


Com a hegemonia da globalização financeira, especialmente do capital especulativo, houve uma radical transformação não apenas da economia mundial, mas nas relações pertinentes à vida política, seja a nível regional ou internacional.

Porque o mando das finanças em escala global impôs aos povos novos paradigmas, quase sempre negativos, e uma realidade indubitavelmente trágica, implicando num declínio do progresso humano, na medida em que a acumulação capitalista rentista vem provocando óbvia queda do crescimento econômico mundial. Como se diz, quando há problemas, siga a pista do dinheiro.

Por exemplo, a projeção do crescimento da economia europeia para 2019 será, em média, de um por cento. Em média, porque há nações que vão ter índices negativos em seu PIB. Quando se comenta sobre as explosões sociais que ocorrem no velho continente, é impossível fazê-lo abdicando de uma análise dessa crise econômica generalizada.

Do ponto de vista político, a imposição dos ditames dos especuladores financeiros alteraram radicalmente a autonomia das lideranças regionais em quase todo o planeta submetendo-as às suas diretivas ou restringindo as suas capacidades de comando.

Os presidentes das nações, na maioria delas, possuem autonomias limitadas, são reféns de políticas econômicas internacionais, da vigilância da grande mídia global, hoje associada ao capital financeiro mundializado.

De tal forma que as principais diretrizes internacionais que devem ser obedecidas pelos Estados nacionais são exigências absolutamente favoráveis ao capital financeiro global, restando aos líderes regionais pequenas margens de manobras soberanas.

A capacidade de realização de um presidente de República, ou de outro cargo similar, é hoje muito menor que em décadas anteriores, especialmente se considerarmos o novo milênio.

A financeririzacão especulativa reina, quase absoluta, nas linhas políticas globais. Como disse o Historiador camaronês Achille Mbembe: o grande choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações, como tentam nos fazer crer, mas de um longo e mortal jogo entre a via democrática e o capitalismo financeiro.

Não é sem razão que hoje há em voga duas ideologias absolutamente antípodas que se digladiam em escala global: a Identitária, individualista autocentrada, excludente e narcisista, versus a conservadora, regressiva e intolerante com as minorias.

Atualmente não existe uma proposta ou uma visão de mundo por parte das principais forças políticas em ação. Trata-se de uma época da pós-visão, sem perspectivas de projetos no presente ou para o futuro.

De certa forma o nipo-americano Francis Fukuyama, profeta do Fim da História ao final do século XX, surgida com a debacle da URSS e a hegemonia unipolar dos Estados Unidos, foi precursor desse atual discurso niilista, sem rumos e sem luzes.

Mas assim como Fukuyama foi desautorizado pela História com o surgimento de uma nova era multipolar em turbulenta transição, com novos protagonistas globais em ascensão, também assistiremos à construção de novos cenários nessa queda de braço entre o governo das finanças globais e o governo das nações, o governo dos povos. Entre a democracia versus o obscurantismo e as trevas. Esse será o grande confronto do novo milênio.

sábado, 2 de março de 2019

Fanatismo

Meu novo artigo:


O Brasil continua a viver sob uma intensa Guerra Híbrida cujo objetivo tem sido a fragmentação do tecido que compõe a sociedade nacional e assim possibilitar aos grandes grupos de financistas internacionais, especialmente os especuladores rentistas, auferir lucros estratosféricos provenientes das riquezas nacionais.

A polarização política, extremamente carregada de simbologia ideológica, tem dado a tônica ao discurso da intolerância seja no mundo institucional ou entre grupos de ativistas nas redes sociais, de tal forma que tem sido impossível qualquer convivência e diálogo entre segmentos opostos.

Poucos percebem que, apesar de reais, existe uma extrema artificialidade, que nos tem sido imposta, os conflitos de ódios irracionais que pululam online sejam nos diversos aplicativos usados pelos indivíduos, ou através dos veículos da grande mídia hegemônica presentes na internet.

Qualquer diferença de opiniões tem sido a gota d’água para posturas irracionais, o termo é esse, que descambam para verdadeiros pugilatos verbais, ou até físicos. Esse fenômeno assumiu proporção cavalar a partir, mais ou menos, de 2013 e de lá para cá só tem aumentado.

É possível que setores das novas gerações, agora chamada de Geração Z, não tenham ideia ou memória de outras formas de convivência democrática entre opiniões distintas. E muitos outros se tinham alguma lembrança a perderam ou foram engolidos por essa onda de irracionalidade que se faz presente nos dias atuais.

Como também ressurge com vigor o tal do patrulhamento ideológico, peça vital na guerra híbrida atual, viral na grande mídia e nas redes sociais, que se desdobra em dois níveis: entre os dois polos visceralmente antagônicos e em meio aos próprios polos.

Provocando a falta de oxigênio que asfixia as ideias em geral, a pobreza de opiniões e de reflexão sobre os fenômenos, sejam eles sociológicos ou de qualquer outro tipo.

Como disse o escritor, Historiador, filólogo italiano Umberto Eco: as redes sociais deram voz à idiotia, e o pior é que ela lidera as linhas de pensamento e opiniões em voga.

Assim a incontestável revolução tecnológica digital dos dias atuais está promovendo, pelo menos até o momento, o empobrecimento das relações sociais, o apequenamento das discussões políticas, a incapacidade, por isso mesmo, da boa análise sobre os acontecimentos em curso.

Por exemplo, se você citar Gabriel Garcia Márquez ou Mário Vargas Llosa dois latino-americanos gigantes da literatura universal, prêmios Nobel de literatura, autores, dentre outros livros, de Cem anos de solidão e Conversa na Catedral, respectivamente, a tendência é que não se discuta o enorme valor literário de sua obras mas que você seja chamado de esquerdista ou conservador, dependendo do lado que seja atacado.

Na verdade esses tempos não deram voz apenas à idiotia a que se refere Umberto Eco, mas igualmente ao oportunista e ao burocrata.

Todos proliferam sempre onde haja a pobreza de espírito, enquadramento ideológico e rígido. Isso porque são espécies anaeróbicas, ou seja, não proliferam onde exista oxigênio, ar para respirar.

Enfim, é como já se disse: quem pensa unicamente por slogans, não pensa, reproduz o mesmo.

Quem cria poesia através de chavões ideológicos e palavras de ordem, não cria, os reproduz. O puro ativismo, sem a devida reflexão e o estudo crítico, é endogâmico. Todos são, paradoxalmente, conservadores. Não importa a linha política ou mesmo a ideologia que se professe.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Cidadãos nascem dos sentimentos

Meu novo artigo:


Retorno ao cientista político norte-americano Mark Lilla, porque existe na atualidade uma espécie de recorrência quase monocórdica no pensamento acadêmico conhecido.

De tal forma que parece existir uma aridez de criatividade, como se os fenômenos sociais estivessem definitivamente diagnosticados, cabendo simplesmente a sua aplicação ao mundo real sem mais questionamentos.

Mas o que assistimos é um exercício de imposições de linhas ideológicas hegemônicas, sustentadas através de interesses poderosos, cujo ápice são os grandes grupos financeiros, o capital rentista mundial e, óbvio, a grande mídia hegemônica associada.

Como um deserto de ideias inovadoras, uma aparente ausência de múltiplas análises críticas da realidade. Não que essas interpretações inexistam, mas porque são patrulhadas por essas correntes hegemônicas, sejam do politicamente correto ou pelos grupos da autodenominada “nova direita radical”.

Isso tem uma lógica, tendo em vista que esses atuais campos antagônicos, retroalimentam-se um do outro através da polarização. É uma época de muitas certezas inconsistentes, onde os “ideologismos” determinam a priori a explicação dos fenômenos em curso.

Assim, a realidade resta prisioneira de visões estratificadas, causando tempestades de sentimentos irracionais e ódios difusos com, no mínimo, duas consequências: não se consegue compreender as sociedades de maneira racional e muito menos é possível, nessas circunstâncias, superar o clima de intolerância furibunda que reina geral, inclusive no Brasil.

Mas a verdade é que para além dessa pretensa unanimidade de “certezas ideológicas” há muita gente trabalhando, produzindo ótimos estudos e opiniões nas áreas econômica, política, geopolítica, nas ciências sociais etc., que não se encaixam no figurino da grande mídia ou desses grupos.

É o caso do brasileiro Oliver Stuenkel que escreveu, inclusive, O mundo pós-ocidental - potências emergentes e a Nova Ordem Global, de Christian Edward Lynch, cientista político, também brasileiro, que publicou, entre vários, o ensaio Saquaremas e Luzias, de Camille Paglia, ítalo-americana acadêmica, estudiosa da questão feminina, do escritor, empresário André Araújo, do próprio norte-americano Mark Lilla. E muitos, muitos outros.

São estudiosos contemporâneos que vão na contramão daquilo que é imposto como explicações inquestionáveis dos fatos, promovendo, em geral, ativismos ideológicos delirantes em vários quadrantes.

Por isso é que Mark Lilla diz em O progressista de ontem e o do amanhã, que existe à direita uma ideologia que questiona a existência de um bem comum, nega nossa obrigação de apoiar concidadãos, mediante ação governamental.

E à esquerda uma ideologia institucionalizada em áreas acadêmicas, que tem uma obsessão com vínculos individuais e grupais, aplaude o eu autocentrado e vê com suspeita qualquer invocação de um nós democrático e universal.

Acompanhamos um pugilato entre antípodas viscerais, que fratura o espírito de pertencimento comum de um povo, como o nosso.

O Brasil precisa construir alternativas e confluências - não de unanimidades porque toda unanimidade é burra - mas de um amplo, largo pacto que auxilie a sociedade na busca dos seus rumos estratégicos e mais elevados.

Quanto aos indivíduos, é vital compreender que ninguém nasce cidadão. Eles são produzidos, e às vezes as circunstâncias Históricas cuidam disso. A cidadania é resultado de sentimentos que se desenvolvem. Sentimentos não podem ser ensinados, eles necessitam ser evocados.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Areia movediça

Meu novo artigo:


Existem coisas que estão determinando os rumos no mundo: os grandes financistas, os megaespeculadores rentistas, as disputas econômicas internacionais por espaços de produtos no mercado, e a nova correlação de forças na geopolítica global.

É jogo duro onde as verdadeiras intenções vão sendo embutidas em invólucros sofisticados, prontos para a venda aos consumidores “privilegiados” nas sociedades de cada País.

Falo “privilegiados” porque a maioria das pessoas no planeta não possui poder de compra desses excedentes oferecidos na competição que estamos vivenciando, mal tem como adquirir os gêneros de primeira necessidade para a sobrevivência.

Os financistas, os megaespeculadores rentistas, como George Soros, estão acumulando fortunas estratosféricas, enquanto a economia das nações cresce a níveis ridículos ou negativos.

Essa é uma das causas das grandes crises sociais em um mundo repleto de convulsões cujas origens aparentemente são distintas. Mas só nas aparências. A sabedoria popular tem suas razões: em casa que falta pão todos brigam e ninguém tem razão.

Raras vezes na História contemporânea as nações tiveram crescimento tão pífio, as mais sortudas, porque a maioria vive estado de calamidade crônica.

As vagas de refugiados rumo à Europa, aos Estados Unidos, agora na América do Sul, têm duas causas: as guerras, travadas por recursos naturais ou motivações geopolíticas, e a fome literal, catastrófica como a epidemia da peste na Idade Média.

Cabe à grande mídia usar os recursos do diversionismo sobre as razões do fenômeno, que se alastra como um rastilho de pólvora, pondo em seu lugar agendas socialmente fragmentárias, jogando parcelas da população umas contra as outras, tais como nas Políticas Identitárias, no falso ambientalismo, omite as reais origens de milhões de refugiados, os motivos das guerras etc.

Essa mídia, associada às finanças globais, e as que sustentam as estratégias das grandes potências, são máquinas formidáveis de desinformação da opinião pública.

Como na Venezuela. Interesses econômicos, geopolíticos, administração interna, resultaram num quadro explosivo em uma região até então sob razoável controle de conflitos globais, cuja liderança natural e mediadora é a do Brasil.

A errática condução econômica, hoje sob a batuta de Maduro, as fabulosas reservas de petróleo, os interesses geopolíticos dos EUA, da Rússia e comerciais da China, atraíram a crise global para a América do Sul e às fronteiras do Brasil.

O governo Bolsonaro atua com a linha, ultrapassada, da época da Guerra Fria. O mundo e o jogo atual são outros. O Brasil não pode abrir mão do seu protagonismo diplomático Histórico. Ou o País reorienta a sua estratégia diplomática ou vamos pagar alto preço para sair dessa areia movediça.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Fique com os princípios

Meu novo artigo:


Ao se ler o livro O progressista de ontem e o do amanhã, do cientista político Mark Lilla, tem-se a certeza que os seus argumentos e análises referem-se igualmente ao recente processo eleitoral realizado no Brasil, quase que literalmente.

De tal forma que por aqui também parece existir a polarização entre os Partidos Democrata e o Republicano dos Estados Unidos, especialmente o confronto das políticas Identitárias fomentadas desde os anos 80, hoje sob a hegemonia do clã dos Clintons, apoiada pelas estratégias dos grandes especuladores financeiros do tipo George Soros e outros, versus uma outra casta de financistas aliada ao presidente Trump.

Os Democratas norte-americanos, afirma Mark Lilla, teriam abandonado as grandes linhas de administração e políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade, que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças cometidas às chamadas minorias.

Espertamente Donald Trump tirou proveito da crise estrutural, da desindustrialização que vive os EUA e pôs a culpa nos Democratas, sob a orientação do estrategista e marqueteiro Steve Bannon. O mesmo que atuou nas eleições no Brasil.

As políticas Identitárias atuais dos Democratas e o discurso demagógico, chauvinista da ala de extrema direita Republicana de Donald Trump representam um dos tempos mais medíocres da História dos Estados Unidos.

De tal forma é a influência dessas duas correntes em disputa nos EUA, aqui no Brasil, que jornalistas, analistas afirmam que os blogs, portais, a grande mídia e o mundo da política nativa encontram-se cada vez mais alinhados e semelhantes à linha dos Democratas e Republicanos norte-americanos.

Exatamente nas coisas eivadas de uma carga ideologizada fora da realidade, que serve a interesses que promovem a desunião do povo brasileiro tais como uma antropologia binária, que não é a nossa formação Histórica policrômica, mestiça, a nossa visão de um Estado laico, a tradição do culto de sincretismos religiosos tradicionais celebrados em muitas manifestações populares como as afro-católicas, por exemplo.

O governo Bolsonaro possui claros sinais de uma política incongruente onde se misturam alguns interesses nacionais com um neoliberalismo extremado da Escola de Chicago que já não é praticado nem nos EUA, onde se pauta a independência do Banco Central, mas não o dos EUA, eufemismo para doação do nosso BC às finanças globais, uma reforma da Previdência Social que privilegia o sistema financeiro, penaliza a classe média e os pobres, privatização desbragada de empresas estatais estratégicas etc. etc.

A sua política externa é uma cópia, com tintas de religiosidade puritana, da visão supremacista do governo Trump.

Pior, desvia-se da tradição multilateralista do Itamaraty na mediação diplomática, dos nossos objetivos nacionais, abrindo mão da liderança regional hemisférica, cujas consequências têm sido a crescente presença geomilitar da Rússia, a comercial da China, na região perigosamente conflituosa como a Venezuela. Resultado do vácuo que vai sendo deixado pela nossa ausência de uma diplomacia estratégica eficiente, mediadora e propositiva.

Essas potências estão jogando o jogo delas, o Brasil é que está abrindo mão do seu papel Histórico.

Já setores de “esquerda” insistem no discurso Identitário, que a levou a uma derrota eleitoral “acachapante” e plebiscitária, cuja matriz é patrocinada por megaespeculadores como George Soros e ONGs que atuam no mundo visando desestabilizar, fraturar os povos.

É surreal a existência de 800 mil ONGs atuando alegremente no País, muitas delas contrárias à nossa soberania, desenvolvimento econômico, associadas a Países que sabotam o nosso protagonismo internacional.

Assim, diante desse caldo tóxico de ódios, intolerâncias mil, “guerras ideológicas”, da pós-verdade onde o que menos vale é a análise concreta da realidade concreta, a racionalidade, é aconselhável ficar com os princípios indeclináveis em defesa da nação, do espírito progressista, das liberdades democráticas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Conceitos na pós-verdade

Meu novo artigo:


Estamos vivendo uma época plena do fenômeno da pós-verdade, que não se iniciou ontem, já faz um certo tempo. Daí que assistimos correntes de opiniões lastreadas nessa construção nefasta em todos os sentidos.

Porque nele o que importa não é a veracidade sobre a realidade propriamente dita, mas a versão que se faz dela, daquilo que interessa acreditar, do que é útil a essa ou àquela linha de pensamento, ou de um determinado grupo político.

É uma ilusão achar que a pós-verdade se restringe ao pensamento, às ideias, ela age em todos os sentidos, e é possível afirmar que através dela pode se ganhar ou perder o poder político, portanto, interage com os interesses econômicos e os fatores sociais.

Existem várias correntes de opinião pública conduzidas por “ideologias” formuladas em meio a fantasias teóricas e políticas, que não se sustentam na análise concreta da realidade concreta. É como se fosse uma nova forma de teologia.

Porém, a teologia não pretende abarcar o ramo do concreto, mas da subjetividade relativa “à infinitude do ser”, mesmo que ela recorra aos fatos Históricos e alguns ramos da ciência.

Já a pós-verdade intervém de maneira direta no mundo concreto e material da política, nas relações de produção, nos conflitos sociais. Por isso, o que importa é “a minha verdade”, conforme os “meus interesses ou do meu grupo”.

Dessa maneira a pós-verdade tem algo de um messianismo pagão, que pode resvalar facilmente ao campo do fanatismo e, em consequência, à aversão agressiva contra todos os que não se enquadrem nos critérios da sua interpretação da realidade, com o prejuízo da comprovação do experimento científico dos fatos em discussão.

Constituem-se assim, em muitos casos, uma legião de ativistas embalados por uma paixão e um conjunto de ideias e éticas, mas sempre decepcionado com o mundo ou o seu País, já que elas não são realizáveis ou compatíveis com os dados da vida concreta.

A pós-verdade é, dessa maneira, a desrealização quanto ao mundo, e de um ativismo individual e coletivo, paradoxalmente, cheio de energia combativa e ao mesmo tempo depressivo, o que conduz quase sempre a um processo de vitimização do grupo de ativistas em relação ao conjunto da sociedade.

Não se pode afirmar, é certo, que as consequências da pós-verdade não sejam democráticas, porque elas atingem hoje tantos setores à direita quanto à esquerda que, quase sempre, buscam polarizar a sociedade, provocando muitas vezes enormes malefícios a essa última.

Nesse sentido, a pós-verdade traz um grande prejuízo à lucidez individual e coletiva, pode acarretar, dependendo da situação e do contexto, um perigo à construção elevada dos valores nacionais, democráticos, à convivência social. O Brasil, encontra-se contaminado por formas de delírio cuja origem vem desse fenômeno nocivo, a pós-verdade.